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O PRIMEIRO INSTANTE DE UMA PRESENÇA CONSTANTE (Solenidade da Imaculada Conceição)

por Zulmiro Sarmento, em 09.12.15
 

A. O presépio inicial

  1. Grande, belo e luminoso é este dia formoso. O Natal, festa de alegria, como que começa a despontar na festa deste dia. Afinal, não foi S. Francisco quem inventou o presépio. Antes do presépio de Francisco de Assis foi o seio de Maria que Deus quis. Maria foi o primeiro presépio, um presépio desenhado e construído por mão divina. Podemos dizer que Jesus começou a vir quando a Sua Mãe começou a surgir. A Sua concepção é o início da fase definitiva da nossa salvação. Foi do ventre da Mãe do saboroso amor que chegou até nós o Salvador.

Este é um verdadeiro dia da Mãe. É o dia em que a Mãe começou a existir. É o dia em que o céu se quis abrir e, para todos, sorrir. O primeiro suspiro de Maria acaba por ser o primeiro sopro de vida de Jesus. A Mãe também teve mãe, também teve pai. Mas Sta. Ana e S. Joaquim não imaginavam que aquele começo não mais teria fim. Este é, pois, o início antes do começo, o dia anterior ao dia primeiro. Este é o Natal que prepara o Natal. É o pré-Natal que nos vai conduzir até ao Natal.

 

  1. Qual Pai desvelado, Deus cuidou, desde sempre, da morada para o Seu Filho. Preparou-Lhe uma Mãe sem mancha, uma Mulher sem mácula. Desde a Sua concepção, Maria foi imaculada. A Imaculada Conceição é a primeira grande visitação de Deus à Mãe de Seu Filho. Foi o primeiro instante de uma presença constante.

É desde o início que Deus nos sustenta. Foi desde o início que Deus sustentou Maria com a Sua presença. Foi desde o início que Maria Se tornou a «cheia de graça»(Lc 1, 28) Desde sempre tatuada por Deus, Maria nunca conheceu o pecado original. A Igreja desde o princípio o reconheceu e, pela voz de Pio IX, o proclamou a 8 de Dezembro de 1854, na Bula «Ineffabilis Deus»: «A Bem-Aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de Sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus omnipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do género humano, foi preservada imune de toda a mancha do pecado original».

 

B. Uma festa universal, uma festa de Portugal

 

3. Por aqui se vê como Maria também precisou de ser redimida. Afinal, a Mãe também precisou do Filho, Maria também precisou de Jesus. Aliás, se assim se não fosse, ficaria em causa um dos pilares estruturantes da nossa fé: a universalidade da salvação. Se Maria não precisasse de ser salva, a salvação não seria plenamente universal pois haveria, pelo menos, uma criatura que a dispensava. Só que Maria também foi salva, Maria também foi redimida, mas por antecipação, por preservação. No Seu desígnio insondável, Deus preservou do pecado Aquela que haveria de gerar Aquele que nos iria libertar de todo o pecado.

E o certo é que esta verdade de fé tem sido acreditada desde os começos. Muitos escritores antigos defenderam a Imaculada Conceição da Virgem Maria, tanto no Oriente como no Ocidente. No século IV, Sto. Efrém sustentava que só Jesus e Maria estão limpos de todo o contágio do pecado. Daí que, já no século VIII, se celebrasse a festa litúrgica da Imaculada Conceição a 8 de Dezembro, ou seja, nove meses antes da festa de Sua natividade, comemorada a 8 de Setembro.

 

  1. Em Portugal, houve sempre uma entranhada devoção à Imaculada Conceição. Já por alturas da conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques, foi celebrado um pontifical de acção de graças, em honra da Imaculada Conceição. D. Nuno Álvares Pereira mandou construir a Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Vila Viçosa, encomendando, para o efeito, uma imagem em Inglaterra. Quando ingressou no Convento do Carmo como irmão leigo, quis usar apenas o nome de Frei Nuno de Santa Maria.

Nas cortes de 1646, o rei D. João IV declarou, sob juramento, Nossa Senhora da Conceição Padroeira de Portugal. Este mesmo rei, em 1648, mandou cunhar moedas de ouro e de prata chamadas «Conceição». Em 1654, o referido monarca enviou a todas as câmaras municipais cópia da inscrição comemorativa do juramento solene feito em 1646 para que fosse mais notória a obrigação de defender «que a Virgem Senhora Nossa foi concebida sem pecado original».Também em 1654, o reitor e os professores da Universidade de Coimbra determinaram que a fórmula do juramento de todos os futuros graduados começasse pelo compromisso de «defender sempre e em toda a parte que a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, foi concebida sem a mancha do pecado original». E até 1910 o cumprimento de tal juramento era condição para se obter qualquer grau universitário.

 

C. O Filho que Maria nos deu pela fé O concebeu

 

5. É com pesar que noto que a memória começa a ser difusa acerca de toda uma história que é também tão lusa. De facto, Maria, sendo genuinamente universal, é muito nossa, é muito de Portugal. Se os nossos antepassados aprenderam cedo a venerá-La, iremos nós, agora, ignorá-La?

Maria é uma presença que a nossa fé não dispensa. É uma lembrança que nos acalenta na esperança. Ela é a toda pura e é com emoção que olhamos para a Sua figura. Ela é a toda bela e a nossa vida está sempre iluminada por Ela. Ela é toda luz e com suave segurança nos conduz. Ela esteve junto à Cruz e continua a levar-nos até Jesus.

 

  1. Os orientais chamam-Lhe «odighitria» porque para o Céu Ela nos serve de guia. Também Lhe chamam «panaguía», já que é toda santa, com uma santidade que nos encanta.

Maria não era muito de falar, era mais de escutar. A Palavra de Deus não A encontrou distraída, por isso a mesma Palavra n’Ela Se fez vida. O Filho que Ela nos deu pela fé O concebeu.

 

D. Um sim que não tem fim

 

7. Deixemo-nos, pois, guiar por Maria. Ela não nos afasta de Jesus. Aliás, como poderia afastar-nos de Jesus Aquela que nos dá Jesus? Como reconhecia Charles Péguy, «é preciso que a gente suba Àquela que intercede, Àquela que é infinitamente celeste porque é também infinitamente terrestre, Àquela que é infinitamente eterna porque é também infinitamente temporal, Àquela que está infinitamente acima de nós porque está infinitamente entre nós, Àquela que é Maria porque é cheia de graça, Àquela que é cheia de graça porque é connosco, Àquela que é connosco porque o Senhor é com Ela, Àquela que está infinitamente longe porque está infinitamente perto, Àquela que é a mais alta princesa porque é a mais humilde mulher, Àquela que está mais próxima de Deus porque é a que está mais próxima dos homens».

Como notou o mesmo poeta, a Maria não falta nada, a não ser o ser Deus, ser o Seu Criador. «Porque, sendo carnal, Ela também é pura. Sendo pura, também é carnal. Por isso, Ela não é apenas uma mulher única entre todas as mulheres, mas uma criatura única entre todas as criaturas. Ela é uma criatura única, infinitamente única, infinitamente rara».

 

  1. A história da humanidade tinha tudo para correr mal. A Primeira Leitura mostra-nos como a história da humanidade tinha tudo para ser conduzida pelo mal. Mas já nos começos se anuncia que o mal não iria prevalecer. Já aí se garante que por uma mulher o bem haveria de vencer. Maria é a primeira mulher da nova humanidade. Sto. Anselmo reconhece a Sua importância singularíssima: «Deus é o Pai das coisas criadas, e Maria a mãe das coisas recriadas. Deus é o Pai a quem se deve a constituição do mundo, e Maria a mãe a quem se deve a sua restauração. Pois Deus gerou Aquele por quem tudo foi feito, e Maria deu à luz Aquele por quem tudo foi salvo. Deus gerou Aquele fora do qual nada existe, e Maria deu à luz Aquele sem o qual nada subsiste». Maria é, por isso, a nova Eva, a outra Eva. Ela é saudada com este nome invertido. «Ave» é o contrário de Eva, sinal de que, a partir de agora, tudo é diferente.

«Ave» significa «alegra-Te», pelo que a nova humanidade só tem motivos para se alegrar. A nova humanidade começa por um acto de fidelidade. O «sim» de Maria nunca mais terá fim. O amor de Maria é fecundo porque o seu «sim» é profundo. Os Seus lábios disseram «amém» e todo o Seu ser anuiu também. O Verbo fez-Se carne pela carne de Maria. A Palavra fez-Se vida na vida de Maria. Foi no silêncio de Maria que fermentou a Palavra que salva. O Seu coração guardou a Palavra que Deus enviou (cf. Lc 2, 19). Com Maria digamos «sim». Com Maria digamos também «amém».

 

E. Tanta tristeza na beleza, tanta beleza na tristeza

 

9. Termino com o meu poema preferido sobre Nossa Senhora. Foi composto por Antero de Quental. Era um espírito inquieto, mas que sempre soube encontrar a bússola certa para os seus caminhos incertos. É um texto sentido, um texto sofrido. É um texto que fala da Mãe, do Seu amor e da Sua dor, da Sua tristeza e da Sua beleza.

De facto, tanto amor há na dor e tanta dor há no amor; tanta tristeza há na beleza e tanta beleza há na tristeza.

 

  1. Eis o poema:

«Num sonho todo feito de incerteza,

De nocturna e indizível ansiedade

É que eu vi o teu olhar de piedade

E (mais que piedade) de tristeza.

 

Não era o vulgar brilho da beleza,

Nem o ardor banal da mocidade.

Era outra luz, era outra suavidade,

Que até nem sei se as há na Natureza.

 

Um místico sofrer... uma ventura

Feita só de perdão, só da ternura

E da paz da nossa hora derradeira.

 

Ó visão, visão triste e piedosa!

Fita-me assim calada, assim chorosa.

E deixa-me sonhar a vida inteira!»

 

Maria é a estrela do Advento. É Ela, afinal, que nos embala até ao Natal. É Ela que nos oferece o Natal. Foi o Seu amor profundo que trouxe o Filho de Deus até ao nosso mundo!

Do blogue THEOSFERA

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