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QUE «CÂNTAROS» ESTAMOS DISPOSTOS A DEIXAR PARA JESUS CRISTO ANUNCIAR? (Terceiro Domingo da Quaresma)

por Zulmiro Sarmento, em 19.03.17
 

A. Uma bela — e profunda — catequese baptismal

  1. Também hoje, Jesus continua a vir a Sicar. Também hoje, Jesus está cansado de caminhar para chegar a Sicar. Ele vem ao nosso encontro e fica sempre à nossa espera. Está na fonte aguardando pela nossa chegada. Aliás, Ele mesmo é a fonte donde jorra água para a nossa caminhada.

O cansaço de Jesus é o sinal da insistência de Jesus. Ele derruba fronteiras. Apesar de as relações dos judeus com os samaritanos não serem as mais amistosas, Ele não fica aprisionado por quaisquer barreiras. Jesus pede água com vontade de oferecer água viva. Eis, portanto, à nossa frente uma bela — e profunda — catequese baptismal.

 

  1. Recorde-se que, no Terceiro Domingo da Quaresma, os catecúmenos começam a fazer os chamados «escrutínios» em ordem ao Baptismo, na Vigília Pascal. A este propósito, é bom não esquecer que a estruturação do tempo da Quaresma, dirigida para a celebração anual da Páscoa, está também ligada à celebração do Baptismo.

Nunca é demais insistir. O Baptismo é um sacramento genuinamente pascal e a Páscoa — pode dizer-se — é um acontecimento verdadeiramente baptismal. De facto, no Baptismo existe uma «peshah», isto é, uma passagem, uma páscoa. No Baptismo, também nós passamos da morte à vida. Na Páscoa, Cristo vence a morte que é o pecado. Na Páscoa, Cristo dá a vida para que nós tenhamos vida (cf. Jo 10, 10).

 

B. Estamos sempre a ser «escrutinados»

 

3. Como se depreende da própria palavra, com os escrutínios pretende-se conferir as disposições dos que se preparam para o Baptismo. É nesse sentido que, ao longo de três domingos, a comunidade ajuda os catecúmenos a «escrutinar» a sua debilidade e, ao mesmo tempo, a sua disponibilidade para receber a vida nova de Cristo.

A finalidade destes escrutínios é, portanto, purificar os corações, conseguir um sério conhecimento de si mesmo e promover a vontade de seguir, fielmente, a Cristo. Estes escrutínios são feitos aos que são baptizados na idade adulta e às crianças em idade escolar que ainda não estão baptizadas.

 

  1. Tendo, entretanto, em conta que o Baptismo é um sacramento que tem princípio mas não tem fim, podemos depreender que estamos sempre a ser «escrutinados». Estamos sempre sob «escrutínio». Tal «escrutínio» continua a ser feito por Jesus, que, através da Sua Igreja, vem ter connosco, à Sicar das nossas vidas.

Já agora, não é claro se Sicar era uma localidade perto de Siquém ou se seria a própria Siquém. O texto simplesmente chama a atenção para um local perto da  terra que  Jacob deu a seu filho José.

 

C. Onde fica o «poço de Jacob»?

 

5. O poço-fonte de Jacob foi enquadrado dentro de várias igrejas construídas naquele lugar ao longo do tempo. Até 330, costumava ser identificado como o sítio onde Jesus conversou com a Samaritana. Provavelmente, foi utilizado para a celebração de baptismos cristãos.Por volta de 384, foi construída uma igreja cruciforme, que terá sido destruída durante as revoltas de 484 ou 529. Mais tarde, foi reconstruída por Justiniano. Esta segunda igreja ainda estava de pé em 720, e, possivelmente, no início do século IX.

É quase certo que esta nova igreja também terá entrado em ruínas pois, no início do século XII, os peregrinos mencionam o poço sem mencionar qualquer igreja. Mas, pouco tempo depois, já se refere uma outra igreja recém-construída. Esta igreja parece ter sido destruída após a vitória de Saladino sobre os cruzados em 1187.

 

  1. Em meados do século XIX, havia descrições dos «restos da antiga igreja». Os cristãos locais continuavam a venerar o lugar, mesmo quando nele não havia igreja. Em 1860, o local foi adquirido pelo Patriarcado Ortodoxo Grego e uma nova igreja, dedicada a Santa Fotina, foi edificada. Em 1927, um terramoto veio destruir o templo. Foi então que um padre ortodoxo grego liderou um ambicioso projecto de reconstrução.

O poço-fonte de Jacob já foi restaurado e uma nova igreja foi construída de acordo com o antigo plano da igreja da época dos Cruzados, abrigando o poço numa cripta. Este conjunto está situado a 76 metros de Tell Balata, na parte oriental da cidade de Nablus. 

 

D. Era preciso passar por este lugar

 

7. Como muito bem nota D. António Couto, Jesus quis mesmo passar por este lugar. De facto, não estamos perante um percurso habitual entre a Judeia e a Galileia. Quem, naquele tempo, fazia essa viagem, evitava passar pela Samaria. Primeiro, porque a estrada era montanhosa e, depois, porque eram as relações entre judeus e samaritanos estavam longe de ser as melhores.

A viagem habitual fazia-se de Jerusalém para Jericó, atravessando depois o Jordão para Oriente. Seguia-se pelo Além-Jordão, na actual Jordânia, para voltar a atravessar o Jordão, na direcção do Ocidente. Chegava-se, assim, à Galileia. É por isso que, se São João coloca Jesus a percorrer o caminho montanhoso da Samaria, é porque estamos perante uma opção deliberada. De resto, o versículo 4 deste capítulo 4 observa que «era preciso atravessar a Samaria».

 

  1. Jesus quer vir mesmo a este local, onde Se senta, à beira do poço, por volta do meio-dia (cf. Jo 4, 6). Refira-se que, já no Antigo Testamento, o poço é um cenário de noivado. Basta pensar que é junto de um poço que se trata do casamento de Isaac com Rebeca (cf. Gén 24), de Jacob com Raquel (cf. Gén 29) e de Moisés com Séfora (cff. Êx 2). Jesus vem celebrar um noivado com a humanidade sem qualquer constrangimento ou condicionalismos. Em Cristo, Deus desposa a humanidade, entregando-Se a cada pessoa numa oblação de amor total.

Tudo isto acontece ao meio-dia, quando a luz ilumina a terra com o máximo brilho. Jesus é, pois, a máxima luz para o mundo. Trata-se de uma luz que acende no mundo a Lei Nova do Amor.

 

E. Jesus «pede de beber para dar de beber»

 

9. Era preciso vir aqui porque o que aqui se passa tem uma força simbólica muito grande. Esta mulher samaritana é, segundo Santo Agostinho, figura da Igreja na sua universalidade. A Igreja não é só de um povo; é para todos os povos. É a toda a Igreja, figurada nesta mulher, que Jesus pede água para oferecer água. É a toda a Igreja, figurada nesta mulher, que Jesus «pede de beber para dar de beber» (Santo Agostinho).

«Se tu conhecesses o dom de Deus», diz Jesus (Jo 4, 10). Qual é este dom? Como Santo Agostinho percebeu, «o dom de Deus é o Espírito Santo». Aliás, o Espírito Santo começa a entrar na vida desta mulher, que vai entendendo o que Jesus lhe diz, o que Jesus lhe desvenda. Os cinco maridos que ela teve (cf. Jo 4, 18) são talvez uma alusão subtil aos cinco deuses dos samaritanos de que se fala no segundo Livro dos Reis (cf. 2 Rs 17, 24-41).

 

  1. A Samaritana vai-se apercebendo de que estas ofertas de sentido são insuficientes. Só Jesus traz a novidade plena. Só a água que Ele traz sacia completamente a nossa sede (cf. Jo 4, 13). Só Jesus traz o novo e definitivo culto, mais importante que o culto de Garizim e até do que o culto do Templo de Jerusalém (cf. Jo 4, 21). Depois de ouvir a revelação de Jesus — «sou Eu que falo contigo» (Jo 4, 26 —, a mulher deixa o que trazia — o cântaro (cf. Jo 4, 28) e vai anunciar que encontrou Jesus (cf. Jo 4, 29). E as pessoas daquela terra foram ter com Jesus (cf. Jo 4, 30).

Eis o que importa fazer: deixar os «cântaros» das nossas coisas e dizer que encontramos Jesus. Quantos não estarão à espera de um anúncio assim! Não fechemos, então, o nosso coração a Deus (cf. Sal 95, 7). Escutemos sempre a Sua voz. E a vida será bem diferente para todos nós!

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