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PREPARADOS PARA SERMOS DESASSOSSEGADOS? (Segundo Domingo da Quaresma)

por Zulmiro Sarmento, em 12.03.17
 

A. O mais vivido é (também) o mais sofrido

  1. Da Liturgia da Palavra deste segundo Domingo da Quaresma vem um convite dirigido a um discípulo de São Paulo e que acaba por ser também endereçado a cada um de nós. «Sofre comigo pelo Evangelho» (2Tim 1, 8). Eis o que foi dito a Timóteo, eis o que nunca deixa de ser dito a cada um de nós. Mas será que nós estamos dispostos a sofrer pelo Evangelho?

Muitas vezes, já pouco caso fazemos de o ouvir e de o anunciar. Que disposição teremos para sofrer por ele? Que disponibilidade teremos para sofrer com quem sofre pelo Evangelho? Na era do conforto, gostamos de tudo o que é fácil. Mas esquecemos que o mais vivido acaba por ser sempre o mais sofrido. Quem não está disposto a sofrer será que está disposto a viver?

 

  1. Acontece que não estamos sós. Estamos sempre «apoiados na força de Deus» (1Tim 1, 8). É Ele que nos salva. É Ele que nos chama a sermos santos (cf. 1Tim 1, 9): não por aquilo que nós possamos fazer, mas unicamente por Sua graça (cf. 1Tim 1, 9). Esta graça foi-nos dada pelo Filho de Deus, por Jesus Cristo. Foi Ele que, na Sua morte, destruiu a morte. Foi Ele que, na Sua morte, fez brilhar a vida (cf. 1 Tim 1, 10).

O paradoxo nunca nos deixa: nem como pessoas nem como discípulos de Cristo. É preciso dar a vida para ganhar a vida. É preciso morrer para ressuscitar. No fundo, é preciso olhar para a vida a partir de Deus e não a partir de nós. Será que estamos dispostos a deixar-nos desassossegar por Deus?

 

B. Falta-nos a ousadia de deixar antes de partir

 

3. Abraão é o primeiro grande modelo bíblico de quem se deixa desassossegar por Deus. É de Deus a voz que o manda deixar a sua terra e a sua família (cf. Gén 12, 1). Nem sequer lhe é dito para onde ir: «Parte para o país que Eu te indicar» (Gén 12, 1). O que vale é a garantia de Deus. A única segurança é a Palavra de Deus.

O nosso problema é que andamos, afanosamente, à procura de todo o género de seguranças. Falta-nos a ousadia de deixar antes de partir. Às vezes, até nos dispomos a partir, mas levando tudo o que é nosso. Esquecemos que Deus começa por pedir a Abraão que «deixe».

 

  1. Ao iniciar esta segunda semana da Quaresma, será que já nos dispusemos a «deixar» a nossa vida passada? Edmund Burke avisava que «nunca se pode construir o futuro pelo passado». Por muito importante que seja o passado — e é —, é para o futuro que caminhamos. Ou, melhor, é para o futuro que Deus nos encaminha.

A Páscoa é a celebração da vida nova, da vida que corta com muito do nosso passado. Corta sobretudo com aquele passado que nos escraviza, que nos aprisiona. A novidade da Páscoa em nós tem o nome de Baptismo e o sobrenome de Reconciliação. Quando notamos que nos perdemos da novidade do Baptismo, temos o Sacramento da Reconciliação, essa «segunda tábua de salvação depois do Baptismo». Não desperdicemos mais aquilo que Deus põe à nossa disposição.

 

C. A que monte nos quer levar Jesus?

 

5. Deixemo-nos, então, «tomar» por Jesus como por Jesus se deixaram «tomar» Pedro, Tiago e João (cf. Mt 17, 1). Também hoje, Ele quer conduzir-nos a um alto monte (cf. Mt 17, 1). Como é sabido, no universo bíblico, o monte sempre foi um local teofânico de primeira grandeza. O monte nunca deixou de ser encarado como espaço privilegiado de encontro com Deus.

O monte é o lugar de revelação por excelência (cf. Ex, 3, 1.). É lá que ocorre o dom da Lei (cf. Ex 24, 12-18) e onde se experimenta a glória de Deus (cf. Ex 24, 16). No monte, parece que o Céu toca a Terra. É por isso que o monte é sagrado (cf. Ex 3, 14), uma vez que, nele, Deus convive com o homem (cf. Ex 20, 1-17; Mc 9, 2-10).

 

  1. Ao longo das páginas bíblicas, abundam os montes sagrados, pontuando as grandes etapas da história e da fé do Povo de Deus. De facto, é para o monte que Abraão se dirige a fim de executar o sacrifício de Isaac (Gén 22,1-19). É também no monte que Moisés se encontra com Deus pela primeira vez (Ex 3,5). Após a saída do Egipto, o povo de Israel foi ao encontro de Deus no monte Sinai (Ex 19,3). Aquando do combate com os amalecitas, Moisés reza no alto do monte (Ex 17,19). É igualmente no alto do monte que Elias entra em oração (1Rs 18,42).

Não espanta, por isso, que o monte ocupe um lugar relevante na vida e na missão de Jesus. Foi no monte que, segundo São Mateus, Jesus fez o Seu sermão inaugural, conhecido precisamente como «Sermão da Montanha» (cf. Mt 5-7). Foi também no monte — num monte muito alto — que Jesus foi tentado (cf. Mt 4, 8). Era especialmente no monte que Jesus gostava de Se recolher em oração (cf. Mt 14, 23). Foi no monte que Jesus Se transfigurou (cf. Mt 17, 1ss). Foi no monte que Jesus multiplicou os pães e os peixes, mandando-os dividir pela multidão (cf. Jo 6, 3). E foi no monte que Jesus enviou os discípulos em missão (cf. Mt 28, 16-20).

 

D. A nuvem não deixa ver, mas não impede de ouvir

 

7. Jesus transfigura-Se para nos transfigurar. A Sua figura transforma-se para que toda a nossa vida se transforme. Há todo um envolvimento de Jesus com os discípulos e há todo um comprometimento dos discípulos com Jesus. Este envolvimento e este comprometimento não prescrevem nunca. Também para nós é bom estar com Jesus. Estar com Jesus transfigura a nossa vida e transforma a nossa história. Agora, já não contam os nossos planos; a partir de agora, só deve contar a vontade de Jesus.

Ele é o Messias anunciado pela Lei (figurada em Moisés) e pelos Profetas (representados por Elias). Ele é o novo Moisés, aquele que vai guiar o povo para a verdadeira libertação, não já pelas águas do Mar Vermelho, mas pelas águas do Baptismo. E Ele é o definitivo profeta, que transfigura o nosso ser e nos encaminha para a Verdade e para a Vida (cf. Jo 14, 6). Desta acção libertadora de Jesus irá nascer um novo homem e um novo povo. É com este homem e com este povo que, em Jesus, Deus vai fazer uma nova Aliança.

 

  1. Não é em vão que a voz de Deus se faz ouvir através de uma nuvem. A nuvem é o que não deixa ver ou não deixa ver bem. Acontece que se a nuvem não nos deixa ver, não nos impede de escutar. É da nuvem que o Pai fala (cf. Mt 17, 5). É na nuvem que devemos escutar o Pai que fala. Enfim, não devemos andar nas nuvens, mas é fundamental que escutemos o se diz através da nuvem.

E o que se diz através da nuvem é uma afirmação determinante para a nossa fé e para a nossa vida. Jesus é o Filho, o Filho muito amado. É, pois, o Filho que devemos escutar. É o Filho que, depois de escutar, havemos de anunciar.

 

E. O evangelizador é indissociável do Evangelho

 

9. Evangelizar é — tão-somente — fazer isto: levar a todos Jesus Cristo. Tudo o resto, embora importante, do Evangelho fica sempre distante. É prioritário não esquecer que o evangelizador é indissociável do Evangelho. É natural que o primeiro impacto do alcance da missão nos faça cair. Os três apóstolos também caíram naquele monte, aqueles três apóstolos também se assustaram (cf. Mt 17, 6).

Mas, como aconteceu com eles, também nós somos tocados por Jesus. Também de nós Jesus Se aproxima para nos levantar e ajudar a vencer o medo. Também a nós Jesus ordena: «Levantai-vos e não temais» (Mt 17, 7). Jesus vem ter connosco ao chão e estende-nos sempre a Sua mão. Ele é o nosso aconchego; por isso, não tenhamos qualquer medo.

 

  1. Com Abraão, que cada um de nós diga: «Aqui estou» (Gén 22, 1). Que cada um de nós esteja acolhedor quando Deus nos visita. Que cada um de nós esteja atento quando Deus nos fala.

Deus oferece-nos o melhor que tem: o Seu próprio Filho. Se Deus dá o melhor por nós, como é que nós não havemos de dar o melhor a Deus?

Do blogue Paz na Verdade

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