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Uma excelente oportunidade para o Papa Francisco e para a Igreja

por Zulmiro Sarmento, em 29.01.15

 

Ana Vicente*

Quantas vezes a Igreja, na sua história, se viu obrigada a rever posições e a pedir desculpas pelos seus pecados?

Lemos com alegria que o Papa Francisco, mais uma vez, foi a uma zona do mundo que, em boa hora, está a deixar de ser uma franja para passar a ocupar o lugar que lhe é devido. Aí constatou a gritante situação de pobreza de milhões de pessoas – sobretudo das mulheres. A forma obsoleta e iníqua com que nos organizamos a nível internacional em termos económicos e políticos, tantas vezes sublinhada pelo próprio Francisco – metade da riqueza mundial nas mãos de 1% da população!

Francisco sabe, porque já demonstrou, que é uma pessoa intelectualmente honesta, uma qualidade demasiadamente rara nas elites religiosas, que está mais que analisado, estudado e avaliado que a maioria dos pobres tem cara de mulher e que essa pobreza ocorre maioritariamente entre as mulheres não por mero acaso. Estão excluídas do poder, e o que é mais grave, também do poder religioso, pois este deveria ser o primeiro a dar o exemplo de justiça e igualdade, tão ansiado pelo divino. São objecto de discriminação no acesso à saúde, à educação, à formação, aos direitos humanos, em suma. São as principais vítimas de violência sexual, de violência psicológica, de violência bruta, como aliás é reconhecido na exortação papal A Alegria do Evangelho: “Duplamente pobres são as mulheres que padecem situações de exclusão, maus-tratos e violência, porque frequentemente têm menores possibilidades de defender os seus direitos.” (para 212). O PÚBLICO de 19 de Janeiro fala das Filipinas como uma ilha de catolicismo no continente asiático; descreve como o povo clamou contra a corrupção e contra a injustiça – que os assola há décadas. Mas será adequado referir as Filipinas como um país católico? Tendo em conta que  está organizado de uma forma profundamente não-cristã, tudo ao arrepio da mensagem evangélica?

Perante os catastróficos cenários filipinos com que se confrontou e que aliás referiu por diversas vezes, tenhamos esperança que o Papa Francisco tenha o bom senso e a coragem de rever a muito infeliz e, aos olhos de muitas teólogas e teólogos, frágil, porque muito mal fundamentada, encíclica de 1968, subscrita por  Paulo VI, Humanae Vitae. Aí se faz uma distinção entre métodos contraceptivos "naturais" e outros "artificiais", impondo o uso dos "naturais". É sabido que uma forte maioria do grupo de trabalho nomeado primeiro pelo Papa João XXIII e depois alargado por Paulo VI, concluiu que todos os métodos ‘iludem a natureza’, incluindo os chamados naturais – porque estes usam o estratagema de identificar os tempos inférteis da mulher para só nesses períodos poder haver relações sexuais; e o sensus fidelium rejeitou de tal modo as prescrições da encíclica que hoje em dia, no mundo ocidental, cerca de 95% dos católicos praticantes consideram-nas inaceitáveis e ignoram-nas, usando qualquer método em boa consciência, porque entenderam que o que de facto importa é ser responsável na parentalidade, quer da parte materna quer paterna. São seguidos nessa opinião pela grande maioria do clero, das religiosas e até de muito episcopado que, repetidamente, tem solicitado ao Vaticano a revisão desta encíclica, que tanto tem minado a autoridade eclesiástica. É mais do que sabido que apenas alguns membros de organizações ultratradicionalistas seguem estas orientações. Estão no direito de o fazer – não estão no direito de as impor aos outros.


Mas essa não aceitação dos princípios da encíclica já não ocorre nos países em desenvolvimento, onde o clero ainda detém alguma autoridade sobre as consciências (de que as Filipinas são um exemplo muito claro) e é por isso que temos de continuar a preocupar-nos com os imensos danos que este pensamento obscurantista, temente do prazer da sexualidade, criada por Deus, tem tido na saúde das mulheres e, consequentemente, das crianças e na família em geral.

Aliás as Filipinas podem ser consideradas um caso de estudo – pois a maior parte das autoridades eclesiásticas que o Papa teve agora que encarar (e até criticar nalguns aspectos), tem tido um papel muito negativo na busca de um desenvolvimento sustentável para toda a população. Justamente no campo do planeamento familiar o poder da Igreja masculina e autoritária impediu que naquele país, durante décadas, o Estado proporcionasse cuidados de saúde reprodutivos às mulheres e às famílias, contribuindo assim objectivamente para que milhares de crianças vivam na rua, sujeitas a serem prostituídas e traficadas, como evidenciaram as lágrimas de Glyzelle.

A poucos meses do Sínodo da Família, é tempo dos crentes encararem esta questão com seriedade, à luz do bom senso e dos Evangelhos – o próprio Papa no avião de regresso de Manila, apesar de ter reafirmado o seu apoio, em termos genéricos, à encíclica, afirmou que os cristãos não têm que "fazer crianças em série", nem se comportarem em termos reprodutivos "como os coelhos" e que a responsabilidade parental era um valor grande. Quantas vezes a Igreja, na sua história, se viu obrigada a rever posições e a pedir desculpas pelos seus pecados? Chegou agora o momento de o fazer com a contracepção, não lhe cabendo fazer doutrina sobre a matéria, que em nada consta nas propostas de Jesus.

* Membro do Movimento Internacional Nós Somos Igreja-Portugal

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publicado às 16:04


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