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NEM SEMPRE O PASSADO ESTÁ ULTRAPASSADO

por Zulmiro Sarmento, em 30.01.15
 

O novo é sempre sedutor. Mas será que é o melhor?

Eis a pergunta que urge fazer, mas que pouco se faz.

O novo é visto como sinónimo de mudança e de progresso. Nem sempre, porém.

Há valores e princípios que, vindos do passado, estão longe de estar ultrapassados.

É preciso discernir.

Há coisas que mostraram valer durante tanto tempo. Porquê descartá-las tão sumariamente?

Por vezes, a alternativa ao antigo não é o novo, mas o vazio.

Nem tudo o que vem do passado é para manter. Mas é igualmente verdade que nem tudo o que chega do passado é para eliminar.

Desconstruir por desconstruir pode trazer danos irreparáveis.

Há valores e princípios que não são antigos nem novos. São perenes.

Valem para sempre. Para hoje também!

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publicado às 13:59

Uma excelente oportunidade para o Papa Francisco e para a Igreja

por Zulmiro Sarmento, em 29.01.15

 

Ana Vicente*

Quantas vezes a Igreja, na sua história, se viu obrigada a rever posições e a pedir desculpas pelos seus pecados?

Lemos com alegria que o Papa Francisco, mais uma vez, foi a uma zona do mundo que, em boa hora, está a deixar de ser uma franja para passar a ocupar o lugar que lhe é devido. Aí constatou a gritante situação de pobreza de milhões de pessoas – sobretudo das mulheres. A forma obsoleta e iníqua com que nos organizamos a nível internacional em termos económicos e políticos, tantas vezes sublinhada pelo próprio Francisco – metade da riqueza mundial nas mãos de 1% da população!

Francisco sabe, porque já demonstrou, que é uma pessoa intelectualmente honesta, uma qualidade demasiadamente rara nas elites religiosas, que está mais que analisado, estudado e avaliado que a maioria dos pobres tem cara de mulher e que essa pobreza ocorre maioritariamente entre as mulheres não por mero acaso. Estão excluídas do poder, e o que é mais grave, também do poder religioso, pois este deveria ser o primeiro a dar o exemplo de justiça e igualdade, tão ansiado pelo divino. São objecto de discriminação no acesso à saúde, à educação, à formação, aos direitos humanos, em suma. São as principais vítimas de violência sexual, de violência psicológica, de violência bruta, como aliás é reconhecido na exortação papal A Alegria do Evangelho: “Duplamente pobres são as mulheres que padecem situações de exclusão, maus-tratos e violência, porque frequentemente têm menores possibilidades de defender os seus direitos.” (para 212). O PÚBLICO de 19 de Janeiro fala das Filipinas como uma ilha de catolicismo no continente asiático; descreve como o povo clamou contra a corrupção e contra a injustiça – que os assola há décadas. Mas será adequado referir as Filipinas como um país católico? Tendo em conta que  está organizado de uma forma profundamente não-cristã, tudo ao arrepio da mensagem evangélica?

Perante os catastróficos cenários filipinos com que se confrontou e que aliás referiu por diversas vezes, tenhamos esperança que o Papa Francisco tenha o bom senso e a coragem de rever a muito infeliz e, aos olhos de muitas teólogas e teólogos, frágil, porque muito mal fundamentada, encíclica de 1968, subscrita por  Paulo VI, Humanae Vitae. Aí se faz uma distinção entre métodos contraceptivos "naturais" e outros "artificiais", impondo o uso dos "naturais". É sabido que uma forte maioria do grupo de trabalho nomeado primeiro pelo Papa João XXIII e depois alargado por Paulo VI, concluiu que todos os métodos ‘iludem a natureza’, incluindo os chamados naturais – porque estes usam o estratagema de identificar os tempos inférteis da mulher para só nesses períodos poder haver relações sexuais; e o sensus fidelium rejeitou de tal modo as prescrições da encíclica que hoje em dia, no mundo ocidental, cerca de 95% dos católicos praticantes consideram-nas inaceitáveis e ignoram-nas, usando qualquer método em boa consciência, porque entenderam que o que de facto importa é ser responsável na parentalidade, quer da parte materna quer paterna. São seguidos nessa opinião pela grande maioria do clero, das religiosas e até de muito episcopado que, repetidamente, tem solicitado ao Vaticano a revisão desta encíclica, que tanto tem minado a autoridade eclesiástica. É mais do que sabido que apenas alguns membros de organizações ultratradicionalistas seguem estas orientações. Estão no direito de o fazer – não estão no direito de as impor aos outros.


Mas essa não aceitação dos princípios da encíclica já não ocorre nos países em desenvolvimento, onde o clero ainda detém alguma autoridade sobre as consciências (de que as Filipinas são um exemplo muito claro) e é por isso que temos de continuar a preocupar-nos com os imensos danos que este pensamento obscurantista, temente do prazer da sexualidade, criada por Deus, tem tido na saúde das mulheres e, consequentemente, das crianças e na família em geral.

Aliás as Filipinas podem ser consideradas um caso de estudo – pois a maior parte das autoridades eclesiásticas que o Papa teve agora que encarar (e até criticar nalguns aspectos), tem tido um papel muito negativo na busca de um desenvolvimento sustentável para toda a população. Justamente no campo do planeamento familiar o poder da Igreja masculina e autoritária impediu que naquele país, durante décadas, o Estado proporcionasse cuidados de saúde reprodutivos às mulheres e às famílias, contribuindo assim objectivamente para que milhares de crianças vivam na rua, sujeitas a serem prostituídas e traficadas, como evidenciaram as lágrimas de Glyzelle.

A poucos meses do Sínodo da Família, é tempo dos crentes encararem esta questão com seriedade, à luz do bom senso e dos Evangelhos – o próprio Papa no avião de regresso de Manila, apesar de ter reafirmado o seu apoio, em termos genéricos, à encíclica, afirmou que os cristãos não têm que "fazer crianças em série", nem se comportarem em termos reprodutivos "como os coelhos" e que a responsabilidade parental era um valor grande. Quantas vezes a Igreja, na sua história, se viu obrigada a rever posições e a pedir desculpas pelos seus pecados? Chegou agora o momento de o fazer com a contracepção, não lhe cabendo fazer doutrina sobre a matéria, que em nada consta nas propostas de Jesus.

* Membro do Movimento Internacional Nós Somos Igreja-Portugal

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publicado às 16:04

CADA COISA NO SEU LUGAR

por Zulmiro Sarmento, em 29.01.15
 

Um convívio é bom. Um convívio com cânticos, com celebrações, com alegria é excelente. Mas não se chame a um convívio retiro. Convívio é uma coisa, excelente. Retiro é outra coisa, óptima também.

Como a própria palavra sugere, retiro implica que as pessoas se retirem dos lugares que habitualmente frequentam e dos comportamentos que habitualmente têm.

É por isso que há casas especialmente vocacionadas para isso, casas de retiro. E é por isso que o perfil de um retiro é marcado pelo silêncio, pela ausência de ruído.

Cada actividade tem a sua identidade. Participemos em tudo o que é bom. O que é bom faz bem. Mas mantenhamos a identidade de cada coisa!

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publicado às 11:28

Diz-se cada coisa sobre Francisco por parte dos ultraconservadores saudosistas e restauracionistas ...

por Zulmiro Sarmento, em 28.01.15

Papa em estado de graça.

O crédito de Francisco continua crescendo fora do Vaticano enquanto aumenta a perplexidade interna com sua forma personalista de exercer o poder.

Por Pablo Ordaz – El País: A chave está no poder. Os moralistas do século XVII afirmam que o poder é um hábito que se perde apenas com a morte. Joseph Ratzinger, no entanto, sentiu que a sua incapacidade de exercê-lo o estava asfixiando e, em um gesto desesperado – o único grito de um homem que jamais havia levantado a voz -, decidiu encerrá-lo. Jorge Mario Bergoglio não tem esse problema. É encantado pelo poder. Ama exercê-lo. E, se não fosse o suficiente, de Buenos Aires teve uma boa perspectiva para contemplar o que acontece com o Vaticano quando dois papas consecutivos – João Paulo II, durante sua longa doença, e Bento XVI, pela sua incapacidade para dar ordens – deixaram o destino da Igreja nas mãos de uma Cúria omissa, rachada e à mercê dos instintos mundanos. De forma que, à parte de isso estar mais ou menos de acordo com seus planos, já não há dúvidas no Vaticano que o hóspede de 78 anos, que cada madrugada acorda às quatro e meia, acende a luz do quarto 201 da residência de Santa Marta, reza durante duas horas, diz a missa às sete e toma café da manhã logo depois com grande apetite, está disposto a usar todo o seu poder para mudar a Igreja.

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publicado às 11:28

FRANCISCO, UM PAPA QUE SURPREENDE

por Zulmiro Sarmento, em 28.01.15

 

FRANCISCO, UM PAPA QUE SURPREENDE – 25 de Janeiro de 2015

1. Quem acompanha a vida do Papa Francisco quer em Roma, quer nas suas viagens pastorais, nos grandes discursos na ala Paulo VI ou nas conversas simples na Capela de Santa Marta, dá-se conta de que Francisco é sempre um pastor com extraordinária proximidade e a surpreender todos com os mais pequenos gestos. Os últimos dias trouxeram-nos episódios da sua vida verdadeiramente cativantes.

• Em Manila, deixou-se rodear por milhares de crianças que se sentaram ao seu colo. Uma alegria esfusiante. Só o “protocolo” estava preocupado.

• Em Leiria, uma senhora argentina, doente há sete anos, com um cancro gravíssimo, escreveu ao Papa. Francisco pegou no telefone e ligou-lhe, falando pessoalmente com ela, dando-lhe a certeza da sua oração e do seu carinho.

• De Lisboa, uma senhora escreve ao Papa contando-lhe uma história interessantíssima: com 12 anos, no colégio de freiras, tinham-lhe pedido para dizer quem era Jesus; ela respondera que era o Filho de Deus, mas também um revolucionário: ficou de castigo; agora, que tem 60 anos, viu em Buenos Aires uma homilia do Cardeal Bergoglio que chamava a Cristo um revolucionário; ficou contente pelo facto de o Papa também pensar como ela. Francisco respondeu-lhe na volta do correio e pelo próprio punho, convidando-a a ir visitá-lo para conversarem.

• No avião, ao regressar das viagens à Ásia, questionado sobre o planeamento familiar, não hesitou em dizer que os cristãos devem viver uma paternidade responsável, comentando mesmo que “os católicos não podem ser como os coelhos”. Com isto abria uma porta à reflexão sobre a família que o Sínodo dos Bispos vai aprofundar.

Muitas outras histórias se poderiam contar porque o Papa surpreende com a sua linguagem, com a sua preocupação pelos problemas humanos, pelo sofrimento dos pobres, pelo desejo da renovação profunda da Igreja. Na Evangelii Gaudium, ele diz mesmo que a renovação da Igreja é inadiável.

2. O Papa Francisco acompanhou uma iniciativa do Cardeal de Barcelona sobre a Pastoral das Grandes Cidades. De facto, a Igreja pode estar presente em ambientes rurais, mas quando chega à cidade o seu processo de evangelizar tem características próprias que urge promover para a eficácia do anúncio do Evangelho. O Senhor D. Manuel Clemente participou neste Congresso Internacional da Pastoral Urbana que se realizou em Barcelona e em Roma. As conclusões do Congresso prefiguram o tipo de evangelização que o Papa Francisco propõe:

• O olhar contemplativo sobre o Mundo com dupla incidência: o olhar de Jesus sobre a cidade e, por outro lado, ver o próprio Jesus nos outros, quem quer que sejam.

• O modelo missionário de Jesus bem expresso na forma de uma Igreja em saída que não se limita a manter o que já existe, mas que quer ir às periferias anunciar o Evangelho da misericórdia.

• Uma pastoral de portas abertas que se realiza pelo contacto pessoal, a capilaridade e o testemunho; trata-se de pastoral personalizada na conversa pessoa a pessoa, na pregação informal.

• Uma grande cidade com famílias cristãs que sejam “Igreja doméstica” e paróquias, comunidades de comunidades, centros de atenção pastoral, permanente e criativa.

• Uma cultura cristãmente inspirada que dialogue com as outras culturas com formas de aproximação e de partilha também nas redes de comunicação social.

Não se trata apenas de ser “Igreja na cidade” mas “Igreja da cidade” compreendendo e assumindo a unidade urbana e a particularidade dos lugares centrais ou periféricos. É interessante referir que há muitos movimentos cristãos em Lisboa que querem escutar a cidade para responder-lhe com os valores cristãos, os valores do Evangelho.

3. Para esta presença da Igreja na cidade são necessárias várias exigências que darão maior qualidade a toda a acção pastoral que se deseja realizar. Sem estas preocupações pastorais dificilmente se é eficaz. Foi por isso que o Congresso Internacional sobre a Pastoral nas Grandes Cidades referiu alguns elementos fundamentais à presença da Igreja nos grandes centros urbanos.

• A formação e responsabilização do laicado é essencial, sabendo que a missão dos leigos na Igreja consiste em tratar da ordem temporal e orientá-la segundo Deus para que progrida e assim glorifique o Criador e Redentor (LG 31).

• A exigência de ser pobre e humilde é fundamental para que se concretize o sonho missionário que empolga pastores na cidade actual pela credibilidade que adquirem.

• Uma liturgia de alegria e comunhão permite compreender a todos os que mesmo excepcionalmente passam pelo templo, que a vida cristã tem o sentido da festa antecipando a alegria da Jerusalém celeste.

• A proximidade de todos e a disponibilidade para todos serão reveladoras de comunidades de portas abertas a quem passa e procura.

Comentando tudo isto, o Papa Francisco afirmou que é urgente mudar a nossa mentalidade pastoral para que se consiga uma acção audaz e anunciadora da Boa Nova; uma atitude contemplativa permitirá ver tudo com o olhar de Jesus; ficar-se-á sensível ao clamor dos pobres, dos excluídos e dos descartados; vivendo todos os cristãos em missão pelo seu testemunho cheio de misericórdia e de ternura.

4. A Comunidade Paroquial do Campo Grande está plantada no coração da cidade, com universidades, grandes hospitais, vários colégios, bairros residenciais, incluindo também algumas periferias sociais. A mensagem do Papa Francisco e os desafios do Congresso Internacional da Pastoral Urbana exige-nos criatividade para vivermos em “Igreja em saída” que acolhe, escuta, compreende e tenta responder a todos aqueles que nos procuram considerando a nossa comunidade como uma âncora de esperança.

Pe. Vítor Feytor Pinto

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publicado às 10:30

A despedida de Jesus

por Zulmiro Sarmento, em 28.01.15

 

 


«Querida mãe: quando acordares já terei partido»: A despedida e o Batismo de Jesus

«Naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi batizado por João no rio Jordão» (Do Evangelho do Domingo do Batismo do Senhor, 11.1.2015) 

Que rápido passámos do nascimento de Jesus ao seu Batismo no Jordão! Passaram três semanas e o Menino nascido no pesebre de Belém aparece já como um homem feito, que decide sair da sua casa em Nazaré, deixando para trás a vida familiar, o ofício de artesão, as paisagens suaves da Galileia, para ir ao encontro do profeta João, que está a batizar do outro lado do rio Jordão, no sul do país.

Que arrebatamento ocorreu a Jesus para deixar a vida tranquila e embarcar numa aventura que em pouco tempo o levaria à cruz? Que sonhos levava este jovem no peito para tomar essa decisão? Não encontrei melhor explicação para estas perguntas senão numa carta escrita por um sacerdote espanhol, José Luís Cortés, que tenta recriar os sentimentos de Jesus naquele momento da sua vida. É uma carta dirigida à Virgem Maria, em que Ele explica o que move a deixar a casa.

«Querida mãe: quando acordares já terei partido. Quis poupar-te a despedidas. Já sofreste muito, e sofrerás ainda mais. Agora é noite, enquanto te escrevo. Quero dizer-te por que me vou, por que te deixo, por que não fico na oficina a fazer ombreiras para portas ou cadeiras o resto da minha vida.
Durante trinta anos observei as pessoas do nosso povo e tentei compreender para que viviam, por que se levantavam a cada manhã e com que esperança adormeciam todas as noites. O João, dos refrescos, e com ele metade de Nazaré, sonham em fazer-se ricos e acreditam de verdade que quanto mais coisas tiverem, mais completos vão ser. O chefe da cidade e os outros põem o sentido das suas vidas em conseguir mais poder, ser obedecidos por mais pessoas, ter capacidade para dispor do futuro dos outros homens. O rabino e as suas seguidoras já desistiram de tudo o que significa esforçar-se por crescer e desculpam-se fazendo-o passar por vontade de Deus. (…)

Às vezes, mãe, quando chegavam cartas e soava a trombeta na praça, quando as pessoas acorriam de todos os lados, eu fixava-me nesses rostos que esperavam ansiosamente, delirantemente, de qualquer lugar e de qualquer remetente, uma boa notícia; teriam dado a metade das suas vidas para que alguém lhes abrisse, de fora, uma fenda nos seus muros. Vinham-me ganas de me pôr no meio deles e gritar-lhes: "A boa nova já chegou! O Reino de Deus está dentro de vós! As melhores cartas vão chegar de dentro de vós! Porque repetem que estão coxos se Deus vos deu pernas de gazela?".

Sinto-me tomado pela plenitude da vida, mãe. E descubro-me aceso num fogo que me leva e me faz contar aos homens notícias simples e belas que ninguém diz (e se alguém chega a dizer, logo o censuram). E queria queimar o mundo com esta chama; que em todos os cantos houvesse vida, mas vida em abundância. Já sei que sou um carpinteiro sem licenciatura e que acabei de completar a idade para poder abrir os lábios em público. Não me importaria esperar mais, pensar mais, ser mais maduro, “fazer a minha síntese teológica”… (…)

Mas… há demasiada infelicidade, mãe. Demasiados cegos, demasiados pobres, demasiada gente para quem o mundo é a blasfémia de Deus. Não se pode crer em Deus num mundo onde os homens morrem e não são felizes… a menos que se esteja do lado daqueles que dão a vida para que tudo isso não aconteça; para que o mundo seja como Deus o pensou (…).»

Jesus seguiu o caminho que Deus lhe apontava; a sua vocação foi ser filho amado de Deus e irmão de todos os homens e mulheres que partilham a sua mesma vocação. Isso significa o Batismo de Jesus, e isso significa o nosso próprio Batismo.

P. Hermann Rodríguez Osorio, S.J. 
In "Periodista Digital" 
Trad. / edição: Rui Jorge Martins 
Publicado em 10.01.2015

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publicado às 09:36

NEM MATAR NEM OFENDER

por Zulmiro Sarmento, em 27.01.15
 

 

  1. Que devemos fazer para que a violência acabe? Ou, melhor, que devemos não fazer para que a violência termine?

 

Pelo que se vê, o problema tem estado no que se faz. A agir e a reagir, a atacar e a defender, não temos conseguir estancar a hemorragia de violência que se abateu sobre o mundo.

 

  1. Assim sendo, o mais avisado será pensar não no que se deve fazer, mas no que se deve não fazer.

Tendo em conta que toda a vida é inviolável e que toda a pessoa é sagrada, então nenhuma vida pode ser eliminada e nenhuma pessoa poderá ser ofendida.

 

  1. O consenso é imperioso, mas a convergência parece inviável.

Os que matam invocam motivos para estar ofendidos. Os que ofendem não encontram motivos para ser mortos.

 

  1. Acresce que estas posições coexistem no mesmo tempo e disputam o mesmo espaço.

O mesmo lugar pode abrigar culturas diferentes e concepções opostas.

 

  1. Discordar é legítimo e incomodar até pode ser saudável. Mas ofender será, alguma vez, dignificante?

Há quem defenda a liberdade de ofender como uma consequência da liberdade de expressão. Podemos deslizar, porém, por um caminho sinuoso.

 

  1. Com efeito, não faltará quem alegue a violência como uma extensão dessa mesma liberdade de expressão.

Se uns se exprimem ofendendo, outros tenderão a exprimir-se vingando-se da ofensa.

 

  1. Pergunta-se se uma liberdade com limites será liberdade. Mas será que o ilimitado está ao alcance do humano?

Se a própria vida tem um limite, como é que no decurso da vida se pode arrogar algo ilimitado?

 

  1. Se a liberdade de alguém fosse ilimitada, como é que a liberdade dos outros poderia ser exercida?

A convivência entre pessoas terá de ser um esforço de coexistência entre liberdades.

 

 

  1. O que para nós é aceitável, para os outros pode ser inadmissível.

Não é lícito que qualquer opinião seja vista como uma ofensa. Mas também não é curial que a ofensa seja olhada como mera opinião.

 

  1. Procuremos ver sempre o lado dos outros. Ou será que a «cegueira individualista» nos está a contaminar, impedindo-nos de ver para lá de nós? Matar não tem justificação possível. Mas ofender também não tem defesa convincente.

Entretanto, o desprezo vai cavando muitas feridas. E o ódio vai fazendo imensas vítimas…

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publicado às 12:56

INTEIRAMENTE ESMOLER

por Zulmiro Sarmento, em 23.01.15
 

S. João Esmoler nasceu em Chipre, foi funcionário do imperador, enviuvou e veio a ser patriarca de Alexandria por volta de 610. Espantou toda a gente com uma pergunta que fez à chegada: «Quantos são aqui os meus senhores?»

Como ninguém percebeu o alcance, ele descodificou: «Quero saber quantos pobres temos. Eles são os meus senhores, pois representam na terra Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt 25, 34-46). Dependerá deles que eu venha a entrar no Seu reino».

Fizeram o apuramento. Havia 7500 pobres, que ficaram a receber, todos os dias, uma boa esmola. É claro que as críticas não demoraram. Que havia alguns que não eram pobres, antes mandriões.

Réplica do bispo: «Se não fôsseis não curiosos, não o saberíeis. Curai-vos da vossa intriga e curiosidade e deixai-me em paz. Prefiro ser enganado dez vezes a violar, uma vez que seja, a lei do amor».

Diz a história que o cofre nunca se esvaziou. A quem lhe agradecia ele respondia: «Agradece-me só quando eu derramar o meu sangue por ti; até lá, agradeçamos, os dois juntos, a Nosso Senhor Jesus Cristo».

Ninguém tinha coragem de lhe negar nada. Só que alguns costumavam sair, furtivamente, da igreja antes do fim da Santa Missa.

Sucede que o bispo saía também e, de báculo na mão, juntava-se a eles cá fora e intimava-os: «Meus filhos, um pastor deve estar com o seu rebanho; por isso, venho ter convosco. Mas não posso ficar aqui e não me posso cortar em dois; que iria ser das minhas ovelhas que estão lá dentro?» Desde então, toda a gente esperava pelo fim da Santa Missa para sair.
Que nobre exemplo de pastor, de pai. Muito mais tarde, também Bossuet repetia: «Nossos senhores, os pobres».

O pobre é sempre uma surpreendente aparição de Deus.

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publicado às 14:09

A escolha

por Zulmiro Sarmento, em 23.01.15

 




 

Pode parecer estranho dizer que a alegria é o resultado das nossas escolhas. Com frequência imaginamos que algumas pessoas têm mais sorte do que outras e que a sua alegria ou tristeza dependem das circunstâncias da sua vida – sobre a qual não têm controlo.

 

No entanto, temos uma hipótese de escolha, não tanto em relação às circunstâncias da nossa vida, quanto em relação à maneira como reagimos a essas circunstâncias. Duas pessoas podem ser vítimas do mesmo acidente. Para uma, ele torna-se motivo de ressentimento. Para outra, motivo de gratidão. As circunstâncias externas são as mesmas, mas a opção pela forma de reagir é completamente diferente. Algumas pessoas tornam-se ásperas à medida que envelhecem, outras envelhecem alegremente. Isso não significa que a vida daqueles que se tornam ásperos tenha sido mais dura do que a daqueles que se tornam alegres. Significa que foram feitas diferentes escolhas, escolhas interiores, escolhas do coração.

 

É importante darmo-nos conta de que em cada momento da nossa vida temos a oportunidade de escolher a alegria. A vida tem muitas facetas. Há sempre facetas tristes e alegres na realidade que vivemos. E, por isso, temos sempre a possibilidade de viver o momento presente, como causa de ressentimento ou como causa de alegria. É na escolha que reside a nossa verdadeira liberdade. E esta liberdade, em última análise, é a liberdade de amar.

 

É capaz de ser uma boa ideia perguntarmos a nós mesmos como é que desenvolvemos a nossa capacidade de optar pela alegria. Talvez possamos reservar alguns momentos no final do nosso dia, para ver como é que o passámos – seja o que for que tenha acontecido – e agradecer a oportunidade de o ter vivido. Se assim o fizermos, aumentaremos a capacidade do nosso coração para optar pela alegria. E, ao construirmos um coração mais alegre, tornar-nos-emos, sem nenhum esforço extraordinário, fonte de alegria para os outros. Assim como a tristeza origina tristeza, assim a alegria origina alegria.

 

Henry Nouwen, Aqui e Agora, Vida no Espírito, 1996

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publicado às 13:47

Muita gente que quase enlouquece por causa do futebol devia ler isto…

por Zulmiro Sarmento, em 22.01.15

 

 

Tento sempre tirar lições positivas ou negativas dos acontecimentos. O mundo do futebol – esse desporto que entusiasma tanta gente até ao tresloucamento de alguns – oferece lições com interesse em que vale a pena reflectir.

Há treinadores que se entregam apaixonadamente à sua missão, julgando com justiça, dando o seu saber, a sua dedicação, a presença junto da sua família e quantos outros sacrifícios, para elevar o seu clube à vitória, algumas vezes ao pódio máximo. Recebem então elogios de toda a gente ligada ao seu clube e exterior a ele. Louvores da imprensa, da direcção, dos aficionados, aplausos de todo aquele mundo.

Mas quando os resultados começam a descer, tantas vezes por motivos alheios ao treinador, a admiração por ele começa também a descer e todos esquecem as vitórias anteriores, os campeonatos ganhos, as glórias alcançadas. Tudo o vento do esquecimento levou…

Segue-se a rescisão do contrato, a despedida amarga e até o espectro cruel do desemprego. É este um retrato de todos os dias do futebol da vida.

Sempre que alguém rende na sua actividade, os êxitos são reconhecidos, apreciados e louvados.

Mas quando a idade avança, quando a saúde falha, quando o desgaste debilita, quando as circunstâncias não são favoráveis, os maus resultados são imputados ao responsável, o apreço desaparece, os valores são esquecidos e segue-se a rescisão do contrato e a despedida.

É esta incoerência injusta, que continuará a ser praticada, no mundo do futebol e fora dele, por todos quantos olham os seus colaboradores apenas pela óptica dos resultados e das vitórias…

Mário Salgueirinho

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publicado às 12:15

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