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Será a Bíblia blasfema?

por Zulmiro Sarmento, em 31.12.15

 

Frei Bento Domingues, O.P.

1. Quando se tenta explicar a violência das religiões ou contra as religiões resvala-se facilmente para a justificação do crime.

Nos últimos tempos, repetem-me: o Papa Francisco considera o terrorismo, em nome de Deus, como uma blasfémia, mas, nesse caso, o Antigo Testamento (AT) não é também ele blasfemo?

O exegeta, Armindo Vaz [1], referindo-se a Dt 20,10-18 [2], apresenta Moisés a falar a Israel deste modo:


Quando te aproximares duma cidade para combater contra ela…, Iavé teu Deus a entregará nas tuas mãos e passarás a fio de espada todos os seus varões, as mulheres, as crianças, o gado; tudo o que houver na cidade, todos os seus despojos, o hás-de tomar como espólio…Quanto às cidades destes povos que Iavé teu Deus te dá em herança não deixarás nada com vida; consagrá-los-á ao extermínio: hititas, amorreus, cananeus, ferisitas, hivitas e jebuseus, como te mandou Iavé, teu Deus, para que não vos ensinem a imitar todas essas abominações que eles faziam em honra dos seus deuses: pecaríeis contra Iavé vosso Deus.
As explicações históricas do autor são importantes, mas insuficientes.

2. Encontrei, num estudo de Francolino Gonçalves [3], da Escola Bíblica de Jerusalém e membro da Comissão Bíblica Pontifícia, algo diferente. O uso que farei da sua hipótese só me responsabiliza a mim. Passo a transcrever apenas algumas passagens do seu longo texto.

Começa pela opinião comum: “desde há cerca de três quartos de século que o iaveísmo teve como matriz e, durante muito tempo, como único horizonte Israel ou, melhor dito, as relações entre Iavé e Israel. Nesta perspectiva, a eleição de Israel, a sua libertação do Egipto e a aliança que Iavé fez com ele, são os artigos fundamentais da fé iaveísta. Por influência das religiões estrangeiras, em particular da religião cananeia, o iaveísmo ter-se-ia voltado também para o mundo no seu conjunto e teria visto nele a obra de Iavé. No entanto, só teria assimilado plenamente a fé na obra criadora de Iavé, a partir de cerca de meados do séc. VI a.C., sendo Is 40-55 [4], o escrito sacerdotal e vários salmos testemunhos e resultados deste processo de assimilação. Dito isso, a fé na obra criadora de Iavé, que tem por quadro e horizonte o cosmos e a humanidade, teria ficado sempre subordinada à fé na sua obra salvífica, que tem por quadro e horizonte a história das relações entre Iavé e Israel.

“A opinião comum teve a sua formulação clássica na Teologia do Antigo Testamento de von Rad, o estudo do género que maior influência exerceu durante o último meio século. A própria Constituição dogmática Dei Verbum do Concilio Vaticano II (1965) deve muito à Teologia do luterano von Rad.

“A primazia absoluta que se atribui à ideia de história da salvação de Israel, a expensas da solicitude de Deus para com toda a criação, foi alvo de contestações mais ou menos radicais. Os seus autores baseiam-se geralmente numa maior atenção prestada aos escritos sapienciais mais antigos, que a opinião corrente não tem em conta. (…) O AT contém assim duas representações diferentes de Iavé. Segundo uma, ele é o Deus criador que abençoa todos os seres vivos; segundo a outra, ele é o Deus que está ligado a Israel, o seu povo, a quem protege e salva.

“Os exegetas não prestaram a estas vozes discordantes a atenção que mereciam. A esmagadora maioria parece nem as ter ouvido. Por isso, ficaram sem eco, não tendo chegado ao conhecimento dos teólogos, dos pastores nem, por maioria de razão, ao público cristão.

 “As minhas pesquisas nesta matéria confirmaram, essencialmente, o resultado dos estudos que referi e, além disso, levaram-me a propor uma hipótese de interpretação do conjunto dos fenómenos religiosos do AT que é nova. A meu ver, o AT documenta a existência de dois sistemas iaveístas diferentes: um fundamenta-se no mito da criação e o outro na história da relação de Iavé com Israel. Simplificando, poderia chamar-se iaveísmo cósmico ao primeiro e iaveísmo histórico ao segundo. Contrariamente à opinião comum, a fé na criação não é um elemento recente, mas constitui a vaga de fundo do universo religioso do AT.”

3. Até aqui, dei a palavra a Francolino Gonçalves. Sem a leitura atenta do seu longo estudo, será difícil apreender o alcance da sua descoberta. Eu tiro a minha conclusão: o iaveísmo histórico veicula uma teologia nacionalista, por vezes, de uma extrema violência. Coloca na boca de Deus os interesses de um povo contra os outros povos. Este nacionalismo religioso blasfema. 

Público, 27. 12. 2015
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[1] A imagem de Deus violento na Bíblia, em Religiões. Identidade e Violência. UCP, 2003, p. 187.
[2] Deuteronómio
[3] Iavé, Deus de justiça e de bênção, Deus de amor e de salvação em Cadernos ISTA, nº 22 (2009), p. 107-152, especialmente p. 114-115.
[4] Livro do profeta Isaías

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publicado às 20:19

O crente e o não-crente para quem "Jesus sabe bem"

por Zulmiro Sarmento, em 31.12.15

Entrevista

Carlos Vaz Marques  (Texto) e  Nuno Ferreira Santos  (Fotografia) 

Público

20/12/2015

 

O escritor Frederico Lourenço, fascinado pelo texto bíblico, tem dificuldade em aceitá-lo como texto sagrado. Levámo-lo ao encontro de um religioso conhecido pela sua heterodoxia. Há um aspecto em que Frei Domingues e Frederico Lourenço estão de acordo: Jesus “sabe sempre bem".

 

Sabe bem entrar na pequena sala do Convento de São Domingos, onde havemos de ficar a conversar longamente. O anfitrião, Frei Bento Domingues, deixou previamente ligado um aquecedor que nos reconforta, depois da ventania do Alto dos Moinhos. Antes disso, foi cicerone pelos espaços do convento, onde vivem cerca de três dezenas de religiosos. Em cima da mesa, entre papelada diversa, está um exemplar de O Livro Aberto — Leituras da Bíblia (edição Cotovia), a publicação mais recente de Frederico Lourenço. Aos 52 anos, o escritor define-se como um ex-católico, à procura de uma conciliação entre o pensamento racional e a figura de Jesus. A doutrina da Igreja acerca da homossexualidade não é alheia, evidentemente, a esse corte com a prática religiosa, sendo Frederico Lourenço um gay assumido. Mas há outras dúvidas e inquietações de que dá testemunho no livro que serve de pretexto a este encontro. Frei Bento já o tinha lido quando lhe liguei desafiando-o para a conversa com o escritor. Entre concordâncias e discordâncias, salta à vista o mesmo entusiasmo pelo texto bíblico de dois leitores da Bíblia separados pela questão da fé.

 

Ao lerem a Bíblia, lêem ambos o mesmo livro ou a fé, que um tem e o outro não, altera substancialmente a leitura?

Frederico Lourenço — A fé pode alterar, naturalmente, o olhar sobre o livro. Se tivermos fé, e sobretudo se estivermos a ler o livro de acordo com a crença e a prática de uma qualquer modalidade do cristianismo — pode ser católica, luterana, protestante —, estamos condicionados para ver um sentido que, se não tivermos fé, não somos obrigados a ver.

 

Frei Bento Domingues — O que é importante, antes de mais, é o facto de a Bíblia ser a biblioteca de um povo: de épocas muito diferentes, com géneros literários e problemáticas também muito diferentes.

 

Na verdade são duas bibliotecas: o Antigo Testamento e o Novo Testamento.

F.B.D. — Sim. Os cristãos depois integraram-na, fazendo a sua interpretação a partir de Jesus. Releram o Antigo Testamento em função desse acontecimento. Por isso é que muitas vezes aquilo é artificial. Depois do acontecimento lêem para trás. Não é que antes já previssem Jesus, depois do acontecimento é que já vêem lá tudo.

 

F.L. — Pessoas como o Frei Bento já estudam estes assuntos há muitos anos. Dar-se-ão conta de que muitas das coisas que pergunto no meu livro são perguntas feitas já desde o século XVIII. Até desde antes disso. São interrogações que vale sempre a pena voltar a colocar porque estamos agora numa altura em que, sobretudo noutras vertentes do cristianismo que não o catolicismo, se está a derivar para uma crença fundamentalista, voltando a interpretar à letra tudo o que está na Bíblia, como se fosse a palavra infalível de Deus.

 

Esta questão da literalidade na leitura é relevante.

F.B.D. — É importante, sim. A exegese histórico-crítica da Bíblia começou em grande parte no mundo protestante. Foi levantada por um padre francês mas abafada, e depois reapareceu a partir dos séculos XVIII, XIX. Recordo-me que o meu professor de Antigo Testamento, em Salamanca, nos dizia sempre: “Quando virem números na Bíblia, tirem sempre dois zeros. Pode-se provar que nem sequer havia naquela povoação tanta gente.” Era uma leitura extremamente crítica e que tinha dois efeitos: vacinava uns contra todos esses fundamentalismos, mas encrespava outros: “Então e a nossa teologia, todos os argumentos que temos?” Dizia ele assim: “Já ensinei toda a vossa filosofia a um papagaio; vós repetis mas isso nada tem a ver com o que se passa na Bíblia.” Quanto ao Frederico, há uma tarefa lindíssima a que poderia dedicar-se: seria a tradução da Bíblia dos Setenta, que foi escrita em grego.

 

F.L. — Ando a pensar nisso. Já recebi vários incentivos.

 

F.B.D. — Ainda bem. Aquilo que aparece no seu livro são coisas já muito debatidas, embora sejam conhecidas sobretudo pelos especialistas. Quanto ao resto das pessoas, ainda ouvem as leituras da Bíblia num clima, não digo de fé ou não fé, mas mais piedoso ou menos piedoso. Quando as pessoas falam de fé incluem nisso certas crendices e uma atitude interior em que encontram, na adesão ao mistério do mundo, ao mistério da vida, ao mistério de Deus, aquilo a que chamam “sagrado”. Descobrem aí uma expansão da vida.

 

F.L. — São dois os problemas que identifico na leitura da Bíblia, os meus dois grandes problemas como leitor da Bíblia. Um deles é que discordo racionalmente da exegese que se faz, sobretudo do Antigo Testamento, por cristãos e católicos. Em particular, a ideia de que o que temos de fazer é aprender a ler a Bíblia, conseguindo ver no texto o que não está lá. A minha tese é que nenhum dos autores dos 70 livros que compõem aquilo a que chamamos a Bíblia, nenhum, escreveu com o intuito de que nós lêssemos nas palavras deles outra coisa que não as palavras que foram escritas.

 

Poderá é haver chaves de leitura que hoje é preciso conhecer.

F.L. — Sim, todas as chaves são possíveis. E haverá um milhão de chaves. Mas a minha leitura leva-me à crença de que isso é assim mesmo nos livros proféticos. Dou o exemplo de Ezequiel, que é lido de forma totalmente alegórica, metafórica. Ele escreveu tudo o que escreveu para ser lido exactamente com o sentido que as palavras têm.

 

O que é importante, antes de mais, é o facto de a Bíblia ser a biblioteca de um povo: de épocas muito diferentes, com géneros literários e problemáticas também muito diferentes

Frei Bento Domingues

 

F.B.D. — Uma coisa é ler o texto, outra coisa é a hermenêutica do texto, que tem sempre muitos pressupostos filosóficos, literários. A grande dificuldade que sempre tive é com o insuportável da violência na Bíblia. Um Deus que manda matar, que se mate ele, não o aturo! E as pessoas diziam: “Mas isso está revelado.” Revelado por quem? O Francolino Gonçalves, um confrade meu, que está na Escola Bíblica de Jerusalém há 45 anos, foi fazer uma análise dos diferentes javeísmos que havia na Bíblia, as diferentes formas de dizer Deus. São muitos, mas ele distingue dois tipos. Um, o sapiencial: “Criou o Céu e a Terra.” Aqui a palavra “criou” não tem o sentido de Darwin, nem o nosso sentido metafísico: é a organização do caos. Os textos tipicamente sapienciais são universalistas. E depois, a partir da saída do Egipto, há os textos patrióticos, que põem na boca de Deus aquilo que lhes interessa a eles. Deus tem de dar porrada nos nossos inimigos. Tem de estar do nosso lado. Somos capazes de pôr Deus ao serviço dos nossos crimes. Aquilo que consideramos supremo, rebaixamo-lo a instrumento das nossas políticas, das nossas intenções.

 

Isso é válido também para um livro como o Livro de Job?

F.B.D. — O Livro de Job é um livro da sabedoria.

 

F.L. — Penso que o Deus que está implícito no Livro de Job não é muito melhor do que este que acabou de ser referido, o daqueles livros históricos mais sanguinários. Como leitor do Livro de Job, não fico muito enaltecido com a imagem de Deus que transparece nele.

 

F.B.D. — O Livro de Job tem várias políticas internas. Tem vários autores. Tomás de Aquino, ao ler esse livro, perguntou: “Mas pode-se discutir com Deus?” Pode, se se tem razão. E Job tinha razão, podia discutir com Deus.

 

Pode ler-se a Bíblia apenas em termos estritamente literários?

F.L. — A Bíblia interessa-me, claro, enquanto texto literário. Como leitor. Mas não é essa a vertente que mais me interessa, sendo alguém que tenta reflectir um pouco sobre o texto bíblico. Não nego de forma alguma a força e a qualidade literária da Bíblia. São textos magníficos, todos eles. Uns mais do que outros, claro. Mas a minha abordagem à Bíblia não é essa. A minha abordagem tem mais a ver com a tentativa de conciliar racionalmente as dúvidas que ela me levanta, como alguém que se interessa profundamente pela religião, pelo cristianismo e pelo texto bíblico, desde sempre. Tento equacionar em que consistem as dúvidas que me impedem de me afirmar como cristão, ou crente, a cem por cento. Outro problema é o da lente transfiguradora através da qual a vida de Jesus é narrada nos quatro evangelhos. Sempre como prova de que as profecias estavam a ser cumpridas em tudo o que Jesus fez e não fez. Quando começamos a olhar mais aprofundadamente para essa relação — entre aquilo que foi a vida de Jesus e aquilo que os evangelistas narram —, somos constantemente levados a perguntar: este facto que está aqui a ser narrado é ou não verdadeiro? Há, constantemente, um véu entre aquilo que verdadeiramente aconteceu, que eu gostaria de saber o que foi, e a minha leitura. Esse véu é a interposição do texto do Antigo Testamento, que está a criar constantemente uma barreira entre a vida de Jesus e nós, que estamos a tentar compreender o que foi a vida de Jesus. Isso impede-nos de saber o que realmente se passou.

 

É por isso que o seu evangelho preferido é o de João, por sentir que é o que está mais próximo dos factos?

F.L. — João também tem esse problema. É um texto magnífico.

 

F.B.D. — Em relação a João, as últimas investigações são muito engraçadas: são três “Joões”. O texto passou por três fases e hoje, como se faz análise histórico-crítica, é como na Arqueologia: uma camada, depois outra…

 

F.L. — Tenho problemas com isso. Tinham de ser três “Joões” muito bem combinados entre si. Justamente por ser tão estilisticamente unitário.

 

F.B.D. — Há um aspecto importante: Jesus não escreveu nada. Então, o que temos? Sei que as outras pessoas não vão por aí mas isso não me interessa, o nosso primeiro direito é o de pensar livremente. Os textos são muito posteriores ao que aconteceu. O que me impressiona é que — apesar de enfoques distintos nas diferentes comunidades, porque surgiram grupos muito diferentes em sítios muito diferentes — todos me falam de alguém que me sabe sempre bem.

 

F.L. — Ah, sim.

 

Consigo sentir que eu, pessoalmente, Frederico Maria, sou amado por Deus. Isso consigo. E até me interrogo porquê. Mas olhando para o mundo à nossa volta, não vejo de modo algum o Deus do amor. Acho que ele foi mesmo para o desemprego

Frederico Lourenço

 

F.B.D. — Depois, uma coisa a que ninguém liga nada e que é a minha iluminação. No Evangelho de Lucas há uma passagem, no capítulo dez, que me faz rir sempre que a leio. Apresenta as coisas com os 12 apóstolos. Também é um número simbólico como nas 12 tribos de Israel. Mas ele achou que só com 12 não iam muito longe. Então inventa um envio de discípulos, uns 70. Quando voltam, a situação que narra é como a dos adolescentes quando vão para um campo de férias. Ao voltarem a casa, contam tudo aos pais; contam, contam, contam. Também eles vieram ter com Jesus e disseram-lhe: “Foi fantástico!” Contaram-lhe tudo o que tinha acontecido. E Jesus: “De facto correu mesmo bem, sim senhor.” Depois diz isto, que é o coração da minha fé, aquilo que me ilumina interiormente: “Mas cuidado, alegrai-vos sobretudo porque os vossos nomes estão inscritos nos Céus.” A palavra “céus” era um substituto de Javé, de Adonai, um substituto de Deus. “Alegrai-vos porque a vossa vida está inscrita no coração de Deus.” E depois, acrescenta o texto: “E ele naquele momento comoveu-se com o que disse.” Comoveu-se! Séculos e séculos andaram a querer ouvir isto e não ouviram, a querer ver isto e não viram. Costumo dizer que se Deus é amor e se não nos ama vai para o desemprego.

 

F.L. — Acho isso muito bonito. Acho lindo. Mas pessoalmente não consigo senti-lo de uma forma racional. Consigo sentir que eu, pessoalmente, Frederico Maria, sou amado por Deus. Isso consigo. E até me interrogo porquê. Mas olhando de forma completamente fria e objectiva para o mundo à nossa volta, não vejo de modo algum o Deus do amor. Acho que ele foi mesmo para o desemprego. Não está a amar as pessoas.

 

F.B.D. — O Frederico está como aquele rabino que, quando lhe disseram que veio o Messias, foi à janela e concluiu que não havia prova nenhuma de que ele tivesse chegado. É de facto o mundo que temos. Mas quando se coloca o problema da racionalidade, devo dizer que ainda não percebi bem o que é a razão. O Immanuel Kant diz algo que me ajuda: a nossa razão tem a capacidade de levantar problemas que não sabe resolver. É da própria natureza da nossa razão levantar permanentemente problemas.

 

F.L. — A grande vantagem da filosofia em relação à teologia e à catequese é que a filosofia nos ensina a pensar criticamente. Penso que isso é uma grande dádiva que já vem desde os gregos. Acho que devemos pensar criticamente. Deus, existindo ou não, mesmo que exista não quer que abdiquemos da capacidade de pensar criticamente e que deixemos de aplicar o pensamento crítico a tudo o que nos ocorre na vida. Temos de exercer o pensamento crítico, que é necessariamente diferente de pessoa para pessoa, não pode ser sempre coincidente. Esse é o grande problema de uma religião como a religião católica: querer conciliar biliões de seres humanos, levando-os a pensar mais ou menos a mesma coisa, a ter um pensamento que vai sempre desaguar numa conclusão já pré-determinada. Esse é o meu problema em relação à abordagem teológica, à Bíblia no geral. Estou a falar mais no Novo Testamento, e concretamente nos evangelhos, que é aquilo que mais me interessa. A discussão está viciada à partida porque a conclusão já está pré-determinada. A conclusão tem de ser consentânea com a doutrina católica.

 

F.B.D. — Há aí um problema importante. Creio que, na Igreja Católica, se não tivesse havido o Concílio Vaticano II, estaríamos como estão agora muitos muçulmanos em relação ao Corão. Também se interpretava tudo como um ditado divino. Na Igreja Católica, durante muito tempo, também se fazia dos textos do Antigo Testamento uma emanação divina. Isso punha-me sempre o problema: o que fizeram ali os escritores, porque é que aquilo não saiu tudo certo? No Vaticano II, quando o Papa João XXIII diz que estava a fazer a barba e se lembrou de convocar um concílio, havia na Igreja muitas tendências, muitos grupos, mas havia um Santo Ofício que vigiava, que condenava. E antes tinha havido a Inquisição, que queimava. O que se passou no Vaticano II foi que, desde o primeiro momento, se começou a discutir um documento que só foi aprovado um dia antes da conclusão do Concílio. Era o documento sobre a liberdade religiosa, sobre a liberdade de consciência. Aquilo que o Frederico diz, é verdade: há um catálogo de dogmas, se és católico tens de acreditar, isto está definido. Rio-me sempre disso. Quem é que soube que aquilo é que era a verdade? Foi por catálogo. Escrevi, em 1956, numa revista de estudantes católicos, por aí, que se deviam fechar todas as faculdades de Teologia, acabar com todas as leituras da Bíblia, e ter uma central telefónica (naquela altura, ainda só havia telefones). Os telefonemas eram atendidos em Roma e perguntava-se: “Como é isto?” E de lá respondiam [risos]. Era uma poupança. As pessoas escusavam de se preocupar, era só ligar. Isto é uma imagem do absurdo das posições absolutistas. Foi essa a luta de todo o século XX. Uma luta muito difícil mas que culminou nisto da liberdade religiosa.

 

O Frederico sente esta abertura ou ainda vê zonas de dogma?

F.L. — Com todo o apreço, o que acho muitas vezes das pessoas da Igreja Católica, dos teólogos, mesmo aqueles que têm fama de progressistas, é que essa atitude alegadamente progressista o é muito pouco. Tenho andado a ler, por curiosidade, alguns escritos daquele teólogo muito controverso, o enfant terrible da teologia, Hans Küng, e estou muito desiludido com essa leitura. Ele não é nada revolucionário naquilo que escreve. É completamente acomodatício em relação a praticamente tudo o que esperaríamos de um homem tão anatematizado.

 

F.B.D. — Tem razão nisso. Mas a questão que o Frederico põe só pode ser resolvida por cada um. Não há ninguém que possa pensar por nós, nem nós podemos servir-nos da autoridade deste ou daquele teólogo. Há pessoas com quem concordo mais, outras com quem concordo menos, e outras com quem não concordo nada. Tenho de estabelecer o meu itinerário.

 

Nalguns casos, esse itinerário faz com que as pessoas acabem por perceber que o seu caminho não coincide com o mapa da Igreja Católica.

F.B.D. — Muitas pessoas dizem: “Tens todo o direito de pensar isto ou aquilo mas, se achas isso, devias abandonar a Igreja.” Abandonar o quê? A Igreja de quem é? É tão minha como dos outros. O problema é quando me perguntam: “O que é que fazes pela Igreja?” Eu sou da Igreja. Agora, se me dizem que há um regime militar que diz o que se deve querer e o que se deve fazer, digo a quem pensa assim que cumpra isso, eu não. No seu livro, Frederico, há coisas admiráveis a este respeito. Em tudo o que se diz nos textos do Novo Testamento da arte de ser de Jesus, das formas mais desencontradas, encontro a alegria da vida. Porque ele não quis morrer. Depois puseram lá que ele quis morrer. Não. Ele quis não trair, que é completamente diferente. Ele não quis a cruz, puseram-lha às costas. Ele podia pôr-se a andar.

 

F.L. — Mas ele quis a cruz, quis esse desfecho.

 

F.B.D. — Não, não.

 

F.L. — “Para que se cumpra o que estava escrito.”

 

Aquilo que Jesus é, ?é para todos os tempos e lugares. Cheira-me que por aqui passa Deus, passa o ser humano e passa a vida e passa a alegria

Frei Bento Domingues

 

F.B.D. — Mas isso é o que há bocado estivemos a dizer: foi uma forma de harmonizar, dizendo que estava tudo previsto.

 

É o tal véu de palavras em que não se sabe o que é facto e o que é construção posterior.

 

F.B.D. — Há coisas muito engraçadas. Quando o vão acusar de trabalhar ao sábado, por exemplo. O sábado estava proibido, era o dia mais santificado. Até imaginaram que o próprio Deus parou para não trabalhar ao sábado. Há uma narrativa sacerdotal da criação que põe Deus a descansar ao sétimo dia. Era uma forma de justificar aquela instituição — aliás, admirável — que  mostra que o ser humano não é só para trabalhar, também é para descansar. Só que, ao fazer do dia de descanso uma obrigação, transformaram-no num colete de forças. Não se podia fazer nada. Isso ainda acontece entre os fundamentalistas judaicos. Ora, Jesus diz: “Não é o ser humano para o sábado, é o sábado para o ser humano. Não é o homem para o sacrifício, os sacrifícios é que são para os seres humanos.” Creio, é a minha interpretação muito subjectiva, que Jesus não queria a cruz, nunca a quis. Ele até foi acusado foi de estar com os copos.

 

F.L. — Porque não jejuam, nem ele nem os discípulos. Ele responde: “Enquanto o noivo está cá, porque é que hão-de jejuar?”

 

F.B.D. — No Evangelho de Lucas dizem mesmo que ele é um beberrão e um glutão. Que não faz nada como João Baptista, que era um homem austero. Jesus está sempre à mesa com aqueles que são vistos como pecadores e marginais. Ele queria abrir um novo caminho, um caminho de liberdade, um caminho de felicidade para as pessoas. Por isso é que lhe chamavam evangélico; era um caminho de alegria, a boa nova. Ora, correu tudo mal. O que me parece é que ele, pelo testemunho que temos, na própria cruz transformou o seu Deus — “Senhor, porque me abandonaste?” — no Deus das vítimas.

 

F.L. — Ele só diz isso em dois evangelhos, nos outros dois não diz. Em João diz só: “Está cumprido.” Só diz isso em Mateus e em Marcos.

 

F.B.D. — Não, não diz, digo eu. Mas diz outra coisa: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que estão a fazer.”

 

F.L. — Isso só diz em Lucas.

 

F.B.D. — Só.

 

F.L. — E numa frase considerada inautêntica nas edições críticas. Os manuscritos mais antigos não têm isso. Ficamos com este problema. Queremos tanto que ele tenha dito essa frase.

 

F.B.D. — A minha resposta é esta, se não disse, devia ter dito [risos]. E as pessoas podem dizer que eu também estou a querer criar um evangelho, mas pelo que dizem os outros também tenho esse direito. Por aquilo que todos os outros textos bíblicos dizem, também posso fazer a minha configuração de Jesus.

 

Essa configuração não corre o risco de se tornar uma forma de religião à la carte?

F.B.D. — Não, é o contrário. À la carte é o que encontram sempre para resolver problemas particulares. Esse é o único problema do mundo. Os seres humanos são todos seres humanos.

 

F.L. — Eu estou numa fase em que ando à procura de uma atitude objectiva em relação à religião, de um modo geral, e, em particular, em relação à figura de Jesus Cristo. O que me interessa é tentar conciliar — enfim, sei que é a quadratura do círculo mas ainda não desisti, e não vou desistir tão depressa — o pensamento crítico, racional, objectivo (aplicando a toda esta questão as mesmas armas e as mesmas estratégias que aplicaríamos a qualquer problema filosófico), de modo a tentar uma compatibilização entre o pensamento racional e a relação com Jesus. Sem ter de invocar mil coisas misteriosas, e mil coisas que a mente humana não entende nem consegue alcançar. Pode ser que um dia me dê completamente por derrotado e aí tenho de optar: ou a fé cega ou o ateísmo. Mas ainda não estou nesse momento porque ainda não me dei por derrotado nessa tentativa de conciliar o pensamento racional com a vontade de me aproximar de Jesus. Fui crente, católico, durante muitos anos. Depois fui mais ou menos católico durante muitos anos. Depois passei a ser mais ou menos ex-católico, e agora estou numa fase em que duvido, de facto, por uma questão de coerência interior, que alguma vez volte a ser católico praticante. Não por nenhuma aversão à Igreja Católica.

 

Como é que se quebrou essa relação?

F.L. — Há muitas razões, muitas coisas que me dão a sensação de que aquilo que podemos saber de objectivo sobre Jesus, que no fundo são as informações que nos vêm do Novo Testamento, são coisas, muitas vezes incompatíveis com aquilo em que o cristianismo se transformou. Logo desde os primeiros séculos.

 

Houve uma perversão da mensagem original.

F.L. — Uma das coisas que Jesus diz é: “Vereis aqui quem são os meus discípulos pelo amor que têm uns pelos outros.” Isso é uma coisa que antes de Constantino já se via, os ódios de morte entre essas grandes figuras da Igreja: São Jerónimo odiava Santo Ambrósio... É todo um catálogo de discordâncias, de ódios, de rivalidades, de invejas.

 

E posteriormente de crimes.

F.L. — Quando a versão ortodoxa católica teve o apoio político, conseguiu, de facto, esmagar muitas heresias. Há aquela coisa muito típica do Concílio de Niceia, quando queimam os escritos do herético Máximo. No final do século V já estavam a queimar os escritos e os heréticos. Já não eram só os livros, era também quem os lia.

 

F.B.D. — Os perseguidos passaram a perseguidores.

 

F.L. — Isso é uma história que não é compatível com o Jesus que eu encontro, mesmo com esse véu que me impede de ver a pessoa real. Ainda assim consigo vislumbrá-la. Como diz o Frei Bento, e estou inteiramente de acordo: apesar de tudo, lendo os evangelhos, tudo o que se lê sobre Jesus sabe bem. Tudo tem um cunho extremamente convincente. Apesar de haver todas estas interrogações que se levantam. O mais problemático, para mim, é entender a vida deste homem e tudo o que aconteceu à volta dele como uma manta de retalhos de citações do Antigo Testamento.

 

F.B.D. — Isso não me causa problema nenhum.

 

Ainda não me dei por derrotado nessa tentativa de conciliar o pensamento racional com a vontade de me aproximar de Jesus

Frederico Lourenço

 

F.L. — Não? Ajude-me.

 

F.B.D. — Coisas que causam ao Frederico muita espécie, a mim dão-me muito riso. Está-se mesmo a ver que aquilo foi arranjado para calhar bem. Aquilo são querelas de família. O judaísmo do tempo de Jesus tinha muitas tendências e muitos grupos organizados. Meier tem um estudo em quatro volumes para dizer que Jesus era um judeu marginal. É demasiado esforço para uma coisa que parecia evidente. Mas para mim é o contrário: os fulanos eram formados no judaísmo, eram formados na sinagoga ou no templo com os mestres que havia. O que eles sabiam eram precisamente essas narrativas. Os autores — independentemente das dúvidas sobre quem escreveu o quê — estão entre judeus e têm de provar aos outros judeus que aquilo não é uma loucura, que até já estava previsto. É uma estratégia de texto. As pessoas podem dizer: “É uma aldrabice.”

 

É uma forma de legitimação?

F.B.D. — É uma forma de argumentação. São estratégias de texto, estratégias de pensamento. Se há um modelo de vida no Ocidente, é a arte de viver de Jesus. Fazendo uma espécie de apanhado de tudo o que foi escrito no Novo Testamento, parece-me que Jesus se sai bem no exame. Aquilo que Jesus é é para todos os tempos e lugares. Jesus, não sei, tem um quê de especial, um quê não sei quê. Cheira-me que por aqui passa Deus, passa o ser humano e passa a vida e passa a alegria.

 

F.L. — Com essas palavras concordo inteiramente.

 

F.B.D. — Agora, a questão que põe, a questão da razão, considero-a muito verosímil. Porquê? Nós somos seres racionais, sim, mas somos muito mais do que isso. Somos muito mais do que o que se pode apurar pela razão. Somos sentimentos, somos tanta coisa.

 

F.L. — Há bocadinho, o Carlos falou no perigo da religião à la carte, e lembrei-me daquela versão dos evangelhos feita pelo terceiro Presidente dos Estados Unidos, Thomas Jefferson, que pegou numa tesoura e numa navalha e cortou tudo o que eram milagres, tudo o que era contrário à razão. Deixou só o que podia ser racionalmente compreensível. Ainda é muita coisa. Chamou àquilo a Filosofia de Jesus Cristo. Mesmo reduzindo os evangelhos a essa expressão mínima, ainda vemos aquilo que o Frei Bento estava a dizer: há qualquer coisa de extraordinário em Jesus. Há ali qualquer coisa.

 

F.B.D. — O Eduardo Lourenço diz que gostaria de estar sobre o ombro de Jesus enquanto ele escrevia na areia, quando estavam a incriminar a mulher adúltera. Jesus levanta-se e diz: “Quem não tem pecados que atire a primeira pedra.” Há qualquer coisa na arte de ser de Jesus. Agora, o Papa fala de misericórdia. Ter o coração junto da miséria dos outros é mais importante do que saber como é que havemos de os culpar.

 

F.L. — Este exemplo que o Frei Bento acabou de citar também é um caso difícil, numa visão racional do Novo Testamento. Este episódio da mulher adúltera, que está no evangelho de João, só está lá, e não deve ter feito parte dele originalmente. É a única parte do evangelho de João que destoa estilisticamente. Os manuscritos mais antigos não têm esse episódio da mulher adúltera, embora depois tenha passado a ser considerado canónico pela Igreja Católica. Mas ao longo de toda a história da Igreja houve sempre muitos problemas em aceitar aquilo. Por isso, muitos manuscritos gregos, do século X, omitem totalmente esse episódio. Pura e simplesmente, não existiu. É inconveniente.

 

F.B.D. — Os escritores têm uma coisa boa; diz um: isto aqui ficava bem; depois vem outro: isto aqui fica mal, por causa das convicções. Agora, há uma coisa que lhe quero dizer: o seu pai [o poeta e filósofo M.S. Lourenço] escreveu um livro pelo qual tenho uma devoção especial, Os Degraus do Parnaso. Um dia antes de ele morrer, disse-lhe isso ao telefone. No momento em que ele escreveu pela segunda vez aquele livro, aquelas crónicas, disse que procurou um efeito estético, quis que aquilo fosse uma obra de arte. Eu creio que os evangelhos não tiveram esse intuito: de escrever uma obra de arte. Tiveram o intuito de escrever sobre alguém que é uma obra de arte.

 

F.L. — Concordo inteiramente.

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in Público, 20 de dezembro de 2015

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publicado às 20:17

SÓ COM VIDA NOVA HAVERÁ ANO NOVO (Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus)

por Zulmiro Sarmento, em 31.12.15
 

A. Não comecemos a desistir e nunca desistamos de começar

  1. Nestas alturas, é praticamente impossível ser original. Como notava Terêncio, «não se diz nada que já não tenha sido dito». As palavras parecem sempre velhas, mesmo quando falam do que é novo. Que esperar, então, do ano novo?

Após os desejos habituais, eis que nos preparamos para as amargas desilusões de sempre. À primeira vista, já nenhum ano parece ser novo. A própria palavra «novo» é bem antiga. Há quantos séculos não anda a humanidade a desenhar promessas de novidade?

 

  1. Por vezes, a vontade de desistir é grande. Mas é precisamente por isso que a determinação de persistir tem de ser ainda maior. Afinal e como dizia Sto. Agostinho, «é quando parece que tudo acaba que tudo verdadeiramente começa». Na vida, são muitas as situações em que tudo parece que vai acabar. Na vida, são muitos os momentos em que temos de ganhar forças para recomeçar.

O início de um ano sinaliza que a vida é um recomeço constante. Há 12 meses, também estávamos a começar um ano. Há 24 e há 36 meses, estávamos igualmente a começar outros anos. O que jamais podemos é desistir: não comecemos a desistir e nunca desistamos de começar.

 

B. Um dia para Jesus, um dia com Maria

 

3. Começamos cada ano com os ouvidos ainda a captar os ecos do Natal. E, na verdade, o Natal não «foi», o Natal «é», o Natal continua a ser. Em suma, o Natal nunca deixa de ser. É certo que, nos últimos dias, já teremos usado vezes sem conta a fórmula verbal «foi» na pergunta que mais fizemos e que mais nos fizeram: «Como foi o teu Natal?» ou «Como foi esseNatal?». Já António Gedeão escrevia que «tudo éfoi». Mas não é isso o que sucede com o Natal. O Natal é uma manhã sem ocaso, é um começo sem fim.

Assim sendo, o Natal continua no tempo. Hoje mesmo é a Oitava do Natal. Aliás e como acabamos de escutar, foi oito dias depois do Seu nascimento que o Menino recebeu o nome de Jesus (cf. Lc 2, 21). Daí que, durante muitos anos, este fosse também o dia da festa do Santíssimo Nome de Jesus. Entretanto, o Tempo Litúrgico do Natal não acaba nesta Oitava. Ele só termina com a festa do Baptismo do Senhor, que este ano ocorrerá a 10 de Janeiro. Mas, no fundo, é sempre tempo de Natal. O Natal está no tempo para que possa estar na vida, para que possa estar na nossa vida no tempo.

 

  1. É, então, a Jesus que entregamos este nosso novo percurso no tempo, que queremos percorrer também na companhia de Maria, que tudo — e a todos — guarda em Seu coração (cf. Lc 2, 19). Com D. António Couto, saudámo-La, hoje, como «Senhora e Mãe de Janeiro, do Dia Primeiro e do Ano inteiro». Diante d’Ela nos sentimos «tão cheios de coisas e tão vazios de nós mesmos e de humanidade e divindade» Apesar de nos faltar muita coisa, ainda temos bastante. Falta-nos, porém, o essencial: «a simplicidade e a alegria» de Maria. Mas Maria está connosco, está connosco como Mãe.

Hoje ocorre a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Sendo Mãe de Cristo e sendo Cristo o Filho de Deus, os cristãos cedo perceberam que Maria era Mãe de Deus. Não era só Mãe do homem Jesus, mas Mãe do Filho de Deus que encarnou em Jesus. O Concílio de Éfeso oficializou esta doutrina em 431. S. Cirilo de Alexandria já tinha tornado tudo muito claro: «Se Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus e se a Virgem Santa O deu à luz, então Ela tornou-Se a Mãe de Deus».

 

C. A paz tem um nome: Jesus

 

5. Foi por Maria que Jesus veio até nós. Será sempre com Maria que nós iremos até Jesus. Aquela que nos dá Jesus é sempre a melhor condutora para irmos ao encontro de Jesus. Façamos, portanto, como os pastores. Como os pastores, corramos (cf. Lc 2, 16). Procuremos ir depressa, sem demora, ao encontro de Jesus. O encontro com Jesus terá de ser sempre a prioridade da nossa vida e o centro da missão na vida.

Em Jesus, oferecido por Maria, encontramos o que mais procuramos para nós e o que mais desejamos para o mundo: a paz. Jesus não é apenas o portador da paz. Ele próprio é a paz hipostasiada. Aliás, é assim que o Messias é descrito por Miqueias: «Ele será a paz»(Miq 5, 5). Isaías apresenta o Menino «que nos nasceu» como o «príncipe da paz»(Is 9, 6). Por sua vez, os salmos apontam os tempos messiânicos como sendo marcados por uma grande paz (cf. Sal 72, 7).

 

  1. Não espanta, por isso, que, no século V, S. Leão Magno tenha dito que «o nascimento de Cristo é o nascimento da paz». De facto e como reconhece S. Paulo, Cristo «é a nossa paz»(Ef 2, 14). É aquele que derruba todos os muros de separação e que de todos os povos faz um só povo (cf. Ef 2, 14). Trata-se de uma paz única, sem paralelo. O próprio Jesus viria a dizer que a Sua paz era diferente: «Deixo-vos a paz, dou-vos a Minha paz; não vo-la dou como o mundo a dá»(Jo 14, 27).

É neste sentido que o Concílio Vaticano II recorda que a paz é muito mais do que a mera ausência de guerra. De resto, a ausência de guerra é, muitas vezes, ocupada com a preparação para a guerra. A paz é mais do que «pax», que, segundo os antigos romanos, resultava da negociação entre as partes desavindas. As partes continuavam desavindas, apenas não entravam em conflito. Semelhante é o conceito veiculado pelo grego «eirene». A paz, para os gregos da antiguidade, é uma tentativa de harmonia entre forças contrárias. As forças permanecem contrárias, unicamente não avançam para o combate.

 

D. Para estar no mundo, a paz tem de estar em cada pessoa

 

7. O hebraico «shalom» contém muito mais. A paz, aqui, é anterior a qualquer esforço humano. É um dom de Deus que faz o homem sentir-se completo, integral. É por isso que a paz só estará no mundo se estiver em cada pessoa que há no mundo. Antes da negociação, é fundamental pugnar pela conversão à paz. Jesus, no Sermão da Montanha, considera felizes os construtores da paz. Só eles serão «chamados filhos de Deus»(Mt 5, 9).

Importa perceber que o primeiro sinal de Deus é a paz. Quando Deus vem à terra em forma de criança, os enviados celestes entoam um cântico que diz tudo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra» (Lc 2, 14). A paz desponta, assim, como o grande indicador de que Deus já está entre nós.

 

  1. Desde 1968, o dia de ano novo tornou-se também o Dia Mundial da Paz. Pretendia Paulo VI colher inspiração na invocação que, neste dia, se faz de Jesus e de Maria: «Estas santas e suaves comemorações devem projectar a sua luz de bondade, de sabedoria e de esperança sobre o modo de pedirmos, de meditarmos e de promovermos o grande e desejado dom da paz, de que o mundo tem tanta necessidade». Com aquele grande Papa, continuamos a pedir para que «seja a paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar o processamento da história no futuro».

Para 2016, o Papa Francisco propõe o tema «Vence a indiferença e conquista a paz». De facto, a paz não é a indiferença perante o que ocorre, a paz é a diferença diante do que acontece. Segundo o Papa, a primeira forma de indiferença é a indiferença para com Deus É desta indiferença que deriva a indiferença para com o próximo e com a criação. Aos poucos, essa atitude vai gerando inércia e apatia, alimentando situações de injustiça e desequilíbrio social, que podem levar a muitos conflitos. No contexto do Ano da Misericórdia, o Santo Padre deixa um apelo para que cada um adopte um empenho concreto a fim de contribuir para melhorar a realidade em que vive, a partir da própria família, da vizinhança e do ambiente de trabalho.

 

E. Antes de mais, importa atingir o zero

 

9. Afinal, ainda há aspectos onde nem sequer atingimos o «grau zero» de humanidade. Ainda há aspectos onde nos encontramos abaixo de zero. E abaixo de zero, tudo é negativo, tudo é negação. Como pode haver paz no mundo se no mundo não há justiça nem respeito pela dignidade humana? Temos, pois, um longo caminho a percorrer. Temos muito que fazer ou, como diria Sebastião da Gama, «temos muito que amar».

Diante dos que vaticinam o iminente fim da história, é importante começar com urgência uma história de re-humanização do mundo. Sim, porque a humanidade ainda consegue ser muito não-humana, muito desumana. Para re-humanizar o mundo, diria que duas são as coisas que têm de acabar já: a guerra e a fome. Consequentemente, duas têm de ser as coisas que importa assegurar desde já: paz para todose pão para cada um. Para re-humanizar cada pessoa que há no mundo, duas são também as coisas a que urge pôr fim: egoísmo e violência. E duas serão igualmente as coisas que é imperioso introduzir: solidariedade e educação.

 

  1. Neste início de ano, acolhamos o olhar com que Deus nos presenteia e a paz que Ele benevolamente nos concede (cf. Núm 6, 26). Não esqueçamos que o lugar onde a paz mais se decide é o nosso interior. Se o nosso interior não for indiferente, o nosso exterior começará a ser diferente. E a verdadeira novidade descerá à terra.

Que haja, pois, vida nova no ano novo. Não é o ano novo que faz a vida nova. Só uma vida nova fará o ano novo. Só uma vida nova trará o tempo novo, o mundo novo!

Do blogue THEOSFERA

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publicado às 11:32

NASCEU JESUS E NASCEMOS NÓS PARA JESUS (Solenidade do Natal do Senhor)

por Zulmiro Sarmento, em 24.12.15
 

A. Quando a Palavra veio ao mundo, o Silêncio também desceu à terra

  1. No princípio, era a Palavra. No princípio, era o Silêncio. Antes de o tempo começar a ser tempo, a Palavra em silêncio e o Silêncio estava na Palavra. Na «plenitude dos tempos»(Gál 4, 4), quando a Palavra veio ao mundo, o Silêncio também desceu à terra. Motivo? Só em silêncio é possível contemplar a Palavra. Só em silêncio é possível acolher a Palavra da vida, a palavra de tantas vidas. Só em silêncio é possível mergulhar na vida da Palavra, na vida de tantas palavras.

Foi o eterno silêncio de Deus que fecundou o eloquente silêncio de Maria. É este silêncio que, hoje, respiramos. É neste silêncio que, em cada dia, devíamos morar. Tudo mudou quando o Silêncio falou. As trevas sobressaltaram-se. A noite acordou. Toda a natureza — e não apenas o galo — cantou. A manhã despontou. E o Salvador chegou.

 

2. Eis, como dizia Sto. Agostinho, «o dia feliz, em que o grande e eterno Dia, procedente do grande e eterno Dia, veio inserir-se neste nosso dia temporal e tão breve». Neste feliz dia, nasceu Jesus e nascemos nós com Jesus. O Natal é a festa do nascimento de Jesus e do nosso próprio nascimento. Nós nascemos quando Ele nasceu. O nascimento de Jesus é o nascimento de todo o corpo de Jesus, do qual nós fazemos parte (cf. 1Cor 12). Assim sendo e como notou S. Leão Magno, «o aniversário da cabeça é o aniversário do corpo». O Natal também é nosso. Enfim, o Natal é a festa universal porque é o acontecimento total.

  1. O Evangelho evoca a geração do Filho de Deus desde toda a eternidade. E, como refere o Prefácio II da Missa de Natal, «o que foi gerado desde toda a eternidade começou a existir no tempo». O que foi gerado no seio do Pai veio até nós pelo seio de Maria. E foi assim que, como já notavam os escritores cristãos mais antigos, «Um da Trindade Se fez Um de nós». O amor de Deus, o amor que é Deus, não cabe em Deus e explode na criação. O «big bang» terá sido realidade e é seguramente sinal: sinal de um amor queexplode permanentemente no mundo.

 

B. Deus, que está no alto, visita-nos cá em baixo

 

3. É por tudo isto que este é o dia tão esperado. Este é o dia por nós tão esperado porque, nele, celebramos a vinda ao mundo do Inesperado. Deus não só vem ao encontro do homem, como Ele próprio Se faz homem. E não somente Se faz homem como Se faz homem pobre, homem simples, homem frágil. O sinal de Deus não é a opulência nem a ostentação. O sinal de Deus — dizem os enviados do Céu — é um Menino, «envolto em panos e deitado numa manjedoura»(Lc 2, 12).

Guilherme de Saint-Thierry dá uma explicação muito luminosa para tal opção: «Deus viu que a Sua grandeza suscitava no homem resistência. Então, Deus escolheu um caminho novo. Tornou-Se um Menino. Tornou-Se dependente e frágil, necessitado do nosso amor. Agora — diz-nos aquele Deus que Se fez Menino — já não podeis ter medo de Mim, agora podeis apenas amar-Me».

 

  1. Deus, que habita no alto, visita-nos cá em baixo. Aparece não como rei poderoso, mas como criança indefesa. Deste modo, se quisermos encontrar Deus, é para baixo que devemos olhar. Deus está no alto (cf. Lc 2, 13), mas quer ser encontrado em baixo. É a partir de baixo que Deus nos olha. Deus não olha para nós, sobranceiramente, de cima para baixo. Deus olha para nós — divinamente — de baixo para cima. E é lá em baixo que continua à nossa espera: lá, nas profundidades da existência, onde a pobreza abunda, onde a injustiça avança, onde a solidão e o abandono não param de crescer.

Por isso, é urgente fazer o bem, também hoje. Por isso, é fundamental ser bom, sobretudo hoje. De resto e como apelava António Gedeão, «hoje é dia de ser bom». Acontece que este hoje é um dia sem ocaso, pelo que fazer o bem e ser bom hão-de constituir uma prioridade para sempre.

 

C. Uma explosão de divindade, uma lição de humanidade

 

5. Este é o dia que não tem fim. É o dia que jamais anoitece e em que até o frio nos aquece. É o dia em que os céus se abriram, em que os anjos saíram e melodias se ouviram. Não é o simples dia que sucede à noite. É o dia que rebenta com as correntes que a escuridão armou durante a noite. Este é o dia que começou ainda de noite. Compreende-se, pois, que este seja o dia que começamos a celebrar ainda de noite. Este é o dia que sentimos despontar quando ainda era noite. Este é o dia destinado a iluminar todas as nossas noites. Este é — numa palavra — o dia.

Eis a lição do presépio. O silêncio de Deus, que falou em Belém, continua a clamar nos pobres deste mundo, nos injustiçados desta vida. Quem não os ouve a eles, como pode dizer que O escuta a Ele? Aquele Menino é tão divino que até quis ser humano. Aquele Menino é tão humano que só pode ser divino. O Deus que está naquele Menino humaniza-Se e diviniza-nos. Ele não nos retira humanidade. Pelo contrário, a Sua divindade acrescenta-nos humanidade.

 

  1. É por isso que o Natal é uma explosão de divindade e, ao mesmo tempo, uma persistente lição de humanidade. É com Deus Menino que o mundo aprenderá a ser mundo e a humanidade reaprenderá a ser humana, fraterna. É com Deus Menino que o mundo se transformará numa luminosa Filadélfia, isto é, um povo de amigos, um povo de irmãos.

A tragédia do nosso tempo é a desumanidade entre os homens. E para esse pecado concorrem não somente os não crentes. Os crentes também não lhe são imunes. Muitas são as vezes em que não têm sido capazes de encontrar Deus no homem. Deus é muito mais humano que os homens.

 

D. Em Belém e na nossa vida também

 

7. Não nos cansemos de fixar o olhar no presépio. Aquele Menino é tão santo que só consegue provocar encanto. É tão cheio de mansidão que os nossos joelhos caem logo em adoração. O Seu rosto destila tanta pureza que até os antípodas aspiram o perfume da Sua beleza. Enfim, a Sua imagem desperta tal ternura que nem há palavras para descrever tamanha formosura.

O Menino está ali. Mas eu sinto-O sobretudo aqui. Vejo Jesus agora e não deixo de O rever lá fora. Ele está na rua, na minha história e também na sua. Está no sofredor, naquele que estende a mão e mendiga amor. Está no pobre, no que não tem pão. Está em quantos vão penando na solidão. O Seu tempo nunca é distante pois a Sua presença é constante. O Seu lugar não é só em Belém, é na nossa vida também. Ouçamos sempre a Sua voz. E nunca deixemos de O acolher em cada um de nós.

 

  1. Este é o autêntico «dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio e, livres, habitamos a substância do tempo». Neste dia, o tempo surpreende a eternidade dentro de si. Sophia tem mesmo razão: «A casa de Deus está assente no chão». É reconfortante beijar a imagem do Menino nestes dias, mas não é menos encantador abrigar o mesmo Menino, que nos visita em cada dia. Ele está em todos. Ele veio para todos. Rejeitar alguém é rejeitar o próprio Deus, presente nesse alguém. É que os outros também são Seus, também são d’Ele, também Lhe pertencem. E, no entanto, até nestes dias de Natal há tanto Jesus rejeitado, há tanto Jesus esquecido.

Razão tem João Coelho dos Santos ao colocar nos lábios de Jesus este lamento: «Senta-se a família/ À volta da mesa./ Não há sinal da cruz,/ Nem oração ou reza./ Tilintam copos e talheres./ Crianças, homens e mulheres/ Em eufórico ambiente./ “Lá fora tão frio, Cá dentro tão quente!”/ Algures esquecido,/ Ouve-se Jesus dorido:/ Então e Eu,/ Toda a gente Me esqueceu?”».

 

E. Hoje em dia, o grande Natal é a Eucaristia

 

9. De facto, às vezes — muitas vezes —, parece que esquecemos Jesus até na época em que assinalamos o nascimento de Jesus. Esquecemos Jesus quando esquecemos aqueles para quem Jesus nasceu. Esquecemos Jesus quando nos fechamos aos outros. Esquecemos Jesus quando nos encerramos nas torres (pretensamente) fortificadas do egoísmo e da indiferença. É triste ver que há muitos Natais longe do Natal. É penoso sentir que há muitos Natais aquecidos à lareira, mas arrefecidos no coração.

São muitos, sem dúvida, os encantos do Natal. Há presépios lindos. Há presépios deslumbrantes. Há presépios originais. Há presépios surpreendentes. E até há presépios ao vivo. Faltam, contudo, presépios vivos, que, a bem dizer, são os únicos presépios necessários. São esses que são construídos não nas ruas ou nas casas, mas no coração humano: no meu, no seu, no nosso, enfim, no coração de todos os homens.

 

  1. O Natal é saboroso quando temos a casa cheia e a mesa farta. O Natal é belo quando é sonhado. O Natal é lindo quando é cantado. O Natal é encantador quando é tingido de frio e regado de neve. Mas o Natal é melhor quando é vivido, partilhado, abraçado, chorado, humanizado, fraternizado, assumido e projectado no mundo inteiro. Em cada dia, há sempre motivos para respirar o perfume do Natal. Afinal, no Natal, o futuro nasceu e até justiça choveu. Só o impossível desapareceu no preciso instante em que aconteceu. Deus veio ao mundo. Acampou na terra para eliminar o ódio e acabar com a guerra. Trouxe, como única veste, a paz e é imensa a alegria que a todos nos traz. Veio em forma de criança. Haverá quem fique indiferente a tanta esperança? Naquele dia, colocaram-No numa manjedoura, perto do chão. Mas, desde então, a Sua morada passou a ser o nosso coração!

Não desliguemos a luz que Deus acende em nós neste dia. Deixemos brilhar a luz do Natal em cada dia. E nunca esqueçamos que, hoje em dia, o grande Natal é a Eucaristia. Um feliz Natal hoje. Um feliz Natal sempre. Para todos, um santo, luminoso e muito abençoado Natal!

Do bolgue THEOSFERA

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publicado às 19:56

Celebrar o Natal para quê?

por Zulmiro Sarmento, em 22.12.15

 

Frei Bento Domingues, O.P.

1. Se Jesus existiu como realidade histórica – e raros são os que se atrevem a negar - é normal que tenha nascido. Quem reconhecer nele a condição humana no seu ponto mais belo, luminoso e humilhado, é justo que celebre este acontecimento.

As datas e os lugares elaborados para as festas, os cenários, as lendas e os mitos compostos pelas narrativas de S. Mateus e de S. Lucas (sem contar com os apócrifos) reflectem perspectivas teológicas e messiânicas diferentes. Nesses exercícios de antecipação para a infância da missão que apenas se manifestou na vida adulta de Jesus, os seus autores serviram-se dos materiais da cultura ambiente para reconfigurarem uma convicção: com Jesus, o evangelho da paz e da alegria de Deus incarnou na fragilidade humana. A salvação não está na fuga do mundo, mas na sua transformação, a partir das periferias mais condenadas. Como sempre, nas narrativas do Novo Testamento parece que tudo já estava previsto no Antigo, mas é sempre para introduzir o imprevisível.

Procurar em textos poéticos, lições positivistas de história, geografia ou biologia- “antes do parto, durante o parto e depois do parto” – apresenta-se como uma piedosa invenção para dizer que Jesus é sempre alguém completamente fora de série, na mais precária das situações. Os músicos, os poetas e os pintores da cultura popular e erudita não se enganaram quando deram asas à sua criatividade para fazer ouvir sons futuros de uma humanidade liberta.

Hoje, num clima cultural dominado pelo prestígio da ciência e da técnica, o recurso à crença em milagres, está reservado para os momentos de extrema aflição. Fazer de Deus um tapa buracos das insuficiências humanas é uma das formas mais frequentes de facilitar o caminho ao ateísmo. A fé na presença divina no nosso quotidiano tem itinerários muito diferentes de pessoa para pessoa. As receitas para cozinhar a vida espiritual tornam a comida sem graça. Como respiração da vida e iluminação da nossa noite só pode ser acolhida pelo silêncio intenso e acordada pela grande música: silêncio que cante e música que nos deixe sem palavras. A ponte para o divino exige a transfiguração do nosso olhar e da nossa escuta. A mediocridade é a receita fatal.                                                                                                              

2. Acreditar nos credos é uma idolatria. O dominicano S. Tomás de Aquino, um filósofo, um biblista, um teólogo e um poeta medieval, insistiu em algo essencial e libertador: o terminal do acto de fé não são os “artigos da fé” – estes são apenas mediações - mas a inabarcável realidade de Deus [1]. Para não se cair no fideísmo, a fé não pode saltar por cima da inteligência, nem renegar o seu exercício. Não pode haver assentimento à proposta da fé teologal sem ver nela uma perfeita expansão e superação da inteligência [2]. A simbólica da fé ou dá que pensar e transformar ou aliena. Quem se fixa no dedo que aponta o céu e a urgência da terra, perde o céu e a terra.

O exercício da razão é tão importante que o citado teólogo se atreveu a escrever o seguinte: embora acreditar em Cristo seja, por si mesmo, bom e necessário à salvação, pode, acidentalmente, transformar-se num mal: se alguém, em consciência, pensa que Ele é um mal, peca se o confessar como um bem [3]. No entanto, importa lembrar a paradoxal declaração de I. Kant, no prefácio à primeira edição da Crítica da Razão Pura: ”A razão humana tem este destino singular, num género dos seus conhecimentos, de ser dominada por questões que não pode evitar, pois são-lhe impostas pela sua própria natureza, mas às quais não pode responder porque ultrapassam totalmente o poder da razão humana” [4].  

3. Situar Jesus na lista das grandes personalidades do passado é uma questão de memória cultural e nenhuma se lhe pode comparar. Não deixou nada escrito, mas a sua própria existência é o mais belo e imortal poema de amor. Se há modelo de vida verdadeira, não é preciso ir mais longe, mas ninguém pode dizer que é o herdeiro exclusivo das suas palavras, dos seus gestos. Deu origem a várias narrativas e interpretações. Deixou tudo em aberto. O próprio autor do 4º Evangelho tem a humildade de ser exagerado: (…) Há, porém, muitas coisas que Jesus fez e que, se fossem escritas uma por uma, o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam[5].

Existem várias e boas razões para celebrar o Natal. Em muitos casos é a festa da família e este é um dos seus melhores frutos. Se contribuir para refazer ou fortalecer os laços familiares, a Sagrada Família torna-se muito numerosa: fazer família com quem não é da família é continuar a revolução de Jesus de Nazaré, do mundo todo.

Bom Natal.

Público, 20.12.2015

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[1] S.Th. II-II, q.1. a. 1 ad 2
[2] Ib. II-II, q. 8, a. 8 ad 2
[3] Ib. I-II, q.19,5)
[4] Citado por Jean Greisch, Comprendre et Interpréter, Beauchesne, Paris, 1993, pp 432
[5] João 21, 35

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publicado às 20:13

A alegria não pode esperar

por Zulmiro Sarmento, em 15.12.15

 

Frei Bento Domingues, O.P.   

1. Voltaram, este ano, a perguntar-me a data do nascimento de Jesus. Nestas crónicas, dei, várias vezes, para esse peditório. Já recebemos das investigações dos historiadores e dos exegetas do Novo Testamento todos os dados da questão. No entanto, ano após ano, os meios de comunicação social apresentam, como se fosse a novidade de última hora, ocultada pelas igrejas, a grande revelação: Jesus não nasceu no dia 25 de Dezembro e, do seu nascimento, não se sabe nem o ano nem o dia.

Acerca do Natal - como verdade, lenda e mito - remeto para a grande obra do rigoroso exegeta açoriano, A. Cunha de Oliveira[1].

Para os interessados, deixo aqui o resumo e a reflexão hermenêutica do grande historiador Gerd Theissen, ao concluir o seu cuidadoso estudo da estrutura cronológica da vida de Jesus[2]: Jesus nasceu antes da morte de Herodes I, isto é, entre 6/4 a.C.. Durante o governo de Pôncio Pilatos (26-36 d. C.) desenvolveu a sua breve intervenção pública. Foi executado, provavelmente, na festa da Páscoa do ano 30 d. C.. Nenhum dos juízes que o condenaram poderia sonhar que, um dia, o tempo seria contado em referência a esse cruxificado.

Esta contagem, cronologicamente imprecisa, encerra, só por si, a mensagem de que em Jesus aconteceu uma viragem na história. Para este acontecimento não importa que Jesus tenha nascido a 4 a.C. ou a 6 d.C.. Também é independente da interpretação daqueles que, durante a vida de Jesus, tudo esperaram dele. A sua mensagem e a esperança dos seus colaboradores eram escatológicas, ansiavam pelo fim dos tempos.

Se o cálculo cristão faz de Jesus o meio do tempo, isto ultrapassa o significado que o próprio Jesus deu à sua actividade. Essa nova interpretação começou, possivelmente, já no cristianismo primitivo. O evangelista Lucas fez uma narrativa da história da Igreja primitiva a seguir à descrição que apresenta do itinerário de Jesus.

Que Jesus divida o tempo é algo que pode surgir como elemento da história ou ser descrito historiograficamente. No entanto, a interpretação original continua intacta. Percebemos que existe algo em Jesus que atravessa qualquer tempo e não se deixa calcular cronologicamente.

2. A cor do Advento e da Quaresma é o roxo, um luto envergonhado porque o horizonte do Advento é o Natal e o da Quaresma, a Ressurreição. São as duas grandes festas da alegria do calendário cristão. Como a alegria não pode ser adiada, resolveram fazer um intervalo cor-de-rosa. Hoje, a palavra de ordem é esta: Alegrai-vos sempre no Senhor. Exultai de alegria: o Senhor está perto. O profeta Sofonias fez um poema magnífico para nos alegrarmos, como nos dias de festa. A Carta aos Filipenses propõe uma atitude: Seja de todos conhecida a vossa bondade; para vencer as inquietações propõe um remédio: a oração intensa em todas as circunstâncias. João Baptista é muito pragmático, mas bastante moralista. Sabe que não é ele a solução, nem as suas iniciativas. Aponta para o baptismo no Espírito Santo daquele que está para vir, mas não faz a mínima ideia do que vai acontecer e até propõe um Messias que lhe vai sair completamente às avessas. Jesus nunca será a sua cópia e ele vai ter muita dificuldade com as impensáveis inovações daquele que, durante algum tempo, foi seu discípulo.

A alegria não pode ser nem a reserva das grandes festas nem a dos Domingos cor-de-rosa. Todos os Domingos ouvimos proclamar o Evangelho como alegria, mas fazemos de conta que é apenas um ritual e não a alma da semana que começa.

Mozart tinha uma prática aconselhável: (…) nunca me deito sem pensar que, apesar de ser tão jovem, talvez já não exista no dia seguinte; no entanto, entre todos os que me conhecem, ninguém pode afirmar que eu seja pessoa de trato desabrido ou melancólico. E esta felicidade, pela qual, dia a dia, dou graças ao meu Criador. Desejo-a do coração a todos e a cada um dos meus semelhantes.

3. Quando olhamos para o ano que está a acabar só apetece pedir que acabe depressa a indefinição acerca da casa comum. É de loucos estragar a terra que nos foi dada para a melhorar, para sermos colaboradores de todas as formas de criatividade. Dizem-nos que fica muito caro. Teremos ouvido bem? Ou será que nos querem dizer que não merecemos o planeta que deveríamos ter?

Por outro lado, actuamos como se também fosse mais barata a guerra, em que nos deixamos envolver, do que a paz que nos pertence construir.

Não se pode aceitar que não haja nada a fazer. Para já, é indispensável conhecer as pessoas e grupos que pautam a sua vida, das formas mais diversas, quer na defesa da casa comum, quer nas incontáveis iniciativas de novos estilos de vida que favorecem a paz entre as pessoas, os grupos e os povos.

O Papa Francisco, goste-se ou não, é a convocatória para uma Igreja muito outra, para um mundo muito diferente. Não fica à espera da resposta. O bom humor, o riso, o carinho com todos semeiam a alegria mesmo nas situações mais insólitas.

É um possesso do Evangelho da Alegria, da misericórdia.

Público, 13.12.2015
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[1] A. Cunha de Oliveira, Natal, Inst. Açoriano da Cultura, 2012

[2] Gerd Theissen/Annette Merz, O Jesus histórico, Loyola, São Paulo, 2004

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publicado às 20:41

«QUE HAVEMOS NÓS DE FAZER?» (Terceiro Domingo do Advento)

por Zulmiro Sarmento, em 13.12.15
 

A. Tantas vezes já fizemos esta pergunta

  1. «Que havemos nós de fazer?» Três vezes nos aparece, hoje, esta pergunta (cf. Lc 3, 10.12.14). Tantas vezes nos aparece, na vida, esta pergunta! Tantas vezes já fizemos esta pergunta a nós mesmos! Tantas vezes já fizemos esta pergunta aos outros! E tantas vezes já fizemos esta pergunta a Deus! Afinal, que havemos de fazer neste dia? Afinal, que havemos de fazer nesta vida? Esta é uma das perguntas que atravessa todas as épocas. Para o filósofo Immanuel Kant, trata-se mesmo de uma das perguntas fundamentais da humanidade: «que devo fazer?»

Não espanta, por isso, que esta pergunta surja frequentemente na Bíblia. De resto, pôr as pessoas as perguntar «o que devemos fazer?» é habitual em S. Lucas: aqui, no Evangelho, e também no Livro dos Actos dos Apóstolos (cf. Act 2,37; 16,30; 22,10). Tal pergunta indica uma coisa que, à partida, já é muito importante e meritória. De facto, perguntar pelo que se deve fazer sugere, pelo menos, uma abertura à proposta de salvação que vem de Deus.

 

  1. Neste sentido, propunha que, a partir deste Terceiro Domingo do Advento, nos comprometêssemos a fazer esta pergunta todos os dias ao acordar: «que hei-de fazer hoje?», «que devo fazer hoje?», «Senhor, que queres que eu faça hoje?» Não esqueçamos que foi com esta pergunta que a vida de Paulo mudou. «Senhor, que queres que eu faça?»(Act 9, 6). É com esta pergunta que a nossa vida começará a mudar.

Façamos, pois, esta pergunta todos os dias ao amanhecer. E procuremos responder a esta pergunta, ininterruptamente, até ao anoitecer. Não foi em vão que Martin Heidegger disse que «a pergunta é a “oração” do pensamento». É que, a partir de certas perguntas, tudo pode ser diferente, tudo pode ser melhor. Por isso, perguntemos a Deus sobre o que Ele quer que nós façamos. E, depois, não nos descuidemos de responder. Uma pergunta séria requer uma resposta séria. Pelo que de uma resposta séria a uma pergunta séria dependerá, em grande medida, a nossa salvação e a nossa felicidade.

 

B. Deus quer que tudo mude

 

3. Que havemos nós de fazer então? Que é que Deus quer que nós façamos? Esta pergunta já foi levada, há dois mil anos, a João Baptista pelas multidões, pelos publicanos e pelos soldados. Para todos — e para sempre —, a resposta é clara. Deus quer que tudo mude na nossa vida. Deus quer que tudo mude no nosso pensar, no nosso sentir e no nosso agir. Deus vem ao mundo não para que o mundo fique na mesma, mas para que o mundo fique diferente, para que o mundo seja diferente.

Acontece que o mundo só será diferente se cada pessoa que há no mundo começar a ser diferente. Daí o apelo de Gandhi: «Sê tu mesmo a mudança que queres para o mundo». E daí também o caminho para a mudança indicado por Roger Schutz: «Começa por ti». Comecemos então a mudança. Comecemos a mudança por nós. Comecemos a mudança por nós, hoje, agora, já.

 

  1. O Evangelho aponta três domínios onde esta mudança é necessária. É preciso sair do nosso egoísmo e aprender a partilhar. É preciso quebrar os esquemas de exploração e de imoralidade e proceder com justiça. É preciso renunciar à violência e à prepotência e respeitar absolutamente a dignidade dos nossos irmãos. No fundo, é precisamos mudar tudo em todos. É preciso que todos mudemos tudo.

A mudança não pode ser selectiva. A mudança, para ser real, tem de ser total. A conversão é para a mente e para o coração. João Baptista não dá lugar a dúvidas: é preciso partir e repartir. «Quem tem duas túnicas reparta com aquele que não tem e quem tiver alimentos proceda da mesma forma»(Lc 3, 11). Acresce que, hoje em dia, continua a haver gente sem roupa e tanta gente sem pão. Hoje em dia, Jesus continua a aparecer-nos desnudado e faminto. Há que passar de uma «economia do mero ter» a uma urgente «economia do dar, do partilhar».

 

C. Deus quer que haja mais misericórdia

 

5. E que havemos de fazer mais? Há que ser tolerante, respeitador e misericordioso. Neste início do Ano Santo da Misericórdia, é oportuno reter estas recomendações de João Baptista: «Não exijais nada além do que vos está fixado»(Lc 3, 13); «não useis de violência com ninguém nem denuncieis injustamente»(Lc 3, 14). Ou seja, tudo ao contrário do que estamos habituados a fazer.

Na verdade, não paramos de reivindicar nem cessamos de violentar. O nosso mundo é feito de palavras alteradas e de atitudes alterosas. Em suma, há um excesso de violência nas palavras e nas atitudes.

 

  1. Diante deste cenário, é urgente criar uma efectiva — e afectiva — cultura da misericórdia. É certo que todos gostamos da misericórdia, mas quem pratica verdadeiramente a misericórdia? A misericórdia é uma palavra que muito se ouve, mas infelizmente também é uma atitude que pouco se vê. Ainda há alguma misericórdia nas palavras, mas, para nosso pesar, há pouca misericórdia na vida. E, em relação à misericórdia, não basta ouvi-la; é preciso vê-la.

Curiosamente, só se vê misericórdia quando se dá misericórdia. A misericórdia é aquilo que só se possui quando se dá. Assim sendo, a misericórdia nunca pode ser poupada; a misericórdia tem de ser saudavelmenteesbanjada e generosamente distribuída. Porque Deus é «rico em misericórdia»(Ef 2, 4), ninguém, em nome de Deus, tem o direito de ser avarento em misericórdia.

 

D. O Natal é — essencialmente — a festa da misericórdia

 

7. O modelo da misericórdia é Deus, é o Pai. Percebe-se, por isso, que, para este Ano Santo, o Papa Francisco tenha proposto o lema «Misericordiosos como o Pai». Porque o Pai é misericordioso, cria o homem. Porque o Pai é misericordioso, envia o Seu Filho para salvar o homem (cf. Jo 3, 16). Porque o Pai é misericordioso, está sempre pronto a acolher o homem e a perdoar o homem.

O Natal celebra a imensa — e infinda — misericórdia de Deus. O que mais encanta — e permanentemente se canta — é a misericórdia de um Deus que vem ao mundo e Se faz um de nós no mundo. Em Cristo, Deus faz-Se o que nós somos. Será que nós, no mesmo Cristo, estamos dispostos a fazermo-nos o que Ele é?

 

  1. Se Deus é misericordioso e se cada um de nós é imagem de Deus (cf. Gén 1, 26), então é pela misericórdia que realizaremos a nossa semelhança com Deus. Uma grande conversão é necessária, porém. Como estamos longe da misercórdia! Por conseguinte, disponhamo-nos a acolher a misericórdia que, em Cristo, Deus nos oferece. A misericórdia que, em Cristo, Deus nos oferece está na Palavra, está no Pão e está na Reconciliação. Procuremos, a partir deste Ano da Misericórdia, aproximarmo-nos mais do Sacramento da Reconciliação, do Sacramento da Misericórdia e do Perdão.

Não é por acaso que o Papa Francisco se refere a Cristo como «o rosto da misericórdia do Pai». A misericórdia de Deus não é uma validação — nem um branqueamento — dos nossos frequentes descaminhos. A misericórdia não é para ficar onde estamos, mas para sair donde costumamos estar.

 

E. Mais misericórdia, mais alegria

 

9. A misericórdia de Deus desinstala-nos, torna-nos diferentes. Não é lícito invocar a misericórdia de Deus para continuar na mesma. É fundamental que recorramos à misericórdia de Deus para sermos diferente.

A misericórdia de Deus não confirma o cego na cegueira; pelo contrário, cobre-o com uma inundação de luz (cf. Mc 10, 47-52). A misericórdia de Deus também não se conforma com o pecado da pecadora: «Vai e não tornes a pecar»(Jo 8, 11). A mesma misericórdia de Deus também não se resigna à nossa situação. Na misericórdia de Deus está o segredo da nossa conversão.

 

  1. A misericórdia é assim. Abre sempre novas oportunidades e não cessa de rasgar promissores caminhos de conversão. É por isso que, neste Domingo «Gaudete», temos todos os motivos para nos sentirmos ainda mais alegres e para, com Israel, soltarmos gritos de alegria (cf. Sof 3, 14).

Alegremo-nos, pois. Alegremo-nos sempre. Alegremo-nos porque a misericórdia de Deus nos inunda. Alegremo-nos porque o próprio Deus está próximo e porque o próprio Deus é sempre próximo (cf. Fil 4, 5). Enfim, alegremo-nos sem fim. Ou seja, alegremo-nos no Senhor (cf. Fil 4, 4). Porque só n’Ele estará sempre a nossa alegria!

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publicado às 20:39

O PRIMEIRO INSTANTE DE UMA PRESENÇA CONSTANTE (Solenidade da Imaculada Conceição)

por Zulmiro Sarmento, em 09.12.15
 

A. O presépio inicial

  1. Grande, belo e luminoso é este dia formoso. O Natal, festa de alegria, como que começa a despontar na festa deste dia. Afinal, não foi S. Francisco quem inventou o presépio. Antes do presépio de Francisco de Assis foi o seio de Maria que Deus quis. Maria foi o primeiro presépio, um presépio desenhado e construído por mão divina. Podemos dizer que Jesus começou a vir quando a Sua Mãe começou a surgir. A Sua concepção é o início da fase definitiva da nossa salvação. Foi do ventre da Mãe do saboroso amor que chegou até nós o Salvador.

Este é um verdadeiro dia da Mãe. É o dia em que a Mãe começou a existir. É o dia em que o céu se quis abrir e, para todos, sorrir. O primeiro suspiro de Maria acaba por ser o primeiro sopro de vida de Jesus. A Mãe também teve mãe, também teve pai. Mas Sta. Ana e S. Joaquim não imaginavam que aquele começo não mais teria fim. Este é, pois, o início antes do começo, o dia anterior ao dia primeiro. Este é o Natal que prepara o Natal. É o pré-Natal que nos vai conduzir até ao Natal.

 

  1. Qual Pai desvelado, Deus cuidou, desde sempre, da morada para o Seu Filho. Preparou-Lhe uma Mãe sem mancha, uma Mulher sem mácula. Desde a Sua concepção, Maria foi imaculada. A Imaculada Conceição é a primeira grande visitação de Deus à Mãe de Seu Filho. Foi o primeiro instante de uma presença constante.

É desde o início que Deus nos sustenta. Foi desde o início que Deus sustentou Maria com a Sua presença. Foi desde o início que Maria Se tornou a «cheia de graça»(Lc 1, 28) Desde sempre tatuada por Deus, Maria nunca conheceu o pecado original. A Igreja desde o princípio o reconheceu e, pela voz de Pio IX, o proclamou a 8 de Dezembro de 1854, na Bula «Ineffabilis Deus»: «A Bem-Aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de Sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus omnipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do género humano, foi preservada imune de toda a mancha do pecado original».

 

B. Uma festa universal, uma festa de Portugal

 

3. Por aqui se vê como Maria também precisou de ser redimida. Afinal, a Mãe também precisou do Filho, Maria também precisou de Jesus. Aliás, se assim se não fosse, ficaria em causa um dos pilares estruturantes da nossa fé: a universalidade da salvação. Se Maria não precisasse de ser salva, a salvação não seria plenamente universal pois haveria, pelo menos, uma criatura que a dispensava. Só que Maria também foi salva, Maria também foi redimida, mas por antecipação, por preservação. No Seu desígnio insondável, Deus preservou do pecado Aquela que haveria de gerar Aquele que nos iria libertar de todo o pecado.

E o certo é que esta verdade de fé tem sido acreditada desde os começos. Muitos escritores antigos defenderam a Imaculada Conceição da Virgem Maria, tanto no Oriente como no Ocidente. No século IV, Sto. Efrém sustentava que só Jesus e Maria estão limpos de todo o contágio do pecado. Daí que, já no século VIII, se celebrasse a festa litúrgica da Imaculada Conceição a 8 de Dezembro, ou seja, nove meses antes da festa de Sua natividade, comemorada a 8 de Setembro.

 

  1. Em Portugal, houve sempre uma entranhada devoção à Imaculada Conceição. Já por alturas da conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques, foi celebrado um pontifical de acção de graças, em honra da Imaculada Conceição. D. Nuno Álvares Pereira mandou construir a Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Vila Viçosa, encomendando, para o efeito, uma imagem em Inglaterra. Quando ingressou no Convento do Carmo como irmão leigo, quis usar apenas o nome de Frei Nuno de Santa Maria.

Nas cortes de 1646, o rei D. João IV declarou, sob juramento, Nossa Senhora da Conceição Padroeira de Portugal. Este mesmo rei, em 1648, mandou cunhar moedas de ouro e de prata chamadas «Conceição». Em 1654, o referido monarca enviou a todas as câmaras municipais cópia da inscrição comemorativa do juramento solene feito em 1646 para que fosse mais notória a obrigação de defender «que a Virgem Senhora Nossa foi concebida sem pecado original».Também em 1654, o reitor e os professores da Universidade de Coimbra determinaram que a fórmula do juramento de todos os futuros graduados começasse pelo compromisso de «defender sempre e em toda a parte que a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, foi concebida sem a mancha do pecado original». E até 1910 o cumprimento de tal juramento era condição para se obter qualquer grau universitário.

 

C. O Filho que Maria nos deu pela fé O concebeu

 

5. É com pesar que noto que a memória começa a ser difusa acerca de toda uma história que é também tão lusa. De facto, Maria, sendo genuinamente universal, é muito nossa, é muito de Portugal. Se os nossos antepassados aprenderam cedo a venerá-La, iremos nós, agora, ignorá-La?

Maria é uma presença que a nossa fé não dispensa. É uma lembrança que nos acalenta na esperança. Ela é a toda pura e é com emoção que olhamos para a Sua figura. Ela é a toda bela e a nossa vida está sempre iluminada por Ela. Ela é toda luz e com suave segurança nos conduz. Ela esteve junto à Cruz e continua a levar-nos até Jesus.

 

  1. Os orientais chamam-Lhe «odighitria» porque para o Céu Ela nos serve de guia. Também Lhe chamam «panaguía», já que é toda santa, com uma santidade que nos encanta.

Maria não era muito de falar, era mais de escutar. A Palavra de Deus não A encontrou distraída, por isso a mesma Palavra n’Ela Se fez vida. O Filho que Ela nos deu pela fé O concebeu.

 

D. Um sim que não tem fim

 

7. Deixemo-nos, pois, guiar por Maria. Ela não nos afasta de Jesus. Aliás, como poderia afastar-nos de Jesus Aquela que nos dá Jesus? Como reconhecia Charles Péguy, «é preciso que a gente suba Àquela que intercede, Àquela que é infinitamente celeste porque é também infinitamente terrestre, Àquela que é infinitamente eterna porque é também infinitamente temporal, Àquela que está infinitamente acima de nós porque está infinitamente entre nós, Àquela que é Maria porque é cheia de graça, Àquela que é cheia de graça porque é connosco, Àquela que é connosco porque o Senhor é com Ela, Àquela que está infinitamente longe porque está infinitamente perto, Àquela que é a mais alta princesa porque é a mais humilde mulher, Àquela que está mais próxima de Deus porque é a que está mais próxima dos homens».

Como notou o mesmo poeta, a Maria não falta nada, a não ser o ser Deus, ser o Seu Criador. «Porque, sendo carnal, Ela também é pura. Sendo pura, também é carnal. Por isso, Ela não é apenas uma mulher única entre todas as mulheres, mas uma criatura única entre todas as criaturas. Ela é uma criatura única, infinitamente única, infinitamente rara».

 

  1. A história da humanidade tinha tudo para correr mal. A Primeira Leitura mostra-nos como a história da humanidade tinha tudo para ser conduzida pelo mal. Mas já nos começos se anuncia que o mal não iria prevalecer. Já aí se garante que por uma mulher o bem haveria de vencer. Maria é a primeira mulher da nova humanidade. Sto. Anselmo reconhece a Sua importância singularíssima: «Deus é o Pai das coisas criadas, e Maria a mãe das coisas recriadas. Deus é o Pai a quem se deve a constituição do mundo, e Maria a mãe a quem se deve a sua restauração. Pois Deus gerou Aquele por quem tudo foi feito, e Maria deu à luz Aquele por quem tudo foi salvo. Deus gerou Aquele fora do qual nada existe, e Maria deu à luz Aquele sem o qual nada subsiste». Maria é, por isso, a nova Eva, a outra Eva. Ela é saudada com este nome invertido. «Ave» é o contrário de Eva, sinal de que, a partir de agora, tudo é diferente.

«Ave» significa «alegra-Te», pelo que a nova humanidade só tem motivos para se alegrar. A nova humanidade começa por um acto de fidelidade. O «sim» de Maria nunca mais terá fim. O amor de Maria é fecundo porque o seu «sim» é profundo. Os Seus lábios disseram «amém» e todo o Seu ser anuiu também. O Verbo fez-Se carne pela carne de Maria. A Palavra fez-Se vida na vida de Maria. Foi no silêncio de Maria que fermentou a Palavra que salva. O Seu coração guardou a Palavra que Deus enviou (cf. Lc 2, 19). Com Maria digamos «sim». Com Maria digamos também «amém».

 

E. Tanta tristeza na beleza, tanta beleza na tristeza

 

9. Termino com o meu poema preferido sobre Nossa Senhora. Foi composto por Antero de Quental. Era um espírito inquieto, mas que sempre soube encontrar a bússola certa para os seus caminhos incertos. É um texto sentido, um texto sofrido. É um texto que fala da Mãe, do Seu amor e da Sua dor, da Sua tristeza e da Sua beleza.

De facto, tanto amor há na dor e tanta dor há no amor; tanta tristeza há na beleza e tanta beleza há na tristeza.

 

  1. Eis o poema:

«Num sonho todo feito de incerteza,

De nocturna e indizível ansiedade

É que eu vi o teu olhar de piedade

E (mais que piedade) de tristeza.

 

Não era o vulgar brilho da beleza,

Nem o ardor banal da mocidade.

Era outra luz, era outra suavidade,

Que até nem sei se as há na Natureza.

 

Um místico sofrer... uma ventura

Feita só de perdão, só da ternura

E da paz da nossa hora derradeira.

 

Ó visão, visão triste e piedosa!

Fita-me assim calada, assim chorosa.

E deixa-me sonhar a vida inteira!»

 

Maria é a estrela do Advento. É Ela, afinal, que nos embala até ao Natal. É Ela que nos oferece o Natal. Foi o Seu amor profundo que trouxe o Filho de Deus até ao nosso mundo!

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publicado às 11:55

PREPAREMOS A NOSSA VIDA PARA A SUA VINDA! (Segundo Domingo do Advento)

por Zulmiro Sarmento, em 07.12.15
 

A. Preparar: a palavra-chave e a atitude decisiva

  1. A palavra-chave deste segundo Domingo do Advento é preparar. Mas preparar não é só a palavra-chave. É também a atitude decisiva. Estamos, com efeito, num tempo que não costuma ser muito complacente diante dos improvisos, isto é, diante da falta de preparação. E, se repararmos, nós costumamos preparar — e preparar bem — o que consideramos importante. Preparamos os testes, preparamos os discursos, preparamos as refeições, etc.

Nesta altura, já andamos seguramente envolvidos com os preparativos para o Natal. Andamos a preparar a consoada e a preparar os presentes. E é assim que, aos olhos de muitos, se prepara o Natal. Não digo que o Natal não passe por aqui, mas será que o Natal é só isto? Será que o Natal é sobretudo isto? Será que a preparação para o Natal é sobretudo esta?

 

  1. S. João Baptista usa, enfaticamente, a linguagem da preparação. Ele recorre ao imperativo, ordenando que nos preparemos para a vinda do Senhor e que, sobretudo, preparemos o caminho do Senhor: «Preparai o caminho do Senhor»(Lc 3, 4).

Preparemos, sem demora, o caminho do Senhor. Preparemos, sem demora, os nossos caminhos para o Senhor. O caminho que o Senhor quer trilhar é a nossa vida, é o nosso ser, é o nosso quotidiano. Será que os nossos caminhos estão preparados? Será que os nossos caminhos estão limpos? Será que, pelo menos, os nossos caminhos estão abertos?

 

B. Tanta coisa para «deletar»

 

3. Há tantos caminhos tapados na vida. Há tantos caminhos preenchidos na vida: preenchidos com quase tudo, menos com Deus. Há tantos caminhos cheios de nada, embora preenchidos com quase tudo. Só que este «quase tudo» sabe a pouco e, quase sempre, apenas a egoísmo e a interesses pessoais.

Precisamos, por isso, de varrer os nossos caminhos e de «deletar» tanta coisa acessória, tanta coisa superficial, tanta coisa banal. Se estivermos atentos, daremos conta de que essencializamos o que é relativo e relativizamos o que é essencial. Há muito desperdício de tempo, há muito desperdício de energia, há muito desperdício de vontade. Por conseguinte, é tempo de reaproveitar o tempo. É tempo de reaprender a caminhar no tempo. Em suma, é tempo de voltar a ouvir o apelo de S. João Baptista: «Preparai o caminho do Senhor». Nunca deixemos de preparar os caminhos do Senhor, os caminhos que o Senhor quer fazer connosco.

 

  1. Haverá lugar para Deus nos nossos caminhos até ao Natal? Ele caminha sempre connosco. Será que nós queremos caminhar com Ele? Jesus quer ser Emanuel. Será que nós deixamos que Ele seja Emanuel? Será que estamos dispostos a que Ele seja Deus connosco, Deus em nós?

Sim, preparar o Natal é preparar a nossa casa para receber os nossos familiares. Mas não será, muito mais, preparar a nossa vida para acolher Jesus inclusivamente na pessoa dos nossos familiares? Sim, preparar o Natal é fazer um presépio. Mas não será, muito mais, preparar a nossa vida para ser, ela própria, um presépio vivo

 

C.  Um novo lugar para Jesus: a nossa vida

 

5. O lugar onde Jesus quer (re)nascer, hoje, não é já a manjedoura de Belém. O lugar onde Jesus quer (re)nascer, hoje, é o nosso ser, a nossa vida, a vida da humanidade inteira. Estaremos a preparar devidamente a nossa vida para a vinda de Jesus?

Jesus não veio — nem vem — para que tudo continue na mesma. Jesus veio — e vem — para que tudo seja diferente, para que tudo seja melhor. Não é só o mundo que é feito de mudança, como lembrava Luís de Camões. Todo o Evangelho é, do princípio ao fim, um permanente convite à mudança. Logo no início da missão, Jesus convoca: «Arrependei-vos»(Mc 1, 15). Ou seja, «mudai de vida», «mudai a vida»!

 

  1. Esta mudança tem o nome de conversão e passa por gestos concretos. Passa, antes de mais, por uma conversão a Cristo. Passa, portanto, pela confissão do nosso pecado e pela disponibilidade para uma vida nova. De resto, é bom não esquecer que, antes de nos convertermos a Cristo, já Cristo Se converteu a nós. Cristo fez-Se o que nós somos. Será que estamos dispostos a fazermo-nos o que Ele é?

A mudança passa também pela sobriedade, pela humildade, pelo reencontro com a beleza das coisas simples. Na verdade, não há nada mais longe de Cristo do que celebrar o Seu nascimento com a ostentação e o exibicionismo. Não deixemos, pois, que o Natal se reduza a um «vendaval de consumo» sem freio. Deixemo-nos reencantar pelo Natal. Deixemo-nos envolver pelo seu espírito e cativar pela sua candura.

 

D. A nossa missão «ecóica»

 

7. Neste sentido, procuremos «endireitar» o que está «torto» (cf. Lc 3, 4-5). Há, sem dúvida, tantos caminhos tortos e tantas atitudes tortuosas nos nossos caminhos. Comecemos por ouvir a voz de João. Não consintamos que essa voz se dilua no deserto da nossa indiferença (cf. Lc 3, 4). Só que essa voz nunca deixará de bradar, nunca deixará de inquietar os nossos ouvidos (aparentemente) aquietados.

Procuremos ouvir a voz que se faz eco da Palavra. João é a voz da Palavra que é Jesus. É uma voz fiel que faz ressoar, fidedignamente, a Palavra. Quanto mais perto estiver da Palavra, tanto mais nítida será a voz.

 

  1. A nossa missão na Igreja há-de ser a «missão ecóica», é a missão de ser eco. Foi, aliás, o que Jesus pediu quando incumbiu os discípulos de levarem o Evangelho a toda a parte e a toda a gente (cf. Mc 16, 15; Mt 28, 20). Quem os ouvisse, a eles, haveria de O ouvir sempre, a Ele (cf. Lc 10, 10). Aliás, essa preocupação era muito vincada nos começos. A Igreja não anunciava as palavras que usava. O seu compromisso era ser o eco da Palavra recebida. Foi este compromisso que levou os apóstolos a nunca calar o que tinham ouvido (cf. Act 4, 20).

Mais do que criadora de palavras, a Igreja sempre se viu a si mesma como uma criação da Palavra («creatura Verbi»). Por isso, quanto mais perto estivermos da Palavra, mais audível será a Palavra e mais transparentes seremos nós. Reconheçamos, porém, que nem sempre é isso o que acontece. Há palavras que se interpõem diante da Palavra e que chegam a perturbar a escuta da Palavra. Em vez de serem eco da Palavra, não passam de ruído que mal deixam acolher a Palavra. Assim sendo, o importante é que a Palavra viva em cada pessoa e que cada pessoa procure viver de acordo com a Palavra. Uma «Igreja ecóica» é chamada a oferecer a Palavra que lhe é, continuamente, oferecida. Se possível, sem glosas. E sem filtros.

 

E. É urgente «aplanar» o que (ainda) está «torto»

 

9. Aproveitemos este tempo para ler e para meditar a Palavra. Como João Baptista, procuremos ser voz da Palavra. A Palavra de Deus chegará aonde nós chegarmos. Anunciemos a Palavra de Deus com os lábios e nunca nos cansemos de testemunhar a Palavra de Deus com a vida.

Levemos a Palavra de Deus aos «lugares tortuosos»(Lc 3, 5) e que se tornam quase intransitáveis. Que esses lugares possam ser frequentáveis e que os nossos caminhos se tornem planos, sem curvas. Na nossa vida, ainda há muitas curvas fechadas e apertadas, que não deixam (ante)ver com nitidez o caminho. Procuremos caminhar em linha recta e não às curvas. Quem é recto torna-se (saudavelmente) previsível, ainda que sempre receptivo às imprevisíveis surpresas de Deus.

 

  1. Não nos cansemos de «aplanar» o que ainda está «torto» e «tortuoso». Deixemos que, através do nosso testemunho, os outros possam «ver a salvação de Deus»(Lc 3, 6).

Este Domingo e o próximo são dominados pelo grande «preparador» do Natal. S. João Baptista é o «preparador» dos caminhos que Deus quer pisar. Ele prepara pela palavra e pelo exemplo. Em S. João Baptista, não há «curto-circuitos» entre a palavra e a vida. Aliás, em S. João Baptista, nenhum circuito é curto. O «circuito» entre a sua palavra e a sua vida é longo e leva-nos longe. Leva-nos sempre a Jesus!

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publicado às 13:23

Novas figuras do Advento

por Zulmiro Sarmento, em 07.12.15

 

Frei Bento Domingues, O.P.

1. Segundo um conto judaico, um rabino fez a Deus o seguinte pedido: ”Deixa-me ir dar uma vista de olhos pelo céu e pelo inferno”. O pedido foi aceite e Deus enviou-lhe o profeta Elias, como guia.

O profeta levou o rabino a uma grande sala. No centro ardia um fogo que aquecia uma panela enorme, com um guisado que enchia o espaço com o seu aroma.

À volta deste apetitoso manjar estava reunida uma multidão com uma grande colher na mão. Apesar disso, viam-se as pessoas esfomeadas, macilentas, sem forças, a cair.

As colheres eram mais compridas do que os seus braços, de tal modo que não as conseguiam levar à boca. Tristes, desejosas e em silêncio, de olhar perdido.

O rabino, espantado e comovido, pediu para sair desse lugar espetral. De inferno já tinha visto o suficiente.

O profeta levou-o então a outra sala. Ou talvez fosse a mesma. Tudo parecia exactamente igual: a panela ao lume, com apetitosas iguarias, a gente à volta com grandes colheres na mão. Via-se que estavam todas a comer com gosto, alegres, com saúde, cheias de vida. A conversa e as gargalhadas enchiam a sala. Isto tinha que ser o paraíso! Mas, como é que tinham conseguido uma tal transformação?

As pessoas tinham-se voltado umas para as outras e usavam a enorme colher para levar comida a quem estava à sua frente, procurando que a outra ficasse satisfeita e assim acabavam por ficar todas bem!

2. Foi notícia a festa de arromba que um empresário ofereceu, em Loures, para celebrar os 15 anos da sua filha. Transportada antes em limousine e depois, em helicóptero, a partir de Algés. A brincadeira terá ultrapassado os duzentos mil euros. Apesar de tudo muito mais barata do que o jacto de Ronaldo. Não se pode dizer que vivem acima das suas possibilidades. A propriedade privada é sagrada.

John Magufuli, de 56 anos, Presidente da Tanzânia desde 5 de Novembro, já anda na boca das pessoas. É conhecido por Bulldozer pelas mudanças radicais que introduziu no país.

Pela primeira vez em 54 anos, a Tanzânia não vai celebrar oficialmente o dia da Independência, porque Magufuli defende ser “vergonhoso” gastar rios de dinheiro nas celebrações quando o nosso povo está a morrer de cólera. Só nos últimos três meses vitimou, pelo menos, 60 pessoas. Acabaram-se as viagens dos governantes ao estrageiro. As embaixadas deverão tratar dos assuntos que lhes competem. Se for necessário viajar, terá de pedir uma licença especial ao Presidente ou ao seu Chefe de Gabinete. Em 1ª classe e executiva só o Presidente, o Vice-Presidente e o Primeiro-Ministro. Acabaram-se os workshops e seminários em hotéis caros, quando há tantas salas de ministérios vazias.

O Presidente Magufuli perguntou por que motivo os engenheiros recebem modelos de carro topo de gama, se as carrinhas são mais práticas para o seu trabalho. Acabaram-se os subsídios. Por que motivo são pagos subsídios se vocês recebem salários; aplicável também aos parlamentares. Todos os indivíduos, ou empresas, que tenham comprado empresas do Estado, que foram privatizadas, mas não fizeram nada com elas, passados 20 anos, ou as fazem recuperar imediatamente ou devem-nas devolver.

John Magufuli cortou o orçamento da inauguração do novo Parlamento. De 100 mil dólares passou para 7 mil.

3. Tem um precedente na América Latina, José Mujica. O ex-guerrilheiro, conhecido como o presidente mais pobre do mundo devido ao seu estilo de vida, deixou o poder a 1 de março.

Uma chácara, nos arredores de Montevideu, um VW Carocha de 1987 e três tratores. Esta é toda a riqueza do presidente do Uruguai,  avaliada em menos de 170 mil euros. Pode parecer pouco para um chefe de Estado, mas para Pepe, que doa 90% do seu salário anual, dez mil euros, para caridade, é mais do que suficiente. É por isso que ficou conhecido como o presidente mais pobre do mundo.

Mujica continua como sempre. Em algumas entrevistas, declarou: "não sou pobre, sou sóbrio, com pouca bagagem, vivo com o suficiente para que as coisas não me roubem a liberdade"; por outro lado, "tu, com o teu dinheiro, não podes ir a um supermercado e dizer: venda-me mais cinco anos de vida. Não podes. Não é uma mercadoria, então não a devemos gastar mal. Temos de a usar e gastar com as coisas que nos motivam a viver." À CNN disse: "temos de viver como vive a maioria, não como vive a minoria", lembrando que "o presidente é um funcionário que foi eleito pelas pessoas para um momento e uma etapa" e que "ninguém é melhor do que ninguém". “A política é a luta pela felicidade de todos".

Entre estas palavras e a sua existência quotidiana não há distâncias.

Vive com a mulher de há 40 anos, a senadora Lucía Topolansky, na casa de uma assoalhada, onde também costuma receber os jornalistas. Ao lado da roupa estendida e da horta que cultiva, é vegetariano, no meio das galinhas e junto à cadela Manuela, que só tem três patas. Não é esquisito no vestir e nem para ir à Casa Branca usou gravata, que considera "um trapo inútil".

Estamos no Advento. Uns dizem que o melhor está para vir, mas adiam a felicidade para o fim dos tempos. Outros repetem as figuras que anunciaram a vinda do Messias. Porque não abrir os olhos para as figuras que vivem hoje e abrem novos caminhos de Esperança?

Público, 6.Dez.2015

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