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SÓ O AMOR FAZ DE NÓS CRISTÃOS (Quinto Domingo da Páscoa)

por Zulmiro Sarmento, em 26.04.16
 

A. No centro de tudo está o amor

  1. Afinal, como é que mostramos que somos cristãos? Cristão vem de Cristo, cristão refere-se a Cristo. Somos cristãos quando procuramos seguir os ensinamentos de Cristo, quando procuramos viver a vida de Cristo. Quem mais sabe de Cristo não é, pois, quem mais fala de Cristo, mas quem mais se esforça por viver a vida de Cristo.

Cristo deixou-nos uma preciosa herança, cheia de preciosos ensinamentos. Creio que podemos resumir tudo em três mandamentos, aliás intimamente interligados: o mandamento missionário («ide por todo o mundo, pregai o Evangelho», Mc 16, 15), o mandamento da Eucaristia («fazei isto em memória de Mim», 1Cor 11, 24) e o mandamento do amor («amai-vos uns aos outros como Eu vos amei», Jo 15, 12). O amor é o corolário, a fonte e o centro. É o amor que faza missão. É o amor que faz a Eucaristia. Que é a missão senão um gesto — e uma interminável gesta — de amor? E que é a Eucaristia senão um permanente mistério de amor? De resto, a Eucaristia é o «mistério da fé» na exacta medida em que é um perfeito mistério de amor. É que, como bem notou Hans Urs von Balthasar, «só o amor é digno de fé». Só o amor que dá a vida é digno de fé na nossa vida.

 

  1. Por conseguinte, percebe-se que Deus seja mais acessível ao coração que ama do que à mente que (apenas) pensa. O amor é o que maior honra tributa a Deus, que é amor (cf. 1Jo 4, 8.16). O poder consegue muito, mas só o amor consegue tudo. Basta olhar para Deus. O Seu poder é uma emanação do Seu amor. Nem sempre o poder é amoroso. Mas o amor será sempre poderoso. Afinal e como reconhecia Paul Ricoeur, Deus é «Todo-Poderoso» porque é «Todo-Amoroso».

Daí que a Igreja, não sendo uma democracia, deva ser mais — e nunca menos — que uma democracia. O que nela há-de prevalecer não é a «craciofilia» (amor do poder), mas a «filocracia» (poder do amor). É por este poder, pelo poder do amor, que as pessoas notarão que seguimos Jesus. O amor do poder tem esganado a vida de muita gente. Só o poder do amor transformará a vida de toda a gente.

 

B. A verdadeira «regra de ouro»

 

3. Jesus apresenta-nos a verdadeira «regra de ouro» ao dizer: «É este o Meu mandamento: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei»(Jo 15, 12). Na verdade, a «regra de ouro» tem sido apontada, ao longo dos tempos, como a alavanca para a convivência humana. Ela costuma ser apresentada de uma forma minimal: «Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti». Há quem atribua esta máxima a Confúcio. O certo é que ela já aparece gravada no Antigo Testamento, mais concretamente, no Livro de Tobias: «Aquilo que não queres para ti, não o faças aos outros»(Tb 4, 15). A sabedoria islâmica parece mover-se no mesmo registo quando estipula: «Não ofendas e não serás ofendido».

O próprio Jesus, no Sermão da Montanha, retoma este preceito, dando-lhe uma formulação positiva: «Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-lho vós também»(Mt 7, 12). Ou seja, enquanto antes se ensina a não fazer o mal, agora Jesus vai mais longe: em vez da proibição de fazer o mal, Ele convida-nos a fazer o bem ao nosso semelhante. Mais tarde, dá um passo em frente e coloca a «regra de ouro» sob a égide do amor, como já o fizera o Livro do Levítico: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo»(Mt 22, 39; cf. Lev 19, 18).

 

  1. Em todos estes casos, salta à vista que o critério é a pessoa de cada um. Isto significa que aquilo que não queremos para nós não devemos querer para os outros. E, correspondentemente, o que queremos para nós, devemos querer para os outros. Como é natural, levanta-se o problema de saber se aquilo que eu quero vai ao encontro daquilo que os outros querem.

Genericamente, o princípio é positivo, mas na prática pode não ser capaz de evitar algumas colisões. O que eu desejo para mim pode não ser desejado pelos outros. Já agora, não será descabido ressalvar que limitar-se a fazer o que os outros pretendem também não será opção totalmente segura. É que aquilo que para os outros é bom pode entrar em choque com aquilo que a minha consciência me determina como bem.

 

C. O critério do amor é Jesus

 

5. Neste encontro com os Seus discípulos, Jesus toca o extremo da «regra de ouro». O importante, agora, já não é apenas não fazer o que os outros não querem nem tão-pouco fazer o que, segundo eu, os outros anseiam. O importante é fazer aos outros o que Jesus faz, o que Jesus lhes faz.

O critério é Jesus. A novidade do Seu mandamento, como percebeu Sto. Agostinho, está no facto de não propor um amor meramente humano, mas o Seu próprio amor. Aliás, Jesus também nos ama com o amor do Pai: «Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei»(Jo 15, 9). Permanecer no amor de Cristo é, portanto, permanecer no amor do Pai (cf. Jo 15, 9).

 

  1. Em que consiste este amor? Não se trata, como hoje se pensa, de um mero sentimento. Quando o amor se reduz ao sentimento, arrisca-se a fenecer e até a desaparecer. É que, como nós sabemos, os sentimentos alteram-se: vêm e vão, aparecem e desaparecem. Não é, pois, o amor que tem de seguir os sentimentos; os sentimentos é que têm de seguir o amor. E que é o amor, neste caso?

O amor não é o que eu sinto, é, antes de mais, o que eu recebo. Concretizando, o meu amor é o amor de Cristo em mim, é o amor de Cristo através de mim. Verdadeiramente, então, só teremos amor no amor de Cristo. Ora, o amor de Cristo — ou, melhor, o amor que é Cristo — não é amor de posse, é amor de dádiva. O amor de Cristo — o amor que é Cristo — é amor que só sabe dar; é amor que doa; é amor que se doa.

 

D. Tanto amor nos lábios, tão pouco amor na vida

 

7. Deste modo, não há limites para o amor. O maior amor é o amor que dá mais. O amor total é o amor que dá tudo. Foi assim que muitos, como Sto. Agostinho, perceberam que a medida do amor é o amor sem medida, é o amor desmedido. Jesus avisou: «Não há maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos»(Jo 15, 13).

E pelos inimigos não se deve dar a vida? A pergunta fará algum sentido já que o mesmo Jesus, no Sermão da Montanha, insistira no amor também pelos inimigos (cf. Mt 5, 44). Só que, ao dar a vida, todos passam a ser amigos. Não há servos nem inimigos. Para Jesus, todos são amigos. A Sua amizade é oferecida a todos. O que pode acontecer é que nem todos aceitem essa amizade. Afinal, já S. Francisco se lamentava, dizendo que «o Amor não é amado». Nem sempre o amor é amado. Mas, mesmo quando não é amado, o amor há-de ser continuamente oferecido.

 

  1. Nós somos amigos — e discípulos — de Jesus, fazendo o que Ele manda, isto é, amando os outros, procurando dar a vida pelos outros (cf. Jo 15, 14). Foi para isso que Ele nos escolheu (cf. Jo 15, 16). Pelo que só daremos fruto pelo amor (cf. Jo 15, 16). Daí que Jesus reforce o mandamento: «O que vos mando é que vos ameis uns aos outros»(Jo 15, 17).

É isso que importa, mas é isso que falta. É o amor que importa, mas é o amor que falta. Muito se fala de amor, mas há tanta falta de amor. Tanto amor nos lábios, tão pouco amor na vida. Até na Igreja, que é a «casa do amor», se nota, por vezes, falta de amor. Há falta de amor porque não bebemos na fonte de amor, que é Jesus Cristo.

 

E. Um pouco de amor nunca é pouco

 

9. Voltemo-nos, então, para Cristo. É pelo amor que mostramos que estamos com Ele e, por Ele, no Pai. Se nós somos imagem e semelhança de Deus (cf. Gén 1, 26) e se Deus é amor (cf. 1Jo 4, 8.16), então é pelo amor que demonstramos a nossa fidelidade a Deus.

João é muito claro: «Se Deus nos amou, também nós devemos amar-nos uns aos outros»(1Jo 4, 11). Só o amor atrai Deus, só o amor deixa ver Deus: «Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e em nós o Seu amor é perfeito»(1Jo 4, 12). Entre Deus e o amor existe uma identidade completa: «Deus é amor; quem permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele»(1Jo 4, 16).

 

  1. Não é a violência que nos aproxima de Deus. Agredir e matar em nome de Deus constituem o maior atentado contra Deus. Só o amor aproxima de Deus. Deus é amor e, por tal motivo, o amor é divino. É por isso que, na pauta para o juízo final, Jesus propõe, como critério supremo, não o amor da ciência, mas a ciência do amor (cf. Mt 25).

O Cristianismo é, geneticamente «a religião do amor». O amor está no código genético da Igreja. Os cristãos da primeira hora eram conhecidos pelo empenho que punham na vivência do «mandamento novo do amor». Que os cristãos desta nossa hora não esqueçam o mandamento que nunca deixa de ser novo. Anunciemos a todos o Deus do amor. E depositemos em cada pessoa um pouco do incomensurável amor de Deus. Um pouco de amor nunca é pouco. Um pouco de amor é sempre muito. Porque, em Deus, o amor é tudo, é para sempre!

Do blogue THEOSFERA

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