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EVANGELHO SÓ HÁ UM, O DE CRISTO E MAIS NENHUM (Nono Domingo do Tempo Comum)

por Zulmiro Sarmento, em 30.05.16
 

A. Mudar é tão belo, mas (também) tão difícil

  1. Sabemos todos que, para melhorar, é preciso mudar. Mas, no fundo, estamos sempre à espera de que as coisas mudem fora de nós. Afinal, mudar dentro de nós custa mais do que pensamos. Daí que estejamos sempre a clamar por mudança e, ao mesmo tempo, a resistir à mudança.

Esquecemos que há uma única mudança que depende de nós: é a mudança dentro de nós. Podemos — e devemos — contribuir para a mudança fora de nós. Mas essa já não depende só de nós. A mudança que depende de nós é a mudança que estivermos dispostos a fazer dentro de nós.

 

  1. É por tudo isto que Jesus insiste na mudança dentro de nós. É por isso que Jesus insiste na conversão. A conversão não é feita só de mudanças na vida. A verdadeira conversão é feita de uma (permanente) mudança de vida. Não basta, pois, mudar o exterior. É preciso mudar tudo: o exterior e o interior.

A mudança do exterior tem de começar pela mudança no interior. A mudança que se há-de ver por fora tem de começar por dentro. Daí que Jesus censure os Seus contemporâneos por apostarem tudo nas aparências exteriores. Para eles, a aparência contava mais que a essência. Jesus, porém, não Se revê nesta conduta e lamenta: «Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim»(Mc 7, 6).

 

B. É pelo interior que tem de começar a mudança

 

3. Jesus quer que nos transformemos a partir do fundo, a partir de dentro, a partir do nosso interior. Desde logo, porque é no nosso interior que está a raiz dos nossos problemas: «Não há nada fora do homem que, ao entrar nele, o possa tornar impuro» (Mc 7, 14). É do interior do homem que «saem os pensamentos perversos, as imoralidades, os roubos, os assassínios, os adultérios, a cobiça, as más acções, a má fé, a devassidão, o orgulho e a loucura» (Mc 7, 21-22).

Assim sendo, é pelo interior que temos de começar a conversão. Que adianta um exterior bem apresentado se o interior permanece descuidado?

 

  1. Fica, pois, bem claro que Jesus não quer só uma mudança externa, feita de coisas repetidas apenas por hábito e, muitas vezes, sem sentido (cf. Mc 7, 7). Jesus quer a mudança total. Daí que, logo no início da Sua missão, Ele lance este pregão: «Arrependei-vos e acreditai no Evangelho» (Mc 1, 15).

O apelo é dirigido a todos e, consequentemente, a proposta é enviada a cada um. Todos têm de se arrepender, todos têm de se converter. Cada um encontra atitudes de que tem de se arrepender. Cada um encontra, por conseguinte, motivos para mudar.

 

C. A tentação de alterar o Evangelho

 

5. Trata-se de um desafio de máxima exigência, mas também de supremo encanto. Não há dúvida de que é muito difícil mudar de vida. Mas também não há nada mais belo do que mudar de vida.

Acontece que, muitas vezes, passa por nós a tentação dos cristãos da Galácia que S. Paulo denuncia na carta que lhes escreveu. Trata-se da tentação de passar para um Evangelho diferente (cf. Gál 1, 6) ou, o que é pior, da tentação de alterar o próprio Evangelho (cf. Gál 1, 7).

 

  1. Perante isto, o Apóstolo usa de uma linguagem muito contundente e inequivocamente clara. No primeiro caso, diz que «não há outro Evangelho» (Gál 1, 7) além do Evangelho de Jesus Cristo. Para quem estiver envolvido no segundo caso, vai ao ponto de cominar uma maldição: «Se alguém […] vos vier anunciar um evangelho diferente daquele nós vos anunciamos, venha sobre ele a maldição» (Gál 1, 7).

É uma linguagem invulgarmente dura, o que significa que estamos perante um fortíssimo agravo. Tanto assim que, logo a seguir, São Paulo repete o que disse: «Se alguém vos anunciar um evangelho diferente daquele que recebestes, venha sobre ele a maldição» (Gál 1, 9).

 

D. Nós é que temos de mudar (não é o Evangelho)

 

7. De facto, estas são as duas coisas mais graves que podem acontecer: deixar o Evangelho ou alterar o Evangelho. Mas alterar o Evangelho ainda é pior do que deixar o Evangelho. Mas não será que esta tentação nos passa, tantas vezes, pela cabeça? Eis, portanto, um forte tópico para o nosso discernimento. Não é o Evangelho que tem de mudar, nós é que temos de mudar em função do Evangelho.

É preciso ter muito cuidado com aquilo que dizemos e com aquilo que fazemos. Será que, nas nossas palavras e nos nossos actos, estamos a apresentar o Evangelho ou não estaremos, muitas vezes, a (pretender) alterar o Evangelho? Tenhamos sempre presente que Evangelho só há um: o de Cristo e mais nenhum.

 

  1. A nenhum de nós é lícito cortar, esbater ou acrescentar seja o que for ao Evangelho de Jesus transmitido pelos Apóstolos. Enquanto cristãos, não agimos em nome próprio, mas no nome de Jesus. É o Evangelho de Jesus que devemos apresentar: na sua inteireza, na sua radicalidade e na sua exigência. Importa não esquecer que a integridade do Evangelho combina a máxima exigência com a máxima bondade. O Evangelho exige muito porque está disposto a dar tudo.

Não somos nós — nem os nossos tempos — que funcionam como critério para o Evangelho. O Evangelho é que desponta como critério para nós. Não é o Evangelho que tem de se adequar à nossa vida. A nossa vida é que tem de se adequar ao Evangelho. A esta luz, o Evangelho não pode ser mudado. A nossa vida é que tem de mudar segundo o Evangelho. Não é a nossa vontade que tem de ser feita. É, como diz o Evangelho, a vontade de Deus que tem de ser realizada: «Seja feita a Vossa vontade» (Mt 6, 10).

 

E. Que a nossa vontade seja fazer — sempre — a Sua vontade

 

9. Só quando procuramos fazer a vontade de Deus é que a nossa vida faz sentido. E só quando fazemos a vontade de Deus é que nos podemos considerar crentes e cristãos. Ninguém se pode imaginar cristão à sua maneira. Aliás, esta expressão encerra logo uma contradição. É que cristão remete logo para Cristo; cristão vem de Cristo; cristão vai para Cristo. Só podemos ser cristãos procurando ser como Cristo.

Alguém dizia há tempos, na televisão, que «esta não era a sua igreja». Ouvi, registei e pasmei. Pasmei por causa do ar de espanto de quem falava. De facto, a Igreja é de Cristo. Em relação à Igreja, Cristo usa o possessivo: «Minha Igreja» (Mt 16, 18). A Igreja é d’Ele, é de Cristo. Pertencer à Igreja significa — e implica — pertencer a Cristo. De resto, São Paulo, nesta mesma Carta aos Gálatas, percebeu isso muito bem: «Não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim» (Gál 2, 20). Se algum problema afecta a Igreja é o facto de ela, por vezes, apresentar mais as nossas marcas do que as marcas de Cristo.

 

  1. A Igreja está — e tem de estar cada vez mais — voltada para o homem, mas não pode estar centrada nos critérios dos homens. A Igreja não é «humanocentrada», mas «teocentrada». Ela não está centrada no homem, mas em Deus. E o mais reconfortante é sentir que, quanto mais a Igreja estiver centrada em Deus, tanto melhor ela servirá o homem. É que, em si mesmo, o homem é aspiração de Deus, paixão por Deus.

Voltando à linguagem de S. Paulo, não pretendamos agradar aos homens. Aos homens devemos servir e servir nem sempre passa por agradar. Às vezes, é quando menos se agrada que mais se serve. A nossa preocupação deve ser receber «a aprovação de Deus» (Gál 1, 10). Só assim seremos verdadeiramente «servos de Cristo» (Gál, 10) e servidores do Seu Evangelho. Não procuremos, por isso, ser aplaudidos nem louvados pelos homens. Que a nossa vontade seja apenas — e sempre — fazer a (santa) vontade de Deus!

Do blogue THEOSFERA

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