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NUNCA TIREMOS OS OLHOS DE JESUS (Terceiro Domingo do Tempo Comum)

por Zulmiro Sarmento, em 23.01.16
 

A. As ausências presentes e as presenças ausentes

  1. Afinal, que fazemos — ou deveríamos fazer — quando entramos numa igreja? Que fazemos — ou deveríamos fazer — quando participamos numa celebração e quando escutamos a Palavra? Deveríamos fazer o que fizeram os habitantes de Nazaré de há dois mil anos: pôr os olhos em Jesus, fixar os olhos em Jesus, centrar os olhos em Jesus e nunca tirar os olhos de Jesus.

Depois de Jesus ter feito a leitura de um texto de Isaías, os olhos dos que se encontravam na sinagoga de Nazaré estavam postos n’Ele (cf. Lc 4, 20). Eis o que importa, eis o importante: ter os olhos postos em Jesus. Mas eis também o que falha. Nem sempre, de facto, os nossos olhos estão postos em Jesus. Nem sempre os nossos olhos estão postos no Jesus que fala, no Jesus que alimenta. Nem sempre os nossos olhos estão postos no Jesus-Palavra e no Jesus-Pão. Porque Lhe fechamos, então, o nosso coração?

 

  1. A distracção dos nossos olhos corresponde, quase sempre, à distracção da nossa mente e à distracção da nossa vida. No limite, é a nossa vida que, muitas vezes, anda longe d’Ele. É por isso que, ao entrar numa igreja, muitos registam as imagens, os painéis, os vitrais e pouco mais. É por isso que, ao entrar numa igreja, muitos registam o que lá se passa num vídeo ou numas fotos, mas sem chegar a guardar o que lá se vive na sua própria vida.

Na verdade, dá que pensar quando, estando numa celebração, os olhos de muitos, em vez de estarem voltados para a frente, se passeiampelos altos ou pelos lados. Além da ausência, as nossas celebrações estão cheias de ausências presentes e de presenças ausentes.

 

B. Urge recentrar a nossa vida em Jesus

 

3. É fundamental que nos habituemos a centrar tudo em Jesus: o nosso olhar, o nosso sentir, o nosso agir e o nosso viver. É preciso, pois, abrir os nossos olhos, abrir os nossos ouvidos, abrir o nosso coração e abrir toda a nossa vida. Jesus abriu o livro para nós. É urgente que nós abramos a nossa vida para Jesus.

O Espírito que está sobre Ele também está sobre nós através d’Ele. Foi o Espírito que ungiu Jesus. Foi o Espírito que O tornou Messias e Cristo. Recorde-se que «Messias» vem do hebraico «Massiah» e Cristo procede do grego «Christós». Ambos os termos significam «ungido». Como sabemos, ungido é o que está untado com os óleos consagrados. Ungido ó que está marcado — diria tatuado — por Deus, com vista a uma missão.

 

  1. A missão de Jesus está delineada no texto do Profeta Isaías que Ele mesmo acabou de proferir e que é extraído do capítulo 61, versículos 1 e 2. Jesus — apresentado como Messias-Cristo-Ungido — é o portador da Boa Nova, da boa e bela notícia. Jesus é, por conseguinte, o Evangelho vivo, o Evangelho para a vida (cf. Lc 4, 18).

Deste modo, ter os olhos postos em Jesus significa ter os olhos postos no Evangelho. Ver Jesus é o primeiro — e decisivo — passo para escutar Jesus e para acolher o Evangelho que é Jesus.

 

C. É preciso dar testemunho e ser testemunha

 

5. Não esqueçamos que, como refere S. Lucas, nós chegamos ao conhecimento de Jesus através das «testemunhas» que se tornaram «servidores da palavra do Evangelho»(Lc 1, 2). Se tivermos os nossos olhos postos em Jesus, também nos tornaremos Suas testemunhas e servidores do Seu Evangelho. A esta luz, evangelizar é dar testemunho e ser testemunha. Evangelizar é dar testemunho do Jesus do Evangelho e ser testemunha do Evangelho de Jesus. Mas como dar testemunho daquilo que não sabemos e d’Aquele que não conhecemos?

É necessário, portanto, fazer como Lucas. É necessário ir cuidadosamente ao encontro de Jesus para dar testemunho d’Ele. Neste caso, Lucas dá um belíssimo testemunho por escrito (cf. Lc 1, 3). Deposita-o em cada um de nós, representados nesta personalidade — chamada Teófilo — a quem dedica o texto que escreveu.

 

  1. Há quem pense que Teófilo seria um alto funcionário do Império Romano que se converteu e que, à maneira de um mecenas, teria patrocinado a difusão da obra de São Lucas. Deste modo, seria um cristão nobre, tratado aliás como «excelentíssimo»(Lc 1, 3). Podia ser alguém que pediu um relato a São Lucas sobre a vida de Jesus. Mas o mais provável é que Teófilo não seja o nome de uma pessoa, mas a condição de cada pessoa tocada por Cristo. É que, como sabemos, Teófilo significa «amigo» («phylós») de «Deus» («Theós»). E «amigo de Deus» é o que cada um de nós efectivamente é. O próprio Jesus, Filho de Deus, trata-nos como «amigos» (cf. Jo 15, 15).

É bom ter presente que «amigo» também vem de «amor». Amigo é, pois, o que ama. Amigo de Deus é o que ama a Deus. Amigo de Deus é o que se deixa amar por Deus. Amigo por Deus é o que dá testemunho do amor de Deus. Daí que Teófilo, além de um belo nome para os pais darem aos filhos, seja um luminoso programa de vida.

 

D. Ser Teófilo é ser Teóforo e (por isso)Cristóforo

 

7. Ser Teófilo é, no fundo, ser Teóforo, tal como Sto. Inácio de Antioquia gostava de se apresentar. Teóforo é aquele que transporta Deus, é que aquele que mostra Deus. E uma vez que Deus nos é revelado por Seu Filho Jesus Cristo, então temos de ser Cristóforos, ou seja, portadores de Cristo.

No fundo, ser Teófilo implica aceitar ser Cristóforo. Ser amigo de Deus passa por levar Jesus Cristo a toda a parte e a toda a gente. Ser amigo de Deus passa por contribuir para propagar a Sua fama (cf. Lc 4, 14).

 

  1. Hoje, Jesus continua a ensinar. Será que estamos disponíveis para aprender. A nova sinagoga já não fica apenas em Nazaré. A nova sinagoga é a Sua Igreja, da qual todos nós fazemos parte. É na Sua Igreja que continua a ressoar a Sua Palavra e a sentir-se a Sua presença. É na Sua Igreja que Ele, o chamante, nos chama. É na Sua Igreja que Ele, o enviado, nos envia. O Seu Evangelho é a nossa evangelização. A Sua missão há-de ser sempre a nossa missão.

Assim sendo, a tarefa que nos é pedida é muito concreta e está descrita com enorme precisão. Há, pois, que levar a Boa Nova aos pobres. Há que proclamar a libertação aos cativos. Há que devolver a vista aos cegos e a liberdade aos oprimidos. Há, enfim, que anunciar um «ano favorável do Senhor»(Lc 4, 19). Isto é, há que anunciar a chegada de um tempo novo, de um mundo novo, de uma vida totalmente nova.

 

E. O que sai dos nossos lábios e o quesobressai na nossa vida

 

9. A homilia de Jesus é muito breve e muito simples. Em pouco, Ele diz tudo: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir»(Lc 4, 21). Nesta afirmação, Jesus diz tudo sobre Ele e diz tudo para nós. Jesus apresenta-Se como o cumprimento do que estava prometido. Jesus é Aquele que cumpre.

O «hoje» que Lucas usa por oito vezes no seu Evangelho (2,11; 4,21; 5,26; 19,5; 19,9; 22,34; 22,61; 23,53), tornou-se um clássico nos sermões de muitos Padres da Igreja. Trata-se de um «hoje» que tem como horizonte a nossa vida e a nossa história. É na vida de cada um e na história da humanidade que se cumpre a Palavra de Deus. Jesus é o hoje de Deus para cada hoje do homem. Ele não vem para trazer algo novo, mas para cumprir o que Deus promete desde sempre. Jesus não vem para inovar a maneira de falar. Acima de tudo, Jesus vem para renovar a nossa maneira de viver.

 

  1. Se Jesus é aquele que cumpre, nós, Seus discípulos, temos de ser aqueles que cumprem. Daí que o importante não seja tanto o que sai dos nossos lábios. O importante é o que sobressai na nossa vida. É costume verberar os que prometem e não cumprem. Mas também não é verdade que, muitas vezes, nós mesmos não cumprimos o que prometemos?

Olhemos, então, para Jesus. Nunca deixemos de olhar para Jesus. E procuremos fazer como Jesus, que fez sempre a vontade do Pai. Que na Sua santa vontade reencontremos a nossa felicidade!

Do blogue THEOSFERA

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