por Zulmiro Sarmento, em 21.10.11
Quem anda atento às mudanças sociais e culturais e não se esquece que a Igreja está ao serviço da sociedade e das pessoas tem consciência de que muitas coisas têm de mudar na acção pastoral. Nem sempre as mudanças são aquelas de que as pessoas falam, movidas por razões sopradas e pouco sabedoras do que na Igreja é essencial.
O concílio Vaticano II foi o acontecimento com maior força propulsora da mudança a operar-se na Igreja. Realizou-se para isso mesmo, segundo os objectivos anunciados por João XXIII, que queria não a continuação de uma Igreja clerical, mas o surgir de uma Igreja Povo de Deus, marcada pela Comunhão e pela Missão. Uma Igreja capaz de entender a sociedade e de dialogar com ela sobre o desígnio de Deus a operar-se na história humana. Uma autêntica mudança que toca em conceitos e critérios, em atitudes e projectos.
Não era fácil a conversão, sobretudo dos que, embrenhados nas estruturas e nos modelos tradicionais, teriam sempre grande dificuldade em se libertarem para poderem adquirir a liberdade interior sem a qual não são possíveis as verdadeiras mudanças. Quem viveu o antes do Concílio, e logo o seu depois, entende estas dificuldades porque as sentiu. Destes, os primeiros, dependia muito o rumo e o impulso conciliar. Foi-se, porém, pelo mais fácil e espectacular, passou-se, em muitos casos, ao lado dos grandes apelos à conversão, sossegou-se a consciência pensando que os outros é que tinham de mudar, deu-se lugar a superficialidades que não seriam inócuas, pôs-se patine em muitas coisas velhas. O ambiente era de cristandade e mera conservação, com sentença de morte anunciada a partir dele próprio, pensando-se, logicamente, que não sobreviveria. Acabou por ser ele mesmo marcar o ritmo da anti mudança. Com tudo isto, andou-se para trás e deram-se muitos passos em vão.
Bento XVI disse, recentemente, na Alemanha, que, na Igreja, “há mundo a mais e Espírito a menos”. E falou que, sem a conversão profunda do Papa, dos bispos e padres, dos religiosos e leigos, de toda a Igreja, não haverá mais lugar para o Espírito. Mundo a mais, quer dizer que os critérios profano e as preocupações temporais se sobrepõem à moção do Espírito, o Único que pode dar a vida.
O Concílio foi uma lufada de ar fresco para a Igreja, que tanto pode perdurar ainda, como ter sido esquecido uma mera recordação. Os textos conciliares deixaram de ser lidos, meditados, entendidos como rumo e caminho. Muita gente da Igreja voltou à velha rotina, a programar para conservar, sem se interrogar se por aí pode alguma vez passar o vento da renovação pastoral. Os esquemas pastorais, a utilização dos recursos humanos e materiais, a linguagem, mesmo com as novas técnicas, parecem permanecer ao serviço de um passado que nada diz às pessoas de hoje. A maioria destas teve acesso generalizado ao ensino, experimentou a democracia, tomou consciência do seu valor como pessoa, sente o direito e o dever de participar. Os tempos de cristandade sempre de sabor clerical. Por isso estão desadequados e fora do tempo. Teimar neles é produzir o vácuo religioso e eclesial, continuar a construir muros que dividem e valas intransponíveis. O problema não está em sentir a dificuldade das mudanças que se impõem, mas em teimar em não querer, nem procurar caminhos novos que permitam os rumos novos que urgem na Igreja.
Os decisores eclesiais, mesmo quando inovam, estão rodeados de caminhos de tropeços que não os deixam andar. Uns incómodos, outros acarinhados. Uns doem, outros agradam. Estes tropeços, tanto se chamam grupos corporativos, como costumes, bairrismos impensáveis, ânsia de honras e vaidades, que o Concílio execrou mas que continuam a prodigalizar-se. Não se entende, quando o grito evangelizador é insistente, que se perca tempo e se desgastem energias em banalidades e disputas que cheiram a mofo e sujam a imagem da Igreja.
As maiores recriminações de Cristo foram feitas aos conservadores interessados do seu tempo, que não queriam andar, nem deixavam que outros andassem. Parece que a história se repete, com prejuízo irreparável das pessoas e da sociedade. Ao repensar a acção da Igreja hoje, há que estar atento porque, em alguns casos, os falar-se de renovação e ao dar exemplo de coisas novas, o horizonte é muito curto, o que não admira pelo pouco que se estuda, lê e reflecte, se escuta, avalia e inova. Os que querem de verdade são sonhadores e utópicos. Os que parece que querem são agentes promovidos.
D. António Marcelino
AGÊNCIA ECCLESIA
Autoria e outros dados (tags, etc)
por Zulmiro Sarmento, em 14.10.11
Encerra-se neste Domingo a Semana Nacional de Educação Cristã, que este ano tem como tema : “Família, transmissão e educação da fé”. Estamos em Fátima, lugar e santuário a que o Papa chamou “ Escola da fé”. Aqui se manifesta a fé dos milhares de peregrinos; se alimenta a fé de tanta gente que reza, ouve a Palavra de Deus, se aproxima do sacramento da Reconciliação e procura na Eucaristia a força espiritual; se testemunha a fé no acolhimento dado a todos por igual; se comunica a fé de mil maneiras a tantos que dela andam afastados Aqui podem também, os pais e os avós avivar a sua responsabilidade de transmitirem e fazerem crescer a fé dos seus filhos e dos seus netos.
Convida-nos o Santuário durante este ano a ”adorar a Santíssima Trindade. No mistério da Trindade tem a família a sua mais rica referência: Deus uno, Três Pessoas Divinas, o amor que faz a unidade, o mesmo projecto de salvação universal. A família, “comunidade de vida e de amor” poderá acaso beber em melhor fonte?
2. As famílias vivem hoje dificuldades grandes no seu dia a dia, mas todos sabemos que, numa família onde o amor é lei, os filhos são sempre a maior riqueza dos pais e dos avós, e a atenção a eles e ao seu maior bem é a maior preocupação dos pais. Deus encarregou os pais e os outros familiares que, a partir do Baptismo, sejam os primeiros responsáveis para que os seus filhos sejam de Deus, cresçam e andem sempre nos caminhos de Deus, que são os do bem. Assim serão felizes e farão os outros felizes.
Por vezes, as dificuldades e os problemas, mas também o descuido de muitos pais em se manterem fiéis à sua fé e, também, nesse ponto, serem modelo para os seus filhos, impede que a fé seja transmitida no primeiro e mais importante lugar, que é a casa dos pais, a casa de uma família cristã. Muitos de nós que aqui nos encontramos hoje, tivemos como primeiro lugar de catequese o colo das nossas mães ou das nossas avós. Aí aprendemos a olhar para o céu, a dizer o nome de Jesus, a benzer-nos, a rezar o Pai Nosso, a Avé Maria, a oração pequenina ao Anjo da Guarda. Era a primeira transmissão da fé, do sentido de Deus, como um grande valor educativo. Quando os pais entregavam os filhos à catequese paroquial, eles já iam de coração aberto para receber mais, já iam iniciados nos valores humanos e cristãos traduzidos em atitudes de vida. Não se manda aos pais que sejam educadores dos seus filhos, apenas se lhes pede que sejam pais.
3.Acontece que hoje já não é assim em muitas famílias que se dizem cristãs. Em Portugal inteiro chegam à catequese muitas crianças, talvez a maioria, que não sabem rezar nada, e nada sabem de Deus. Mais parecem filhos de pais não crentes e de famílias não cristãs.
Os pais não podem esquecer-se que quando pediram livremente o Baptismo para os filhos, assumiram o dever de os educar na fé, e que o Baptismo só tem sentido no desejo de que os filhos sejam de Deus, sejam santos. Se os filhos não forem de Deus, podem um não ser dos próprios pais. O baptismo não é apenas um rito religioso que recebe por força de uma tradição. É o maior dom que nos vem generosamente de Deus ao querer como seus filhos em Jesus Cristo. É o nascimento de uma vida nova que os pais não podiam , por isso a pediram à Igreja.
Certamente que a Igreja que tem como missão permanente, até ao fim dos tempos e em todos os lugares, dar a conhecer Deus e o seu desígnio de salvação para todos, sem excepção, vai ao encontro dos pais, não para os dispensar do seu dever, mas para os ajudar no seu dever de educadores da fé e da vida cristã. A catequese é esta tarefa da Igreja Mãe que se adapta às idades das crianças, dos adolescentes e dos jovens, pois que também ela é mãe, para ajudar a crer em Deus e a ser-lhe fiel.
Propõe-se a Igreja em Portugal sempre, mas muito especialmente este ano, dar aos pais uma formação mais adequada para que possam ser educadores da fé dos seus filhos, quer directamente, quer colaborando com os seus catequistas., ao longo dos dez anos de catequese. Deste modo também se pode ajudar a fé dos pais e de toda a família, através da caminhada dos filhos.
4. Esta colaboração a pede ainda a Igreja aos pais em relação à formação cristã nas escolas, através da aula de Educação Moral e Religiosa Católica. Para os mais jovens compete aos pais pedir a sua matrícula. Aos mais velhos a motiva e a aconselhar a que o façam, como uma grande ajuda para a sua formação presente e futura.
Transmitir a fé e educar na fé não é apenas ensinar doutrina, nem levar aos sacramentos, mas é, sobretudo, ensinar vida e preparar para a vida, com a luz da verdade evangélica e o testemunho. Os valores humanos da verdade, da liberdade, do respeito pelos outros, da justiça, da honestidade, da solidariedade, da paz, do sentido da responsabilidade e do amor ao trabalho, são fundamentais na formação da gente nova. E tudo isto se aprende, antes de mais, no seio da família pelo testemunho dos pais, mas, também, na paróquia e na escola, através dos que desta tarefa fazem missão.
Neste dia, faço daqui, em nome dos bispos portugueses, dos bispos das vossas dioceses, dos vossos bispos, um apelo a todos vós, pais e mães, e avós, para que não descuideis a transmissão e educação da fé cristã dos vossos filhos e netos. Deus não se discute. Somos dele e a Ele pertencemos. E, como diz o povo crente, como dizeis vós mesmos: “Quem tem Deus tem tudo, quem não tem Deus, não tem nada”.
5. Pensemos como Maria e José se empenharam na educação de Jesus. Numa oração da família rezamos assim “Senhor, nosso Pai, Tu quiseste que o Teu Filho nascesse e crescesse no seio de uma família como as outras. Assim, ao longo de uma vida simples, Ele aprendeu, a pouco e pouco, de José e de Maria, a tornar-se adulto e a descobrir a sua missão.” Sim, também Jesus de seus pais.
É isto que se pede aos pais: ajudar, por todos os meios ao seu alcance, os seus filhos a tornarem-se adultos e a descobrirem a sua missão, na Igreja e no mundo. Pais e mães, não saiais de Fátima sem pedirdes à Mãe de Jesus que vos ajude a ser verdadeiros educadores dos vossos filhos, de testemunhardes nas vossas comunidades esta preocupação e aqui, em Fátima, de pedirdes, também, a mesma graça para todos os pais e mães, que andam, porventura, distraídos desta missão de pais cristãos.
6. A Palavra de Deus que há momentos foi proclamada, vem ao encontro da nossa vida, da vossa vida concreta. Na primeira leitura, ouvimos o Profeta Isaías dizer-nos, e dizer a todos os pais em sofrimento, que o “Senhor Deus enxugará as lágrimas de todos os rostos, pois é no Senhor, que pomos toda a nossa confiança”. E quantos pais e mães, muitos dos quais bem conheceis, choram os seus filhos transviados!
Na segunda leitura S. Paulo, conta-nos a sua experiência de vida, por força da sua fé em Jesus Cristo, Ele que ó melhor modelo da vida de um crente que “sabe viver na pobreza e na abundância, em todo o tempo e em todas as circunstâncias… porque pode tudo em Jesus Cristo, Senhor, Aquele que lhe dá força, e o conforta todos os dias”. Que mais podemos nós querer?
O Evangelho ao narrar para o qual todos são convidados pelo Senhor, que não nos podemos dispensar de fazer o que nos compete, para podermos entrar na sala da festa preparada para todos. E, se a grande festa é de Deus, dela não podem estar ausentes os seus filhos.
7. Agradeçamos ao Senhor, por intercessão da Sua Mãe, que Ele quis que fosse também nossa Mãe, a graça de termos vindo hoje aqui, a esta “escola de fé” que é Fátima, para vivermos o nosso Domingo e para regressarmos mais fortes e mais conscientes dos nossos deveres e responsabilidades de cristãos na família, na sociedade, na Igreja. Agradeçamos, também, o trabalho generoso e dedicação gratuita dos muitos milhares de catequistas de Portugal, mais de setecentos participaram nesta Jornadas, e peçamos à Mãe do Céu os cumule de bênçãos para que possam dar às crianças e aos jovens um testemunho sério de vida cristã, colaborem com as famílias e encontrem nestas a melhor colaboração nas suas tarefas apostólicas.
António Marcelino, bispo coordenador da Comissão Episcopal da Educação Cristã
Autoria e outros dados (tags, etc)