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SERÁ POSSÍVEL RESSUSCITAR A EUROPA?

por Zulmiro Sarmento, em 28.03.16

 

  1. Não tenho nenhuma competência para me juntar à torrente de discursos sobre os modos de enfrentar os actuais movimentos terroristas, quer nos seus desígnios globais, quer europeus. Destaco a lucidez do Editorial do PÚBLICO[i]:Enquanto se financiar sem limites, o terrorismo continuará a matar. É preciso secar-lhe as raízes.

 

É sempre possível dizer que as raízes do terrorismo não são financeiras e que o dinheiro, sempre à disposição, é apenas um recurso instrumental. Seja como for, as discussões sobre as suas raízes metafísicas, sociais, éticas e religiosas não podem servir para esquecer a urgência em lhe cortar as bases e os percursos financeiros. Haverá vontade firme de executar esta operação, quando os bem conhecidos circuitos do comércio de armas e de seres humanos continuam, ano após ano, à solta, a crescer e a matar?

 

Existe, na Arábia Saudita, um campo de Tendas espantosamente bem equipadas para 3 milhões de pessoas, utilizadas apenas durante 5 dias por ano, na peregrinação a Meca. Não é nenhum santuário. É uma residência. Pergunta-se: não deveriam os muçulmanos de todo o mundo serem interpelados pelo escândalo humano e religioso de verem os seus irmãos na fé terem de fugir para países pagãos, em condições miseráveis, com a morte por companhia? Que interesses estará esta situação a esconder? Poderá Alá estar de acordo com este comportamento da Arábia Saudita e satélites?

 

Não digo que a indignação e as condenações dos atentados em Paris e em Bruxelas não sejam profundamente sinceras, aliás como as condolências que chegaram de todo o lado. Pergunta inevitável: terá finalmente a Europa acordado e entendido o sentido do que lhe está a acontecer?

 

  1. Quando o Papa Francisco visitou Lampedusa, transformada num cemitério de vivos e mortos, resumiu tudo numa só palavra: vergonha! Poucos se importaram. Os interesses em jogo não podem dar ouvidos a uma sotaina argentina. Quando, diante das matanças dos cristãos, no Médio Oriente, declarou aos jornalistas que era preciso suster aquele avanço do crime, foi logo sussurrado o comentário: diz isso só para salvar a pele dos cristãos e, afinal, nem é tão pacifista como parece.

 

 Agora, a Europa, a braços com os refugiados e agredida até à morte pelo terrorismo, desencanta especialistas em ciência da religiões por todo o lado, mas recusa reanimar o projecto europeu que ainda a poderia salvar. Podem fazer as coisas mais sensatas e sofisticadas em termos de segurança. Podem e devem atacar as fontes económicas que alimentam a demência terrorista a nível mundial! Mas sem fazer da Europa, e não só, uma zona de paz e desenvolvimento inclusivista, pouco adiantam tantas lágrimas.

 

  1. Uso o termo reanimar e não ressuscitar, por escrúpulos teológicos. No Novo Testamento (NT) temos narrativas de “reanimação” de cadáveres, como, por exemplo, a de Lázaro. Temos outras de encontro com Cristo Ressuscitado, mas não há ninguém a dizer que tinha visto Jesus a sair do túmulo.

 

  1. Paulo foi muito enfático sobre o evangelho que anunciou aos Coríntios: «Transmiti-vos, em primeiro lugar, aquilo que eu mesmo recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas[ii] e depois aos Doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos só de uma vez, a maioria dos quais ainda vive, enquanto alguns já adormeceram. Posteriormente, apareceu a Tiago e, depois, a todos os apóstolos. Em último lugar, também me apareceu a mim, o abortivo. Pois sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus[iii].

 

Como dizíamos, nenhuma destas testemunhas afirma que viu Cristo a ressuscitar.

 

Aqueles que pensavam que o percurso de Jesus tinha sido sepultado para sempre, testemunharam que ele se tornou a vida das suas vidas, que ressuscitou neles uma esperança invencível, que tinham de continuar com Cristo um projecto que não pode morrer. A evidência empírica da morte não é a última palavra sobre a aventura humana. 

 

Se em Deus vivemos, nos movemos e existimos, se a nossa vida está no coração de Deus, esconde-se na nossa existência terrena o mistério que, apenas, a fé na ressurreição nos pode revelar.

 

A apologia que S. Paulo faz da fé na ressurreição dos mortos não tem nada a ver com uma atitude fideísta, um eclipse da razão, hoje muito frequente: quem acredita, acredita; quem não acredita, não acredita e pronto. A fé é uma graça e eu não recebi essa graça.

 

Mas assim o que resta? Uma confissão niilista acerca da vida humana. Faça-se o que se fizer, aconteça o que acontecer, a última palavra é a morte. O resto é só para entreter os que tiverem sorte. Por alguns anos.

 

  1. Paulo julga esta posição miserável, pois não vence a morte. Ele acredita naressurreição, que não é na reanimação de um cadáver, um regresso ao mesmo.

 

Os cristãos europeus, mulheres e homens, jovens e adultos não podem fingir que é possível reanimar o projecto europeu. Seria investir num caminho que já não leva a lado nenhum.

 

O que importa é a ressurreição da Europa. Como? Veremos

 

Frei Bento Domingues, O.P.

 

in Público 27.03.2016

 

 

[i] 24.03. 2016

[ii] Simão Pedro

[iii] 1Cor 15, 3-13

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publicado às 00:10

O QUE ESTAVA MORTO (afinal) ESTÁ VIVO (Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor)

por Zulmiro Sarmento, em 28.03.16
 

 

A. Nem a morte detém Jesus

  1. Por vezes, há coisas que não correm bem. Para Maria Madalena, então, os últimos dias tinham corrido mesmo muito mal. Naquela manhã, põe-se a caminho da sepultura. Ouvimos dizer que era «ainda escuro»(Jo 20, 1). Que melhor ambiente para chorar um morto? Afinal, escuridão atrai escuridão. Haverá maior escuridão que a morte? A escuridão da manhã daquele Domingo era como o prolongamento da escuridão da tarde de Sexta-Feira. Tudo continuava escuro. Escuro estava o tempo. Escura estava a alma. Que mais fazer senão chorar a escuridão: a escuridão da dor, a escuridão da saudade e, porventura, a escuridão do medo?

Tudo estava consumado (cf. Jo 19, 30). A pedra no sepulcro é como o ponto finalnum texto. Aquela pedra era o ponto finalnaquela vida: naquela vida que se tinhaconsumido e que a morte tinhaconsumado. Restava apenas o rasto. Mas até o rasto daquele corpo tinha desaparecido: «Tiraram o Senhor do túmulo»(Jo 20, 2). A morte é, de facto, o supremo desencontro. Como reencontrar aqueles de quem a morte nos desencontrou para sempre? Que pode haver depois do fim?

 

  1. Só que aquela morte não era o fim. Aquela morte foi o fim, mas o fim da morte como fim. A partir daquela morte, a morte deixou de ser o fim. É que, naquela noite, um novo dia amanhecera. E, naquela escuridão, uma nova luz se acendera. O chamado Evangelho de Nicodemos assegura que, «à meia-noite, um clarão de sol penetrou naquelas trevas e todos os recantos do Hades tornaram-se luminosos».

As trevas nada podiam contra aquela luz. E até a morte nada pôde contra aquela vida. Tal como a pedra do sepulcro, também as evidências são derrubadas. O que estava morto, afinal, está vivo.

 

B. Quando o homem desfaz, Deus refaz

 

3. Jesus ressuscitou, não revivesceu. A Ressurreição é novidade, não é regresso. É uma passagem para a frente, não é um passo atrás. Ressurreição não é ressuscitação. Jesus não é devolvido à vida anterior, mas entra numa vida nova. É por isso que ninguém O reconhece ao primeiro contacto (cf. Jo 20, 14). Jesus é o mesmo, mas está diferente. A Ressurreição não é dissolução, mas transformação. A Ressurreição é a novidade total. Neste sentido, compreende-se que não falte quem à Ressurreição chame «anástase» para significar precisamente a elevação de Jesus à vida plena.

É por isso que nós não evocamos alguém que já morreu; nós celebramos alguém que continua vivo. A Igreja, alicerçada na Páscoa da Ressurreição, não transporta a recordação de um ausente, mas oferece-nos a permanente celebração de uma presença.

 

  1. Nem sempre Deus está de acordo com o que os homens fazem. Em relação a Jesus, Deus desfaz — ou, melhor, refaz — o que os homens tinham feito. S. Pedro explica tudo isto com notável precisão. Jesus, «a quem deram a morte, suspendendo-O num madeiro, Deus O ressuscitou ao terceiro dia»(Act 10, 39-40). Nada — nem ninguém — faz frente a Deus. Nem a morte detém Deus. Sucede que é preciso passar pela morte para vencer a morte.

Como bem percebeu S. Gregório de Nazianzo, só é salvo o que é assumido. Em Jesus Cristo, Deus assume o que é humano para salvar o humano. E como a morte faz parte da condição humana, nem Deus, ao fazer-Se homem, quis passar ao lado da morte. Neste caso, não se trata decarência de ser, mas de superabundância de ser. Em Jesus Cristo, Deus fez Sua a nossa morte para que nós façamos nossa a Sua vida.

 

C. Volta à vida quem dá a vida

 

5. É fundamental não esquecer que a Páscoa não é só a Ressurreição. A Páscoa é a passagem da Cruz para a Ressurreição, é a passagem da morte para a vida. Aliás, há um hino deste tempo pascal que no-lo recorda com extremos de veemência: «Não há Ressurreição sem haver morte». E o próprio Ressuscitado não esconde as marcas da Cruz, instando com Tomé para que coloque o seu dedo nas Suas mãos (cf. Jo 20, 27).

Não é, pois, incorrecto falar, com Jurgen Moltmann, da «Ressurreição do Crucificado» nem da «Cruz do Ressuscitado». No fundo, a Ressurreição é a validação e o reconhecimento de toda a trajectória do Crucificado.

 

  1. A Visita Pascal, esse costume tão belamente arreigado na alma do povo, ilustra esta verdade profunda. Na Visita Pascal, anunciamos a Ressurreição transportando o Crucificado. Não é só por causa da extrema dificuldade em figurar um corpo ressuscitado. Tem todo o sentido transportar a Cruz em dia de Páscoa porque o que ressuscita é o mesmo que morre; o que volta à vida é o mesmo que dá a vida; se não morresse não ressuscitaria; o grão de trigo, para dar fruto, tem de morrer (cf. Jo 12, 24).

Acresce que o mistério de Cristo é sempre global, pelo que não se pode segmentar ou fracturar. Jesus integra a glória no sofrimento e eleva o sofrimento à glória. Ao entrar na nossa casa como ressuscitado, Jesus aparece na Cruz como que a dizer aos crucificados pelo sofrimento que está com eles. Jesus continua ao lado dos que choram, dos que sofrem. Eis, por conseguinte, a maior fonte de esperança para cada um de nós: Jesus sofre connosco, nós venceremos o sofrimento com Ele. Com Ele, nós venceremos o sofrimento e a própria morte. Não há nenhum motivo para cair no desespero. Temos todos os motivos para fortalecer a esperança.

 

D. Viver? Só com Cristo!

 

7. Os pés devem continuar na Terra, mas os olhos hão-de estar sempre dirigidos para o Céu. A Páscoa não aliena, responsabiliza. S. Paulo é muito claro: «Uma vez que ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto»(Col 3, 1). Pelo Baptismo, morremos com Cristo. Pelo Baptismo, ressuscitamos em Cristo.

Uma vida pascal é uma vida com Cristo. Não faz sentido viver sem Cristo: a nossa vida passou a ser Cristo (cf. Col 3, 4). É Cristo que vive em nós (cf. Gál 2, 20). A nossa autonomia não é afectada. Trata-se de uma autonomia «cristónoma». Como é que Cristo poderia afectar a nossa liberdade se foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou (cf. Gál 5, 1)? Pelo Seu exemplo, Ele mostrou que a verdadeira liberdade não consiste em ter, mas em dar. A liberdade suprema, que Cristo corporizou, consiste em dar tudo, em dar a vida (cf. Jo 10, 10).

 

  1. Cristo está vivo na nossa vida e nós só estamos vivos na vida de Cristo. Ele permanece vivo na Palavra e no Pão. Tal como aconteceu aos discípulos acabrunhados a caminho de Emaús, também nós, hoje, reconhecemos Cristo ao partir do pão, isto é, na Eucaristia (cf. Lc 24, 31). É por isso que a Eucaristia é, por excelência, o «mistério da fé».

Na Eucaristia, com efeito, anunciamos a Morte de Jesus e proclamamos a Ressurreição de Jesus. Trata-se, portanto, de um sacramento eminentemente pascal. Mas Jesus também permanece vivo na missão, no nosso testemunho ao longo da missão. Como Pedro e os apóstolos da primeira hora, também nós somos chamados a ser testemunhas de que Cristo está vivo. O testemunho é o melhor certificado de que Cristo está vivo na nossa vida e na vida do mundo. Muitos são os que dão a vida por causa de «um certo Jesus que morreu» e que nós testemunhamos «estar vivo» (Act 25, 19).

 

E. Afinal, dos fracos também reza a história

 

9. É esta a vida que nos traz vivos. É esta a vida que vale a pena anunciar a todos os vivos. É esta a vida que irradia desde aquele dia que o Senhor fez (cf. Sal 118, 24). Trata-se de um dia sem fim, de um dia que não escurece, de uma manhã que não anoitece. Temos, por isso, todas as razões para nos alegrar e cantar. O Aleluia é o cântico típico da Páscoa, pois verbaliza o louvor pela maior obra do Senhor.

A Páscoa já chegou e não apenas hoje. A Páscoa já chegou há muito tempo. A Páscoa chegou até nós para que nós cheguemos à Páscoa. A Páscoa está no tempo para que esteja sempre na nossa vida.

 

  1. A Páscoa é o silêncio que fala, a escuridão que brilha, a lágrima que sorri, o fim que (re)começa. Afinal, o inesperado vence o inevitável. Nós não tínhamos percebido que consumado não é o mesmo que terminado. Jesus tinha consumado a missão, mas não deu por terminada a presença. Foi do lugar da morte que Jesus regressou ao encontro dos vivos (cf. Jo 20, 15). Do máximo fracasso irrompe, assim, o máximo triunfo. O vencido desperta como vencedor.

Como reconheceu Tomas Halik, a Páscoa é «a vitória mediante a derrota». A vida renasce da morte. A luz reacende-se nas trevas. O dia acorda na noite. O sorriso é sulcado no pranto. Um novo começo se levanta após o fim. É do fundo que se sobe. É de baixo que se cresce. Dos fracos também reza a história. É na maior fraqueza que se manifesta a maior força (cf. 2Cor 12, 9). A Páscoa é a vitória do vencido. A Ressurreição põe a descoberto o que na morte jazia encoberto. Só quem desce às profundezas consegue atingir as alturas. Jesus ressuscitado volta a percorrer os nossos passos (Lc 24, 23-35) para que nós possamos prosseguir o Seu caminho. É por isso que os passos de uma vida pascal nunca serão simplesmente passos. Serão passos sempre em «compasso». Em «compasso» com Deus em direcção à humanidade. E em «compasso» com a humanidade em direcção a Deus!

Do blogue THEOSFERA

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A PÁSCOA DO ESCRAVO

por Zulmiro Sarmento, em 21.03.16

 

 

  1. Graças a Deus, há sempre algum amigo que se julga encarregado de me chamar à “realidade”. Convidado para umas mini férias na Semana Santa, observei que, para mim, não era a melhor altura. O amigo não me largou sem uma viagem pela sua visão do mundo, em forma de sermão, que passo a resumir: isto já não vai com cerimónias, nem com as da Páscoa, nem com as outras. Estamos cercados de guerras por todos os lados e sem qualquer proposta para enfrentar a desordem mundial em que estamos mergulhados. A paixão pela dominação económica e financeira não recua diante de nada. O apelo aos direitos humanos tornou-se uma invocação de rotina.

A chamada UE já não sabe para que nasceu. A promovida divisão entre a Europa rica e a Europa pobre - divisão reproduzida também dentro de cada país – fabricou a burocracia que esvaziou o seu desígnio primeiro. Esquecida da responsabilidade solidária, parece que nenhuma refundação a poderá salvar. Continuaremos na dúvida se vale a pena discutir a dívida.

Por outro lado, com a recusa, ao longo do tempo, em resolver o conflito israelo-palestino, sucederam-se, no Médio Oriente, loucas intervenções norte-americanas e europeias. O Ocidente, de alma vazia, confrontado com as estratégias terroristas de poder político-religioso (daesh), discute na Europa, a partilha dos refugiados. Nos Estados Unidos e no norte europeu crescem os desejos de muralhas salvadoras.

Agradeci este rápido percurso. Observei que, perante ameaças de guerra ou de catástrofes, nunca há dinheiro para as soluções razoáveis e baratas. Surgem sempre financiadores da estupidez desumanizante e nunca faltarão propostas de negócio depois do desastre. O sofrimento humano não conta e os mortos não se queixam.

  1. Ao contrário do que pensa este amigo, não existem apenas celebrações vazias, onde não acontece nada, que se esgotam na encenação do seu teatro mais ou menos cuidado. Não é decisivo saber se tudo se passou, do ponto de vista histórico, como vem narrada, nos Evangelhos, a Paixão de Jesus Cristo.

 Recorde-se que, no povo judeu palestino, desde os finais do séc. I a. C até ao séc. II d. C., surgiram diversos movimentos libertadores, directamente políticos ou proféticos. Eram, por isso, variadas as figuras messiânicas: chefe político libertador, em geral de ascendência de David; um profeta proclamando a vontade de Deus e actuando com sinais específicos ou, ainda, a de sacerdote à frente da nova e definitiva comunidade teocrática, com Deus como único soberano.

Segundo as circunstâncias e no meio de tantas propostas polémicas, é normal que os judeus que reconheceram em Jesus de Nazaré o Messias tivessem o cuidado de reconfigurar a originalidade de Jesus como Cristo, como Messias[i].

A celebração da Eucaristia estava enquadrada numa nova forma de entender e praticar a vida cristã, nas suas diferentes comunidades, como se pode ver na narrativa dos Discípulos de Emaús[ii].

Não era apenas, nem sobretudo, a reprodução de uma cerimónia estereotipada. S. Paulo, que apresenta a narrativa mais completa da Ceia do Senhor[iii], fez também o protesto mais acutilante contra a prática de descriminação social na celebração da Eucaristia, que ele próprio recebeu e transmitiu à comunidade de Corinto.

As comunidades joaninas celebravam, como todas as outras, a Ceia do Senhor em termos muito próximos da narrativa transmitida por S. Paulo. No entanto, no 4º Evangelho, a Ceia termina com o gesto que exprime a transformação que a Eucaristia semanal deve produzir nos seus participantes: a prontidão para o serviço[iv]. Quando se diz: fazei isto em memória de Mim, com o Lava-pés afirma-se que a memória da Igreja terá de ser, no futuro, a reinvenção desta prática e não apenas uma colecção de ritos. Daí a discussão com Pedro, que não estava a gostar nada do programa incluído no gesto despropositado do Mestre. Ao referir apenas o Lava-pés dos discípulos, enuncia-se a lei geral do Cristianismo: a árvore conhece-se pelos frutos.

  1. Diz-se que o Papa alterou o ritual da 5ª feira Santa: as mulheres já podem ser incluídas na cerimónia do lava-pés. É uma forma miserável de anestesiar e reduzir o sentido da intervenção do Papa. A alteração que o seu gesto visa provocar não é de tipo ritual, mas de acção transformadora. Pertence ao seu programa de ver o mundo a partir dos excluídos. Levar o centro às periferias.

O Papa Francisco compreendeu que era preciso pôr a Igreja a mexer, como Maria Julieta Mendes Dias e António Marujo intitularam o 4º volume da selecção das minhas crónicas[v], cuja realização só tem sido possível pela sua grande competência e extraordinária dedicação. Recolheram muitos anos da hospitalidade do Público e de esforço empenhado de Guilhermina Gomes.

O gesto chocante de Jesus, próprio de um escravo, tinha sido neutralizado pelo ritual. O Papa Francisco restituiu-lhe a força de interpelação. Ao questionar a sua solenidade aos pés de gente, aparentemente, pouco recomendável, fez dele a bússola da Igreja.

Frei Bento Domingues, O.P.

in Público 20.03.2016

 

[i] Senén Vidal, Evagelio y cartas de Juan, Mensajero, Bilbao, 2013;  Daniel Boyarin Le Christ juif, Cerf, 2007; Cadernos ISTA, Messianismo: ontem e hoje, nº 14, 2002

[ii] Lc 24, 13-35

[iii] 1Cor. 11,17-29 

[iv] Jo. 13

[v] Frei Bento Domingues, O.P., Francisco o Papa que põe a Igreja a mexer, Temas e Debates, 2016

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publicado às 10:20

HOJE É DIA DE PARAR — E REPARAR — NA CRUZ! (Domingo de Ramos na Paixão do Senhor)

por Zulmiro Sarmento, em 20.03.16
 

A. Senhor de todos os passos

 

1. De Betânia para Jerusalém. Da Páscoa antiga para a Páscoa nova. Da casa para a cidade e da cidade para uma outra casa. Da mesa para a rua e da rua para uma outra mesa. Desta outra mesa para o monte. Da refeição para a oração. Do dia para a noite. Da luz para as trevas. Da negação para a traição. Do Getsémani para o tribunal. Da prisão para o julgamento. Da acusação para a agressão. Da ofensa para a sentença. Da multidão para a solidão. Da presença para o abandono. Da tortura para a humilhação. Do pretório para o Gólgota. Da flagelação para a Cruz. Da vida para a morte. Do baixo para o alto. Do alto para baixo. Da Cruz para a sepultura. Do cúmulo para o túmulo. De ontem para hoje.

 

2. Eis os passos que já passaram. Eis os passos que ainda estão a passar. Eis os passos que nunca passam. No fundo, este é o verdadeiro dia de Nosso Senhor dos Passos: de todos os passos, dos Seus passos, dos nossos passos, dos passos que deu há dois mil anos, dos passos que dá connosco hoje. Foi por nós que Jesus subiu à Cruz e desceu ao túmulo. E só no túmulo parou todo aquele cúmulo de amor. Ou, melhor, nem no túmulo parou todo aquele cúmulo de amor.

 

B. A Cruz não ficou em Jerusalém

 

3. Nós é que devemos parar — e reparar — diante da Cruz. Este é o dia de parar na Cruz. Este é o dia de parar para reparar na Cruz. Este é o dia de parar para reparar nos passos que conduziram à Cruz. E este há-de ser o dia para começar a reparar os nossos passos que nem sempre estão em sintonia com o testemunho que nos vem da Cruz. A Cruz não tem só passado. A Cruz também tem presente. A Cruz também subsiste no presente.

 

4. A Ressurreição não constitui a eliminação da Cruz, mas a revelação do significado — e do alcance — da Cruz. O que ressuscitou mantém as marcas da Cruz, como faz questão de mostrar a Tomé (cf. Jo 20, 27). É como se nos estivesse a dizer que só se chega à Ressurreição pelo caminho da Cruz. Só volta à vida quem dá a vida, quem se dá na vida. É por isso que a Cruz não ficou em Jerusalém, a Cruz está espalhada pelo mundo. Jesus continua a carregar a Cruz em tantos que vão carregando a Cruz. A Cruz continua a ser carregada nos hospitais e nas prisões. A Cruz continua a ser carregada em camas abandonadas de tantas casas isoladas. A Cruz continua a ser carregada por tanta gente sem pão, sem trabalho e sem saúde. A Cruz continua a ser carregada por tantos que sofrem as dores da injustiça e da opressão. A Cruz continua a ser carregada por tantos que são esquecidos e maltratados.

 

C. A Cruz está sempre a passar

 

5. Jesus continua a ser crucificado em tantos que crucificamos. O que fazemos a eles é o que fazemos a Ele (cf. Mt 25, 40). O que não fazemos a eles é o que deixamos de fazer a Ele (cf. Mt 25, 45). Nunca esqueçamos que a Cruz tem umaactualização sacramental, na Eucaristia, e uma permanente actualização existencial, na vida de tantas pessoas. A Cruz não passou, a Cruz está sempre a passar. Será lícito votar-Lhe ausência ou indiferença? Se Jesus é diferente, como continuar a ser indiferente?

 

6. A esta semana os antigos chamavam «semana pascal». E, com efeito, esta é uma semana pascal: não só porque é a semana que nos conduz à celebração da Páscoa, mas também porque nos convida a «passar» de uma vida centrada em nós a uma vida centrada em Deus e nos irmãos. A antiga liturgia de Milão dava a esta semana o nome de «semana autêntica» por ser a semana que assinala os verdadeiros «trabalhos de Jesus». E não há dúvida de que, nos «trabalhos» derradeiros como em toda a Sua vida, Jesus recusa tudo o que é falso, mentiroso ou apenas aparente. Jesus vive — e morre — para dar testemunho da verdade (cf. Jo 18, 37). Não admira, portanto, que os cristãos olhassem, desde cedo, para esta semana como uma «semana santa», uma «semana grande» e uma «semana maior». Tudo o que nela acontece é santo, é grande, é maior. Trata-se, por isso, de uma semana que não se esgota em sete dias. A «semana maior» é, pois, uma «semana grande» e há-de tornar-se uma semana sem termo. Nela ocorrem os acontecimentos que mudaram a história e que hão-de mudar a nossa vida. Podemos dizer que esta é também a «semana primeira» que inaugura os tempos últimos, os tempos definitivos em que vivemos.

 

D. Paz, até na violência

 

7. No Domingo de Ramos, não procuramos apenas recordar a entrada solene de Jesus em Jerusalém. Procuramos sobretudo dar testemunho público da nossa fé em Jesus Cristo, morto e ressuscitado. Já agora, refira-se que este Domingo também chegou a ser conhecido como «Capitulavium», que significa «lavagem das cabeças». É que, neste dia, os que iam ser baptizados na Vigília Pascal, no sábado seguinte, lavavam solenemente a cabeça numa cerimónia pública. Em Jerusalém, a Procissão dos Ramos começava pelas 13 horas, no Monte das Oliveiras. Cantavam-se hinos e salmos, e faziam-se leituras da Sagrada Escritura. Pelas 17 horas, era lido o Evangelho que descreve a entrada de Jesus em Jerusalém. Nessa altura, todos, com ramos de oliveira e palmeira, saíam em direcção à cidade, cantando e rezando.

 

8. Nós também chegámos aqui com ramos e vamos sair daqui com a Cruz, procurando plantá-la na nossa vida e implantá-la no nosso mundo. É enorme a lição que vem da Cruz. Tanta dor e tanta paz perante a dor. Jesus recusa sempre responder à violência com violência. Até à violência, até à violência mais injusta, Jesus responde com a mansidão, com a paz. Trata-se, obviamente, de uma paz sentida, de uma paz sofrida, mas, mesmo assim, é paz. O que mais comove, em todo este relato, é a paz que Jesus mantém até ao fim, é a dignidade que Jesus conserva até para lá do próprio fim.

 

E. Vida, até na morte

 

9. Tudo parece escurecer na Cruz. Até Deus parece ocultar-Se como se depreende do grito de Jesus (cf. Mc 15, 34). Até Jesus Se sente abandonado. E, não obstante, tudo brilha na escuridão da Cruz. É esta morte que faz luz sobre esta vida. Até um estranho reconhece que, afinal, Deus está na Cruz (cf. Mc 15, 39). O que — de certo modo — estava velado em vida parece desvelar-se completamente na morte.

 

10. No fundo, é quando parece que tudo acaba que tudo verdadeiramente começa. A morte de Jesus é uma morte «morticida», uma morte que mata a morte. Já não vivemos para morrer; morremos para viver. A morte já não é termo, mas passagem. Já não é fim, mas trânsito. Já não é conclusão, mas viragem. Já não é despedida, mas recomeço. A evidência mostra que a vida conduz à morte, mas a fé assegura que, em Cristo, até a morte nos reconduz à vida. Em Cristo, até a morte está cheia de vida!

Do blogue THEOSFERA

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publicado às 11:12

SÃO OS OUTROS QUE NÃO ESTÃO LIMPOS OU NÃO SEREMOS NÓS QUE ESTAMOS SUJOS? (Quinto Domingo da Quaresma)

por Zulmiro Sarmento, em 15.03.16
 

A. Um combate sem fim

  1. Olhando para a nossa vida e — ainda mais — para o nosso mundo, parece que assistimos a um combate sem tréguas entre a severidade e a compaixão, entre a intolerância e a clemência, entre o juízo e a misericórdia. E se já é desolador assistir a este combate, muito mais aflitivo é conhecer o seu habitual desfecho.

De facto, o que neste mundo parece triunfar é a severidade e não a compaixão, a intolerância e não a clemência, o juízo e a não a misericórdia. Para nosso mal, não parece haver grande futuro para o bem.

 

  1. Ainda bem, porém, que Deus não pensa assim e que Deus não age assim. Para Deus, só não haverá misericórdia para quem não usar de misericórdia (cf. Tgo 2, 13). Para Deus, só não haverá misericórdia para quem não procurar a misericórdia. No fundo, para Deus, só não haverá misericórdia para quem recusar a misericórdia.

É que, para Deus, a misericórdia triunfa sempre e triunfa sobre tudo. Até sobre o juízo a misericórdia triunfa (cf. Tgo 2, 13). Para Deus, a misericórdia é mais forte que o juízo. Para Deus, a misericórdia é o critério para tudo, inclusivamente para o juízo. O próprio juízo de Deus é alimentado pela misericórdia. O próprio juízo de Deus é cheio de misericórdia.

 

B. Quem nunca falha?

 

3. O episódio que o Evangelho deste Domingo nos apresenta é um confronto entre a mera justiça e a misericórdia. Trata-se de um combate entre uma justiça sem misericórdia e uma justiça habitada pela misericórdia.

É preciso ter presente que Jesus não é contra a Lei, nem Se apresenta como um sem-Lei. Só que Jesus vê mais fundo e chega mais longe. Para Jesus, a Lei, sendo importante, não é um absoluto. E, afinal, quem pode garantir que cumpre sempre a Lei? Quem pode garantir que cumpre integralmente todas as leis?

 

  1. O que Jesus questiona, com suma pertinência, é a presunção dos que se julgam em condições de denunciar quem viola a Lei. Quem nunca falha? Quem nunca erra? Por conseguinte, quem tem autoridade para apontar o dedo acusador? O próprio Jesus, no Sermão da Montanha, já tinha verberado a atitude dos que olham para o argueiro que cobre a vista dos outros sem reparar na trave que encobre a sua (cf. Mt 7, 4).

Assim sendo, que cada um comece por limpar os seus olhos (cf. Mt 7, 5) e só depois estará em condições para ver o eventual cisco que está sobre os olhos dos outros. Nesse caso, até poderá acontecer que chegue à conclusão de que o cisco que parecia estar sobre os olhos dos outros estava, sim, sobre os seus próprios olhos.

 

C. O fogo começa a arder em quem o ateia

 

5. Muitas vezes, não é a vida dos outros que não está limpa. Muitas vezes, são os nossos olhos que estão sujos. Um dedo pronto para acusar esconde, quase sempre, uma vida que deixa muito a desejar. Habitualmente, uma vida suja procura sujar a vida dos outros. O sujo não descansa enquanto não suja. Frequentemente, o que se pretende não é acabar com o mal, é acabar com os outros de quem se suspeita mal.

É por isso que batemos nos outros com a verdade e, ainda mais, com a própria mentira. Há quem, além de não ter misericórdia, também não tenha escrúpulos. A delação dá, quase sempre, cobertura à corrupção.

 

  1. Honra seja feita a estes delatores porque não se encolheram sob o anonimato. Deram a cara quando denunciaram esta mulher. Foram impiedosos, mas ao menos foram frontais. Pior, muito pior é a conduta dos que repetidamente se encobrem sob o manto do anonimato e nem sequer dão oportunidade para que os (por eles) visados se possam defender.

Há quem diga que «onde há fumo, há fogo». É preciso, contudo, ver de onde vem o fogo. O fogo começa a arder em quem o ateia. Antes de arder na terra, o fogo começa a arder em quem incendeia a terra. Às vezes, o fogo não está na vida dos acusados, mas na vida de quem acusa. O mecanismo da projecção leva a que alguns atribuam a outros aquilo que só eles são capazes de fazer. Muito cuidado, pois, com o que se diz: com que se diz em privado e com o que diz em público.

 

D. Todos eram pecadores, mas só uma pecadora se mostrou arrependida

 

7. A honra de uma pessoa é sagrada, pelo que a difamação e a calúnia são atentados muito graves. Falemos com as pessoas e evitemos falar das pessoas. Quando houver motivo, falemos às pessoas das suas falhas e não falemos das falhas das pessoas.

Se repararmos, não foi apenas esta mulher que era adúltera (cf. Jo 8, 3). Os que a acusavam não eram menos adúlteros. Esta mulher adulterou os seus deveres de esposa, mas os seus acusadores adulteraram o sentido da justiça. No fundo, o que eles pretendiam era usar a Lei — e a mulher que infringiu a Lei — para enrascar Jesus, para montar uma cilada a Jesus. No seu entendimento, Jesus iria sair-Se sempre mal deste debate. Se não reconhecesse o mal praticado pela mulher, diriam que Jesus não respeitava a Lei. Se mandasse liminarmente cumprir a Lei, alegariam que, afinal, Jesus não era tão misericordioso como parecia.

 

  1. Acontece que Jesus não fez o que aqueles homens esperavam: nem passou por cima do mal que a pessoa tinha cometido nem passou por cima da pessoa que tinha cometido o mal. Quando Jesus diz à mulher que não a condenava, não diz que ela tinha procedido bem. Pelo contrário, deixa bem claro que ela tinha procedido mal. Por isso, apela: «Não voltes a pecar» (Jo 8, 11). Isto significa que Jesus reconhece que aquela mulher tinha pecado. O que Jesus não admite é que alguém se sinta com autoridade para condenar o pecador. O que nós somos chamados a confessar é o nosso pecado, não o pecado dos outros.

A denúncia pode ser importante, mas a delação é sempre injustificada. A delação nunca conduz à conversão. A delação só conduz à desconfiança, à perversão. Neste episódio, não havia ninguém que não tivesse pecado. Quando Jesus convidou os que não tinham pecado a atirar a primeira pedra, todos se retiraram (cf. Jo 8, 7-9). Afinal, todos eram pecadores. Era bom, por isso, que aqueles que apontam os pecados dos outros se retirassem também. E se convertessem. Foi o que faltou a estes homens: converter-se

 

E. Deus está à nossa espera, como a Primavera

 

9. Depois de Jesus acabar de escrever — diga-se que é a única vez em que Jesus escreveu alguma coisa — (cf. Jo 8, 8), notou que só a mulher estava à sua frente. Afinal, só ela estava disponível para receber a misericórdia. Já os que a acusaram — e que, no fundo, também reconheceram ser pecadores — recusaram-se a receber a misericórdia que Jesus também tinha para lhes oferecer. Hoje em dia, continua a haver muita gente a dizer que não peca. Pudera. Como passam a vida a reparar nas falhas dos outros, nem tempo têm para reparar nas suas próprias fraquezas. Só que, deste modo, perdem sucessivas oportunidades de mudar, de melhorar.

Por conseguinte, sejamos indulgentes para com os outros e exigentes para connosco. E não nos esqueçamos de começar por nós a mudança que gostaríamos de ver à volta de nós. A melhor maneira de contribuir para a mudança dos outros é mudando-nos a nós mesmos.

 

  1. Não espanta que alguns manuscritos antigos do Evangelho de S. João tenham omitido este episódio. Afinal, é sumamente espantoso que Deus seja assim, maravilhoso. De facto, Deus é maravilhoso na Sua misericórdia e também na maneira como nos convence de que todos precisamos da Sua misericórdia. Não tenhamos medo de nos ajoelhar diante de Deus. Não tenhamos medo de implorar a Sua misericórdia e de pedir o Seu perdão. O que Jesus diz à pecadora diz também a cada um de nós, pecadores: «Eu não te condeno. Vai e, doravante, não tornes a pecar» (Jo 8, 11). Jesus não nos condena. Jesus faz tudo para que ninguém se condene. Que o nosso coração beba sempre do Seu perdão.

Não esqueçamos jamais que o primeiro cristão a entrar no céu foi um ladrão (cf. Lc 23, 43). Ninguém está excluído da proposta. Ninguém se deve sentir demitido de uma resposta. A salvação não é para quem nunca falha, até porque todos nós falhamos. A salvação é para quem está disposto a sempre recomeçar mesmo depois de muito falhar. Deus está à nossa espera, como o está a Primavera. A Sua misericórdia está sempre a vir para que na nossa vida possa florir!

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publicado às 11:37

Pe. Ronchi: Jesus não é moralista, somos nós que moralizamos o Evangelho.

por Zulmiro Sarmento, em 11.03.16

 

– “Jesus não é um moralista. Somos nós que moralizamos o Evangelho.” Foi o que disse, na tarde desta terça-feira (08/03), o Pe. Ermes Ronchi na quinta meditação dos Exercícios espirituais para o Papa Francisco e a Cúria Romana, em andamento na Casa ‘Divino Mestre’, em Ariccia.

No Dia Internacional da Mulher o religioso recordou que no Evangelho muitas mulheres seguiam e serviam Jesus, lamentando a presença somente de homens no encontro.

“O Evangelho não é moralista”, sublinhou Pe. Ronchi partindo da passagem do Evangelho em que Jesus que tinha sido convidado à  casa de Simão, o fariseu, rompe toda convenção e deixa que uma mulher, por todos considerada pecadora, chore aos seus pés, os enxugue com os seus cabelos, beijando-os e ungindo-os com óleo perfumado. Diante desta surpresa de Simão, Jesus adverte: “Olha esta mulher”, de pecadora se torna “a perdoada que tanto amou”.

“No jantar na casa de Simão, o fariseu, começa um conflito surpreendente: o pio e a prostituta; o potente e a sem nome, a lei e o perfume, a regra e o amor em confronto. O erro de Simão foi o olhar que julga.”
“Jesus durante toda a vida ensinará o olhar que não julga, que inclui, o olhar misericordioso”.

“Simão coloca no centro da relação entre homem e Deus o pecado, o faz o eixo da religião”.

“É o erro dos moralistas de todas as épocas, dos fariseus de sempre. Jesus não é moralista. Coloca no centro a pessoa com suas lágrimas e sorrisos, a sua carne dolorida ou exultante, e não a lei.”

“No Evangelho encontramos com mais frequência a palavra pobre do que a palavra pecador”, disse Pe. Ronchi.
“Adão é pobre antes que pecador; somos frágeis e custódios de lágrimas, prisioneiros de mil limites, antes que culpados. Somos nós que moralizamos o Evangelho”.

“No princípio não era assim: Pe. Vannucci diz isso muito bem. O Evangelho não é uma moral, mas uma libertação que abala e nos leva para fora do paradigma do pecado para nos conduzir para dentro do paradigma da plenitude, da vida em plenitude”.

Simão, o moralista, olha o passado da mulher, vê “uma história de transgressões”, “enquanto Jesus”, explicou Pe. Ronchi, “vê o muito amor de hoje e de amanhã”.

“Jesus não ignora quem é, não faz de conta de não saber, mas a acolhe com as suas feridas e sobretudo com a sua centelha de luz, que Ele faz brotar”.

“No centro da cena deveria estar Simão pio e potente, e ao invés, o centro é ocupado pela mulher”.

“Somente Jesus é capaz de fazer esta mudança de perspectiva, de dar espaço aos últimos. Jesus muda o foco, o ponto de vista do pecado da mulher às faltas de Simão, o desestrutura, o coloca em dificuldade como fará com os acusadores da adúltera no templo”.

“Se Jesus perguntasse também a mim”, disse sorrindo Pe. Ronchi, “você vê esta mulher? Eu deveria responder: Não Senhor, aqui vejo somente homens”.

“Não é muito normal este reconhecer. Devemos tomar nota de um vazio que não corresponde à realidade da humanidade e da Igreja.”

“Não era assim no Evangelho” onde muitas mulheres seguiam e serviam Jesus, mas “no nosso séquito não as vejo”, disse Pe. Ronchi.

“O que nos faz tanto medo que temos de tomar distâncias desta mulher e das outras? Jesus era soberanamente indiferente ao passado de uma pessoa, ao gênero de uma pessoa, não raciocina nunca por categorias ou estereótipos. Penso que também o Espírito Santo distribua os seus dons sem olhar para o gênero das pessoas.”

Jesus, marcado por aquela mulher que o comoveu, não a esquece: Na última ceia repetirá o gesto da pecadora desconhecida e apaixonada, lavará os pés de seus discípulos e os enxugará”.
“O homem quando ama realiza gestos divinos, Deus quando ama realiza gestos humanos, e o faz com coração de carne”.

“É muito fácil para nós quando somos confessores não ver as pessoas, com as suas necessidades e suas lágrimas, mas ver a norma aplicada ou infringida. Generalizar, colocar as pessoas dentro de uma categoria, classificar. Assim, alimentamos a dureza do coração, a esclerocardia, doença que Jesus mais temia. Tornamo-nos burocratas das regras e analfabetos do coração. Não encontramos a vida, mas somente o nosso preconceito.”

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publicado às 12:21

ESTA QUARESMA COMEÇOU BEM (2)

por Zulmiro Sarmento, em 07.03.16

 

 
1. Há 25 anos, a convite do Centro Bartolomé de Las Casas, de Cusco, participei num congresso internacional sobre modelos de Inculturação e Modernidade, realizado na cidade do México. Samuel Ruiz Garcia, bispo de San Cristobal de las Casas, estava hospedado no convento dominicano onde também eu tinha sido fraternalmente acolhido. Pude conversar longamente com esta figura do catolicismo mexicano que, na altura, já andava nas bocas do mundo, vigiado pelo Governo e pelo Vaticano. Contou-me que tinha sido um padre muito conservador. O contacto com a vida terrível e humilhada dos índios de Chiapas, a participação no Vaticano II e na conferência de Medellin (Colômbia), mostraram-lhe que o caminho do catolicismo era o da incarnação nas culturas nativas. Daí brotou a teologia indigenista que se prolongou na teologia da libertação.

Participei, então, com representações de várias dioceses, numa fervorosa romagem ao Santuário da Virgem de Guadalupe, presidida pelo referido bispo, de protesto contra a prisão de um padre responsável pela nova orientação pastoral indigenista[i].

Voltei a encontrar o bispo Samuel no meio do seu povo, onde se anunciava a guerra na qual ele desempenhou um papel de mediador, evitando um genocídio. Gostei de ver o Papa Francisco a rezar junto ao seu túmulo.

2. Na visita pastoral ao México, o Papa foi extremamente duro com os exploradores da população pobre, sobretudo com os narcotraficantes. Mas ao fazer o balanço da viagem com os jornalistas, foi enfático: Quero dizer uma coisa, uma coisa justa, sobre o povo mexicano. Tem uma cultura… milenária. Sabeis que hoje, no México, se falam 65 línguas, contando as indígenas? É um povo duma grande fé, também sofreu perseguições religiosas, existem mártires: irei canonizar dois ou três.

(…) O «povo» não é uma categoria lógica; é uma categoria mística. Como conseguiu este povo não falir, com tantas guerras? E as coisas que sucedem agora... Um povo que ainda tem esta vitalidade só se explica por Guadalupe.

No primeiro dia, o destaque foi para o encontro com o episcopado. Perante os graves problemas que este tem de enfrentar, o Papa lembrou que era preciso um olhar que reflectisse a ternura de Deus. Por isso, sede bispos de olhar límpido, alma transparente, rosto luminoso; não tenhais medo da transparência. A Igreja não precisa da obscuridade para trabalhar. Vigiai para que os vossos olhares não se cubram com as penumbras da névoa do mundanismo; não vos deixeis corromper pelo vulgar materialismo nem pelas ilusões sedutoras dos acordos feitos por baixo da mesa; não ponhais a vossa confiança nos «carros e cavalos» dos faraós de hoje, porque a nossa força é a «coluna de fogo» que irrompe separando em duas as águas do mar, sem fazer grande rumor[ii].

O Papa observou que a hibridação irreversível da tecnologia aproxima o que está afastado, mas, infelizmente, torna distante o que deveria estar perto.

Por isso, nos vossos olhares, o povo mexicano tem o direito de encontrar os indícios de quem «viu o Senhor». Isto é o essencial. Assim, não percais tempo e energias nas coisas secundárias, nas críticas e intrigas, em projectos vãos de carreira, em planos vazios de hegemonia, nos clubes estéreis de interesses ou compadrios. Não vos deixeis paralisar pelas murmurações e maledicências. Introduzi os vossos sacerdotes nesta compreensão do ministério sagrado. A nós, ministros de Deus, basta a graça de «beber o cálice do Senhor», o dom de guardar a parte da sua herança que nos foi confiada, apesar de sermos administradores inexperientes. Deixemos o Pai atribuir-nos o lugar que preparou para nós[iii]. Poderemos nós ocupar-nos verdadeiramente doutras coisas que não sejam as do Pai? Fora das «coisas do Pai[iv]» perdemos a nossa identidade e, culpavelmente, tornamos vã a sua graça.

Se o nosso olhar não dá testemunho de ter visto Jesus, então as palavras que recordamos d’Ele não passam de figuras retóricas vazias. Talvez expressem a nostalgia daqueles que não podem esquecer o Senhor, mas, em todo o caso, são apenas o balbuciar de órfãos junto do sepulcro. No fim de contas, são palavras incapazes de impedir que o mundo fique abandonado e reduzido ao próprio poder desesperado.

3. Peço-vos que não subestimeis o desafio ético e anticívico que o narcotráfico representa para a juventude e para a sociedade mexicana inteira, incluindo a Igreja.

(…) Qual é a tentação que nos pode vir de ambientes dominados pela violência, a corrupção, o tráfico de drogas, o desprezo pela dignidade da pessoa, a indiferença perante o sofrimento e a precariedade? Qual é a tentação que repetidamente podemos ter nós, os chamados à vida consagrada, ao presbiterado, ao episcopado?

Acho que a poderemos resumir numa só palavra: resignação. À vista desta realidade, pode vencer-nos uma das armas preferidas do demónio: a resignação que nos entrincheira nas nossas «sacristias» e seguranças aparentes e nos trava na hora de arriscar e transformar.

Pai Nosso, não nos deixeis cair em tentação.

Esta Quaresma ainda não terminou.

Frei Bento Domingues, O.P.

Público, 28.02.2016

[i] Cf. Frei Bento Domingues, O.P. A Igreja e a Liberdade, Mário Figueirinhas, Porto,1997, 120-123
[ii] Mt 20, 20-28
[iii] Lc 2, 48-49

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publicado às 14:32

AINDA BEM QUE DEUS É «TEIMOSO» (Quarto Domingo da Quaresma)

por Zulmiro Sarmento, em 06.03.16
 

A. Deus é imoderadamente misericordioso

  1. Deus é teimoso, santamente teimoso. Ele nunca desiste de nós, mesmo quando nós desistimos d’Ele. Deus está sempre a vir ao nosso encontro. Está sempre a bater à nossa porta (cf. Ap 3, 20), mesmo quando encontra a nossa porta fechada.

 

De facto, Deus mostra que põe a misericórdia acima de tudo. Podemos, por isso, concluir que, quanto à misericórdia, Deus é profundamente imoderado. Deus é imoderadamente misericordioso e misericordiosamente imoderado. Os Seus olhos estão sempre voltados nós. Quanto mais nós estamos afastados d'Ele, tanto mais perto Ele está de nós.

 

  1. É sabido que muita coisa se pode dizer de Deus e que muita coisa se tem dito acerca de Deus. Até o silêncio muito diz sobre Ele. Só que, às vezes, no afã de tanto dizer o que Ele é, podemos tropeçar no que Ele não é, no que Ele jamais quer ser.

Olhando, entretanto, para tanta coisa dita e não dita, para tanta coisa dizível e indizível, o que é que de melhor se poderá dizer de Deus? São Tomás de Aquino, com a sabedoria da sua santidade e com a santidade da sua sabedoria, não hesitava: «A misericórdia é o que de melhor podemos dizer de Deus».

 

B. A misericórdia é a sílaba tónica de Deus

 

3. Acerca de Deus, a Bíblia pode ser vista como uma longa palavra com 73 sílabas, tantas quantos são os livros que a compõem. Dessas 73 sílabas, 46 são soletradas no Antigo Testamento e 27 são entoadas no Novo Testamento. Em relação à imagem de Deus, muitas dessas sílabas serão completamente átonas: quase O desfiguram. Basta pensar no «Terror de Isaac», como Deus chega a ser apresentado numa passagem do Génesis (31, 42).

E é assim que, entre desfiguramentos e aproximações, vamos gaguejando, sílaba a sílaba, até chegar a S. Lucas, sobretudo ao formoso capítulo 15 do seu Evangelho. Aqui encontramos verdadeiramente a sílaba tónica de Deus. Aqui vemos claramente quem é Deus e como é Deus.

 

  1. O capítulo 15 do Evangelho de S. Lucas descreve o mesmo que S. João peremptoriamente afirma: «Deus é amor»(1Jo 4, 8.16). Deus é amor para todos e diria que é ainda mais amor para os que andam perdidos. É por isso que Jesus retrata Deus no homem que se alegra por reencontrar a ovelha perdida (cf. Lc 15, 4-7), a dracma perdida (cf. Lc 15, 8-10) e o filho perdido (Cf. Lc 15, 11-24)

Dir-se-ia que Deus Se perde pelos que andam perdidos. A misericórdia é assim, é ter o coração voltado para a miséria, é ter o coração voltado para os que se encontram na miséria.

 

C. A festa do reencontro após o desencontro

 

5. O coração de Deus tem esta maneira de funcionar. Trata-se, portanto, de um coração literalmente compassivo. Trata-se de um coração que sofre o nosso sofrimento. Deus nunca é a-pático; Deus é sempre em-pático e sim-pático. Deus sofre em nós, sofre connosco e sofre por nós. Não há amor maior. Haverá sequer amor igual?

Deus não castiga, embora avise. Mas Deus nunca condena. Deus abraça e Deus festeja. Deus não é um polícia a escrutinar os nossos erros. Deus é o Pai que Se alegra com o nosso regresso. A maior festa não é quando se dá o encontro. A maior festa é quando ocorre o reencontro após o desencontro.

 

  1. Sendo assim, porque é que continua a ser tão difícil falar correctamente de Deus? Porque é que, acerca de Deus, continuamos a carregar mais nas sílabas átonas do que nesta magnífica sílaba tónica? Porque é que, ainda hoje, continua a prevalecer a linguagem do castigo sobre a prática da bondade, da compaixão e do amor?

Bem notou o Papa Bento XVI que, «depois de Jesus nos ter falado do Pai misericordioso, as coisas já não são como dantes». A partir de agora «conhecemos Deus: Ele é o nosso Pai que por amor nos criou livres e dotados de consciência que sofre se nos perdemos e que faz festa quando voltamos».

 

D. A ilusão de ser feliz longe do Pai

  1. O nosso mal é quando pensamos que a nossa felicidade e a nossa realização estão no afastamento do Pai. Foi o que aconteceu ao filho mais novo desta parábola: deixou a casa do Pai e foi para longe (cf. Lc 15, 13). Mas, atenção, não foi apenas este filho que se afastou. O filho mais velho, no fundo, também estava longe, mesmo parecendo perto. Ele estava longe do Pai e do irmão. O seu coração estava distante, estava obtuso, estava fechado (cf. Lc 15, 28). Também por nós passa a ilusão do filho mais novo e também por nós pode passar a tentação do filho mais velho.

Por um lado, pensamos que somos felizes longe de Deus. E começamos a viver como se Deus não contasse. Acontece que nada corre bem quando nos afastamos de Deus. Como assinalou genialmente Sto. Agostinho, fomos criados para Deus. Por isso, andamos inquietos enquanto não voltamos para Deus. Mas, por outro lado, também podemos pensar que já não precisamos de mudar, de nos converter. A tentação do filho mais velho é presumir que já possui o Pai, que o Pai é só dele. Não o Pai meu também é Pai teu: é Pai nosso. Deus está sempre perto de nós, mas o nosso egoísmo nem sempre nos deixa estar perto de Deus.

 

  1. É claro que quando estamos com Deus também temos necessidades e também enfrentamos adversidades. Só que, quando estamos com Deus, sentimos sempre a Sua presença reconfortante e a Sua mão protectora. O mesmo não sucede quando estamos longe de Deus. Nessa altura, ocorre o que ocorreu ao filho que se afastou do Pai. Quando as provações vieram, não teve quem o ajudasse. Ninguém lhe dava nada (cf. Lc 15, 16). Restou-lhe guardar porcos, mas sem permissão para comer sequer o que os porcos comiam (cf. Lc 15, 15-16).

No entanto, as portas da Casa do Pai permaneciam abertas. As portas de Deus nunca se fecham e o lugar de cada filho nunca é ocupado por outro. Deus está sempre disponível para o reencontro. Deus perde-Se de amor pelos Seus filhos perdidos. Deus corre para nós para Se lançar ao nosso pescoço e para nos cobrir de beijos (cf. Lc 15, 20). Não são necessárias muitas palavras até porque Deus conhece antecipadamente tudo o que dizemos e tudo o que fazemos (cf. Lc 15, 21).

 

E. A festa que Deus faz quando regressamos

 

  1. É preciso ser Deus para se amar tanto o homem. Nem nós nos amamos tanto como Deus nos ama. Mas é indispensável procurar este amor que Deus nos quer dar. Se o filho perdido não fosse ao encontro do Pai, como é que poderia receber os Seus beijos? Como é que poderia receber a Sua misericórdia? É isto o que parece faltar, hoje em dia. Deus tem muita misericórdia para dar. Mas será que nós temos vontade de a receber? Se não vamos recebê-la, ela fica em Deus, mas não chega até nós. A misericórdia de Deus tem, na Igreja, o nome de Sacramento do Perdão. O beijo de Deus chega até nós através da Confissão.

É urgente, por conseguinte, reconhecer, como este filho, que estamos perdidos. E que, longe de Deus, ninguém nos dá nada. Longe de Deus, é só ilusão, inquietação e perturbação. Não tenhamos medo de voltar para Deus. Não tenhamos qualquer receio de reencontrar Deus. Deus tem tudo preparado para a festa. Vamos deixar Deus de mão estendida? Vamos consentir que Deus tenha tudo preparado sem que compareçamos?

 

  1. A misericórdia é oferecida. Mas só nos poderá ser dada se por nós for procurada. Estamos dispostos a procurar a misericórdia que Deus nos quer dar? No nosso tempo, fala-se muito de misericórdia, mas não se procura muito a misericórdia e, o que é pior, celebra-se pouco a misericórdia. A misericórdia é uma palavra que muito se ouve, mas uma realidade que pouco se vê. O mais sintomático é que existe uma grande oferta de misericórdia por parte de Deus e uma reduzida procura de misericórdia por parte de nós.

Não esqueçamos, porém, que a misericórdia, é o que há de mais revolucionário. Na Sua misericórdia, Deus não nos deixa como estamos, mas abre-nos sempre ao novo, ao diferente, ao melhor. Sejamos tão ousados na procura da misericórdia como Deus é generoso na oferta da misericórdia. Uma coisa é certa. Sem misericórdia, não temos solução, sem misericórdia, não teremos salvação («extra misericordiam, nulla salus»). Se não a formos receber, como é que Deus no-la poderá oferecer? Nunca hesitemos, pois, em procurar a misericórdia que Deus sempre nos quer dar!

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