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AFINAL, SÃO TRÊS OS ADVENTOS (Primeiro Domingo do Advento)

por Zulmiro Sarmento, em 29.11.15
 

A. Entre o primeiro e o último advento, ocontínuo advento

  1. Celebramos o princípio e os nossos olhos já estão postos no fim. Somos, assim, pregoeiros de um começo e, ao mesmo tempo, peregrinos de um final. Não é contradição. Pelo contrário, trata-se da mais profunda coerência. O fim já principiou no começo. É por isso que os «primeiros dias» são a semente dos «últimos dias»(Lc 21, 25). Dos primeiros aos últimos dias, peregrinamos na companhia do Último, do Definitivo, do Eterno.

O tempo não é apenas o campo do transitório, do passageiro e do efémero. No tempo, já habita a eternidade. No que passa, já fermenta o que não passa, o que nunca passará. No homem, já mora Deus. Assim sendo, somos anunciadores do Primeiro e discípulos do Último, sabendo que o Primeiro e o Último são a mesma pessoa: o Filho de Deus feito homem em Jesus Cristo.

 

  1. Em tempo de Advento, a Santa Igreja convida-nos a celebrar a primeira chegada com os olhos voltados para a última vinda. Na primeira vinda, uma mulher deu à luz Jesus Cristo. Na última vinda, toda a humanidade dará à luz Jesus Cristo. Como Maria, também a humanidade está «grávida» de Cristo. Nenhuma nuvem nos impedirá de ver o Filho do homem «com grande poder e glória»(Lc 21, 27). Esse não será um momento de pavor, mas uma hora de libertação. Daí o apelo de Jesus: «Quando isto começar a acontecer, endireitai-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima»(Lc 21, 28).

Por conseguinte, o fim não nos deve inspirar temor, mas destemor. O fim é uma inspiração: é uma inspiração para a missão. Sabemos donde partimos, sabemos para onde caminhamos.

 

B. A Sua vinda é a nossa vida

 

3. Não é em vão que o Ano Litúrgico se inicia com este grande horizonte que vai do princípio até ao fim. Não andamos perdidos nem nos devemos sentir desperdiçados. A nossa vida decorre entre advento e advento, entre uma vinda e outra vinda, entre a primeira vinda e a última vinda de Jesus. Mas não nos limitamos a recordar uma vinda e a preparar outra vinda. Não somos órfãos nem nos limitamos a estar expectantes. Entre estas duas vindas, há uma terceira vinda. Deus está sempre a vir, está sempre a vir até nós. A Sua vinda é, pois, a nossa vida.

Deus veio, Deus virá, Deus vem. Afinal, nunca deixa de ser Advento. Deste modo, não é só no Advento que existe advento. Estamos sempre em Advento. Cada advento é evento de Deus, é evento de Deus na história, é evento de Deus na nossa vida. Deus está a vir continuamente até nós. Será que estamos disposto a ir até Deus? Como reconheciam os cristãos antigos, em Jesus Cristo, Deus fez-Se o que nós somos para que nós possamos ser o que Ele é!

 

  1. Nunca esqueçamos que o Advento nunca é passado. Mesmo o Advento que ocorreu no passado não está jamais ultrapassado. O Advento é sempre presente. O Advento que ocorreu no passado continua a frutificar no presente. E o Advento que há-de ocorrer no futuro também começa a fermentar no presente. Deus veio no passado, Deus virá no futuro e Deus vem no presente: em cada presente e como presente.

Uma vez que Deus está sempre a vir, então estamos sempre em Advento. Trata-se do Advento constante embora talvez seja também — e para nosso pesar — o mais desperdiçado. Preparemo-nos, então, para celebrar o primeiro Advento, que nunca deixa de estar perto, e nunca deixemos de nos preparar para o último — e definitivo — Advento, do qual já estivemos mais distantes.

 

C. Nem só no Advento há advento

 

5. Tal como não há só Advento no Advento, também não há só Natal no Natal. Deus está sempre a (re)nascer em nós; queiramos nós também (re)nascer para Ele. Que seja, pois, Advento para lá do Advento e que seja Natal para lá do Natal. Que seja sempre Advento e que seja sempre Natal. Mas, já agora, que seja Advento também no Advento e que possa ser Natal também no Natal. Vamos procurar encontrar o Advento neste Advento e vamos procurar reencontrar o Natal neste Natal. Para que nunca deixe de ser Advento e para que possa ser sempre Natal.

Como bem notou o teólogo Johannes Moeller, a Igreja é, ela própria, a «Encarnação permanente». Ou seja, mais do que continuação de Cristo, a Igreja, em si mesma, é a presença de Cristo. Neste sentido, podemos dizer que na Igreja encontramos sempre o contínuo Advento e o permanente Natal. É, de facto, na Igreja, especialmente na Palavra e no Pão, que Deus está sempre a vir. É na Igreja, sobretudo na Palavra e no Pão, que Deus nos fala, que Deus nos chama, que Deus nos alenta e que Deus nos alimenta.

 

  1. Nós não evocamos episodicamente um ausente; nós celebramos continuamente uma presença. Hoje, Jesus não está menos vivo do que esteve há dois mil anos. Hoje, Jesus continua a estar vivo na Sua Igreja e em toda a humanidade, nomeadamente na humanidade sofrida e oprimida de tantos irmãos nossos.

Não esqueçamos que, quando apareceu no mundo, Deus surgiu como uma criança pequena e nunca deixou de Se identificar com os mais pequenos (cf. Mt 25, 40). É esta a lição do presépio, é este o ensinamento perene do Evangelho: Deus revela-Se na humildade, Deus visita-nos na simplicidade. A esta luz, não olhemos apenas para a grandeza do que nos aparece como grande; aprendamos a olhar para a grandeza do que (nos) parece pequeno.

 

D. Fazer presépios é bom, mas ser presépio é (ainda) melhor

 

7. Neste tempo, convido-vos a mergulhar. Mas não mergulheis apenas no mar infindo do consumismo. Procurai mergulhar, antes, no oceano pacificante da contemplação, da partilha e da presença. Procurai mergulhar em Deus pobre, em Deus criança, em Deus amor, em Deus encanto. Trocai presentes, mas procurai ser presença. O melhor presente é sempre o presente da presença. Há tanta gente só e abandonada, que, nesta época, sofre ainda mais a solidão e o abandono.

Enfim, fazei presépios, mas, acima de tudo, procurai ser presépio. Que os outros possam ouvir Jesus nos vossos lábios. Que os outros possam ver Jesus na vossa vida.

 

  1. O Advento deve ser, antes de mais, um tempo de oração. A oração é a atitude própria de quem vela, de quem espera, de quem prepara. Daí a recomendação de Jesus: «Orai em todo o tempo»(Lc 21, 36). Sim, em todo o tempo e não apenas durante algum tempo. Havendo oração na vida, acabaremos por converter toda a vida em oração, isto é, em consciência de que Deus nos enche totalmente e nos preenche completamente.

A oração não é somente encontro: é encontro e éentrada. Na oração, notamos que não estamos apenas diante de Deus e Deus não está apenasdiante de nós. Na oração, verificamos que Deus está dentro de nós e nós estamos dentro de Deus.

 

E. Ele já vem ao encontro e já está à nossa espera

 

9. Enquanto tempo favorável à reconciliação, aproveitemos o Advento para a reconciliação sacramental, para o sacramento da Confissão. No fundo, trata-se de preparar a nossa casa para que ela possa ser casa para Deus e casa para os outros em Deus. Não tenhamos medo da mudança, da conversão. Em Jesus, Deus converte-Se a nós. Porque não, no mesmo Jesus, convertermo-nos a Deus?

Na medida do possível, façamos uma conversão também das nossas prendas. Procuremos dar a quem não nos poderá dar: aos pobres, àqueles a quem falta o essencial para sobreviver. E sobretudo procuremos dar o que menos se dá hoje em dia: demos tempo, demo-nos no tempo, demo-nos aos que estão ainda mais sós neste tempo.

 

  1. Em Advento, procuremos respirar, desde já, o sublime perfume do Natal.

A Eucaristia é o permanente Advento e o eterno Natal. É na Eucaristia que Jesus vem até nós hoje. É na Eucaristia que Jesus renasce para nós sempre. O altar é o grande presépio. A divina consoada já está preparada. Não recusemos o convite de Jesus. Ele vem sempre ao nosso encontro. Ele está sempre à nossa espera!

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