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DOM JAIME

por Zulmiro Sarmento, em 10.01.08

          Vi-o pela primeira vez no dia 8 de Dezembro de 1938, ao desembarcar em Macau na companhia de três jovens naturais da ilha Terceira. Todos nós íamos destinados ao Seminário de Macau para dar início à nossa preparação para o sacerdócio. Desde os Açores até àquela cidade do Extremo Oriente, acompanhou-nos o P.e José Machado Lourenço, que mais tarde seria nomeado Monsenhor. Apareceu então no cais o P.e Jaime Garcia Goulart . Vinha cumprimentar o seu amigo e colega, P.e Lourenço, que regressava da ilha Terceira após a sua primeira "licença graciosa".

          Pouco depois, o P.e Jaime partia para Timor, a seu pedido. Desde há muito, ele pedia ao então Bispo de Macau, D. José da Costa Nunes, seu tio, que lhe permitisse ir trabalhar entre a gente simples de Timor. D. José, apesar de lhe custar privar-se da companhia de seu sobrinho, achou que não tinha o direito de se opor a uma "vocação" tão decidida e deixou-o partir. Note-se que, naquela altura, Timor fazia parte da diocese de Macau e, por isso, se encontrava sob a jurisdição espiritual de D. José da Costa Nunes. Após a partida do P.e Jaime para Timor, passaram-se muitos anos sem que eu tivesse ocasião de o tornar a ver. Mas sempre ouvia falar dele através dos seminaristas timorenses que frequentavam o Seminário de Macau. Referiam-se a ele como a uma pessoa extremamente bondosa e muito querida do povo de Timor.

          Entretanto, em 1940, a Santa Sé, atendendo a uma proposta de D. José, separou Timor da diocese de Macau, ficando aquela ilha (a parte portuguesa) a constituir uma diocese independente, imediatamente sujeita à Santa Sé. O P.e Jaime foi então nomeado Administrador Apostólico daquela nova circunscrição eclesiástica. Pouco depois, Timor foi invadido e ocupado pelas tropas japonesas. O P.e Jaime passou muitas dificuldades e perigos, juntamente com os outros missionários, dois dos quais foram mortos pelos japoneses. Durante a ocupação nipónica, o P.e Jaime esteve para ser fuzilado pelos japoneses, acusado de passar notícias às tropas australianas, que actuavam, como guerrilheiros, nas florestas daquela ilha. Tendo os japoneses sido atacados pelos australianos, entraram, com alguns feridos, na missão onde se encontrava o P.e Jaime. Entretanto, tocou o telefone. Eram os australianos a pedir informações sobre os japoneses. Atendeu o telefone um soldado japonês. Ao saberem que eram os australianos a pedir informações sobre os japoneses, estes ficaram furiosos e concluíram que o P.e Jaime era informador dos australianos. Foi então que lhe apontaram uma metralhadora ao peito, prontos a fuzilá-lo . O Administrador Apostólico defendeu-se dizendo que não era informador dos australianos e que não os podia impedir de telefonarem para a missão. Foi um milagre da Providência não ter ele sido morto naquele dia. Mas Deus tinha outros planos sobre o P.e Jaime. Durante muitos anos, ele devia ser o impulsionador da acção missionária em Timor.

          Depois deste incidente, temendo que os missionários fossem pouco a pouco eliminados pelos invasores e Timor ficasse sem o seu clero, o P.e Jaime decidiu refugiar-se na Austrália juntamente com a quase totalidade dos missionários. Ali permaneceram durante a guerra no Pacífico. Foi durante este período que o P.e Jaime foi nomeado e ordenado Bispo de Timor.

          Terminada a guerra no Pacífico, D. Jaime pode regressar à sua diocese juntamente com os missionários refugiados na Austrália. Seguiu-se um período muito difícil para Timor, porque a ocupação japonesa e os bombardeamentos dos Australianos tinham reduzido Timor a uma autêntica ruína, sob todos os aspectos. Com muito trabalho e muita paciência, D. Jaime, coadjuvado pelos seus missionários e pelas Irmãs Canossianas , conseguiu, pouco a pouco, "ressuscitar" aquela diocese. Pediu a seu tio, então Arcebispo de Goa, Damão e Diu e Patriarca da Índias Orientais, que lhe cedesse alguns Padres goeses para trabalharem em Timor. D. José concordou e Timor pode beneficiar, em grande escala, deste reforço missionário.

          Entretanto, em 1963, D. Jaime convidou-me para ir a Timor na companhia dos primeiros dois seminaristas formados no Seminário de Macau. Ao desembarcar no aeroporto de Baucau, levaram-me de "jeep" até Díli. Foram várias horas de saltos e solavancos. Ao chegar a Díli, ali se encontrava D. Jaime à minha espera. Disse-me logo que eu tinha tido sorte com as estradas, que então se encontravam em bom estado. No inverno, teria sido muito pior. Ao ouvir o "bom estado" das estradas de Timor, eu, acostumado às boas estradas de Macau, não sabia que dizer...

          Permaneci cerca de um mês em Timor. D. Jaime queria que eu ficasse a conhecer bem aquela diocese. Por isso, levou-me a visitar várias missões situadas no interior da ilha, tais como Ermera, Suai, Maliana, Same, Manatuto, Fuiloro, etc.. Foi então que eu pude conhecer melhor o Senhor D. Jaime e apreciar as suas virtudes de grande missionário.

          Em certa ocasião, ele levou-me a visitar a missão de Same . Para lá chegar, era necessário atravessar montanhas, onde serpenteavam estradas cheias de curvas. A certa altura, eu senti-me enjoado e sugeri que o condutor abrandasse a velocidade. D. Jaime, sorrindo, disse-me: "Ah! Missionário de água doce!". Ele, acostumado àquelas andanças, sentia-se perfeitamente bem ao atravessar aquelas curvas. Conta-se que, no interior da ilha, encontraram, um dia, um "jeep"  parado à beira da estrada e, debaixo dele, um homem deitado no chão a reparar o motor. Era... o Senhor D. Jaime...

          Lembro-me de ir a seu lado num "jeep"  através dos campos. Quando os trabalhadores, mesmo a grande distância, reconheciam o Senhor D. Jaime, ajoelhavam-se a pedir a sua bênção . D. Jaime abençoava-os e eles faziam sobre si o sinal da cruz. Atitude bem significativa, que demonstra, entre outras coisas, como ele era estimado e venerado pelo povo de Timor.

          Depois dum mês de permanência em Timor, regressei a Macau, trazendo dentro de mim muitas saudades daquela terra e daquela gente, que hoje, na sua grande maioria, é católica. Este facto deve-se ao labor heróico de tantos missionários, entre os quais ocupa lugar de honra o Senhor D. Jaime, como primeiro Bispo de Timor e grande impulsionador da evangelização daquela ilha. Durante o seu longo pontificado à frente daquela diocese e durante os anos que se seguiram, Timor, apesar de todos os contratempos, tornou-se, ao lado das Filipinas, uma das duas únicas nações maioritariamente católicas em toda a Ásia. Para isso contribuiu , em larga escala, a ocupação de Timor pela Indonésia. Este facto teve como consequência a conversão de muitos Timorenses ao catolicismo, por eles considerado como um meio de se protegerem, culturalmente, contra o domínio avassalador da maior nação islâmica do mundo.

                                  

                                                              + Arquimínio, Bispo Emérito de Macau

 

Nota: É com todo o prazer que transcrevo na íntegra este testemunho sobre o Senhor D. Jaime Garcia Goulart , escrito por meu tio e que irá para o Jornal Ilha Maior para ainda maior divulgação. Ele que - sem lhe ter passado uma única vez pela cabeça! - estava apontado, nos "bastidores" da Igreja em Roma, para  sucessor de D. Jaime!... O P.e Arquimínio quando foi convidado para visitar a diocese de Timor havia uma intenção bem assente. Nada é por acaso. O pior (melhor?) foi ter-se revelado «missionário de água doce»! Outros desígnios esperavam o P.e Arquimínio! Hoje sabemos quais foram... e Deus Nosso Senhor o conserve por muitos e bons anos porque continua a ser muito rica a sua acção pastoral de «padre-bispo», como era carinhosamente tratado pelos macaenses!

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