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PRIORITÁRIO É SER «CRUCIFERÁRIO» (Quinto Domingo do Tempo Comum)

por Zulmiro Sarmento, em 06.02.17
 

A. Ser cristão é transportar a Cruz

  1. Não é só nas procissões que existe o cruciferário. Ser cristão é, essencialmente, ser cruciferário. Ser cristão é transportar a Cruz. Ser cristão é nunca abandonar quem transporta a Cruz. São Paulo tem o cuidado de dizer aos cristãos de Corinto — e, neles, a todos os cristãos — que não sabe mais nada a não ser Jesus Cristo «e Jesus Cristo crucificado» (1Cor 2, 2).

Por opção, prescinde dos argumentos da sabedoria humana (cf. 1Cor 2, 4). Quer ficar apenas com a «força de Deus» (1Cor 2, 5). O nosso problema — e, consequentemente, o problema da evangelização que fazemos — é que confiamos mais na nossa sabedoria e na nossa força do que na sabedoria e na força de Deus.

 

  1. A evangelização não deve ser feita, obviamente, com uma linguagem vulgar. Mas é possível que, muitas vezes, nos esqueçamos de que a linguagem mais vulgar é a das palavras que se presumem sábias. No fundo, o que Paulo pretende vincar é que Deus não deve ser anunciado a partir de nós, mas a partir do próprio Deus.

É claro que não é, de todo, ilegítimo chegar a Deus com as nossas forças ou com a nossa sabedoria. Mas ninguém contestará que o caminho mais transitável para Deus é o caminho que nos vem do próprio Deus.

.

 B. Afinal, a fragilidade também é sinal de vitalidade

 

3. É por isso que, como Paulo, importa que, na missão, nos apresentemos «desarmados», sem defesas e também, já agora, também sem «ataques». Não tenhamos receio da nossa fraqueza nem do nosso temor. Também Paulo não hesitou em apresentar-se «cheio de fraqueza e de temor e até a tremer» (2Cor 2, 3). Ele estava vazio de si e preenchido por Cristo. Ele sentia-se desabitado de si e já habitado por Cristo.

É a força desta fraqueza que acaba por denunciar a fraqueza de muitas forças. Tenhamos presente que, como anotou Tony Blair, «ser humano é ser frágil». E, por vezes, é quando alegamos a força que não temos que mais mostramos a fraqueza que tentamos disfarçar. A bem dizer, há mais força na fraqueza do que em muitas forças.

 

  1. Não percamos de vista a lição que, na antiguidade, nos é dada por Lao Tsé. Notava ele, como devíamos notar todos nós, que, quando nascemos, somos frágeis. É a morte que nos torna duros. Afinal e por estranho que pareça, a dureza é sinal de morte e a fragilidade é que é sinal de vida.

Tudo isto está sinalizado na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo que, muitas vezes, trazemos como ornamento, mas a que não dispensamos a devida atenção. A Cruz não é para ornamentar, mas para (nos) transformar. É na Cruz que encontramos a última — e definitiva — lição do Mestre Jesus.

 

C. É na morte que Cristo destrói a morte

 

5. Por conseguinte, não basta a Cruz trazer; é imperioso que com a Cruz nunca deixemos de aprender. É bom trazer a Cruz ao peito, mas é cada vez mais urgente alojá-la na alma e transportá-la na vida. Ao contrário do que muitos insinuam, a Cruz não é sinal de morte; a Cruz é sinal da vida que passa pela morte e vence a própria morte.

Foi na Cruz que, assumindo a morte, Jesus Cristo «destruiu a morte» (2Tim 1, 10). É que só se vence o que se assume. E o que nos falta, quase sempre, é disponibilidade para assumir. Muitas vezes, queremos atingir a meta sem passar pelo caminho. A maior lição da Cruz é que só alcança o triunfo quem enfrenta o risco do fracasso.

 

  1. Na cultura do conforto em que nos encontramos, temos uma dificuldade muito grande em olhar de frente para o supremo desconforto da Cruz. Nela está o símbolo do máximo despojamento. A Cruz é o símbolo do amor desmedido, que é o amor que nada guarda e tudo entrega.

O senso comum comina o que está representado na Cruz como estando atravessado por «loucura». É assim no nosso tempo e já era assim nos primeiros tempos. São Paulo tinha consciência de que «a linguagem da Cruz» era tida por «loucura» (cf. 1 Cor 1, 18). Mas é nessa («louca») linguagem da Cruz que ele apresenta o Evangelho.

 

D. A sábia loucura do amor vencerá a louca sabedoria do poder

 

7. Talvez nos falte um pouco desta sábia loucura para enfrentar a louca sabedoria dos donos do mundo. A louca sabedoria dos donos do mundo tem-nos conduzido à violência, à miséria e à destruição. Não será altura de dar lugar à sábia loucura do amor revelado na Cruz? A sábia loucura desse amor acabará por vencer a louca sabedoria do poder. É certo que o mundo dificilmente suportará a Cruz. Se no tempo de São Paulo, ela era vista como «loucura» («moría»), mais tarde, no tempo de São Justino, ela era encarada como sinal de «demência» («manía»).

Achava-se que um Deus poderoso não podia passar pela humilhação da Cruz. Não se tinha em conta que, com tanto afã em ressalvar o poder de Deus, acabava-se por pretender limitá-lo. Esquecia-se que o poder de Deus é tão grande que até pode assumir o que mais o contraria. Deus não abraça a Cruz por carência de ser, mas por superabundância de ser. Deus pode tanto que até pode, por amor, enviar o Seu Filho para sofrer e morrer na Cruz.

 

  1. O mais intrigante é que, numa época em que nos habituámos a tantos escândalos, parece que só nos escandalizamos com o escândalo da Cruz. É verdade que não é fácil aceitar que um instrumento de condenação possa aparecer como um sinal de salvação. Haja em vista que, na antiguidade, era frequente haver condenações à morte na Cruz entre os indianos, os assírios, os celtas, os germanos, os bretões, os numídios, os cartagineses, os gregos e os romanos.

Curiosamente, os romanos não colocavam na Cruz os seus cidadãos; só faziam isso aos estrangeiros. Por tal motivo, São Paulo, que também era cidadão romano, foi decapitado e não crucificado. A Cruz era, pois, o pior suplício que se podia fazer a alguém. Era considerada mais aviltante que o apedrejamento, a decapitação ou a condenação a ser devorado por animais.

 

E. Não deixemos a Cruz de lado e levemo-la a quem está abandonado

 

9. Além de ser uma forma de condenar à morte, a Cruz era olhada como uma condenação a um estado de desassossego depois da morte. Com efeito, eram muitos os que acreditavam que os condenados à morte na Cruz nem após a morte encontravam repouso. Levavam uma vida errante sob a forma de fantasmas. Era a humilhação mais cruel que se poderia fazer a alguém.

Não espanta, por isso, que Clóvis, rei dos francos, tenha levado muito tempo a converter-se. Quando a sua esposa, Clotilde, lhe contava a história de Cristo, ele invariavelmente retorquia que achava impossível que alguém de condição divina sofresse o que Jesus sofreu. No fundo, acontecia-lhe o que acontece a tantos de nós: olhava para Deus a partir de si e não a partir do próprio Deus revelado em Cristo.

 

  1. Olhemos, pois, para a Cruz. É da Cruz que nos vem a luz. É a Cruz que faz brilhar a mais surpreendente luz. Porque é uma luz que rebenta com todas as trevas. No Sermão da Montanha, Jesus convida-nos a sermos luz para o mundo (cf. Mt 5, 14). Só que nós não temos luz própria. Só temos luz se deixarmos Deus acender a Sua luz em nós. Nós sentimos que, hoje em dia, há muita luz que não brilha, há muita luz que se funde e que acaba por cegar.

A luz que nos chega da Cruz é a luz da doação, é a luz do coração. Pelo coração de Jesus passa todo o sofrimento do mundo para chegar a Deus. Pelo mesmo coração de Jesus passa todo o amor compassivo de Deus para chegar ao sofrimento do mundo. Não esqueçamos, portanto, que prioritário é ser cruciferário. Não deixemos a Cruz de lado. Levemo-la a quem está só e abandonado. Afinal, a Cruz continua presente na vida de tanta gente. Mas como aconteceu com Jesus, também para nós a Cruz não é o fim. A Cruz abre-nos sempre as portas para lá do fim. Para a vida sem fim!

Do blogue Paz na Verdade

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