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SERÁ POSSÍVEL RESSUSCITAR A EUROPA?

por Zulmiro Sarmento, em 28.03.16

 

  1. Não tenho nenhuma competência para me juntar à torrente de discursos sobre os modos de enfrentar os actuais movimentos terroristas, quer nos seus desígnios globais, quer europeus. Destaco a lucidez do Editorial do PÚBLICO[i]:Enquanto se financiar sem limites, o terrorismo continuará a matar. É preciso secar-lhe as raízes.

 

É sempre possível dizer que as raízes do terrorismo não são financeiras e que o dinheiro, sempre à disposição, é apenas um recurso instrumental. Seja como for, as discussões sobre as suas raízes metafísicas, sociais, éticas e religiosas não podem servir para esquecer a urgência em lhe cortar as bases e os percursos financeiros. Haverá vontade firme de executar esta operação, quando os bem conhecidos circuitos do comércio de armas e de seres humanos continuam, ano após ano, à solta, a crescer e a matar?

 

Existe, na Arábia Saudita, um campo de Tendas espantosamente bem equipadas para 3 milhões de pessoas, utilizadas apenas durante 5 dias por ano, na peregrinação a Meca. Não é nenhum santuário. É uma residência. Pergunta-se: não deveriam os muçulmanos de todo o mundo serem interpelados pelo escândalo humano e religioso de verem os seus irmãos na fé terem de fugir para países pagãos, em condições miseráveis, com a morte por companhia? Que interesses estará esta situação a esconder? Poderá Alá estar de acordo com este comportamento da Arábia Saudita e satélites?

 

Não digo que a indignação e as condenações dos atentados em Paris e em Bruxelas não sejam profundamente sinceras, aliás como as condolências que chegaram de todo o lado. Pergunta inevitável: terá finalmente a Europa acordado e entendido o sentido do que lhe está a acontecer?

 

  1. Quando o Papa Francisco visitou Lampedusa, transformada num cemitério de vivos e mortos, resumiu tudo numa só palavra: vergonha! Poucos se importaram. Os interesses em jogo não podem dar ouvidos a uma sotaina argentina. Quando, diante das matanças dos cristãos, no Médio Oriente, declarou aos jornalistas que era preciso suster aquele avanço do crime, foi logo sussurrado o comentário: diz isso só para salvar a pele dos cristãos e, afinal, nem é tão pacifista como parece.

 

 Agora, a Europa, a braços com os refugiados e agredida até à morte pelo terrorismo, desencanta especialistas em ciência da religiões por todo o lado, mas recusa reanimar o projecto europeu que ainda a poderia salvar. Podem fazer as coisas mais sensatas e sofisticadas em termos de segurança. Podem e devem atacar as fontes económicas que alimentam a demência terrorista a nível mundial! Mas sem fazer da Europa, e não só, uma zona de paz e desenvolvimento inclusivista, pouco adiantam tantas lágrimas.

 

  1. Uso o termo reanimar e não ressuscitar, por escrúpulos teológicos. No Novo Testamento (NT) temos narrativas de “reanimação” de cadáveres, como, por exemplo, a de Lázaro. Temos outras de encontro com Cristo Ressuscitado, mas não há ninguém a dizer que tinha visto Jesus a sair do túmulo.

 

  1. Paulo foi muito enfático sobre o evangelho que anunciou aos Coríntios: «Transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas[ii] e depois aos Doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos só de uma vez, a maioria dos quais ainda vive, enquanto alguns já adormeceram. Posteriormente, apareceu a Tiago e, depois, a todos os apóstolos. Em último lugar, também me apareceu a mim, o abortivo. Pois sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus[iii].

 

Como dizíamos, nenhuma destas testemunhas afirma que viu Cristo a ressuscitar.

 

Aqueles que pensavam que o percurso de Jesus tinha sido sepultado para sempre, testemunharam que ele se tornou a vida das suas vidas, que ressuscitou neles uma esperança invencível, que tinham de continuar com Cristo um projecto que não pode morrer. A evidência empírica da morte não é a última palavra sobre a aventura humana. 

 

Se em Deus vivemos, nos movemos e existimos, se a nossa vida está no coração de Deus, esconde-se na nossa existência terrena o mistério que, apenas, a fé na ressurreição nos pode revelar.

 

A apologia que S. Paulo faz da fé na ressurreição dos mortos não tem nada a ver com uma atitude fideísta, um eclipse da razão, hoje muito frequente: quem acredita, acredita; quem não acredita, não acredita e pronto. A fé é uma graça e eu não recebi essa graça.

 

Mas assim o que resta? Uma confissão niilista acerca da vida humana. Faça-se o que se fizer, aconteça o que acontecer, a última palavra é a morte. O resto é só para entreter os que tiverem sorte. Por alguns anos.

 

  1. Paulo julga esta posição miserável, pois não vence a morte. Ele acredita naressurreição, que não é na reanimação de um cadáver, um regresso ao mesmo.

 

Os cristãos europeus, mulheres e homens, jovens e adultos não podem fingir que é possível reanimar o projecto europeu. Seria investir num caminho que já não leva a lado nenhum.

 

O que importa é a ressurreição da Europa. Como? Veremos

 

Frei Bento Domingues, O.P.

 

in Público 27.03.2016

 

 

[i] 24.03. 2016

[ii] Simão Pedro

[iii] 1Cor 15, 3-13

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publicado às 00:10

O QUE ESTAVA MORTO (afinal) ESTÁ VIVO (Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor)

por Zulmiro Sarmento, em 28.03.16
 

 

A. Nem a morte detém Jesus

  1. Por vezes, há coisas que não correm bem. Para Maria Madalena, então, os últimos dias tinham corrido mesmo muito mal. Naquela manhã, põe-se a caminho da sepultura. Ouvimos dizer que era «ainda escuro»(Jo 20, 1). Que melhor ambiente para chorar um morto? Afinal, escuridão atrai escuridão. Haverá maior escuridão que a morte? A escuridão da manhã daquele Domingo era como o prolongamento da escuridão da tarde de Sexta-Feira. Tudo continuava escuro. Escuro estava o tempo. Escura estava a alma. Que mais fazer senão chorar a escuridão: a escuridão da dor, a escuridão da saudade e, porventura, a escuridão do medo?

Tudo estava consumado (cf. Jo 19, 30). A pedra no sepulcro é como o ponto finalnum texto. Aquela pedra era o ponto finalnaquela vida: naquela vida que se tinhaconsumido e que a morte tinhaconsumado. Restava apenas o rasto. Mas até o rasto daquele corpo tinha desaparecido: «Tiraram o Senhor do túmulo»(Jo 20, 2). A morte é, de facto, o supremo desencontro. Como reencontrar aqueles de quem a morte nos desencontrou para sempre? Que pode haver depois do fim?

 

  1. Só que aquela morte não era o fim. Aquela morte foi o fim, mas o fim da morte como fim. A partir daquela morte, a morte deixou de ser o fim. É que, naquela noite, um novo dia amanhecera. E, naquela escuridão, uma nova luz se acendera. O chamado Evangelho de Nicodemos assegura que, «à meia-noite, um clarão de sol penetrou naquelas trevas e todos os recantos do Hades tornaram-se luminosos».

As trevas nada podiam contra aquela luz. E até a morte nada pôde contra aquela vida. Tal como a pedra do sepulcro, também as evidências são derrubadas. O que estava morto, afinal, está vivo.

 

B. Quando o homem desfaz, Deus refaz

 

3. Jesus ressuscitou, não revivesceu. A Ressurreição é novidade, não é regresso. É uma passagem para a frente, não é um passo atrás. Ressurreição não é ressuscitação. Jesus não é devolvido à vida anterior, mas entra numa vida nova. É por isso que ninguém O reconhece ao primeiro contacto (cf. Jo 20, 14). Jesus é o mesmo, mas está diferente. A Ressurreição não é dissolução, mas transformação. A Ressurreição é a novidade total. Neste sentido, compreende-se que não falte quem à Ressurreição chame «anástase» para significar precisamente a elevação de Jesus à vida plena.

É por isso que nós não evocamos alguém que já morreu; nós celebramos alguém que continua vivo. A Igreja, alicerçada na Páscoa da Ressurreição, não transporta a recordação de um ausente, mas oferece-nos a permanente celebração de uma presença.

 

  1. Nem sempre Deus está de acordo com o que os homens fazem. Em relação a Jesus, Deus desfaz — ou, melhor, refaz — o que os homens tinham feito. S. Pedro explica tudo isto com notável precisão. Jesus, «a quem deram a morte, suspendendo-O num madeiro, Deus O ressuscitou ao terceiro dia»(Act 10, 39-40). Nada — nem ninguém — faz frente a Deus. Nem a morte detém Deus. Sucede que é preciso passar pela morte para vencer a morte.

Como bem percebeu S. Gregório de Nazianzo, só é salvo o que é assumido. Em Jesus Cristo, Deus assume o que é humano para salvar o humano. E como a morte faz parte da condição humana, nem Deus, ao fazer-Se homem, quis passar ao lado da morte. Neste caso, não se trata decarência de ser, mas de superabundância de ser. Em Jesus Cristo, Deus fez Sua a nossa morte para que nós façamos nossa a Sua vida.

 

C. Volta à vida quem dá a vida

 

5. É fundamental não esquecer que a Páscoa não é só a Ressurreição. A Páscoa é a passagem da Cruz para a Ressurreição, é a passagem da morte para a vida. Aliás, há um hino deste tempo pascal que no-lo recorda com extremos de veemência: «Não há Ressurreição sem haver morte». E o próprio Ressuscitado não esconde as marcas da Cruz, instando com Tomé para que coloque o seu dedo nas Suas mãos (cf. Jo 20, 27).

Não é, pois, incorrecto falar, com Jurgen Moltmann, da «Ressurreição do Crucificado» nem da «Cruz do Ressuscitado». No fundo, a Ressurreição é a validação e o reconhecimento de toda a trajectória do Crucificado.

 

  1. A Visita Pascal, esse costume tão belamente arreigado na alma do povo, ilustra esta verdade profunda. Na Visita Pascal, anunciamos a Ressurreição transportando o Crucificado. Não é só por causa da extrema dificuldade em figurar um corpo ressuscitado. Tem todo o sentido transportar a Cruz em dia de Páscoa porque o que ressuscita é o mesmo que morre; o que volta à vida é o mesmo que dá a vida; se não morresse não ressuscitaria; o grão de trigo, para dar fruto, tem de morrer (cf. Jo 12, 24).

Acresce que o mistério de Cristo é sempre global, pelo que não se pode segmentar ou fracturar. Jesus integra a glória no sofrimento e eleva o sofrimento à glória. Ao entrar na nossa casa como ressuscitado, Jesus aparece na Cruz como que a dizer aos crucificados pelo sofrimento que está com eles. Jesus continua ao lado dos que choram, dos que sofrem. Eis, por conseguinte, a maior fonte de esperança para cada um de nós: Jesus sofre connosco, nós venceremos o sofrimento com Ele. Com Ele, nós venceremos o sofrimento e a própria morte. Não há nenhum motivo para cair no desespero. Temos todos os motivos para fortalecer a esperança.

 

D. Viver? Só com Cristo!

 

7. Os pés devem continuar na Terra, mas os olhos hão-de estar sempre dirigidos para o Céu. A Páscoa não aliena, responsabiliza. S. Paulo é muito claro: «Uma vez que ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto»(Col 3, 1). Pelo Baptismo, morremos com Cristo. Pelo Baptismo, ressuscitamos em Cristo.

Uma vida pascal é uma vida com Cristo. Não faz sentido viver sem Cristo: a nossa vida passou a ser Cristo (cf. Col 3, 4). É Cristo que vive em nós (cf. Gál 2, 20). A nossa autonomia não é afectada. Trata-se de uma autonomia «cristónoma». Como é que Cristo poderia afectar a nossa liberdade se foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou (cf. Gál 5, 1)? Pelo Seu exemplo, Ele mostrou que a verdadeira liberdade não consiste em ter, mas em dar. A liberdade suprema, que Cristo corporizou, consiste em dar tudo, em dar a vida (cf. Jo 10, 10).

 

  1. Cristo está vivo na nossa vida e nós só estamos vivos na vida de Cristo. Ele permanece vivo na Palavra e no Pão. Tal como aconteceu aos discípulos acabrunhados a caminho de Emaús, também nós, hoje, reconhecemos Cristo ao partir do pão, isto é, na Eucaristia (cf. Lc 24, 31). É por isso que a Eucaristia é, por excelência, o «mistério da fé».

Na Eucaristia, com efeito, anunciamos a Morte de Jesus e proclamamos a Ressurreição de Jesus. Trata-se, portanto, de um sacramento eminentemente pascal. Mas Jesus também permanece vivo na missão, no nosso testemunho ao longo da missão. Como Pedro e os apóstolos da primeira hora, também nós somos chamados a ser testemunhas de que Cristo está vivo. O testemunho é o melhor certificado de que Cristo está vivo na nossa vida e na vida do mundo. Muitos são os que dão a vida por causa de «um certo Jesus que morreu» e que nós testemunhamos «estar vivo» (Act 25, 19).

 

E. Afinal, dos fracos também reza a história

 

9. É esta a vida que nos traz vivos. É esta a vida que vale a pena anunciar a todos os vivos. É esta a vida que irradia desde aquele dia que o Senhor fez (cf. Sal 118, 24). Trata-se de um dia sem fim, de um dia que não escurece, de uma manhã que não anoitece. Temos, por isso, todas as razões para nos alegrar e cantar. O Aleluia é o cântico típico da Páscoa, pois verbaliza o louvor pela maior obra do Senhor.

A Páscoa já chegou e não apenas hoje. A Páscoa já chegou há muito tempo. A Páscoa chegou até nós para que nós cheguemos à Páscoa. A Páscoa está no tempo para que esteja sempre na nossa vida.

 

  1. A Páscoa é o silêncio que fala, a escuridão que brilha, a lágrima que sorri, o fim que (re)começa. Afinal, o inesperado vence o inevitável. Nós não tínhamos percebido que consumado não é o mesmo que terminado. Jesus tinha consumado a missão, mas não deu por terminada a presença. Foi do lugar da morte que Jesus regressou ao encontro dos vivos (cf. Jo 20, 15). Do máximo fracasso irrompe, assim, o máximo triunfo. O vencido desperta como vencedor.

Como reconheceu Tomas Halik, a Páscoa é «a vitória mediante a derrota». A vida renasce da morte. A luz reacende-se nas trevas. O dia acorda na noite. O sorriso é sulcado no pranto. Um novo começo se levanta após o fim. É do fundo que se sobe. É de baixo que se cresce. Dos fracos também reza a história. É na maior fraqueza que se manifesta a maior força (cf. 2Cor 12, 9). A Páscoa é a vitória do vencido. A Ressurreição põe a descoberto o que na morte jazia encoberto. Só quem desce às profundezas consegue atingir as alturas. Jesus ressuscitado volta a percorrer os nossos passos (Lc 24, 23-35) para que nós possamos prosseguir o Seu caminho. É por isso que os passos de uma vida pascal nunca serão simplesmente passos. Serão passos sempre em «compasso». Em «compasso» com Deus em direcção à humanidade. E em «compasso» com a humanidade em direcção a Deus!

Do blogue THEOSFERA

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