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OS FRACOS QUE CRISTO FORTALECE (Terceiro Domingo da Páscoa)

por Zulmiro Sarmento, em 11.04.16
 

A. A fraqueza forte não se deixa vencer pelaforça fraca

  1. Nem sempre a tranquilidade é um bom indicador. As nossas vidas demasiado tranquilas podem indicar que não estamos no caminho certo. Os cristãos da primeira hora eram incomodados porque incomodavam. O seu critério era claro: «Deve obedecer-se antes a Deus do que aos homens» (Act 5, 29).

Hoje em dia, parece que andamos longe desta bússola. E embora professemos o contrário, no fundo limitamo-nos a seguir os critérios humanos, os critérios das correntes dominantes entre os homens. Falta-nos esta ousadia dos começos. Falta-nos esta capacidade de risco. Falta-nos, enfim, esta disponibilidade para enfrentar os perigos. Faltar-nos-á fé?

 

  1. Nunca é demais, por isso, olhar para os começos. O Livro dos Actos dos Apóstolos é um precioso combustível para reabastecer a nossa fé, tantas vezes derreada e quase sempre vacilante. Os apóstolos nem perante a autoridade recuavam. E era a maior autoridade do judaísmo que repetia a proibição de «ensinar em nome de Jesus» (Act, 5, 28). Eles, no entanto, não recuaram e foram continuando a anunciar o que viram e ouviram (cf. Act 4, 20).

Donde lhes vinha toda esta força, toda esta determinação, quase a tocar a temeridade? Afinal, a natureza dos apóstolos não era muito diferente da nossa. Também eles eram frágeis, também eles eram fracos. Mas deixaram-se revestir pela força de Cristo. Foram fortalecidos por Cristo. A sua fraqueza foi fortalecida. E foi esta fraqueza forte que superou a força fraca de tantos oponentes.

 

B. É mais forte quem é açoitado do que quem açoita

 

3. Se repararmos bem, é mais forte quem sofre os açoites do que quem açoita. Os judeus mandaram açoitar os apóstolos (cf. Act 5, 40). E, pelo que podemos ver, os que açoitaram ficaram apreensivos, ao passo que os açoitados ficaram alegres. E porquê? Não por qualquer impulso masoquista, mas por um impulso de amor. De facto, os apóstolos, depois de açoitados, saíram cheios de alegria «porque tinham merecido ser ultrajados pelo nome de Jesus» (Act 5, 41).

Já dizia São João de Brito que, «quando a culpa é virtude, o padecer é glória». Mesmo que não seja a glória — muito menos a glória deste mundo — que se procure, sofrer por causa de Cristo não é motivo de tristeza, mas de alegria. Aliás, o próprio Cristo já tinha proclamado felizes os injuriados e perseguidos por causa do Seu nome (cf. Mt 5, 11). E acrescentou dizendo que, no momento dessas injúrias e perseguições, haveria alegria e não tristeza. Uma grande recompensa de Cristo espera os que se entregam por Cristo (cf. Mt 5, 12).

 

  1. É claro que o mundo não entende esta linguagem nem valoriza este comportamento. Daí que a cada um de nós se coloque uma opção. A quem queremos seguir, afinal? Queremos seguir Cristo que nos manda evangelizar o mundo? Ou preferimos seguir o mundo, abdicando de lhe levar Cristo?

Nunca esqueçamos que ser apóstolo é ser testemunha, é ser testemunha de Cristo, é ser testemunha dos factos de Cristo. Os primeiros apóstolos não hesitaram em apresentar-se como «testemunhas destes factos» (Act 5, 32), isto é, dos factos de Cristo: da Sua vida, da Sua morte e da Sua ressurreição.

 

C. Ser apóstolo é ser testemunha

 

5. Ser apóstolo é, essencialmente, ser testemunha. Evangelizar é, acima de tudo, dar testemunho. E o testemunho não se dá apenas, nem principalmente, com os lábios. O testemunho é englobante, envolve tudo: a palavra, as atitudes, a vida e a própria morte.

É por isso que, em grego, testemunha diz-se «martyr». Os mártires são aqueles que testemunham o Evangelho até ao fim, até à morte, até à última gota de sangue. Há uma passagem do Concílio Vaticano II pouco conhecida («Lumen Gentium», 8), mas que muito me tem feito pensar. Diz que Cristo salvou o mundo pela pobreza e pela perseguição. E acrescenta que é pela pobreza e perseguição que seguimos o Senhor. Já Santo Agostinho assinalava que caminhamos nesta vida entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus. A experiência diz que é nas perseguições do mundo que mais experimentamos as consolações de Deus.

 

  1. É por isso que o testemunho é a maior fonte de credibilidade para a Igreja. Estar disposto a dar a vida por alguém mostra o quão importante é esse alguém. Daí que Paulo VI alertasse que o mundo presta mais atenção às testemunhas do que aos mestres. Prestará atenção aos mestres na medida em que forem testemunhas.

Hoje, como sempre, precisamos de testemunhas, que, no fundo, são os maiores mestres. Enzo Bianchi assinalou que a humanidade precisa mais de testemunhos do que de depoimentos. O testemunho não corre só pelos lábios; escorre por toda a vida. O melhor depoimento não é o que se escreve em livro; é o que se inscreve na vida.

 

D. O Ressuscitado continua presente

 

7. É espantoso notar como, nos começos da Igreja, tudo estava centrado no «nome de Jesus». O Seu nome mudou tantas vidas porque o Seu nome é, Ele próprio, fonte de vida. Curiosamente, os comentadores costumam chamar aos capítulos 3, 4 e 5 dos Actos dos Apóstolos a «secção do nome», dado que eles se concentram no anúncio do nome de Jesus (cf. Act 3,6.16;4,7.10.12.30;5,28.41). O nome de Jesus é o próprio Jesus.

O resumo dos versículos 30, 31 e 32 contém os elementos fundamentais do anúncio e da pregação: morte na cruz, ressurreição, exaltação à direita de Deus, a Sua apresentação como salvador. Eis o que, também hoje, somos chamados a testemunhar: que Jesus morreu por nós e ressuscitou para nós. Esta tem de ser a prioridade. Este anúncio nunca está terminado e jamais pode ser dado por concluído.

 

  1. É por isso que Jesus, mesmo após a ressurreição, está sempre a enviar, está sempre a convidar a segui-Lo. Só seguindo a Cristo, mostraremos o nosso amor por Cristo. Pedro, que por três vezes negara Cristo, por três confessa o seu amor por Cristo. E por cada confissão de amor vem uma ordem: «Apascenta os Meus cordeiros» (Jo 21, 15.16.17). Era a missão confiada a Pedro. Era a maneira que Pedro tinha de seguir Jesus (cf. Jo 21, 19).

É interessante notar que a ressurreição não traduz uma ausência. Jesus ressuscitado continua presente na vida dos Seus discípulos. Vai ter com eles ao mar, à sua tarefa quotidiana. Jesus ressuscitado vem sempre ter connosco, vem sempre ao nosso encontro. E tudo se transfigura com a presença de Jesus.

 

E. É da Sua inspiração que vem toda a orientação

 

9. Sem Jesus, nada é fecundo; com Jesus, tudo é abundante. A pesca de noite simboliza o tempo da escuridão. Só Jesus é o dia, só Jesus é a luz para cada dia. Sem Jesus, a pesca é um fracasso. É a Sua presença que faz toda a diferença. Os discípulos eram profissionais da pesca. No entanto, naquela noite, «não apanharam nada» (Jo 21, 3). Foi a palavra de Jesus que alterou a situação. Eis o que Jesus disse naquela altura: «Lançai a rede» (Jo 21, 6). Eis o que Jesus está sempre a dizer: «Lançai a rede».

Lancemos, pois, todas as redes. São os braços de Jesus que movem os nossos braços. Com Jesus, a rede, antes vazia, enche-se. Esta rede é imagem da Igreja de Jesus. Sem Ele, a Igreja não funciona, só desfunciona. Os 153 grandes peixes (cf. Jo 21, 11) são figura de uma Igreja sobrelotada, em que todos têm lugar. A rede tem de ser lançada a todos. Nem todos virão na rede. Mas a todos deverá chegar esta rede.

 

  1. A imagem da pesca sinaliza a missão que Jesus confia aos discípulos (cf. Mc 1,17; Mt 4,19; Lc 5,10): libertar todos os homens que vivem mergulhados no mar do sofrimento e da escravidão. É Pedro que preside à missão. É ele que toma a iniciativa; os outros acompanham-no. Aqui faz-se referência ao lugar que Pedro ocupava na animação da Igreja primitiva.

Mas Pedro depende sempre de Jesus. Jesus entrega a pesca a Pedro e os discípulos. Mas a pesca só é abundante quando Pedro e os discípulos seguem as indicações de Jesus. Hoje em dia, Jesus quer agir através de nós. Mas nós temos de estar sempre unidos a Ele. Até porque sem Ele nada poderemos fazer (cf. Jo 15, 5). Sem a Sua inspiração, só haverá desorientação!

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