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Manifesto dos teólogos alemães

por Zulmiro Sarmento, em 16.05.11
ANSELMO BORGES 

por ANSELMO BORGES

Na Alemanha, a Teologia está nas universidades públicas e o estatuto das faculdades de Teologia é o mesmo das outras faculdades. Inevitavelmente, impõe-se o rigor científico e crítico, e o diálogo com os outros saberes é uma exigência natural.

Recentemente, um terço dos 400 teólogos de fala alemã, residentes na Alemanha, na Suíça e na Áustria (144 professores de Teologia católica), a que se foram juntando muitos outros, subscreveram um "Memorandum", no qual pedem reformas profundas na Igreja. O texto do documento, "Kirche 2011. Ein notwendiger Aufbruch" (Igreja 2011. Necessidade de um novo começo) é ao mesmo tempo exigente e sereno, apelando a um diálogo aberto.

Aparece no contexto dos escândalos da pedofilia e da crise sem precedentes da Igreja católica na Alemanha, reconhecendo que não podem calar-se.

A Igreja não tem a sua finalidade em si mesma. "Tem a missão de anunciar o Deus libertador e amoroso de Jesus Cristo a todas as pessoas, e só poderá fazê-lo, se ela mesma for espaço e testemunha crível da notícia libertadora do Evangelho." Assim, nas palavras, acções e estruturas, tem de cumprir a exigência de reconhecer e promover a liberdade dos seres humanos. "Respeito incondicional por toda a pessoa humana, respeito pela liberdade da consciência, compromisso com o direito e a justiça, solidariedade com os pobres e perseguidos: estes são os critérios teológicos fundamentais que derivam do compromisso da Igreja com o Evangelho. Neles, torna-se concreto o amor de Deus e do próximo."

Na sua relação sã com a sociedade moderna, a Igreja aprenderá desta naqueles aspectos em que ela se adiantou, por exemplo, o respeito pela liberdade e a responsabilidade pelo indivíduo; noutros aspectos, a Igreja será crítica, a partir do espírito do Evangelho, por exemplo, quando as pessoas só são valorizadas pelo ter, se perde a solidariedade, se maltrata a dignidade humana. E elenca desafios.

São precisas "mais estruturas sinodais em todos os níveis da Igreja". Segundo o velho princípio do direito: "o que diz respeito a todos deve ser decidido por todos", os fiéis devem participar na eleição dos bispos e dos párocos. Para que as comunidades cristãs sejam espaços de partilha de bens espirituais e materiais e de corresponsabilidade, as paróquias não podem ser unidades administrativas cada vez maiores. Assim, "a Igreja também precisa de sacerdotes casados e mulheres no ministério ordenado".

Os conflitos devem ser resolvidos de modo justo e respeitoso. "Urge melhorar a protecção dos direitos e uma cultura do direito na nossa Igreja."

Está fora de questão a valorização do matrimónio e do celibato. Mas isto "não implica excluir pessoas que vivem amor, fidelidade e cuidado mútuo numa relação de casal com pessoas do mesmo sexo ou divorciados e recasados que vivem de modo responsável".

Um rigorismo moralista não é próprio da Igreja, que não pode pregar a reconciliação com Deus sem criar as condições para "uma reconciliação com quem ela se tornou culpável: por violência, por negar o direito, por perversão da mensagem libertadora da Bíblia numa moral rigorista sem misericórdia".

A liturgia não pode congelar no tradicionalismo. Ela vive da participação de todos, encontrando lugar nela "as experiências e as formas expressivas do presente", bem como a riqueza da pluralidade cultural.

É preciso estar disposto a enfrentar questões urgentes. "Trata-se de buscar soluções mediante uma permuta de argumentos que consigam tirar a Igreja da preocupação por si mesma, que a paralisa." Os cristãos são convidados a olhar para o futuro com ânimo e esperança. "Nunca o medo foi bom conselheiro em tempos de crise."

A Conferência Episcopal Alemã reagiu positivamente, considerando o Memorandum um contributo para a discussão sobre o futuro da fé e da Igreja. "Os diferentes temas precisam de esclarecimento urgente", declarou o secretário da Conferência, P. H. Langendörfer. "Não se pode evitar os temas conflitivos."

in «Diário de Notícias»

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