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BAPTIZAR SEM EVANGELIZAR?

por Zulmiro Sarmento, em 10.12.11
 
"Quem recusa a evangelização, quem recusa a  iniciação cristã que a catequese oferece, não tem qualquer direito a  receber o sacramento"
«Cristo enviou-me, não para baptizar, mas para evangelizar» (1 Cor, 1, 17)
Uma das situações mais desagradáveis que acontecem na vida de uma Paróquia, é quando no final das celebrações, aparecem na sacristia, como que ali caídas de paraquedas, umas pessoas que nunca ninguém viu, algumas nem paroquianas são e que vêm pedir sacramentos. Essas pessoas, são habitualmente “católicos” afastados, por vezes mesmo muito afastados da vida da Igreja e quase sempre, não existem as condições mínimas para que se lhes possa corresponder ao que pedem. Por mais que se lhes expliquem pacientemente as coisas, insistem, resistem e persistem teimosamente na sua: querem o sacramento! Porém, querem o sacramento, mas recusam a evangelização, recusam categoricamente qualquer proposta de catequese que lhes apresente.

Ainda há dias, se apresentaram três adultos e duas crianças: um casal que vive em união de facto com um filho de quatro anos para quem vinham pedir o Baptismo e uma senhora, casada civilmente, que se propunha ser madrinha e trazia com ela um filho de dez anos, que tinha sido baptizado e até tinha feito a primeira comunhão, mas já tinha abandonado a catequese. Quando foi dito à senhora que não poderia ser madrinha por a sua situação matrimonial não estar canonicamente regularizada, a senhora ficou muito espantada, pois entretanto já tinha sido madrinha quatro vezes em Paróquias que identificou. Interrogada se o filho de dez anos frequentava a catequese, respondeu que já tinha desistido. Convidada a criança a reingressar na catequese, a mãe protelou para o ano seguinte e a criança recusou liminarmente. É caso para perguntar como é que esta senhora foi e pretende voltar a ser madrinha de Baptismo, quando para o ser tem de prometer que está disposta a ajudar os pais da criança na missão de a educar na fé?!... Como pode ela prometer tal coisa em relação aos filhos dos outros, se não o faz com os seus próprios filhos, permitindo que uma criança de dez anos, decida que não quer ir à catequese e pronto, não quer, não vai!

Como vemos, a questão de ser padrinho ou madrinha vai muito para além da situação matrimonial de uma pessoa, pois se apesar dessa circunstância que pode ter muitas causas que deverão analisadas em concreto, a pessoa for um bom cristão, que eduque os seus filhos na fé, talvez até possa ser madrinha ou padrinho...

Aos pais da criança, face à idade da mesma, foi-lhes proposto que aguardassem que o menino completasse seis anos para então o inscreverem na catequese, e seria baptizado no contexto de um itinerário de iniciação cristã, por ocasião da celebração da primeira comunhão. Imediatamente a mãe recusou, pois, disse, se era para ser baptizado aos dez anos, então esperaria pelos dezoito e aí seria o próprio a fazer a sua opção, se queria ou não queria ser baptizado! O pai ainda aceitava que o filho fosse para a catequese aos seis anos, mas a mãe logo disse que não, pois não tinham tempo para o trazer, nem ao Sábado nem ao Domingo! Como compaginar esta confissão prévia de que a criança não iria ser educada na fé, nem sequer iria frequentar a catequese, com o compromisso que os pais assumem no dia do Baptismo dos filhos de que os irão educar na fé?!...

Face a estas situações, só podemos responder como São Paulo: «Cristo enviou-me, não para baptizar, mas para evangelizar» (1 Cor, 1, 17). Quem recusa a evangelização, quem recusa a iniciação cristã que a catequese oferece, não tem qualquer direito a receber o sacramento. O sacramento não é um ato mágico, nem tão pouco pode ser celebrado apenas porque é da tradição. Não nos podemos satisfazer em ser cristãos por tradição, temos de ser cristãos em permanente processo de conversão!

Por vezes certos pastores da Igreja tem dificuldade em dizer que não a estas pessoas, por pensarem que não estarão a ser suficientemente misericordiosos e baptizam apesar de tudo. Não podemos esquecer que muitos foram os que procuraram Jesus e lhes viraram as costas por não aceitarem as suas propostas, por exemplo o “jovem rico”. Quem hoje recusa a evangelização da Igreja, recusa a catequese, recusa a conversão interior, está igualmente a recusar Jesus. Que sentido faz dar-lhes um sacramento? O “jovem rico” foi embora e Jesus deixou-o ir!

Luís Galante
 

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publicado às 14:09

Verdades para falaciosos

por Zulmiro Sarmento, em 26.11.11

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publicado às 04:02

Caetano Tomás explica José Rodrigues dos Santos e o seu "brilhante" livro que vem desmascarar a Igreja !!!

por Zulmiro Sarmento, em 21.11.11

 

Não vi o programa, não li o livro, mas recebi impressões, algumas alarmadas. O simpático José Rodrigues dos Santos saiu –se com um livro da linha do Código Davinci, de José Saramago  e de umas tantas entidades que, hoje, procuram lançar dúvidas sobre certos aspectos da vida de Cristo.

Um dos mais “chocantes” para muitas pessoas é que Ele tinha irmãos, que a sua Mãe não era virgem, que Ele era casado. Etc., etc…Outros precisamente lançam dúvidas sobre o Antigo Testamento, como se este fosse o fundamento do Cristianismo. Mas, na realidade, não é…

Vamos repetir explicações sobre tudo isto.

Em primeiro lugar note-se bem que o nosso Cristianismo assenta éem Cristo Filhode Deus. Ele afirmou que era Deus. Mas muitos psicóticos também o têm feito. Simplesmente Ele provou –o com os seus milagres, em especial com a sua Ressurreição.

De resto digam o que disserem, o Cristianismo está assente n’Ele, nosso Mestre, a quem podemos chamar “rocha firme”. Por isso, se Ele teve irmãos, se a Mãe não era virgem, se era casado… isso em nada abala a sua Divindade, nem o que ensinou, nem o que fez, nem o que instituiu…

Todavia sejamos equilibrados… Os dados históricos que vêm do princípio do Cristianismo, apontam fortemente para as convicções clássicas, isto é, que ela era virgem, etc. Mas, insista-se: isso não é essencial ao Cristianismo. Todavia é bom recordar as “fontes” históricas, por exemplo a quantidade de “cartas” e outros escritos que temos e que foram escritos a partir do Ano 50, isto é, simplesmente 20 anos depois de Ele ter estado na “terra”. Havia muita gente, amigos e inimigos que tinham andado com Ele, que o tinham visto e ouvido ou que tinham recebido relatos a seu respeito. Se fossem verdade essas “coisas” que hoje dizem, elas tinham de aparecer.

Mas, mais uma vez, o nosso Cristianismo assenta é n’Ele, e  não depende nada dessas “curiosidades”. Elas não o abalam…(ver anexo mais abaixo.).

O Cristianismo também não depende da “linguagem” que Cristo usou: era a linguagem da sua nação. Por exemplo, Ele falava em possessos dos espíritos, e sabia bem que se tratava de doenças psíquicas. Se se referiu aos cananeus como “cães” simplesmente usou a linguagem normal dos seus ambientes.

Quanto ao Antigo Testamento, trata-se duma série de Livros riquíssimos em sentido de Deus, em monoteísmo, em exortações e caminhos de Santidade, em sentido do oração, etc.,etc… Sabemos que ele contem muitos factos históricos, mas também sabemos que nele há muitas “histórias”criadas a níveis vários, para servirem de “veículos”  aos ensinamentos transmitidos. Recorde-se, mais uma vez que, por exemplo, os primeiros capítulos do Génesis (primeiro Livro da Bíblia) são mitos. Já tenho explicado muitas vezes que estes são construções em imagens, as quais exprimem factos “eternos” da vida humana. Na Bíblia, eles serviram também de formidáveis veículos para falar de coisas de Deus e suas intervenções. Mesmo que só se tratasse de “histórias” o que interessa são os conteúdos…

À margem de tudo isto há nesses 42 livros riquezas “eternas” de ensinamentos. Basta recordar os Profetas e os Livros  Sapienciais. Os seus ensinamentos nunca mais morrem…e são utilizados por muitos grupos religiosos, e muitas pessoas  que simplesmente os descobrem e utilizam.. O Cristianismo tem neles as “raízes” de muitos dos seus ensinamentos. O problema é que há grupos e pessoas que os tomam à letra. Seguem esse caminho os “críticos” que assestam neles as suas revelações. Há muito quem pense que é um recurso para “vender” muito, e para conquistar nome. Não me pronuncio, nem interessa.

O que interessa é, mais uma vez: o nosso Cristianismo assente é em Cristo, Filho de Deus feito Homem…E também me interessa o esclarecimento em vez de confusão…

 

 

Anexo             ---Cristo é uma  pessoa histórica---

Acontece haver quem, especialmente entre os mais novos, os superficiais, os mal    informados, não se sinta seguro acerca dos factos de Cristo. Perguntam se os Evangelhos não terão sido inventados? Há quem levante a ideia de que alguém tenha inventado tudo isso. Porém era impossível Não tinha  “pegado”. Na realidade, está tudo documentado na História. Há duas pistas diferentes, mas que levam ao mesmo Cristo real. Vejamos:

           

1ªpista. Há no mundo uma “consciência colectiva” que vem do tempo d’Ele: desde então, imensa gente sabia. A essa consciência chama-se indicador de realidade.    Ela não poderia existir se Cristo não tivesse existido. Se alguém O tivesse inventado, não era aceite porque ninguém O conhecia. Ninguém sabia…Mas, a sua realidade histórica, ficou na consciência das comunidades. É assim com tantos factos e nomes do passado, como Sócrates, Platão…os reis de Portugal, o Terramoto de 1755, etc., etc. Eles não podiam ser inventados. Se alguém os inventasse, eles não seriam aceites porque, mais uma vez, ninguém os conhecia. Com muito mais razão, Cristo não podia ser inventado…, nem as coisas que Ele fez e disse. Mas, mais…:

           

2ª pista. Há escritos que vêm daquele tempo, quando ainda existia muita gente que O acompanhara, O vira, ou tinha tido informações a seu respeito. Esses escritos chamam-se Novo Testamento. Mas, em si mesmos, são escritos como outros quaisquer. E como tais devem ser tratados no seu valor histórico.

 Ao todo são 27 livros. Os 4 primeiros são Evangelhos, isto é, resumos das catequeses dos primeiros tempos. Eles não são “vidas de Cristo”, mas contêm-na. São diferentes uns dos outros mas coincidem nos factos essenciais. É a força da verdade.

Restam os outros 23 livros, totalmente diferentes dos Evangelhos. Desses livros, 21 são “cartas”. Elas foram escritas a destinatários variadíssimos, muito distantes uns dos outros, e sem ideia de dar notícias acerca de Cristo. Os assuntos delas dizem respeito às comunidades, às suas orientações e aos seus problemas. E aí está outro facto de total valor histórico. É que, nesses 23  livros  fazem-se  650 referências a Cristo, e às suas actuações. Nós conhecemo-las na “consciência colectiva” e nos Evangelhos. Elas eram do conhecimento das mais variadas comunidades.

Ora, as referências têm um total valor de realidade histórica. É que elas fazem-se quando se sabe que os destinatários conhecem os factos. Se não os conhecem, dão-se informações. O que não é o caso daqueles 23 livros. Nenhum deles tem como objectivo dar qualquer informação sobre Cristo. Vale a pena passar-lhes uma vista de olhos. Até por curiosidade histórica, recomendar-se-ia começar pelos Actos dos Apóstolos. Este Livro é o 5º do Novo Testamento e, nas edições da Bíblia, vem logo a seguir aos Evangelhos.

  O conjunto das ditas referências forma a chamada “vida de Cristo dispersa”. Esta coincide com as informações existentes na consciência colectiva e nos Evangelhos. Isto só é possível porque as pessoas conheciam os factos. c t.

 

(Recebido por e-mail)

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publicado às 04:42

Repensar a Pastoral da Igreja em Portugal. A reação dum Pároco

por Zulmiro Sarmento, em 03.11.11

Padre Carlos Paes

 

 

Um desafio estimulante e irrecusável

Quem, como eu, viveu com entusiasmo as diversas sessões do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, nos primeiros anos do milénio, não poderia ficar indiferente ao desafio corajoso da Conferência Episcopal Portuguesa.

Achei que era uma oportunidade a não perder, apesar de a minha experiência me dizer que não seria fácil encontrar condições entre os meus pares, para a profunda análise que tal desafio suporia.

Na verdade, a super ocupação dos pastores numa pastoral de manutenção que só por si lhes toma todo o tempo, e o protagonismo clerical nestas questões, leva-nos a olhar para este desafio como mais uma sobrecarga pastoral, que não se recusa, mas que fica para melhores dias…

Começa aqui, precisamente, a reflexão que devemos fazer. Falando da parte clerical do povo de Deus, entendo que é chegada a altura de passarmos duma conceção piramidal da Igreja (clérigos, religiosos e leigos), a uma conceção sinodal da mesma entendida como o Povo dos Batizados Leigos, Consagrados e Ordenados a trabalhar conjuntamente, na animação cristã da ordem temporal e na edificação do Reino de Deus entre os homens. Só faz sentido falar de batizados ordenados, se a montante houver batizados leigos (a maioria) e consagrados, a dar corpo àquela que, desde Paulo VI até Bento XVI, tem sido referida como a identidade da Igreja: “evan-gelizar”.

A nós, pastores, deve mover-nos a certeza de que não se trata duma missão clerical, para nos sobrecarregar mais, mas da vocação duma nova geração de evangelizadores, que já aí está, e que, como dizia Mons. Fisichella aos nossos Bispos nas suas Jornadas Pastorais de junho, “esperam que alguém os convide”.

 

Refundação da pastoral e não apenas operação cosmética

Já depois de ter publicado a minha resposta à Conferência Episcopal, li na segunda conferência de Mons. Fichella, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização que “vivemos um tempo de grandes desafios, que influem de modo significativo nos comportamentos de gerações inteiras e que se devem ao facto de estar a terminar uma época e a começar uma nova fase da história da humanidade”. Por isso não basta fazer alguns ajustamentos pastorais, ao estilo duma operação cosmética, mas ter a coragem de rever toda a pastoral em diálogo sinodal com seus agentes, numa palavra, com a comunidade eclesial viva e organicamente articulada.

 

Saltos qualitativos identificados.

Sem pretender esgotar a realidade pastoral em todas as suas vertentes e carismas, identifiquei 14 saltos qualitativos que devemos empreender e que foram genericamente aceites pelas pessoas que, por escrito, responderam ao texto que lhes mandei, nomeadamente sete Bispos.

São estes os saltos qualitativos que proponho: 1. Refundação de toda a nossa pastoral na Palavra de Deus; 2. Passar do protagonismo clerical à participação de todo o Povo de Deus; 3. Acolher e promover a nova geração de evangelizadores; 4. Passar duma mera articulação pastoral, à mobilização de todos os batizados na obra da evangelização; 5. Tomar a família como uma unidade pastoral, a primeira, que configure a «igreja doméstica», como célula de evangelização; 6. Passar da colegialidade piramidal à sinodalidade horizontal; 7. Passar da prioridade da “formação” à prioridade da “iniciação” na missão; 8. Mudar o paradigma da “formação” na preparação dos novos pastores, pelo paradigma evangélico da “iniciação” na mística da evangelização, desperta pelo convívio Jesus e com a sua Palavra; 9. Novo conceito de iniciação cristã, mais abrangente e místico; 10. Novo paradigma de catequese, em que o centro de gravidade deixa de estar nas crianças, para ser colocados nos pais; 11. Passagem duma experiência de fé, entendida como um culto que se pratica, a uma vivência do encontro com Jesus e da integração ativa na comunidade; 12. Passagem duma atividade sociocaritativa, a uma edificação de comunidades eclesiais que assumam a dimensão da «caridade de Cristo que as urge»; 13. Passagem de uma moral que dá prioridade à ética, a uma moral que arranca da vivência mística do encontro com Jesus; 14. Passagem a um novo conceito de Paróquia, como comunidade de batizados a trabalhar conjuntamente sob a batuta do pastor.

Padre Carlos Paes, pároco de S. João de Deus, Lisboa, e autor da brochura ‘Repensar a pastoral da Igreja em Portugal’. A minha resposta ao desafio da Conferência Episcopal Portuguesa (Paulinas, 2ª edição - setembro 2011)

 

AGÊNCIA ECCLESIA

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publicado às 05:40

ADOLESCENTES QUE REFLECTEM... MUITO BOM!

por Zulmiro Sarmento, em 11.10.11

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publicado às 03:57

Carta de Einstein a uma criança

por Zulmiro Sarmento, em 30.09.11

FREI BENTO DOMINGUES, OP

 

 

Jornal PÚBLICO, Lisboa, 26 de junho de 2011

 

1. Ao preparar uma intervenção para o Painel Ciência/Filosofia/Teologia: Que diálogo?, realizado na Covilhã, deparei com uma carta de Einstein (1879-1955), referida por Helen Dukas, a uma criança que lhe perguntara se os cientistas também rezavam. Já não me lembrava desse texto que passo a transcrever: “Respondo à tua pergunta do modo mais simples. Esta é a minha resposta. A pesquisa científica baseia-se sobre a ideia de que cada coisa que acontece é regulada pelas leis da natureza e isto vale, também, para as acções das pessoas. Por esta razão, um cientista será dificilmente inclinado a crer que um evento possa ser influenciado pela oração, por exemplo, por uma aspiração endereçada a um Ser supra-natural. Todavia, deve admitir-se que o nosso actual conhecimento destas leis é, apenas, imperfeito e fragmentário, assim sendo, realmente, a crença na existência de leis fundamentais e omnicompreensivas na natureza permanece, ela própria, como uma espécie de fé. Mas esta última é largamente justificada pelo sucesso da investigação científica. No entanto, de um outro ponto de vista, quem quer que esteja seriamente empenhado na pesquisa científica convence-se de que há muito espírito que se manifesta nas leis do Universo. Um espírito muito superior ao do homem, um espírito perante o qual, com as nossas modestas possibilidades, apenas podemos experimentar um sentido de humildade. Deste modo, a investigação científica conduz a um sentimento religioso de tipo especial que é, na verdade, bastante diferente da religiosidade de alguém mais ingénuo”.

As atitudes e declarações de Einstein perante a religião e as religiões, perante a afirmação ou a negação de Deus, já foram objecto de muitos estudos que não vou discutir aqui.

Nunca aceitou que lhe chamassem ateu. Se, umas vezes, confessava que o seu Deus era o de Espinosa, outras, mostrava a diferença entre eles. As expressões, “Deus não joga aos dados”, “não põe as suas coisas em praça pública”, “é subtil, mas não é malicioso”, serviam para afastar concepções antropomórficas, uma espécie, não confessada, de “teologia negativa”.

Nada há, na carta de Einstein, da arrogância do “cientismo”, dessa convicção de que a ciência acabará por explicar tudo e eliminará qualquer atitude religiosa. O “Universo inundado de inteligência” é demasiado vasto e complexo para ser abordado só pela investigação científica. Einstein não conhecia, apenas, a linguagem da ciência, era também um intérprete da linguagem de Mozart.

Segundo Novallis, a oração é na religião o que o pensamento é na filosofia. Não é uma ingeniudade. É a atitude humilde de quem acolhe e agradece, de quem confessa que não é a origem de todo o bem. Rezar é sair do egocentrismo e manter-se na luz do amor: “diz-me como rezas e dir-te-ei quem és”.

2. Importa, como diz o conhecido biólogo, Francisco J. Ayala, não confundir os caminhos da ciência e da religião: “a ciência procura descobrir e explicar os processos da natureza: o movimento dos planetas, a composição da matéria e do espaço, a origem e a função dos organismos. A religião trata do significado e propósito do universo e da vida, das relações apropriadas entre os humanos e o seu criador, dos valores morais que inspiram e guiam a vida humana. A ciência não tem nada a dizer sobre essas matérias, nem é assunto da religião oferecer explicações científicas para os fenómenos naturais. (…) O Deus da revelação e da fé cristã é um Deus de amor, misericórdia e sabedoria”.

Para este biólogo, “a evolução e a fé religiosa não são incompatíveis. Os crentes podem ver a presença de Deus no poder criativo do processo de selecção natural de Darwin”.

3. Sendo assim, valerá a pena perguntar: Ciência/Filosofia/Teologia: Que diálogo? Já existe uma vasta bibliografia sobre essa questão. Muitos preconceitos e confusões podem ser desfeitas no confronto de praticantes destas diferentes disciplinas. Estamos num mundo marcado pelas ciências sem que as interrogações filosóficas tenham perdido toda a pertinência e sem que a teologia possa ser eliminada do interior da experiência religiosa. A dificuldade desse confronto é a abstracção, pois, a ciência, a filosofia e a teologia conjugam-se no plural, o que não é indiferente para um diálogo. Por outro lado, a selecção destas três formas de conhecimento deixa de fora o mundo da vida, das expressões simbólicas, da estética e da ética, intrínseco à religião e não só.

Se não desejamos que uma sociedade viva polarizada, apenas, pelo confronto político-partidário, é importante desenvolver encontros e debates acerca da maneira como cientistas,  filósofos, teólogos, artistas são configurados,não só pelas suas especialidades, mas também pelas especialidades dos outros.

Ao reconhecerem a aliança entre a transcendência de Deus e a dignidade humana, os teólogos marcados pelas diferentes linguagens das ciências, da beleza e da ética, não poderão consentir na idolatria dos poderes da economia, da finança, da política, da religião, da técnica. Aliás, a experiência cristã situa-se no pressuposto da abertura do céu à terra, da terra ao céu e dos grupos humanos entre si, a nível local e global. Foi esta a experiência espiritual de Jesus Cristo e da Igreja do Pentecostes. Esta é, também, a nossa tarefa.

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publicado às 11:55

Para Angélico, seus pais e amigos

por Zulmiro Sarmento, em 01.07.11
 

 

Angélico Vieira era uma estrela, sobretudo para milhares de adolescentes e jovens em Portugal. Cantor e actor, membro de um grupo musical de sucesso. Morreu dias depois de um trágico acidente de automóvel. Hoje, dia 30 de Junho, o seu corpo será cremado, no cemitério do Feijó, aqui na nossa Diocese.

 


Infelizmente, são muitos os jovens (e não só) que morrem em acidentes de viação; mas também de doenças incuráveis e de outros “acidentes” que não deviam acontecer.

 

 

 

Toda a morte parece prematura. Nascemos para viver, não para morrer. No entanto, quando ocorre em plena juventude, parece não haver resposta à inevitável pergunta: porquê? Não é previsível que os filhos partam antes dos pais. E são tantos os que partem e deixam sem resposta a dor dos pais, dos irmãos, dos amigos.

 

 

 

Angélico não é, para os seus, mais um. Ele é único, como todos são únicos para os seus.

 

 

 

Esta dor tem de ser chorada, apertada num coração que parece despedaçar-se. Uma dor que parece não ter fim.

 

 

 

E, no entanto, a morte, mesmo quando nos parece mais inesperada, como acontece nas crianças e jovens, não é o fim da vida. Na imensidão do mar, o que fazem duas ou três gotas a mais? Assim, a vida humana. Não nascemos para viver uns tantos anos. Mesmo cem ou mais anos de vida terrena são as tais duas ou três gotas a mais no oceano. O que conta é o oceano. E esse ninguém nos tira, nem a morte por mais prematura ou violenta que ela seja.

 

 

 

Deus criou-nos para a vida e não para a morte. Se esta põe termo ao prelúdio da nossa existência, para uns mais longo, para outros muito breve, a meta da nossa vinda a este mundo, a eternidade, não está em causa. Nascemos para sermos eternos. Deus ama-nos com um amor a sério, infinito, a toda a prova. Foi assim com Cristo: foi gerado no seio da sua mãe, Maria. Nasceu, cresceu, morreu tragicamente, violentamente, mas ressuscitou. Está vivo! Na sua morte, a nossa morte transforma-se em vida. Com Ele morremos, com Ele ressuscitamos. O Angélico, o teu filho, o teu irmão, o teu amigo. Eu. Talvez amanhã. Talvez daqui a uns anos. Mais ou menos umas gotas e mergulharemos, quando Deus quiser, no grande oceano da vida plena, onde hão há dor nem morte. Choramos, contorcermo-nos de dor, mas não desesperamos. Angélico, Hélio e tantos outros, amanhã ou depois voltaremos a encontrar-nos.

 

 

 

Pe. José Lobato

 

30 de Junho de 2011
 
Página da Diocese de Setúbal

 

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publicado às 02:13

Ridiculamente... manipulados

por Zulmiro Sarmento, em 27.06.11

O recente ‘baptizado’ do filho de um futebolista e de mais duas crianças – muito falado e trazido à liça em maré de constituição do novo governo do país – e até pela participação indirecta no facto, trouxe-me à reflexão vários aspectos: o conceito mais correcto de paróquia, a conexão entre residentes e paroquianos, a exploração das crianças em iniciativas (sociais) dos adultos... e até a figuração das entidades religiosas nas prosápias de gente com dinheiro, mas sem cultura... cristã aceitável.
Explicando:
- Para que pudesse acontecer o baptizado do filho de Cristiano Ronaldo, de um sobrinho e de uma outra criança, tive de assinar – enquanto pároco da Moita, área onde reside a irmã da (dita) vedeta – os papéis de transferência para outro espaço territorial, embora dentro da mesma diocese (territorial), mas sob a jurisdição das Forças Armadas.
- Mesmo que à pressa os ‘papéis’ foram feitos, sem que tenha havido da parte da mãe da criança residente na área da paróquia, a mais pequena atenção ao gesto (meramente) administrativo... e nem sequer foi perguntado quanto era o custo pelo uso do carimbo adstrito ao documento de transferência.
- A data da ‘cerimónia’ já estava marcada – entre avanços e recuos, por entre conjecturas e suspeitas, para além de assédios noticiosos e de outra contra-informação – tendo em conta os interesses particulares e nada tinha sido tratado formalmente... embora já houvesse oficiante e até local definitivo... para tal evento de espavento, espanto e estupefacção.
Postos estes factos – alguns deles quase ridículos ou, pelo menos, risíveis – como que se pode (ou deve) perguntar pela significação religiosa e cristã do acontecimento, sobre as condições dos intépretes e suas funções, sobre a consciênca cristã de missão de pais/mães e (pretensos) padrinhos/madrinhas e até pela envolvência eclesial – anterior, actual e futura – da celebração deste sacramento fundante da iniciação cristã.

= Questões pela negativa... conhecidas
Ao ver aquele espectáculo televisivo na área da paróquia onde estou há menos de um ano, vinha-me à lembrança: e se não tivesse assinado aqueles papéis de faz-de-conta para a transferência destes baptismos, que seria dito publicamente, tanto sobre a Igreja como sobre o padre, que tal pretensão obstaculizassem? Sem me dar (totalmente) conta também contribui para aquela farsa... de exploração de três crianças e para que certos adultos se banqueteassem e exibissem nas televisões. Sem total consciência do mal feito, a fé foi sobposta ao serviço da manipulação dos interesses económicos e de imagem de gente endinheirada, mas culturalmente subsenvolvida.

= Questões de matéria pastoral... urgente
Diante deste jogo de promoção (quase) indecorosa, enquanto Igreja minimamente consciente da sua função neste mundo secularizado e laicista, creio que são de colocar alguns aspectos bem mais substanciais do que aquele espectáculo com algumas luzes e muitas sombras.
- Não está na hora de fazer cair o conceito de paróquia territorial adstrita à configuração civil e/ou social?
- Não seria preferível responsabilizar mais quem aceita as crianças ao baptismo do que que tem de assinar papéis sem que nada tenha a ver com as circunstâncias?
- Um novo conceito de paróquia não deveria exigir menos celebrações e mais compromissos...sejam eles de ordem pessoal, sejam no alcance familiar e, sobretudo, comunitário?

Com maior ou menor confusão – social e noticiosa – outros párocos terão questões idênticas ou ainda muito piores. No entanto, não nos deixemos afligir pela sonoridade de quem reclama, mas pouco conhece, pois a era da cristandade parecendo ter passado, deixando, no entanto, muitos resquícios e tiques, uns assumidos e outros mais ou menos tolerados!

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)

ECCLESIA

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publicado às 03:47

O CORPO DE DEUS e os “corpos” de Cristo

por Zulmiro Sarmento, em 24.06.11

Ser dom para os outros - a Eucaristia que todos entendem...

A propósito do dia do “Corpo de Deus” que acabamos de celebrar apetece-me partilhar o significado que este dia significa para mim e os desafios que a espiritualidade deste “Mistério de Fé”, traz todos os dias à minha vida.

Não é natural em mim escrever sobre o que leio nos livros ou que investigo através de muitos meios de comunicação a que hoje temos acessos. Prefiro falar de “experiências”, dos gestos simples e práticos que uma determinada espiritualidade provoca em mim.

1- Expor-se a Deus que se expõe a nós.
De todas as festas litúrgicas, a do “Corpo de Deus” toca-me sobremaneira porque me fala do núcleo de toda a vida cristã, a Eucaristia como Sacramento de Amor e presença de Jesus Ressuscitado no meio de nós.

Na Eucaristia de cada dia, no silêncio orante e em adoração diante de um sacrário experimento a certeza de que Ele está ali, exposto a mim e me quer tocar pelo amor infinito do Seu coração e se deixarmos esta divina presença eucarística nos vai cristificando e fazendo de nós “Corpo de Cristo” para os outros. Quando reflicto na palavra de Jesus, “Eu estarei convosco até ao fim dos tempos” penso que Jesus se referia a esta presença Eucarística porque como nos lembra o Vaticano II “ela é fonte, cume, centro de toda a vida cristã…tesouro espiritual da Igreja, isto é o próprio Cristo nossa Páscoa”.

2- Eucaristia Escola de Caridade

Mas, se temos a graça de reconhecemos Cristo na fracção do Pão também Ele só nos reconhece quando partilhamos o pão com os nossos irmãos, isto é somos dom para os outros. Dar e dar-se aos irmãos sobretudo àqueles onde está mais “escondida” a presença de Jesus o “Lava-pés” não pode ser apenas um gesto litúrgico mas também uma atitude de vida “estando de joelhos” diante dos irmãos servindo e amando. Celebrar a Eucaristia, adorar Jesus Sacramentado, e não nos darmos aos outros é não ter aprendido nada deste Mistério de Fé e não proclamar a Ressurreição de Cristo com o testemunho de vida

2- Ser corpo de Cristo para outros “corpos” de Cristo

Porque este ano senti o apelo a viver esta festa no aspecto de ser eu, também, “corpo” de Cristo para os outros, a minha procissão do Corpo de Deus passou por caminhar até à casa de uma idosa com Alzheimer que vive sozinha com uma filha que, devido à doença da mãe, não pode sair de casa. Fiquei a tomar conta dela para que a filha pudesse ir á Eucaristia e à procissão onde há tantos anos já não ia. Quando chegou disse-me: “Como me senti bem na Eucaristia e na procissão”. Obrigada por me ter substituído. Senti que Jesus se tornou presente em mim com este gesto.

Fui ainda visitar uma senhora de meia-idade, que durante muitos anos se dedicou à prostituição e que hoje vive sozinha, numa casa sem condições, com 120€ de RSI e paga 75€ de renda de casa. A sua alegria por estar com ela, a sua delicadeza no trato, levou-me a “adorar” Jesus presente neste “corpo” vendido e magoado. Senti que Ele me dizia: “As meretrizes preceder-vos-ão no reino dos céus”

Na visita semanal ao Estabelecimento Prisional procurei, de modo intencional, ver o corpo de Cristo ao olhar para aqueles reclusos como, “corpos de Cristo”, reveladores de infâncias sem amor, marcados pelo sofrimento de vária ordem, que os fez fechar o coração e os punhos. Um deles disse-nos: ”Se não fosse a vossa visita semanal, a dizer-nos que Deus nos ama tal como somos, que para Ele não somos um erro, já me tinha suicidado”.

Na Eucaristia, pão partido para um mundo novo, aprendemos a deixar-nos “comer” como “corpo de Cristo”, pelos outros.

Pelo dom da nossa vida aos mais carenciados, amando, quando humanamente não há razões para amar, pelo nosso serviço, pela dádiva da vida, pela disponibilidade, pela solidariedade e sobretudo pela Caridade, aprendida na Escola da Eucaristia somos alimento para que outros vivam.

Mas atenção: Ninguém nasce sabendo amar. O amor aprende-se. E a escola do “Corpo de Deus” ensina-nos a ser pão partilhado para os “corpos de Cristo” de hoje.

Maria de Fátima Magalhães stj

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Programa político de um cidadão cristão, responsável e livre

por Zulmiro Sarmento, em 01.06.11

Não é um programa partidário, nem vai a votos. Qualquer que seja o resultado dos que vão às urnas, este será sempre um programa permanente, válido e imperioso. É o programa dos que não se resignam a ficar calados e instalados, que sentem o dever de intervir com liberdade, sem medo e não olhar a proveitos pessoais. Pontos do programa para uma sociedade livre e aberta ao bem de todos. Não são aqueles a que os partidos costumam dar maior atenção, mesmo que digam o contrário. Aí vão:


1. Respeitar e defender a pessoa humana, homem ou mulher, ou seja, cada cidadão, com a sua dignidade, direitos e deveres, capacidades e fragilidades, liberdade e alienações. Sempre em ordem à sua defesa, respeito e promoção. As pessoas são o verdadeiro património da nação. Esta empobrece sempre que se matam os nascituros. Não há cidadãos de primeira e de segunda. Não pode haver pessoas a quem tudo sobra e pessoas a quem tudo falta, gente reverenciada e gente desprezada. Toca a todos, qualquer que tenha sido o seu berço, uma igual dignidade e condição. As pessoas são mais importantes que os partidos políticos. Tudo existe em função delas.

2. Defender e promover a família. A família é fundamental para cada pessoa e para a sociedade. Ela não pode sair do horizonte atento do nosso observatório social. Chega de projectos e leis de destruição e de minimização da família, com base em ideologias estranhas e maiorias parlamentares. Quem não ama, não sabe o que é o amor e a família normal é o espaço normal do amor. As mudanças sociais e culturais obrigam à reflexão para defender valores e instituições naturais e universais, não para os aniquilar ou relativizar. A família tem vindo a ser maltratada pelo poder público e pela comunicação social. Tem sido desprotegida e minimizada em aspectos essenciais da sua vida e missão. Apoiar e defender a família é garantir o futuro do país e das pessoas e o seu necessário equilíbrio afectivo. É urgente lutar por políticas familiares sérias. Já se fez de mais em contrário, por antipolítica que não respeitou a família.

3. Dar sentido, humano e social, à actividade económica. A economia não é um fim em si mesma, nem uma actividade para beneficiar apenas alguns. Porque necessária, não deve faltar aos seus gestores, políticos ou empresariais, competência, sentido de justiça, discernimento do essencial, sentido social. Numa economia de bem comum não há lugar para luxos e supérfluos, nem para proteccionismos injustos. Sempre assim, e mais ainda em tempos de uma crise grave, injusta e penosa.

4. Dizer, sem medo, que o Governo não é o Estado. O poder de quem governa só se pode entender como serviço responsável à comunidade. Não é uma providência sem limites, que promete o que não tem e não o pode dar. Não é o dono das pessoas para as manipular e delas se servir, a seu jeito e interesse. O horizonte permanente de quem governa é o bem comum, o bem de todos, sem excepção, não de grupos ou claques partidárias. O bem de todos, segundo as possibilidades nacionais, proporciona a todos os cidadãos, mesmo aos que não o querem aproveitar, aquilo a que têm direito para viver com dignidade. E, também, de modo a que possam colaborar, à sua medida, para que todos beneficiem do mesmo, de igual modo. Aos governantes não se dispensa a lucidez sobre os objectivos para bem da comunidade, o administrar com honestidade o erário público, o acolher e fomentar a participação regulamentada da iniciativa privada, o vencer a tentação de totalitarismos e demagogias, o defender e dar exemplo claro de compromisso democrático. Respeitando e apoiando o princípio da subsidiariedade, fundamental numa sociedade realista, se valoriza a sociedade civil e se põe travão a monopólios do Estado e de outros.
5. Lutar por uma educação em que o educando é a prioridade. Educação que olha a pessoa na sua integridade, aberta aos valores morais, éticos e transcendentes, baseada em projectos educativos sérios, ministrada por educadores preparados e honestos, integradora da família, com liberdade para que esta possa intervir e optar por projectos educativos concretos. Educação que responsabilize as comunidades locais pela promoção de um ambiente propício e as autarquias pela defesa de meios adequados. Educação que seja uma preocupação permanente de quem governa. Na educação escolar, propicie-se a abertura ao mundo da cultura, da arte, do património local, das tradições sãs, do respeito, ainda que crítico, do passado, dos sentimentos e dos afectos que equilibram e enobrecem. Educar é capacitar para a valorização pessoal, convivência sadia e participação social. Educar para a necessidade de aprender até morrer, propiciando meios para que assim aconteça.

6. Defender os mais frágeis da sociedade. Há que ter sempre presente os mais pobres, as pessoas com deficiências graves, aqueles a que faltaram oportunidades para ir mais além, os imigrantes injustiçados, os sem trabalho e sem abrigo, os com menor acesso à saúde e seus cuidados, as famílias desestruturadas, vítimas desprevenidas das miragens da irresponsabilidade social e política. Neste sentido, há que promover a justiça social, fomentar o voluntariado, estimular a solidariedade e a partilha fraterna.

7. Denunciar, por todos os meios, a corrupção, os abusos do poder, os favores partidários, a promoção dos incompetentes, a sabujice dos inúteis, as arbitrariedades e o “vale tudo”, mesmo a mentira, para conseguir objectivos sonhados, mas imerecidos.

8. Fazer com que a gente de boa vontade, da Igreja e da sociedade civil, lute por um Portugal de rosto lavado, consciente da sua história, dos seus valores, da sua cultura, das suas tradições sãs, das suas responsabilidades, um país sem complexos de mais ou de menos, igual a si mesmo, com a sua originalidade e capacidades, mas, também, consciente dos seus defeitos, erros e limites.

9. Acreditar, como cristão, no valor determinante da fé comprometida, alimentada nas raízes evangélicas. Por um esforço comum, ela pode ajudar a libertar da corrupção, da mentira e da violência, uma sociedade que se deixou alienar pelo poder partidário e pela publicidade sem regras. Procurar, por coerência e convicção, que as intervenções públicas, individuais e comunitárias, respeitem e promovam a dimensão espiritual e cristã da vida, a fraternidade sincera, o primado de Deus nas consciências e no agir pessoal e social. Uma alternativa original onde cabem aqui todos os projectos sociais necessários.

10. Dirão muitos que tudo isto é utópico. É sempre esta a opinião de quem não se quer comprometer e acaba por ser vítima das suas omissões, arrastando outros consigo. A utopia é sempre caminho e inspiração para novos horizontes de vida e novos caminhos de acção. Nada mais utópico que o Evangelho de Cristo. A ele, porém, vão beber, desde há dois mil anos, todos os projectos políticos e sociais que querem servir as pessoas, ter uma vida com sentido e resistir ao tempo. A falta de utopia sadia e de alimento do poder em fontes sãs não é acaso a razão das crises sociais e morais que agora nos preocupam e atormentam? O meu programa é este e ser-lhe-ei fiel.

António Marcelino

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