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«Não me cabe na cabeça acabar com os chumbos»

por Zulmiro Sarmento, em 22.09.10

Alguns extractos (poucos!) da entrevista ao prof. de Matemática Carlos Grosso* publicada no suplemento "Notícias Magazine" do Diário de Notícias de hoje (5SET10).
 
P:O que está errado na equação do ensino da Matemática em Portugal para os nossos alunos serem os piores da Europa e estarem entre os piores do mundo?
 
R: Penso que é a falta de rigor que tem havido nos últimos anos no ensino da Matemática. Entrou-se numa fase em que a tendência defendida era que tínhamos de brincar com os miúdos para eles gostarem de matemática, mas para aprender a resolver bem uma equação é preciso treinar vinte ou trinta ou cinquenta vezes, porque a Matemática tem esta característica: se numa equação temos de dar vinte passinhos para a resolver do princípio ao fim, basta um estar errado para a solução não ser a correcta......Nos vinte passos o aluno tem de ser treinado para acertar os vinte, e isto só se consegue com repetição, com treino, não há outra forma.....
 

P: Portanto, é preciso ter muita paciência para se ser não só professor como aluno de Matemática?
 
R: Pois é, mas vale a pena. Para se ser professor de qualquer disciplina devia ser preciso ter muita paciência. Podemos perder horas a ensinar uma coisa e o aluno perceber perfeitamente, mas depois se não treina, se não repete, passados 15 dias, quando for fazer o teste já não se lembra. É isso que falta no ensino português, a repetição: repete para aprenderes, repete para aprenderes, esforça a memória. A desvalorização da memória nas últimas décadas foi terrível..... Surgiram correntes pedagógicas a afirmar que saber a tabuada de cor é castrador, mas não é. É repetindo os exercícios que se aprende Matemática....
 
 
P:É importante haver exames?
 
R:Absolutamente. A avaliação contínua é importante, ajuda os alunos a esforçarem-se no dia-a-dia, nas aulas, mas não é suficiente. Eu explico bem uma matéria e ela no dia seguinte ainda é sabida, mas o nosso objectivo não é ficar por aí. O nosso objectivo é que daí a 1 mês ou 3 meses ou 1 ano ela ainda seja conhecida do aluno. isso é que é aprender. E os exames ajudam a isso, a perpetuar o conhecimento no tempo.......
 

 P: Imagino que não seja favorável à ideia anunciada pela ministra da Educação de acabar com os "chumbos"?
 
R: Não me cabe na cabeça. Se conseguíssemos viver sem trabalhar era óptimo, se conseguissemos resolver as nossas necessidades sem termos de nos esforçar, estávamos no paraíso.......Mas não, temos de trabalhar. Esta coisa de que é tudo fácil e passam todos não faz sentido.
 
 
P: Consegue perceber porque é que tanta gente detesta a Matemática?
 
R:Não, mas consigo perceber que uma das razões é a falta de formação dos professores. Em termos da formação estritamente matemática os professores já foram melhores do que são hoje. Nas últimas décadas tem-se insistido muito na formação dos professores para serem capazes de desenvolver o carácter lúdico ou recreativo da Matemática e insiste-se menos na formação Matemática. a pedagogia e a capacidade de transmissão de conhecimentos são importantes, mas o mais importante é que saibam muita Matemática....... 
 
* Carlos Grosso é o coodenador do gabinete de avaliação de manuais escolares da Sociedade Portuguesa de Matemática e professor na Escola Secundária Pedro Nunes e na Escola Superior de Educação João de Deus. ( e não pertence à FIAT - Federação Internacional dos Alérgicos ao Trabalho !!! , digo eu.)
 

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publicado às 06:40


1 comentário

De inha a 22.09.2010 às 21:52

"...é a falta de rigor que tem havido nos últimos anos no ensino..."; "...tendência defendida era que tínhamos de brincar com os miúdos para eles gostarem..."; "... A desvalorização da memória nas últimas décadas foi terrível..."; pois isto tanto dá para a Matemática como para outra disciplina qualquer. Mas diz e muito bem: "É isso que falta no ensino português, a repetição: repete para aprenderes, repete para aprenderes, esforça a memória"; "...Se conseguíssemos viver sem trabalhar era óptimo, se conseguissemos resolver as nossas necessidades sem termos de nos esforçar, estávamos no paraíso.......Mas não, temos de trabalhar...." Mas é tão mais fácil que tudo apareça feito, que sejam os outros a fazer e sobretudo que sejam os outros responsáveis pelos nossos fracassos:(

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