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ACREDITAR SEM AMAR? NEM PENSAR! (Quarto Domingo do Tempo Comum)

por Zulmiro Sarmento, em 31.01.16
 

A. Até Jesus foi rejeitado

  1. Cada um de nós é único. Mas, sendo cada um de nós único, não somos os únicos a quem acontecem problemas ou dificuldades. Até Jesus foi incompreendido, até Jesus foi censurado, até Jesus foi rejeitado, até Jesus foi atacado. E nem na Sua terra foi poupado.: até na Sua terra foi increpado.

Nem o facto de ter feito uma homilia bem pequena O livrou da contestação. Depois de ler a Escritura, Jesus limitou-Se a dizer: «Cumpriu-Se hoje a passagem da Escritura que acabais de ouvir»(Lc 4, 21). Só que este pouco era muito, era tudo, era o programa de Jesus. E esse programa chocava com os interesses de muitos, a começar pelos mais próximos, pelos Seus conterrâneos.

 

  1. Ontem como hoje, hoje como ontem, a rejeição não costuma vir de fora. A rejeição vem quase sempre de dentro. É por isso que a rejeição dói. É por isso que a rejeição mói. Os conterrâneos e os contemporâneos de Jesus estão mais interessados num Messias político e num Messias que dê espectáculo. O programa de Jesus, centrado nos pobres e nos oprimidos, parece não entusiasmar.

Não espanta, por conseguinte, que até os do Seu povo tentem eliminá-Lo, deitando-O abaixo (cf. Lc 4, 29). E é significativo notar que, perante a rejeição, Jesus não procura defender-Se. O que Jesus faz é «seguir o Seu caminho»(Lc 4, 30). É isto que importa: seguir o caminho de Jesus.

 

B. Se os de dentro rejeitam, há muitos de fora que aceitam

 

3. O Evangelho é uma proposta que reclama sempre uma resposta. Se a resposta for de rejeição, há que não ficar desmobilizado no chão. Mais do que litigar, é preciso insistir porque outras respostas hão-de vir. É o que Jesus faz: rejeitado em Nazaré, desce a Cafarnaum para propagar a fé (cf. Lc 4, 31).

É preciso, pois, fazer como Jesus: se os de dentro rejeitam, há muitos de fora que aceitam. Não devemos desistir de ninguém, mas sem jamais ficar condicionados por alguém. Não tenhamos medo de sair: há tanta gente com vontade de vir. O Evangelho cativa, mas nunca fica cativo: cativa a todos, mas sem ficar cativo de ninguém. O Evangelho não fica cativo nem é selectivo: é para sempre e é para todos. Por conseguinte, é imperioso todos os meios usar para a toda a gente o Evangelho levar.

 

  1. Jesus leva o Evangelho nos lábios e leva, muito mais, o Evangelho na vida. Jesus é, portanto, o Evangelho vivo, o Evangelho para a vida. E o Evangelho de Jesus é, como compreendeu S. Paulo, todo um hino de amor, todo um hino ao amor. Jesus não fez outra coisa senão amar. Jesus não fez outra coisa senão mostrar-nos o que é o amor. Será que nós já aprendemos?

É que, neste mundo, muito se fala de amor, mas tanto se atenta contra o amor. O amor está muito presente nos nossos lábios, mas parece completamente ausente da nossa vida. É bem possível que ainda não tenhamos encontrado o amor. Só quando encontrarmos Deus — só quando nos deixarmos encontrar por Deus —, é que teremos encontrado verdadeiramente o amor.

 

C. Levar a fé é (também) levar o amor

 

5. Nem todo o amor tem Deus, mas Deus temsempre amor. Mais: Deus não Se limita a ter amor; Deus é amor (cf. 1Jo 4, 8.16). Criada por Deus, a Igreja tem de ser por excelência o lugar do amor. E será o lugar do amor se, desde logo, acolher o amor que a funda, do amor que a sustenta, do amor que a alimenta. Daí que, quanto mais perto de Deus, mais perto do amor. E daí também que a falta de amor de uns pelos outros seja a maior demonstração da falta do amor a Deus.

Ainda temos um longo, muito longo, caminho a percorrer neste campo. O amor, que é Deus, não está longe de nós, mas nós, por vezes, teimamos em estar longe de Deus, que é amor. E ninguém diga que tem fé se não tem amor. O amor é o grande certificado da fé.  Acreditar sem amar? Nem pensar. Não é possível acreditar sem amar. A fé envolve sempre o amor.

 

  1. A fé tudo consegue, quando está habitada pelo amor. Até consegue suportar o insuportável. É assim que percebemos a pergunta pertinente de Balduíno de Cantuária, no século XII: «Que há de impossível para quem crê? E que há de difícil para quem ama?»

A nossa profissão de fé é também — e bastante — uma confissão de amor. O Credo é uma expressão de fé na medida em que é uma história de amor. Aliás, enquanto história de fé, só pode ser história de amor. Só há fé quando existe amor: o amor é a fé vivenciada! Só o amor, como dizia Hans Urs von Balthasar, «é digno de fé».

 

D. Às vezes, o amor parece mais frio que o frio

 

7. Mas qual é a temperatura do nosso amor? Às vezes, o nosso amor parece mais frio do que este tempo frio. Habituamo-nos a ligar o amor à posse, quando Deus nos mostra que o amor está apenas — e sempre — na dádiva. Amor possessivo será autenticamente amor? O amor que vem de Deus, o amor que é Deus, é sempre amor oblativo. É sempre amor que dá, amor que Se dá, amor que Se doa, amor que perdoa.

Procuremos, então, conferir a temperatura do nosso amor com o grande termómetro que é o Evangelho de Jesus. Como vai o nosso amor para com Deus? Não tentemos separar jamais o que Deus uniu. Deus uniu o amor divino e o amor humano. Só amaremos verdadeiramente o próximo se nos dispusermos a amar verdadeiramente a Deus.

 

  1. Quando se ama, considera-se sempre pouco o que se dá. Quando se ama, achamos que o outro merece sempre mais. Foi por isso que Sta. Teresinha do Menino Jesus (e da Santa Face) viu neste texto de S. Paulo um foco iluminador. Ela não queria mais nada: só queria o amor. No coração da Igreja, ela queria «ser o amor».

Nada mais devemos querer, nós também. Nada mais devemos querer além do amor. Cultivemos, pois, o amor: o amor para com Deus e o amor para com todos a partir de Deus. E não nos preocupemos sequer com amar. Procuremos depositar nos outros o amor de Deus, o amor que é Deus. Amemos os outros com o amor de Deus, com o amor que é Deus.

 

E. O amor não é feito de palavras belas; é o que torna a nossa vida bela

 

9. O Eng. Fernando Santos, actual seleccionador nacional, nunca escondeu a fé que o possui. Há tempos, assumiu ter descoberto que «Cristo está vivo e que tal descoberta não a posso guardar só para mim». Confessou ter encontrado a sua felicidade «no caminho da fé, porque há uma palavra que antes não percebia e que passei a entender: o amor». Foi o amor de Deus revelado em Cristo que o ajudou a perceber o que é o amor.

Visitemos, muitas vezes, este texto de S. Paulo. Façamos dele um programa de vida. São 13 versículos do capítulo 13 da primeira Carta aos Coríntios. São um belíssimo compêndio sobre o amor: sobre a proveniência do amor, sobre a força do amor e até sobre a eternidade do amor. É que, quando tudo acabar, havemos de notar que o amor nunca acabará (cf. 1Cor 13, 8).

 

  1. Só o amor dá sentido à vida e à fé na vida. Não espanta, pois, que S. Paulo enumere 15 qualidades do verdadeiro amor: sete destas qualidades são formuladas positivamente e as outras oito de forma negativa. Ficamos assim a saber que o amor é paciente, é amável, alegra-se com a verdade, tudo desculpa, tudo acredita, tudo espera, tudo suporta. E também aprendemos que o amor não é invejoso, não é vaidoso, não é soberbo, não é inconveniente, não é interesseiro, não é irritável, não suspeita mal, não se alegra com a injustiça (cf. 1 Cor 13, 4-7).

Eu atrever-me-ia a sugerir que recortássemos estas 15 qualidades do amor e as colocássemos à entrada da nossa casa, para que nunca as esquecêssemos em cada dia da nossa vida. O amor não é feito de palavras belas. O amor é o que torna bela a nossa vida. O amor é o que faz persistir mesmo na hora me que nos apetece desistir. A fé está sempre a dizer à esperança: «não desistas». E a esperança não pára de segredar ao amor: «não pares». É assim que o Evangelho se faz ao caminho nos caminhos dos homens. É no amor que o Evangelho se fará caminho nos nossos caminhos!

Do blogue THEOSFERA

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publicado às 09:58

NUNCA TIREMOS OS OLHOS DE JESUS (Terceiro Domingo do Tempo Comum)

por Zulmiro Sarmento, em 23.01.16
 

A. As ausências presentes e as presenças ausentes

  1. Afinal, que fazemos — ou deveríamos fazer — quando entramos numa igreja? Que fazemos — ou deveríamos fazer — quando participamos numa celebração e quando escutamos a Palavra? Deveríamos fazer o que fizeram os habitantes de Nazaré de há dois mil anos: pôr os olhos em Jesus, fixar os olhos em Jesus, centrar os olhos em Jesus e nunca tirar os olhos de Jesus.

Depois de Jesus ter feito a leitura de um texto de Isaías, os olhos dos que se encontravam na sinagoga de Nazaré estavam postos n’Ele (cf. Lc 4, 20). Eis o que importa, eis o importante: ter os olhos postos em Jesus. Mas eis também o que falha. Nem sempre, de facto, os nossos olhos estão postos em Jesus. Nem sempre os nossos olhos estão postos no Jesus que fala, no Jesus que alimenta. Nem sempre os nossos olhos estão postos no Jesus-Palavra e no Jesus-Pão. Porque Lhe fechamos, então, o nosso coração?

 

  1. A distracção dos nossos olhos corresponde, quase sempre, à distracção da nossa mente e à distracção da nossa vida. No limite, é a nossa vida que, muitas vezes, anda longe d’Ele. É por isso que, ao entrar numa igreja, muitos registam as imagens, os painéis, os vitrais e pouco mais. É por isso que, ao entrar numa igreja, muitos registam o que lá se passa num vídeo ou numas fotos, mas sem chegar a guardar o que lá se vive na sua própria vida.

Na verdade, dá que pensar quando, estando numa celebração, os olhos de muitos, em vez de estarem voltados para a frente, se passeiampelos altos ou pelos lados. Além da ausência, as nossas celebrações estão cheias de ausências presentes e de presenças ausentes.

 

B. Urge recentrar a nossa vida em Jesus

 

3. É fundamental que nos habituemos a centrar tudo em Jesus: o nosso olhar, o nosso sentir, o nosso agir e o nosso viver. É preciso, pois, abrir os nossos olhos, abrir os nossos ouvidos, abrir o nosso coração e abrir toda a nossa vida. Jesus abriu o livro para nós. É urgente que nós abramos a nossa vida para Jesus.

O Espírito que está sobre Ele também está sobre nós através d’Ele. Foi o Espírito que ungiu Jesus. Foi o Espírito que O tornou Messias e Cristo. Recorde-se que «Messias» vem do hebraico «Massiah» e Cristo procede do grego «Christós». Ambos os termos significam «ungido». Como sabemos, ungido é o que está untado com os óleos consagrados. Ungido ó que está marcado — diria tatuado — por Deus, com vista a uma missão.

 

  1. A missão de Jesus está delineada no texto do Profeta Isaías que Ele mesmo acabou de proferir e que é extraído do capítulo 61, versículos 1 e 2. Jesus — apresentado como Messias-Cristo-Ungido — é o portador da Boa Nova, da boa e bela notícia. Jesus é, por conseguinte, o Evangelho vivo, o Evangelho para a vida (cf. Lc 4, 18).

Deste modo, ter os olhos postos em Jesus significa ter os olhos postos no Evangelho. Ver Jesus é o primeiro — e decisivo — passo para escutar Jesus e para acolher o Evangelho que é Jesus.

 

C. É preciso dar testemunho e ser testemunha

 

5. Não esqueçamos que, como refere S. Lucas, nós chegamos ao conhecimento de Jesus através das «testemunhas» que se tornaram «servidores da palavra do Evangelho»(Lc 1, 2). Se tivermos os nossos olhos postos em Jesus, também nos tornaremos Suas testemunhas e servidores do Seu Evangelho. A esta luz, evangelizar é dar testemunho e ser testemunha. Evangelizar é dar testemunho do Jesus do Evangelho e ser testemunha do Evangelho de Jesus. Mas como dar testemunho daquilo que não sabemos e d’Aquele que não conhecemos?

É necessário, portanto, fazer como Lucas. É necessário ir cuidadosamente ao encontro de Jesus para dar testemunho d’Ele. Neste caso, Lucas dá um belíssimo testemunho por escrito (cf. Lc 1, 3). Deposita-o em cada um de nós, representados nesta personalidade — chamada Teófilo — a quem dedica o texto que escreveu.

 

  1. Há quem pense que Teófilo seria um alto funcionário do Império Romano que se converteu e que, à maneira de um mecenas, teria patrocinado a difusão da obra de São Lucas. Deste modo, seria um cristão nobre, tratado aliás como «excelentíssimo»(Lc 1, 3). Podia ser alguém que pediu um relato a São Lucas sobre a vida de Jesus. Mas o mais provável é que Teófilo não seja o nome de uma pessoa, mas a condição de cada pessoa tocada por Cristo. É que, como sabemos, Teófilo significa «amigo» («phylós») de «Deus» («Theós»). E «amigo de Deus» é o que cada um de nós efectivamente é. O próprio Jesus, Filho de Deus, trata-nos como «amigos» (cf. Jo 15, 15).

É bom ter presente que «amigo» também vem de «amor». Amigo é, pois, o que ama. Amigo de Deus é o que ama a Deus. Amigo de Deus é o que se deixa amar por Deus. Amigo por Deus é o que dá testemunho do amor de Deus. Daí que Teófilo, além de um belo nome para os pais darem aos filhos, seja um luminoso programa de vida.

 

D. Ser Teófilo é ser Teóforo e (por isso)Cristóforo

 

7. Ser Teófilo é, no fundo, ser Teóforo, tal como Sto. Inácio de Antioquia gostava de se apresentar. Teóforo é aquele que transporta Deus, é que aquele que mostra Deus. E uma vez que Deus nos é revelado por Seu Filho Jesus Cristo, então temos de ser Cristóforos, ou seja, portadores de Cristo.

No fundo, ser Teófilo implica aceitar ser Cristóforo. Ser amigo de Deus passa por levar Jesus Cristo a toda a parte e a toda a gente. Ser amigo de Deus passa por contribuir para propagar a Sua fama (cf. Lc 4, 14).

 

  1. Hoje, Jesus continua a ensinar. Será que estamos disponíveis para aprender. A nova sinagoga já não fica apenas em Nazaré. A nova sinagoga é a Sua Igreja, da qual todos nós fazemos parte. É na Sua Igreja que continua a ressoar a Sua Palavra e a sentir-se a Sua presença. É na Sua Igreja que Ele, o chamante, nos chama. É na Sua Igreja que Ele, o enviado, nos envia. O Seu Evangelho é a nossa evangelização. A Sua missão há-de ser sempre a nossa missão.

Assim sendo, a tarefa que nos é pedida é muito concreta e está descrita com enorme precisão. Há, pois, que levar a Boa Nova aos pobres. Há que proclamar a libertação aos cativos. Há que devolver a vista aos cegos e a liberdade aos oprimidos. Há, enfim, que anunciar um «ano favorável do Senhor»(Lc 4, 19). Isto é, há que anunciar a chegada de um tempo novo, de um mundo novo, de uma vida totalmente nova.

 

E. O que sai dos nossos lábios e o quesobressai na nossa vida

 

9. A homilia de Jesus é muito breve e muito simples. Em pouco, Ele diz tudo: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir»(Lc 4, 21). Nesta afirmação, Jesus diz tudo sobre Ele e diz tudo para nós. Jesus apresenta-Se como o cumprimento do que estava prometido. Jesus é Aquele que cumpre.

O «hoje» que Lucas usa por oito vezes no seu Evangelho (2,11; 4,21; 5,26; 19,5; 19,9; 22,34; 22,61; 23,53), tornou-se um clássico nos sermões de muitos Padres da Igreja. Trata-se de um «hoje» que tem como horizonte a nossa vida e a nossa história. É na vida de cada um e na história da humanidade que se cumpre a Palavra de Deus. Jesus é o hoje de Deus para cada hoje do homem. Ele não vem para trazer algo novo, mas para cumprir o que Deus promete desde sempre. Jesus não vem para inovar a maneira de falar. Acima de tudo, Jesus vem para renovar a nossa maneira de viver.

 

  1. Se Jesus é aquele que cumpre, nós, Seus discípulos, temos de ser aqueles que cumprem. Daí que o importante não seja tanto o que sai dos nossos lábios. O importante é o que sobressai na nossa vida. É costume verberar os que prometem e não cumprem. Mas também não é verdade que, muitas vezes, nós mesmos não cumprimos o que prometemos?

Olhemos, então, para Jesus. Nunca deixemos de olhar para Jesus. E procuremos fazer como Jesus, que fez sempre a vontade do Pai. Que na Sua santa vontade reencontremos a nossa felicidade!

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publicado às 22:18

Cenas de Natal

por Zulmiro Sarmento, em 19.01.16

 <http://o-povo.blogspot.pt/2015/12/cenas-de-natal.html>

Inês Teotónio Pereira, ionline 20151229

*Já não deve faltar muito até chegarmos todos à conclusão que afinal quem
nasceu no dia 25 de Dezembro foi o Pai Natal.*

Fui com os meus filhos a uma das dezenas aldeias de Natal que hoje em dia
fazem concorrência às rotundas que as câmaras tanto gostam de inaugurar ou
às feiras medievais importadas de Espanha que durante o Verão fazem de nós
todos parvos.

As aldeias de Natal são o novo fenómeno municipal e como eu não perco
fenómenos, peguei na criançada e fui ver. Eu e mais milhares de famílias.
Foi giro: vimos duendes, renas, fadas, mais uns duendes e uma fadas, uns
palhaços e umas casinhas com neve a fingir no telhado, mais uns duendes e
umas fadas, também vimos umas árvores de Natal, bonecos de neve, presentes
embrulhados e mais renas. A coisa correu bem: não houve birras nem lutas.
No fim ainda consegui negociar com os meus filhos e eles condescenderem não
irmos para a fila tirar uma fotografia com o Pai Natal em troca de um bolo
que comprei para cada um. Tivemos ainda a sorte de comer o bolo ao lado do
Pai Natal que fugiu do seu cadeirão  e das criancinha para ir beber uma
imperial e fumar um merecido cigarro. Por sorte calhou irmos todos ao mesmo
café e os meus filhos ficaram embasbacados ao verem a facilidade com que
ele desprendeu a barba para beber a cerveja num só trago. São estas as
memórias que ficam.

No caminho de volta, vimos as mesmas coisas mas só então reparei que até
havia guloseimas a ornamentar os pitorescos canteiros do jardim. Até que
eu, uma beata, fanática, conservadora ou mesmo neoliberal, resolvi
perguntar a um dos organizadores: “Olhe, desculpe, o presépio está onde?”.
O rapaz olhou para mim como se eu lhe  tivesse perguntado quem ganhou as
eleições e atrapalhado respondeu: “Não há... São só coisas de Natal “. Os
meus filhos, que já estão na idade de terem vergonha dos pais, coraram, o
rapaz também e eu constatei que os portugueses são de costumes tão brandos
mas tão brandos que se ficaram pela brandura da bonecada e deixaram o Natal
para os fundamentalistas religiosos.

Como estava com os meus filhos tive de fazer o papel de mãe e não pude
deixar de exclamar indignada: “Incrível: isto é o mesmo que fazer uma festa
de anos e não convidar o aniversariante!”. Eles ficaram a olhar apara mim.
Continuei a insultar tudo e todos até que um deles disse: “Mas mãe, isto
hoje em dia é mesmo assim: um amigo meu nem sequer sabe o que se festeja na
Páscoa”. Chateou-me o “hoje em dia”, onde se podia ler “estás out, cota”.
Mas calei-me: contra factos não há argumentos e tendo em conta que a
autarquia organizadora da aldeia representa os munícipes e para os
munícipes o Natal é bonecada, está tudo bem. Ali quem estava desajustada
era eu, concluí.

A verdade é que o Natal está fora de moda. Já não é moda ir à missa do Galo
ou falar do nascimento de Jesus.  Um presépio no meio dos duendes fica
objectivamente mal. A árvore de Natal substituiu o presépio e o Pai Natal o
Menino Jesus. Já é com alguma dificuldade que apanhamos filme épicos na
televisão tipo Quo Vadis ou as Sandálias do Pescador e estamos apenas
presos ao significado natalício televisivo pelos fios frágeis da Música no
Coração ou do Sozinho em Casa. Hoje em dia Natal é neve, gelo e duendes. Já
nem sequer é azeite Galo: é sushi. Sushi em família, vá.

Há países onde é proibido festejar o Natal ou ir à missa e onde se é morto
por se ser em cristão; há outros onde é proibido enfeitar montras, montar
iluminações ou decorar as ruas com qualquer coisa alusiva ao Natal para não
“ofender” outras religiões. Desconfio que por cá não vai ser preciso
proibir nada, nós damos conta do recado sozinhos. Já não deve faltar muito
até chegarmos todos à conclusão que afinal quem nasceu dia 25 de Dezembro
foi o Pai Natal.  O resto são lendas.


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publicado às 12:42

A VONTADE DE MARIA É QUE SIGAMOS JESUS EM CADA DIA (Segundo Domingo do Tempo Comum)

por Zulmiro Sarmento, em 17.01.16
 

A. Somos transportadores das maravilhasde Deus

  1. Diz o profeta que não se há-de calar (cf. Is 62, 1). E ordena o refrão do Salmo Responsorial que anunciemos a todos os povos as maravilhas do Senhor. De facto, se há coisas que não devemos dizer, também há coisas que não podemos calar. O nosso mal é que dizemos o que não devemos e calamos o que não podemos. Habitualmente, falamos dos outros em vez de falarmos aosoutros. O importante é que falemos aos outros. De quê? Não de nós, mas de Deus, das maravilhas de Deus.

É esta a nossa prioridade, é este o nosso desígnio, é esta a nossa missão. É isso o que faz S. João, que nos apresenta a primeira maravilha realizada por Jesus. Não esqueçamos que o milagre é o que nos faz maravilhar. O milagre é, todo ele, um acto de maravilhamento. Tal como os discípulos daquele tempo, também nós, discípulos deste tempo, ficamos maravilhados com os gestos de Jesus, com as palavras de Jesus, com a pessoa de Jesus. Será lícitoarmazenar toda esta maravilha só em nós?

 

  1. A missão tem muito de denúncia, mas tem sobretudo muito de anúncio. Missionar é, essencialmente, anunciar. É transportar o que recebemos. É levar o que nos foi transmitido. É dar o que nos foi dado. Nós somos transportadores de Cristo. Nós somos transportadores das maravilhas de Cristo, da permanente maravilha que é Cristo.

Não por acaso — nada é por acaso —, S. João usa a palavra sinal («semeión») para falar de milagre. O milagre não é um acto diletante nem, muito menos, um exercício de prestidigitação ou ilusionismo. O milagre ocorre na fé: desperta a fé e fortalece a fé. S. João chama sinais aos milagres de Jesus porque sabe que eles revelam a pessoa e a missão de Jesus. Com este primeiromilagre-sinal em Caná, Jesus «manifestou a Sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele»(Jo 2, 11).

 

B. Acreditar é deixar-se maravilhar

 

3. Diante das maravilhas de Deus, diante de tantas maravilhas de Deus realizadas em Cristo, também nós somos convidados a acreditar. Acreditar é maravilhar, é deixarmo-nos maravilhar diante da luz. Sobretudo quando tememos — e trememos — nas sombras, é fundamental que nos maravilhemos diante da luz trazida por Jesus.

Só esta luz ilumina. Só esta luz clarifica. Só esta luz aquece. E quem acende esta luz? É Jesus, o Filho de Deus. Jesus é a luz que acende sempre a luz.

 

  1. Esta maravilha operada por Jesus teve um tal impacto que até o Evangelho nos oferece — coisa rara — interessantes enquadramentos de espaço e de tempo.

Tudo aconteceu em Caná. Só S. João fala desta terra (cf. 4, 46 e 21, 2). Tradicionalmente, é identificada como Kefr Kenna, que fica a 7 quilómetros a nordeste de Nazaré, embora as indicações de Flávio Josefo levem a pensar também nas ruínas de Hirbet Qana, que se situa a 14 quilómetros para norte de Nazaré.

 

C. A nossa vida está naquelas talhas vazias

 

5. Somos igualmente informados de que este episódio se verificou «ao terceiro dia»(Jo 2, 1). Trata-se do «terceiro dia» após o chamamento de Filipe, descrito em Jo 1, 43. Numa subtil alusão ao início do Génesis, este «terceiro dia» depois daquele chamamento coincidiria com o «sétimo dia» da semana inaugural da missão de Jesus. No fundo, é um símbolo da nova criação. Aliás, toda esta semana é paradigmática. Sendo uma semana que precede a primeira Páscoa vivida por Jesus na Sua missão pública (cf. Jo 2, 13), desagua no sinal das bodas, que antecipam a glória da Ressurreição (cf. Jo 2, 11). Com efeito, a Ressurreição também acontece «ao terceiro dia» como o próprio Jesus vaticina (cf. Jo 2, 19).

Por outro lado, esta primeira semana inaugura a primeira etapa da revelação, na qual Jesus Se manifesta a todos (Cf. Jo 2, 1-4, 54): aos discípulos (cf. Jo 2, 1-11), ao povo (cf. Jo 2, 13-23), a um mestre da Lei, Nicodemos (cf. Jo 3, 1-21), aos samaritanos (cf. Jo 4, 1-41) e aos próprios pagãos (cf. Jo 4, 43-54).

 

  1. Existe um profundo significado na presença de Jesus nas bodas de Caná. Estas bodas são, elas mesmas, um fecundo sinal das bodas que, em Cristo, Deus realiza com toda a humanidade. O casamento é, pois, uma imagem que exprime de forma privilegiada a relação de amor que Deus estabelece com o ser humano.

O cenário de um casamento é o mais indicado para mostrar o amor que, em Jesus, Deus vem trazer ao mundo. E para testemunhar a mudança que, no mesmo Jesus, Deus vem oferecer à nossa vida. Jesus está no mundo para transformar o mundo, para transformar cada vida que há no mundo. A nossa vida está sinalizada nas talhas sem vinho (cf. Jo 2, 3). Ou seja, sem Jesus, não somos nada. Pior, sem Jesus, estamos cheios de nada.

 

D. Maria só tem palavras para Jesus e sobreJesus

 

7. A primeira a aperceber-se disso é Maria, a Mãe de Jesus. Maria sabe que, sem Jesus, é o vazio, é a indigência, é a carência. É por isso que as duas únicas referências a Maria no quarto Evangelho surgem revestidas de uma intensa significação. Maria está em Caná, onde Jesus simboliza a mudança que vem trazer. E Mariaestá junto à Cruz, onde Jesus realiza a mudança que veio propor. Na presença de Sua Mãe, Jesus transforma o antigo em novo, preenchendo todos os vazios que, sem Ele, se acumulam.

Também não é em vão que surgem aqui as únicas palavras de Maria em todo o Evangelho de S. João. Não são, contudo, palavras circunstanciais, mas palavras referenciais. Em Caná, como em toda a parte (e sempre), Maria só tem palavras para Jesus e só tem palavrassobre Jesus. Que melhor modelo de discípulo pode haver?

 

  1. Maria leva o humano até Jesus e traz Jesus para o humano. Tinha razão, pois, S. Luís Maria de Montfort quando disse que, «para chegar a Jesus, temos de ir por Maria». Mais recentemente, o Papa Paulo VI também proclamou que «Maria é o caminho que leva sempre a Cristo». E, ainda mais perto de nós, o Papa Francisco fez questão de enfatizar que «a Igreja, quando busca Cristo, bate sempre à porta da casa da Mãe de Cristo».

Já em Caná, a presença de Maria é o que viria a ser por todo o sempre: uma presença de intercessão e uma presença de anunciação. Para Maria, viver é interceder. Para Maria, estar é anunciar.

 

E. A mulher serva é (também) a mulher sábia

 

9. Junto de Jesus, intercede: «Não têm vinho»(Jo 2, 3). Isto é, falta o essencial, falta o importante, falta Jesus. Pensando bem, o que Maria pretende dizer é que aquela gente tem falta de Jesus. A resposta de Jesus não deve ser pintada em tons de rispidez. De resto, Maria não a entendeu como tal. Quando Jesus diz que ainda não tinha chegado a Sua hora (cf. Jo 2, 4), dá a entender que essa Sua hora está quase a chegar. O sinal que iria realizar era como um despertador para a chegada dessa Sua hora.

Do mesmo modo, o tratamento dispensado por Jesus a Maria não denota falta de respeito: «Mulher, que me desejas?»(Jo 2, 4). Ou, segundo outras versões, «Mulher, que tem isso a ver conTigo e coMigo?» Desde logo, «mulher» alude a Maria como «nova Eva», como Mãe da nova humanidade e Mãe da Igreja. E, quanto ao não terem vinho, o que Jesus quer frisar é que isso é com o Pai (cf. Jo 4, 34; 5, 19). O que Ele vai fazer é em nome do Pai. Ele e o Pai são um só (cf. Jo 10, 30).

 

  1. Era tudo o que Maria precisava de ouvir. Afinal, a mulher serva é também a mulher sábia. Daí que tenha ido logo anunciar: «Fazei o que Ele vos disser»(Jo 2, 5). Daí que nunca Se canse de nos interpelar: «Fazei o que Ele vos disser». É isto o que importa, é isto o que basta. Mas é também isto o que falta, o que falha. Nem sempre fazemos o que Jesus diz. Nem sempre enchemos as nossas «talhas» para que Jesus possa transformar a nossa «água» no Seu «vinho». O «vinho bom» (cf. Jo 2, 10) é o símbolo de uma vida diferente, de uma vida com Jesus, da vida que é Jesus.

Escutemos, então, Maria quando nos pede para fazer o que Jesus tem para nos dizer. A vontade de Maria é que façamos o que Jesus nos diz. Em cada dia!

Do blogue THEOSFERA

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publicado às 12:47

Com quem começar o ano novo? (II)

por Zulmiro Sarmento, em 11.01.16

 

Frei Bento Domingues, O.P.

1. Para mim, Jesus Cristo foi desde sempre, é e será o ser sublime, supremo e ideal que a humanidade produziu. Enquanto Judeu, é o único orgulho que sinto de ser da sua raça. A sua existência, as suas palavras, o seu sacrifício e a sua fé deram ao mundo o mais nobre presente jamais recebido: o do amor, do amor do próximo, do amor do pobre, a compaixão, a humildade, enfim todos os sentimentos que enobrecem o ser humano… é o Homem supremo. Estas são palavras do famoso músico Arthur Rubinstein (1887-1982).

Santa Teresa de Avila [1] (1515-1582), com ascendência judaica, escreveu um dos mais belos sonetos da literatura espanhola, nascidos da sua paixão por Jesus: (…) Muéveme, enfin, tu amor de tal manera/ que aunque no hubiera cielo, yo te amara,/ y aunque no hubiera infierno, te temiera(…).

O Papa Francisco, no prefácio a uma Bíblia para jovens de língua alemã, escreveu: “Gostaria de vos dizer uma coisa: hoje - ainda mais do que no início da Igreja - os cristãos são perseguidos; qual é a razão? São perseguidos porque carregam uma cruz e dão testemunho de Cristo; são condenados porque possuem uma Bíblia. Com toda a evidência, a Bíblia é um livro extremamente perigoso, tanto que nalguns países quem possui uma Bíblia é tratado como se escondesse bombas no armário!”

Bergoglio recordou que Mahatma Gandhi, que não era cristão, tinha afirmado: “Aos cristãos foi confiado um texto com a quantidade de dinamite suficiente para fazer explodir em mil pedaços a civilização inteira, para virar o mundo de cabeça para baixo e trazer a paz a um planeta devastado pela guerra, mas tratam-no como se fosse uma simples obra literária, nada mais”.

O Papa acrescenta aos jovens. Tendes nas mãos algo divino: um livro de fogo, um livro no qual Deus fala. Por isso recordai-vos: a Bíblia não é feita para ser posta na estante.

Seria uma estupidez fundamentalista pensar que basta abrir a Bíblia, para entrar naquele universo cultural, que não é um ditado divino. É a biblioteca de um povo, de épocas diferentes, muito diferentes, com grande diversidade de géneros literários. É indissociável do estudo e dos métodos de interpretação [2].

Conta-se nos Actos dos Apóstolos [3] que um etíope, funcionário real, regressando de Jerusalém, sentado no seu coche, lia o profeta Isaías. Filipe, discípulo de Cristo, perguntou-lhe: “compreendes o que lês?” Como poderia, se não há quem mo explique?

2. O Novo Testamento exprime-se em 27 livros, reconhecidos como canónicos. A grande maioria foi escrita em grego, entre os anos 50 e 90 d.C. Cobre vários espaços geográficos e culturais, estilos de vida e de pensamento espantosamente ricos e diversos. As diferenças entre eles reflectem um impressionante pluralismo teológico nas primeiras comunidades cristãs, a ponto de se ter dito que, nos escritos da época apostólica, se pode reconhecer um “catolicismo primitivo”, “um protestantismo primitivo” e uma “ortodoxia (oriental) primitiva”.

Esta lista canónica, ao reconhecer a validade da diversidade de expressão teológica, demarca, ao mesmo tempo, os limites da diversidade aceitável dentro da Igreja [4].

3. O assunto de todos os escritos do Novo Testamento é, no entanto, Jesus de Nazaré, reconhecido como Cristo pelas comunidades que, em seu nome, se foram formando, não sem muitos conflitos de interpretação.

Ponto assente: Ele não escreveu nada, nada mandou escrever nem deu o seu imprimatur a nenhum dos livros ou cartas que, sobre ele, foram escritos. Não existe nenhuma biografia encomendada por ele ou por ele autorizada. O cristianismo nasce no reino da liberdade criadora!

Daqui nasceu a convicção de que acerca de Jesus de Nazaré nada ou quase nada se pode saber de historicamente documentado. Apesar disso, surgiram, sobretudo a partir do séc. XIX, crentes e agnósticos interessados na descoberta do “Jesus histórico”.

Xavier Pikaza [5] tentou apresentar o percurso sinuoso das diversas tentativas que, desde Albert Schweitzer até Senén Vidal - passando por J.D. Crossan, Sanders , G. Theissen e J. P. Meier – procuraram desenhar um perfil histórico de Jesus de Nazaré. Foi um esforço que ocupou muitos especialistas do séc. XX e começos deste século. No meu entender, o pouco que foi conseguido já é muito.

A cristologia, sem fundamento histórico, é vazia. Apesar do enraizamento de Jesus na cultura judaica, muito plural, isso não impediu um itinerário independente e original. Para os próprios judeus que o seguiram, Jesus era algo de muito novo.

Foi morto, de forma planeada, pelos Sumos Sacerdotes do Templo e pelas autoridades locais do império Romano, sob Pôncio Pilatos. Que terá havido no comportamento de Jesus para que um derrotado seja a base e o impulso de uma esperança invencível?

Público, 10.01.2016
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[1] Soneto a Jesús Crucificado
[2] Comissão Pontifícia Bíblica, A interpretação da Bíblia na Igreja, 1993
[3] Act. 8,26-46
[4] Julio Trebolle Barrera- A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã, Vozes, Petropolis, 1999, 2ª ed. p 299
[5] Quem foi Quem é Jesus Ctisto? Coor. por Anselmo Borges, Gradiva, 2012, p 11-82

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publicado às 09:52

VIDA CRISTÃ, VIDA BAPTISMAL (Festa do Baptismo do Senhor)

por Zulmiro Sarmento, em 11.01.16
 

A. Tempo comum para viver um mistério (sempre) incomum

  1. A festa deste dia sinaliza a transição do Tempo do Natal para o Tempo Comum. Ressalve-se, desde já, que o Tempo Comum não é um tempo menos importante. É no Tempo Comum que somos chamados a vivenciar o que celebramos nos dois grandes pólos celebrativos do Ano Litúrgico: o Natal e a Páscoa.

No Tempo Comum, continuamos a celebrar o Mistério sempre Incomum: o mistério de Deus que Se fez homem em Jesus Cristo para nos salvar. O incomum torna-se, portanto, comum, não no sentido de vulgar, mas no sentido de constante. O Tempo Comum é também, por sua própria natureza, um tempo comunitário, ou seja, um tempo para, em comunidade, celebrar e testemunhar o Evangelho de Jesus.

 

  1. A esta luz, podemos dizer que o Tempo Comum é um tempo pascal e um tempo natalício. É sabido que a cadência da celebração da Páscoa, antes de ser anual, é semanal: cada Domingo é dia de Páscoa. E uma vez que o mistério pascal constitui o ápice da Encarnação, então não é descabido concluir que o Tempo Comum é também, a seu modo, um tempo de Natal. É um tempo em que Jesus (re)nasce para nós e um tempo em que nós (re)nascemos para Jesus.

Não foi em vão que Johannes Moller considerava a Igreja como «a Encarnação permanente». Na verdade, o Filho de Deus que encarnou em Jesus Cristo continua a encarnar no Seu corpo que é a Igreja, à qual pertencemos a partir do Baptismo.

 

B. Uma síntese e uma abertura

 

3. Na Liturgia, o Tempo Comum é o tempo mais longo. É composto por 33 ou 34 semanas, distribuídas em duas etapas: a primeira decorre entre a Festa do Baptismo do Senhor e o início da Quaresma e a segunda vai da segunda-feira após o Pentecostes até ao começo do Advento.

É no Tempo Comum que acompanhamos a maior parte da missão de Jesus. No Tempo Comum, não celebramos nenhum aspecto particular do mistério de Cristo, mas o mistério de Cristo na sua globalidade. No Tempo Comum, acompanhamos a vida pública de Cristo: desde o Seu Baptismo até à Sua Paixão, Morte e Ressurreição.

 

  1. A Festa do Baptismo do Senhor é, pois, umasíntese e uma abertura. Ela permite-nos encontrar uma síntese do Tempo do Natal ao mesmo tempo que nos abre as portas do Tempo Comum. O Baptismo de Jesus mostra-nos um Jesus já adulto, na casa dos 30 anos, mas sempre com a consciência de filho.

No Natal, vemo-Lo ao colo da Mãe; no Baptismo, acompanhamo-Lo a ouvir a voz do Pai. É por isso que, já no século V, S. Máximo de Turim considerava que «não é sem razão que celebramos esta festa pouco depois do dia do Natal» e que «também ela deve chamar-se festa de Natal». É que se, «no Natal, Cristo nasceu da Virgem, hoje é gerado pelos sinais do Céu». No Natal — prossegue S. Máximo —, «Maria, Mãe de Jesus, acaricia-O no Seu colo; agora, ao ser gerado entre os sinais celestes, Deus, Seu Pai, envolve-O com a Sua voz, dizendo: “Este é o Meu Filho amado, no qual Eu pus todo o Meu enlevo. Escutai-O”(Mt 17,5). A Mãe apresenta-O aos magos para que O adorem, o Pai apresenta-O às nações para que O reverenciem».

 

C. Uma teofania e uma antropofania

 

5. O Baptismo de Jesus constitui uma Teofania e uma Antropofania. Jesus é o Filho de Deus (cf. Mc 1, 11) em forma humana. Ele é a revelação definitiva de Deus e é a revelação suprema do homem. O Concílio Vaticano II proclama que Jesus, Verbo encarnado, «revela o homem ao homem». O serviço é a chave desta dupla revelação. O Filho de Deus é já delineado por Isaías como o servo (cf. Is 42, 1): Servo de Deus e Servidor para os homens.

No Baptismo, Deus ungiu Jesus com «Espírito Santo e fortaleza»(Act 10, 38) para a Sua missão messiânica que, como refere a Primeira Leitura, consiste em levar «a justiça às nações», em «abrir os olhos aos cegos», em «tirar da prisão os cativos e da cadeia os que habitam nas trevas»(Is 42, 1-4.6-7). Jesus apresenta-Se, assim, inteiramente divino e inteiramente humano: consubstancial ao Pai na divindade e consubstancial a nós na humanidade.

 

  1. É claro que Jesus não precisava de ser baptizado. Jesus é baptizado na água, mas é Ele que baptiza no Espírito Santo (cf. Mc 1, 8). Ele é, pois, o verdadeiro Baptista. Por isso, João resiste: «Eu é que devo ser baptizado por Ti»(Mt 3, 14). Mas, como nota S. Gregório de Nazianzo, «João resiste e Jesus insiste». S. Máximo de Turim percebeu: «Cristo foi baptizado, não para ser santificado pelas águas, mas para santificar as águas e para purificar as torrentes com o contacto do Seu corpo».

Está, assim, apontada a nossa identidade e traçado o nosso itinerário. Ser cristão é seguir Cristo, é ser baptizado em Cristo. Por tal motivo, terminamos o Tempo de Natal com o Baptismode Cristo e iniciamos o Tempo Comum com a determinação de vivermos sempre o nosso Baptismo em Cristo.

 

D. Baptizar significa mergulhar

 

7. O Baptismo não pode ser remetido ao estatuto de episódio da nossa infância mais remota. O Baptismo imprime carácter, afecta todo o nosso ser. É por tal motivo que se trata de um sacramento que não é reiterado: recebido uma vez, recebido para sempre. As consequências do Baptismo não podem ser reduzidas a uma festa, aos filmes e às fotos. A grande consequência do Baptismo é a vida de Cristo em nós.

Etimologicamente, «baptizar» significa «mergulhar». Pelo que baptizar significa mergulhar em Cristo e, por Cristo, no Pai na força do Espírito Santo. Por outras palavras, baptizar significa mergulhar na vida divina, na vida da Santíssima Trindade. Foi uma das incumbências que o Ressuscitado deixou à Igreja: baptizar «em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo»(Mt 28, 19).

 

  1. O Baptismo é um novo nascimento pois «ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo»(Jo 3, 3). É o próprio Jesus que, como nota S. Paulo, faz de nós filhos adoptivos de Deus (cf. Gál 4, 5). Ser filho adoptivo não é ser um filho menor. S. Paulo usa a linguagem da filiação adoptiva para distinguir a nossa filiação da filiação de Jesus. Enquanto Jesus é Filho por natureza, nós somos filhos por graça, por adopção. Mas somos verdadeiros filhos. Em suma, tornamo-nos filhos no Filho.

As águas do Baptismo representam — isto é, tornam presente — o mistério pascal de Jesus. Foi na Páscoa — na Paixão, na Morte e na Ressurreição — que Jesus nos salvou do pecado e nos garantiu a dignidade de filhos de Deus. No Baptismo, descemos com Cristo à morte e com Cristo subimos à vida. Por isso, a celebração do Baptismo, durante muitos anos, era sempre na Vigília Pascal. Sto. Agostinho, por exemplo, conta-nos a sua experiência baptismal da noite de 24 para 25 de Abril do ano 387.

 

E. Um sacramento que tem princípio, mas não tem fim

 

9. Não sendo obrigatório que o Baptismo seja na Páscoa anual, é de todo recomendável que ele ocorra na Páscoa semanal, ou seja, ao Domingo. Uma vez que é ao Domingo que a Igreja se reúne para celebrar a Ressurreição do Senhor, faz todo o sentido que seja nesse dia que se acolham os novos membros da mesma Igreja. Importa ter presente que o Baptismo tem, a par da sua dimensão cristológica, uma irrenunciável dimensão eclesiológica. Sendo a Igreja o novo Corpo de Cristo, pertencer a Cristo equivale a pertencer à Igreja. É por isso que o Baptismo não deveria ser nunca uma festa apenas da família da criança, mas a festa de todos os membros da Igreja.

Pelo Baptismo, não pertencemos somente à nossa família de sangue. Passamos a pertencer igualmente à numerosa família dos filhos de Deus. No Baptismo, toda a comunidade cristã acolhe com alegria o seu novo membro. Neste contexto, os padrinhos são os representantes da comunidade cristã para ajudar os pais na educação cristã. Os padrinhos não são somente aqueles que dão prendas; são sobretudo aqueles que testemunham a vida cristã. É por isso que os padrinhos devem ser cristãos com maturidade, já com o sacramento do Crisma e da Eucaristia e com uma vida consentânea com a fé e a missão que vão desempenhar. Se os padrinhos não são cristãos praticantes como podem ajudar a criança baptizada na prática da fé cristã?

 

  1. O Baptismo é um sacramento que tem princípio mas não tem fim. Os antigos chamavam ao Baptismo «janua sacramentorum», isto é, a porta dos sacramentos. Mas Deus não quer que fiquemos à porta. O Baptismo inaugura a iniciação cristã, que inclui a Confirmação e da Eucaristia e que se estende aos restantes sacramentos: aos sacramentos de cura (Penitência e Unção dos Enfermos) e aos sacramentos da comunhão e da missão (Ordem e Matrimónio).

Tal como festejamos o dia do nosso nascimento, seria bom que festejássemos o dia do nosso novo nascimento, no Baptismo. Cada dia de um baptizado deve ser um dia baptismal, marcado pela presença de Cristo em nós e de nós em Cristo. Cristo vive sempre de frente para nós. Não queiramos viver de costas para Cristo. Cristo permanece sempre em nós. Procuremos permanecer nós também em Cristo. Assim sendo, no Tempo Comum, havemos de ter uma vida incomum, uma vida fora do comum, enfim uma vida bela e luminosa.

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publicado às 09:43

Com quem começar o novo ano? (I)

por Zulmiro Sarmento, em 05.01.16

 

Frei Bento Domingues, O.P.

1. Um católico fervoroso tentou convencer-me de que a preocupação com a Bíblia e mesmo com os textos do Novo Testamento era prejudicial à sua fé, pois suscitavam-lhe muitas dúvidas e, para viver, as certezas é que são precisas. Tinha ficado muito satisfeito, no entanto, ao ouvir dizer que, “ao contrário do Judaísmo e do Islão, o Cristianismo não era uma religião do Livro. Era uma ligação espiritual a Jesus Cristo que, aliás, não tinha deixado nada escrito. Nenhuma doutrina ou prática moral se poderia reclamar dele”.

Perante semelhante desistência intelectual, não entrei na conversa. Por outro lado, também não disponho de respostas rápidas para questões complexas, como tantas vezes me foi pedido nesta quadra natalícia. Uma, repetida por vários leitores, regressou como se fosse a primeira vez: afinal, quem é o fundador do Cristianismo?

Um famoso historiador das origens cristãs, Antonio Piñero, em várias das suas obras e intervenções, sustenta que nenhuma das ideias do Novo Testamento, isoladamente consideradas, é original. A teologia deste conjunto de escritos não é um meteorito descido do céu. É um produto da história teológica, social e literária anterior que importa conhecer para compreender o nosso passado religioso e de certo modo, o próprio Ocidente.

Para ele, o Ano I [1], aquele em que Jesus nasceu, não pode ser passado nem por alto nem ao lado. Nesse momento, o judaísmo - e o cristianismo que dele nasceu - encontram-se a cavalo entre dois mundos: o greco-romano e a herança judaica muito plural. Esse é o ano preparado para o nascimento do cristianismo e para a sua ideia messiânica de salvação, que brota tanto de Israel como do mundo greco-romano que o rodeia.

A prova contundente dessa afirmação encontra-a A. Piñero, na IV Égloga de Virgílio. Este poeta tão profundamente romano e, aparentemente, tão afastado do mundo judaico, compôs um famoso canto a um misterioso divino infante, cujo nascimento inaugura uma nova idade de oiro do mundo. Um poema, aqui adaptado, que até parece um apocalipse messiânico judaico: Aí vem a idade última anunciada nos oráculos de Sibila. Com um menino que vai nascer será finalmente concluída a idade de ferro e por todo o mundo irá surgir uma idade doirada… Olha como se agitam o mundo sobre o seu pesado eixo, a terra e o espaçoso mar com o profundo céu. Olha como tudo se regozija com o novo século que há-de chegar.

Esperava-se, nesse momento, tanto entre judeus como entre gentios, que o universo mudasse de signo para uma nova salvação.

Ao dar à luz Jesus de Nazaré, personagem transcendental no desenvolvimento do Ocidente, o Ano I é para Piñero, um dos mais importantes para a História universal.

2. Não se trata de uma afirmação gratuita. O autor explica, ao longo da sua obra, de forma rigorosa e pedagógica, a situação política, económica, social e, sobretudo, religiosa do Império Romano e a repercussão que tinha no âmbito de Israel. Trabalha à base das perguntas que faz para compreender em que mundo nasceu e se desenvolveu o cristianismo, vencendo os lugares comuns da ignorância.

Como afectava a dominação romana a vida quotidiana de Israel? Que impacto teve o principado de Augusto e o fim da República? Como estava organizado o judaísmo? Que influências tiveram as religiões que o rodeavam? Qual era a situação da mulher, dos diversos grupos religiosos judaicos, as ânsias de salvação que se viviam em todo o Mediterrâneo oriental, as relações entre judeus e pagãos? Etc…

Sem ter isto em conta, os textos do Novo Testamento são ilegíveis. Nenhum tem a assinatura de Jesus de Nazaré. Não é como escritor que Jesus se tornou conhecido e imprescindível. Não é o único caso entre as grandes personalidades da História. Também não foi o único caso de reformadores fracassados.

3. Jesus de Nazaré viveu e trabalhou na Palestina do primeiro século. Acerca disto não há dúvidas. Mas ficar só com aquilo que, pelo método histórico, se pode saber é ficar com quase nada. Sabemos que viveu no quadro de um judaísmo plural e, dentro dele, fez o seu caminho. Teve discípulos, foi seguido por multidões, suscitou muitas controvérsias e acabou crucificado. Mas porque não desapareceu a sua memória, como a de muitos rebeldes e muitos milhares de crucificados?

Sob o ponto de vista religioso um crucificado, um blasfemo, um possesso do demónio não era propriamente um protegido de Deus. Contra todas as evidências passa a correr a ideia que Deus o ressuscitou. Por outro lado, não se estava no fim do mundo, na ressurreição universal.

Havia o sinal de uma nova convocatória. O estranho é que os discípulos acabaram por dar crédito às mulheres, cuja opinião não contava.

Os seus discípulos, como bons judeus, até podiam saber a Bíblia de cor. Entregaram-se apaixonadamente a reler, a reinterpretar, a reescrever tudo o que a Jesus dizia respeito, para mostrarem que ele era verdadeiramente o Messias, o Cristo esperado. Leem e reinterpretam tudo, mas da frente para trás. Ao ficar tudo tão bem acertado, até parece que estava tudo mais que previsto.
Veremos qual era o método prodigioso fixado por Mateus, Marcos, Lucas e João, sem falar de Paulo.

Público, 03.01.2016 
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[1] Antonio Piñero, Año I, Israel Y su mundo cuando nació Jesús, Laberinto, 2008

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publicado às 10:59

NO NATAL E NA EPIFANIA, A MESMA TEOFANIA (Solenidade da Epifania do Senhor)

por Zulmiro Sarmento, em 04.01.16
 

A. Ser Deus é ser fiel

  1. Deus cumpre. Em Deus, tudo se cumpre. Podemos, pois, confiar sempre em Deus. De facto, ser Deus é ser fiel. E ser humano, à imagem de Deus, também devia equivaler a ser fiel. Mas mesmo que o homem não seja fiel, Deus permanece fiel «porque não pode negar-Se a Si mesmo»(2Tim 2, 13). O mistério da Encarnação é, por excelência, um mistério de fidelidade.

Ao longo deste tempo de Natal, ouvimos anunciar que «uma virgem conceberá»(Is 7, 14) e, de facto, a Virgem concebeu (cf. Lc 1, 31-38). Também ouvimos vaticinar que seria de Belém, terra de Judá, que iria sair o Pastor de Israel (cf, Miq 5, 1). E, na verdade, foi em Belém que Jesus nasceu (cf. Mt 5, 1). Acabamos de ouvir falar dos que haviam de vir de longe para cantar as glórias do Senhor (cf. Is 60, 1-6). E eis que o Evangelho nos reporta a vinda de pessoas que, efectivamente, vêm de muito longe procurar o Senhor (cf. Mt 2, 1).

 

  1. Afinal, o Deus que nos procura também Se deixa procurar, o Deus que nos visita também Se deixa visitar, o Deus que vem ao nosso encontro também Se deixa encontrar. Ele vem ao encontro de todos e todos são convidados a ir ao encontro d’Ele: os de perto, como os pastores (cf. Lc 2, 16) e os de longe, como os magos (cf. Mt 2, 1).

Como bem notou S. Paulo, todos, em Cristo Jesus, «pertencem ao mesmo Corpo e beneficiam da mesma Promessa»(Ef 3, 6). Caem pois os muros, só ficam as pontes. Todos estamos ligados a todos através do Pontífice, isto é, d’Aquele que faz as pontes: o próprio Jesus.

 

B. Número, nome e condição dos mago

 

3. O Evangelho, com extrema parcimónia, apresenta-nos «uns magos»(Mt 2, 1). Não refere nem o seu número nem o seu nome. Nem sequer diz que seriam reis, assim chamados talvez pela alusão que o Salmo 72 faz dos reis que viriam pagar tributo e oferecer presentes (cf. Sal 72, 10). A designação de magos não se reporta seguramente a artes mágicas, mas ao estudo dos astros.

Cedo, porém, a tradição entrou em campo. Quanto ao número, foi fácil chegar a três por causa dos presentes que levaram: ouro, incenso e mirra (cf. Mt 2, 11). Ouro porque aquele Menino era Rei, incenso porque aquele Menino era Deus e mirra porque aquele Menino iria ser Mártir. Remontará a esta oferta o costume de dar presentes nesta época natalícia. No que respeita à identidade dos magos, há um evangelho apócrifo arménio, datado do século VI, que refere o nome, a condição e a proveniência. Assim, Baltasar seria rei da Arábia, Gaspar seria rei da Índia e Melchior seria rei da Pérsia. Tal escrito também diz que seriam irmãos e que a viagem que fizeram teria demorado nove meses, chegando a Belém na altura do nascimento de Jesus.

 

  1. É claro que estes dados são fantasiosos, mas o certo é que se tornaram muito populares. Até um homem culto como S. Beda Venerável dá voz, no século VIII, a pormenores que já estariam muito difundidos. Segundo um dos seus escritos, «Melchior era velho de 70 anos, de cabelos e barbas brancas. Gaspar era jovem, de 20 anos, robusto. E Baltasar era mouro, de barba cerrada e com 40 anos».

De acordo com uma tradição medieval, os magos ter-se-iam reencontrado quase 50 anos depois de terem estado com Jesus, em Sewa, na Turquia, onde viriam a falecer. Mais tarde, os seus corpos teriam sido levados para Milão, onde teriam permanecido até ao século XII, quando o imperador alemão Frederico terá trasladado os seus restos mortais para Colónia.

 

C. Um mistério de mostração

 

5. Acerca da estrela que viram, também tem havido não poucos palpites. Muitos têm identificado aquela estrela com o cometa Halley, que foi visto por volta dos anos 12-11 a.C. Também poderia ser uma luz resultante da tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a.C. Há ainda quem fale de uma «nova» ou «supernova», visível por volta dos anos 5-4 a.C.

Esta estrela pode ser vista como um símbolo messiânico insinuado já no livro dos Números, quando o Balaão diz que «um astro procedente de Jacob se torna chefe»(Núm 24,17). Também Isaías garante que «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz raiou para os que habitavam uma terra sombria»(Is 9, 1).

 

  1. A verdadeira luz é o próprio Jesus. Ele mesmo Se apresentará como a luz do mundo (cf. Jo 8, 12). O Concílio Vaticano II proclama que «a luz dos povos é Cristo». Jesus é uma luz que nunca deixa de brilhar. Mas essa luz só é acessível a olhares lisos e limpos. Só quem for puro e transparente conseguirá ver esta luz. Herodes não viu esta luz porque não queria deixar-se iluminar: estava corroído pela inveja e dominado pelo poder (cf. Mat 2, 7-17).

A Epifania é, toda ela, uma festa de luz, de uma luz que ilumina toda a terra. Esta festa autentica a universalidade da missão de Jesus. Jesus manifesta-Se a todos, dá-Se a conhecer a todos. E a manifestação é essencialmente uma automanifestação. Em Jesus, Deus manifesta-Se a Si mesmo, dá-Se a conhecer a Si mesmo. A Epifania não é, portanto, um mistério de demonstração, mas de mostração. E Deus mostra-Se de uma forma disponível, despojada e encantadoramente humilde.

 

D. Uma festa que chegou a englobar o Natal

 

7. Aliás, é o que depreende do magnífico conto de Sophia de Mello Breyner. Baltasar, em nome dos outros magos, foi consultar os homens da ciência e da política para que lhes dissessem onde estava o «Rei dos Judeus» (cf. Mt 2, 2). Decepcionado com a resposta, virou-se para os homens da religião. É que encontrara um altar dedicado ao «deus dos poderosos», outro ao «deus da terra fértil» e outro ao «deus da sabedoria». Insatisfeito de novo, perguntou aos sacerdotes pelo «deus dos humilhados e dos oprimidos». Resposta dos sacerdotes: «Desse deus nada sabemos». Então Baltasar subiu ao terraço e «viu a carne do sofrimento, o rosto da humilhação». Deus estava ali, o Deus que os sacerdotes desconheciam.

Deus está, desde os começos, nos humilhados e oprimidos (cf. Mt 25, 40). E foram muitos os que, também desde os começos, O encontraram na humildade e entre as vítimas da opressão.

 

  1. Não espantará, assim, que esta seja uma festa muito antiga, mais antiga que o próprio Natal. Aliás, houve uma altura em que a Epifania englobava também a celebração do nascimento de Jesus. De facto, não há notícia de qualquer festa específica do Natal nos três primeiros séculos. A primeira vez que o Natal é mencionado no dia 25 de Dezembro é no ano 354.

Como sabemos, não é conhecido o dia exacto do nascimento de Jesus. S. Clemente de Alexandria indica que uns celebravam o Natal a 28 de Março, outros a 19 ou 20 de Abril, outros a 20 de Maio ou, então, na festa da Epifania. A opção por 25 de Dezembro deveu-se ao facto de, nessa altura, se celebrar em Roma a festa do «Sol invicto». Uma vez que o verdadeiro sol é Cristo, os cristãos optaram por cristianizar esta festa pagã, celebrando nela o nascimento do Salvador.

 

E. Um misto de aceitação, rejeição e indiferença

 

9. No Oriente, criou-se a 6 de Janeiro a festa da Epifania, cujo conteúdo era inicialmente variável conforme as regiões: nascimento de Jesus, bodas de Caná, Baptismo de Jesus. Muito depressa, ainda no século IV, o Ocidente acolheu a festa da Epifania, mas deu-lhe, sobretudo em Roma e no Norte de África, um conteúdo inteiramente novo: a adoração dos magos.

Foi esta evolução que ditou a actual estrutura do Tempo do Natal: Natal a 25 de Dezembro, Epifania a 6 de Janeiro e Baptismo do Senhor no Domingo depois da Epifania. No fundo, entre o Natal e a Epifania há um intercâmbio de significado. Celebra-se o mesmo em ambos os casos: a manifestação de Deus aos homens. No Natal e na Epifania, celebramos portanto a mesma Teofania.

 

  1. Mistério de luz e humildade, a Epifania envolve igualmente um misto de aceitação, indiferença e rejeição. Jesus começa, desde o início, a ser adorado e a ser rejeitado. Diante de Jesus, diferentes personalidades assumem diferentes atitudes, que vão desde a adoração (os magos), até à rejeição total (Herodes), passando pela indiferença. Esta última é a atitude dos sacerdotes e dos escribas, que não se preocupam em ir ao encontro desse Messias que eles bem conheciam dos textos sagrados.

Não basta, com efeito, conhecer Jesus, é fundamental ir ao encontro d’Ele para O anunciar. Uma vez que Ele Se dá totalmente, é de esperar que também nos demos inteiramente. Ele vem para mudar os nossos passos. Por isso é que os magos regressaram à sua terra por outro caminho (cf. Mt 2, 12). Quando nos encontramos com Jesus, que é o caminho (cf. Jo 14, 6), os nossos caminhos são outros. Transformemos, então, a nossa vida. Convertamo-nos Àquele que Se converteu a nós, Àquele que Se fez um de nós. Se Deus veio ao nosso encontro, não deixemos, também nós, de ir ao encontro de Deus. E, em Deus, procuremos ir ao encontro de todos!

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