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ACREDITAR SEM AMAR? NEM PENSAR! (Quarto Domingo do Tempo Comum)

por Zulmiro Sarmento, em 31.01.16
 

A. Até Jesus foi rejeitado

  1. Cada um de nós é único. Mas, sendo cada um de nós único, não somos os únicos a quem acontecem problemas ou dificuldades. Até Jesus foi incompreendido, até Jesus foi censurado, até Jesus foi rejeitado, até Jesus foi atacado. E nem na Sua terra foi poupado.: até na Sua terra foi increpado.

Nem o facto de ter feito uma homilia bem pequena O livrou da contestação. Depois de ler a Escritura, Jesus limitou-Se a dizer: «Cumpriu-Se hoje a passagem da Escritura que acabais de ouvir»(Lc 4, 21). Só que este pouco era muito, era tudo, era o programa de Jesus. E esse programa chocava com os interesses de muitos, a começar pelos mais próximos, pelos Seus conterrâneos.

 

  1. Ontem como hoje, hoje como ontem, a rejeição não costuma vir de fora. A rejeição vem quase sempre de dentro. É por isso que a rejeição dói. É por isso que a rejeição mói. Os conterrâneos e os contemporâneos de Jesus estão mais interessados num Messias político e num Messias que dê espectáculo. O programa de Jesus, centrado nos pobres e nos oprimidos, parece não entusiasmar.

Não espanta, por conseguinte, que até os do Seu povo tentem eliminá-Lo, deitando-O abaixo (cf. Lc 4, 29). E é significativo notar que, perante a rejeição, Jesus não procura defender-Se. O que Jesus faz é «seguir o Seu caminho»(Lc 4, 30). É isto que importa: seguir o caminho de Jesus.

 

B. Se os de dentro rejeitam, há muitos de fora que aceitam

 

3. O Evangelho é uma proposta que reclama sempre uma resposta. Se a resposta for de rejeição, há que não ficar desmobilizado no chão. Mais do que litigar, é preciso insistir porque outras respostas hão-de vir. É o que Jesus faz: rejeitado em Nazaré, desce a Cafarnaum para propagar a fé (cf. Lc 4, 31).

É preciso, pois, fazer como Jesus: se os de dentro rejeitam, há muitos de fora que aceitam. Não devemos desistir de ninguém, mas sem jamais ficar condicionados por alguém. Não tenhamos medo de sair: há tanta gente com vontade de vir. O Evangelho cativa, mas nunca fica cativo: cativa a todos, mas sem ficar cativo de ninguém. O Evangelho não fica cativo nem é selectivo: é para sempre e é para todos. Por conseguinte, é imperioso todos os meios usar para a toda a gente o Evangelho levar.

 

  1. Jesus leva o Evangelho nos lábios e leva, muito mais, o Evangelho na vida. Jesus é, portanto, o Evangelho vivo, o Evangelho para a vida. E o Evangelho de Jesus é, como compreendeu S. Paulo, todo um hino de amor, todo um hino ao amor. Jesus não fez outra coisa senão amar. Jesus não fez outra coisa senão mostrar-nos o que é o amor. Será que nós já aprendemos?

É que, neste mundo, muito se fala de amor, mas tanto se atenta contra o amor. O amor está muito presente nos nossos lábios, mas parece completamente ausente da nossa vida. É bem possível que ainda não tenhamos encontrado o amor. Só quando encontrarmos Deus — só quando nos deixarmos encontrar por Deus —, é que teremos encontrado verdadeiramente o amor.

 

C. Levar a fé é (também) levar o amor

 

5. Nem todo o amor tem Deus, mas Deus temsempre amor. Mais: Deus não Se limita a ter amor; Deus é amor (cf. 1Jo 4, 8.16). Criada por Deus, a Igreja tem de ser por excelência o lugar do amor. E será o lugar do amor se, desde logo, acolher o amor que a funda, do amor que a sustenta, do amor que a alimenta. Daí que, quanto mais perto de Deus, mais perto do amor. E daí também que a falta de amor de uns pelos outros seja a maior demonstração da falta do amor a Deus.

Ainda temos um longo, muito longo, caminho a percorrer neste campo. O amor, que é Deus, não está longe de nós, mas nós, por vezes, teimamos em estar longe de Deus, que é amor. E ninguém diga que tem fé se não tem amor. O amor é o grande certificado da fé.  Acreditar sem amar? Nem pensar. Não é possível acreditar sem amar. A fé envolve sempre o amor.

 

  1. A fé tudo consegue, quando está habitada pelo amor. Até consegue suportar o insuportável. É assim que percebemos a pergunta pertinente de Balduíno de Cantuária, no século XII: «Que há de impossível para quem crê? E que há de difícil para quem ama?»

A nossa profissão de fé é também — e bastante — uma confissão de amor. O Credo é uma expressão de fé na medida em que é uma história de amor. Aliás, enquanto história de fé, só pode ser história de amor. Só há fé quando existe amor: o amor é a fé vivenciada! Só o amor, como dizia Hans Urs von Balthasar, «é digno de fé».

 

D. Às vezes, o amor parece mais frio que o frio

 

7. Mas qual é a temperatura do nosso amor? Às vezes, o nosso amor parece mais frio do que este tempo frio. Habituamo-nos a ligar o amor à posse, quando Deus nos mostra que o amor está apenas — e sempre — na dádiva. Amor possessivo será autenticamente amor? O amor que vem de Deus, o amor que é Deus, é sempre amor oblativo. É sempre amor que dá, amor que Se dá, amor que Se doa, amor que perdoa.

Procuremos, então, conferir a temperatura do nosso amor com o grande termómetro que é o Evangelho de Jesus. Como vai o nosso amor para com Deus? Não tentemos separar jamais o que Deus uniu. Deus uniu o amor divino e o amor humano. Só amaremos verdadeiramente o próximo se nos dispusermos a amar verdadeiramente a Deus.

 

  1. Quando se ama, considera-se sempre pouco o que se dá. Quando se ama, achamos que o outro merece sempre mais. Foi por isso que Sta. Teresinha do Menino Jesus (e da Santa Face) viu neste texto de S. Paulo um foco iluminador. Ela não queria mais nada: só queria o amor. No coração da Igreja, ela queria «ser o amor».

Nada mais devemos querer, nós também. Nada mais devemos querer além do amor. Cultivemos, pois, o amor: o amor para com Deus e o amor para com todos a partir de Deus. E não nos preocupemos sequer com amar. Procuremos depositar nos outros o amor de Deus, o amor que é Deus. Amemos os outros com o amor de Deus, com o amor que é Deus.

 

E. O amor não é feito de palavras belas; é o que torna a nossa vida bela

 

9. O Eng. Fernando Santos, actual seleccionador nacional, nunca escondeu a fé que o possui. Há tempos, assumiu ter descoberto que «Cristo está vivo e que tal descoberta não a posso guardar só para mim». Confessou ter encontrado a sua felicidade «no caminho da fé, porque há uma palavra que antes não percebia e que passei a entender: o amor». Foi o amor de Deus revelado em Cristo que o ajudou a perceber o que é o amor.

Visitemos, muitas vezes, este texto de S. Paulo. Façamos dele um programa de vida. São 13 versículos do capítulo 13 da primeira Carta aos Coríntios. São um belíssimo compêndio sobre o amor: sobre a proveniência do amor, sobre a força do amor e até sobre a eternidade do amor. É que, quando tudo acabar, havemos de notar que o amor nunca acabará (cf. 1Cor 13, 8).

 

  1. Só o amor dá sentido à vida e à fé na vida. Não espanta, pois, que S. Paulo enumere 15 qualidades do verdadeiro amor: sete destas qualidades são formuladas positivamente e as outras oito de forma negativa. Ficamos assim a saber que o amor é paciente, é amável, alegra-se com a verdade, tudo desculpa, tudo acredita, tudo espera, tudo suporta. E também aprendemos que o amor não é invejoso, não é vaidoso, não é soberbo, não é inconveniente, não é interesseiro, não é irritável, não suspeita mal, não se alegra com a injustiça (cf. 1 Cor 13, 4-7).

Eu atrever-me-ia a sugerir que recortássemos estas 15 qualidades do amor e as colocássemos à entrada da nossa casa, para que nunca as esquecêssemos em cada dia da nossa vida. O amor não é feito de palavras belas. O amor é o que torna bela a nossa vida. O amor é o que faz persistir mesmo na hora me que nos apetece desistir. A fé está sempre a dizer à esperança: «não desistas». E a esperança não pára de segredar ao amor: «não pares». É assim que o Evangelho se faz ao caminho nos caminhos dos homens. É no amor que o Evangelho se fará caminho nos nossos caminhos!

Do blogue THEOSFERA

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