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Uma reflexão a partir do Domingo e da Liturgia Católica

por Zulmiro Sarmento, em 25.08.14

1. Nos últimos tempos, há um nome que infunde medo. Ébola é nome de vírus, é nome de ameaça. Os dados mais recentes indicam que, pelo menos, 2240 pessoas estão infectadas e 1229 pessoas já morreram.

Contudo, não é apenas este vírus que nos intimida. O Ébola afecta muitas pessoas. Mas há outros vírus que envenenam a convivência entre as pessoas. Tudo somado, a nossa vida está sempre em risco e a nossa convivência parece estar continuamente em causa.

Pensemos no vírus do pensamento único e da opinião dominante. Quase ninguém pesquisa, poucos questionam e praticamente todos repetem. De alguns vírus ainda nos apercebemos. Do vírus do pensamento único e da opinião dominante nem damos conta. Parece que nos anestesia, parece que nos traz conformados.

 

2. O que toda a gente diz continua a ser repetido como se de uma verdade se tratasse. O pensamento único é um pensamento preguiçoso e a opinião dominante é pouco diligente. Não se vai à raiz nem se investigam os métodos. Tudo se reproduz em cascata mesmo que se agrida a dignidade e se magoe a pessoa.

Acresce que a intriga não está longe deste ambiente: toda a gente gosta de saber o que toda a gente diz. E se a intriga não está longe, a difamação ou a calúnia costumam também andar por perto. Só a justiça parece ausente. Não falta, com efeito, quem fale mal de quem faz bem e quem fale bem de quem faz mal.

 

3. Ninguém está a salvo de uma insinuação, de uma calúnia. O senso comum, às vezes, aparenta funcionar como que por inércia, por inconfessáveis mecanismos de empatia e rejeição. A uns tudo é permitido, a outros nada parece ser tolerado.

No tribunal da opinião pública, uns são idolatrados e outros imolados. Uns são idolatrados mesmo que acumulem culpas. E outros são imolados, ainda que carreguem virtudes.

 

4. Eis o que, no fundo, acontece a todos ou a quase todos. E eis o que também aconteceu a Jesus. Até Ele, que era a verdade (cf. Jo 14, 6), foi alvejado pela mentira. Até Ele, que passou a vida a fazer o bem (cf. Act 10, 38), foi assediado pelo mal e perseguido pela maldade.

Nem Ele escapou à intriga, à difamação e à calúnia. De facto, não faltou sequer quem Lhe chamasse «impostor» (cf. Mt 27, 63) e quem dissesse que estava possuído pelo «príncipe dos demónios» (cf. Mt 12, 25).

 

5. Como verificámos neste pedaço do Evangelho, o que se dizia sobre Jesus não correspondia ao que Jesus efectivamente era. Jesus sonda os Seus discípulos precisamente acerca do que sobre Ele se dizia. Tantas seriam certamente as perguntas sobre Jesus; tantas deveriam ser as respostas sobre Jesus.

As perguntas indiciam uma vontade de procura e as respostas apontam possíveis vias de encontro. Mas à legítima curiosidade da pergunta parece suceder uma repetida insatisfação nas respostas. Era como se a resposta terminasse não com um ponto final, mas com um novo ponto de interrogação.

A sondagem de Jesus não era para que eles O clarificassem, mas para que Ele os esclarecesse. Jesus pretendia que, mais tarde, os Seus discípulos anunciassem a verdade sobre Ele e não vagas impressões acerca d’Ele.

 

6. Já no tempo de Jesus, a maioria não estava na verdade e a verdade não estava com a maioria. A opinião maioritária achava que Jesus era mais um profeta. Para uns seria João Baptista, para outros Elias, para outros Jeremias ou algum dos profetas (cf Mt 16, 14).

No entanto, não basta saber o que os outros dizem. É preciso testemunhar o que nós mesmos acreditamos. É então que Pedro avança: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo»(Mt 16, 16). Só que, como ressalva Jesus, o que sai da boca de Pedro não vem de Pedro. Pedro ainda não estava em condições de saber tudo sobre Jesus. Pedro foi, por isso, o eco da voz, o eco humano da divina voz.

 

7. Não há felicidade maior: «És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim Meu Pai que está nos Céus»(Mt 16, 17).

Só Deus sabe quem é Jesus: «Ninguém conhece o Filho senão o Pai»(Mt 11, 27). E, já agora, só Jesus sabe quem é Deus: «Ninguém conhece o Pai senão o Filho»(Mt 11, 27). Deus inspira em Pedro o conhecimento sobre Jesus.

Só na luz de Deus conhecemos quem é Jesus. E só na luz de Deus encontramos a luz (cf. Sal 35, 10) para saber quem é Pedro. Jesus apresenta Pedro como pedra e apresenta-Se a Si mesmo como aPedra que sustenta Pedro.

 

8. Note-se que, no Antigo Testamento, «rocha», «rochedo» ou «pedra firme» fazem parte de uma terminologia usada, por 33 vezes, para falar de Deus e da solidez do Seu amor. O Salmo 18 (v. 3) exclama que «o Senhor é a minha Rocha e a minha fortaleza». No Novo Testamento, só Jesus e Pedro é que recebem o qualificativo de «pedra». Todavia, Pedro recebe-o não por causa de si — até porque ele é muito vacilante — mas por causa de Jesus.

Sem Jesus, Pedro é uma pedra pouco útil e pode ser até uma pedra perigosa. Sem Jesus, Pedro é uma pedra de tropeço, uma pedra de atropelo. Sem Jesus, Pedro é uma pedra que não serve para construir. Só na pedra que é Jesus é que Pedro é uma pedra forte, uma pedra que fortalece.

Sem Jesus, Pedro não vale nada. Tem de ser Jesus a segurá-lo quando ele começa a afundar-se após duvidar (cf Mt 14, 31). E tem de ser Jesus a reabilitá-lo depois de ele O ter negado (cf. Lc 22, 62). Ao negar Jesus, Pedro nega-se a si mesmo como discípulo de Jesus.

 

9. A importância de Pedro vem de Jesus. A nossa ligação a Pedro é, afinal, uma ligação a Jesus presente em Pedro. Pedro é de Jesus, tal como toda a Igreja é de Jesus. Daí o possessivo «Minha Igreja»(Mt 16, 18), que poderia ser precedido ou sucedido pelo possessivo «Meu Pedro».

Pedro só está seguro na Pedra que é Jesus. Aliás, o próprio Pedro o reconhece, quando diz que Jesus é a «pedra rejeitada pelos construtores» e que, não obstante, se tornou «pedra angular»(Act 4, 11).

Como assinala D. António Couto, «quem constrói a Igreja é Jesus». Ele é a Pedra que dá segurança à construção. «Cefas» também significa rochedo, mas rochedo esburacado. Só Jesus é rocha firme para toda a Igreja e, portanto, também para Pedro.

 

11. Deste modo, até o inseguro Pedro se torna referência segura para chegar a Cristo. É Cristo que dá segurança a Pedro. É Cristo que nos dá segurança em Pedro. Pedro é o primeiro depois do último. Pedro é testemunha do definitivo de Deus no mundo. A missão de Pedro é acolher e conduzir os que querem entrar na construção do Reino de Deus. Sim, Pedro é o primeiro, o primeiro servidor. Ele não é imitador de César, o imperador, mas seguidor de Jesus, o servo.

Ao longo dos tempos, Pedro já teve muitos nomes. Já teve o nome de João e de Paulo, de João Paulo e de Bento. Hoje tem o nome de Francisco. A missão de Pedro é a mesma: a missão das chaves, das «chaves do Reino dos Céus»(Mt 16, 19).

Ter as chaves é ter um saber e exercer um poder. Trata-se de saber qual o sentido de um texto e de poder abrir a porta de uma casa. Neste caso, trata-se sobretudo de um serviço: «Tudo o que ligares na terra ficará ligado nos Céus, tudo o que desligares na terra ficará desligado nos Céus»(Mt 16, 19).

Estamos, acima de tudo, perante o serviço do perdão. Cristo entrega a Pedro e, como se vê em Mt 18, 18, a toda a comunidade com Pedro a responsabilidade de perdoar. É uma responsabilidade que requer fidelidade. Chebna não foi fiel e Deus afastou-o, confiando a Eliacim a chave da Casa de David (cf. Is 22, 19-20).

 

12. Não só naquele tempo, mas também no nosso tempo, a pedra e as chaves continuam a ser instrumentos necessários. Não só naquele tempo, mas também no nosso tempo, há construções que são pouco sólidas. Não só naquele tempo, mas também no nosso tempo, há portas que continuam fechadas. Precisamos de pedras sólidas e necessitamos de chaves eficientes. Cristo é a pedra que torna seguro o que está vacilante e a chave que abre o que está fechado. N’Ele, tudo está firme. Com Ele tudo se abre.

 

13. O cristão, para ser fiel, tem de ser «cristodependente». Só Cristo nos atrai a «riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus», de que nos fala S. Paulo (cf. Rom 11, 33). Só Cristo é vacina contra os vírus dos equívocos trazidos por julgamentos apressados e condenações infundadas.

Cristo é pedra segura, é pedra que nos segura. Mesmo que vacilemos, Ele não nos deixará cair. E se chegarmos a cair, Ele ajudar-nos-á a levantar. As Suas mãos são a nossa salvação!

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publicado às 11:46



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