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Para vencer a injustiça é preciso vencer o medo

por Zulmiro Sarmento, em 16.01.10

1. A esta hora já nos apercebemos de que não é a simples passagem de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro que opera a mudança por que tanto sonhamos.
A mudança no tempo não introduz, por si só, a mudança na vida. No fundo, o futuro acaba por ser uma sucessão do presente, quando devia ser uma construção do presente.
Já há muitos anos, Albert Camus nos alertara: «A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo no presente».
Hoje em dia, o sentimento geral é de resignação. Basta olhar para a face das pessoas e para o esgar de abatimento que se desprende do olhar.
Tudo somado, acabamos por ser o que não queremos e por não querer o que somos.
A nossa maneira de ser — e de estar — é como o clima nesta época: frio. Aliás, não é preciso fazer grandes balanços. O nosso rosto diz tudo.

2. Sentimo-nos pequenos diante do peso da realidade. Arrepiamo-nos perante o mal e sobretudo perante a injustiça, mas que fazemos?
No fundo, entramos na engrenagem. Lamentamos a situação, mas a filigrana com que nos é apresentada invade-nos e como que nos entorpece.
Temos uma espécie de calculadora interior que nos dita as regras. Ela diz-nos que, se não queremos ser postos de lado, temos de aceitar as regras do jogo. Mesmo que se trate de um jogo tecido pela iniquidade.
José Gil disse, há não muitos anos, que, «sem justiça, não é possível a democracia». Não é possível a democracia e é impossível a vida.
No entanto, que estamos dispostos a fazer para terminar com a justiça? Muitas vezes, acabamos por contribuir para que ela se difunda.
Umas vezes, é a indiferença filha do cálculo. Achamos que o mundo é uma máquina e não um corpo. Um corpo tem coração. Uma máquina tem peças. Quando as peças não funcionam, deitam-se fora e substituem-se por outras.
O pragmatismo impõe-nos que aceitemos as coisas tal como elas aparecem. Nada disto é sadio, mas tudo isto é aceite.
Quem ergue a voz fica marcado e é rapidamente silenciado. O mais que fazemos, então, é partilhar as nossas mágoas em privado, deixando-nos vergar pela injustiça em público.

3. Edgar Morin afirmou que cada progresso acarreta sempre um retrocesso. Salta à vista que o portentoso progresso tecnológico tem acarretado um perigoso retrocesso espiritual.
André Comte-Sponville adverte-nos que, na actualidade, a questão prioritária é a espiritualidade. É ela que nos leva a aterrar na nossa humanidade e na humanidade dos outros. Mas o imediato não se compadece com estas considerações.
Para vencer a injustiça, é preciso, acima de tudo, vencer o medo. É preciso, com feito, vencer o medo de perder o lugar, o medo de perder o prestígio, o medo de perder o aplauso.
Muita gente me tem dito, certamente com o melhor propósito, que não vale a pena incomodarmo-nos com o mundo. Primeiro, porque somos poucos e pequenos para tarefa tão grande. E, depois, porque tudo acabará por melhorar.

4. Acontece que este é um grande equívoco. A injustiça não acaba por inércia. É preciso fazer muito para que ela termine. Já para que a injustiça continue, basta uma coisa: não fazer nada.
Nunca é demais lembrar a severa admoestação de Edmund Burke: «Tudo o que é preciso para que o mal triunfe é que as pessoas de bem nada façam».
Como referia Luther King, o que dói não é só o grito dos maus; é também — e bastante — o silêncio dos bons, das pessoas de bem.
Para vencer a injustiça é preciso vencer o medo. O medo de falar, o medo de sofrer, o medo de ser criticado.
Ninguém, por si, é capaz de acabar com a injustiça. Mas todos podemos contribuir, pelo menos, para que ela não fique no esquecimento.
Pertinente é, pois, o apelo de Shirin Ebadi: «Se não podeis eliminar a injustiça, pelo menos contai-a a todos».
A injustiça gosta do silêncio, da cumplicidade. Calar diante da injustiça é ser conivente com ela.
Ergamos a voz contra a injustiça. Ergamos a voz pela justiça. E pelas vítimas da injustiça!

João António Pinheiro Teixeira
Padre

in ECCLESIA

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publicado às 07:12


4 comentários

De Carmo a 16.01.2010 às 14:13

Um artigo com muito conteúdo, muita verdade. E a gravura também ajuda a "ler" todo o conteúdo. Posso dizer-lhe e sabe que é verdade, que sou uma das pessoas que não pactuo com o silêncio nem com as injustiças e assim como alguém já me disse gosto de "espingardar canivetes"! Verdade, mas para todos os que cometem injustiças, e se "armam" nos todos poderosos que tudo sabem, que querem rebaixar todos os seus pares, à frente sobretudo de outras pessoas! Isto, quer em casa - família quer no meu emprego, o que me acarreta alguns dissabores, no trabalho os horários piores...são para mim, escondem-me algumas situações, que depois acabo por saber e aí é que a coisa piora." Ninguém, por si, é capaz de acabar com a injustiça. Mas todos podemos contribuir, pelo menos, para que ela não fique no esquecimento.
Pertinente é, pois, o apelo de Shirin Ebadi : «Se não podeis eliminar a injustiça, pelo menos contai-a a todos»". Que todos de uma forma ou outra sejamos capazes e corajosos, quem ganha somos todos nós, os injustiçados e os que não se consideramos injustiçados, até um dia...ao encontrar um déspota na nossa vida (acontece a qualquer um).

De inha a 17.01.2010 às 12:01

Vou erguer a minha voz contra as injustiças?! E depois o meu emprego, o meu bem estar? Na...Na...Melhor é "fingir" que não vejo, não oiço, não sei de NADA. Esconder a cabeça de baixo da areia como a avestruz é o melhor nos dias que correm!! Cada um por si e pelos seus filhinhos, porque a vida não está boa para ninguém....

De Lisa a 17.01.2010 às 13:06

Relevante artigo. O perfume exala das palavras, brilho da grandeza da alma com uma imagem bem expressiva.

Faz-me reflectir, “na capacidade construtiva”...
O querer fazer melhor, ser construtor de um mundo mais justo, mais fraterno com igualdade de valores. Mas para isso, penso que só amando a verdade e rejeitando a injustiça com valores distintos.

Ser transmissor da crítica destrutiva, é não fazer render a sua capacidade, dedicando o seu tempo num dano de tempo, apenas salienta quem a faz, para quem pensa do mesmo modo, resultado, tudo na mesma e o mundo em que vivemos cada vez mais oprimido…

Já a crítica positiva, revela uma capacidade de enriquecer o seu tempo ponderado nas soluções, para a transformação do mundo, mais digno, mais responsável e com uma visão alargada, transformando o presente para bons frutos futuramente…

Mas para isso temos que começar na nossa Paróquia, nos pequenos grupos onde somos inseridos e quando surge a oportunidade para dialogar, “como em reuniões”,
É preciso ter um desprendimento alargado, de não conduzir a reunião politicamente, como, debater o melhor que se fez e culpar sempre o outro, mesmo muitas vezes pelas nossas incapacidades construtivas…

Na minha humilde percepção;
A construção para um mundo melhor deve-se começar, por simples acções, com os mais pequenos e essa luz de certo, tem o poder de abranger os grandes e transformar o meio em que se vive num brilho activo.

Uma frase bem verdadeira que entre outras eu saliento.
“Já para que a injustiça continue, basta uma coisa: não fazer nada”.

Obrigada pela partilha!...

Que Deus nos ilumine a todos, dia a dia.

De conceiç~~ao pinheiro silva a 03.03.2010 às 15:40

BOM dia se e que uma pessoa como eu tenha esse direito porque o que tenho passado e desumano e vergonhosa essa situação tem horas que tenho a impreção que estou pedindo um absurdo e tudo que tenho IMPLORADO, e por JUSTIÇA.Pelo amor de Deus alguém na fase desta terra me diga que ela existe, porque até o dia de ontem eu acreditava que tudo era só um erro um mal entedindo, mais hoje infelizmente me obrigam a acreditar que JUSTIÇA e como jóia só quem tem dinheiro pode possuí-la. Mais mesmo assim vou continuar minha luta, Um dia tenho fé em Deus que alguém vai me ajudar, cada vez que tenho que entrar naquele prezidio e mais uma vez dizer para meu filho que ainda não foi nada resolvido só eu e Deus e que sabe o quanto dói, Mais acredito em Deus que mesmo que todos se calem e se neguem a me ajudar sua justiça será feita, A audiência do meu filho foi mais uma vez adiada, hoje eu e as testemunhas estamos com medo porque agora os policiais que fizeram toda corvadia estavam lá e agora eles sabem quem vai testemunhar e falar a verdade sobre eles. Estou chorando porque sinto que a mentira está ganhando da verdade e a injustiça cada dia fica mais forte a única arma que tenho e Deus e esse computador que oro todos os dias e peço que Deus coloque um anjo que queira me ajudar ou apenas verificar o caso com um pouquinho de atenção já seria suficiente para verem como pode uma pessoa ficar presa quatro meses por que foi pedi para quatro monstros o seu celular de volta quando digo monstros e porque não acho outra palavra que descreva o absurdo feito por eles.A primeira audiência tinha sido marcada para o dia 15/01/2010 ai resolveram detetizar o fórum justo neste dia remarcaram para o dia 02/03/2010 e agora sem outras desculpas desceram que o presídio não trouxe ele incrível não? Sei que ele está no mesmo processo com outros dois rapazes e também o mesmo advogado mais como já expliquei não tínhamos condições de pagar um advogado sosinha, e agora a audiência foi remacarcada para 07/05/2010 tenho medo por o meu filho porque se aqui fora tenho medo deles penso o que eles posam fazer com meu filho que está lá dentro indefeso. Mais uma vez imploro não deixem que meu caso, ou melhor, esse desazo que os responsáveis pela lei estão fazendo seja só mais um no meio de tantos.Tudo que quero e uma audiência com direitos a testemunhas para provar a VERDADE.E ver um pouco de justiça porque se ouve teriam que colocar esses monstros na cadeia para eles sentirem na pele tudo que temos passado mesmo assim ainda faltaria justiça porque eles estariam respondendo por o crime de colocar alguém preso por quatro meses INOCENTE e por calunia e difamação.Sei que nada neste mundo e capaz de repara tamanha INJUSTIÇA!Por favor, IMPLORO JUSTIÇA...03/03/2010

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