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QUE LUGAR PARA A SURPRESA NO MEIO DE TANTA (in)CERTEZA? (Sexto Domingo do Tempo Comum)

por Zulmiro Sarmento, em 12.02.17
 

A. Uma porta aberta em hora incerta

  1. No meio de tanta certeza e no fundo de tanta incerteza, que espaço fica para a surpresa? A surpresa é, tantas vezes, o mais belo cartão de visita de Deus. Só que nós, hoje em dia, muito gostamos de programar. Nesse caso, que disposição temos para esperar? É importante fazer alguma programação. Mas deixemos espaço para a surpresa no nosso coração.

Habituámo-nos a olhar para a existência como uma contínua decadência. Para muita gente, o caminho do mundo é descendente. Segundo alguns, o presente já expulsou o que há de melhor; por isso, o futuro será pior. Com o pessimismo a atingir estes níveis de destemperança, que lugar resta para a esperança?

 

  1. É nas horas mais cruéis que à esperança temos de ser fiéis. Vergílio Ferreira lembrava que, «quando a situação é mais dura, a esperança tem de ser mais forte». Infelizmente, o maior défice dos tempos que correm é o défice de esperança. Andamos órfãos de esperança. O desespero tortura-nos sem o menor destempero.

Mas nesta hora tão incerta, porque não deixar uma porta aberta? Abramos as portas à esperança e não as fechemos à surpresa. Porque não acreditar que amanhã pode ser melhor? É verdade que, na vida, temos de contar com tudo, também com o pior. Mas estar preparado para o pior não nos impede — muito pelo contrário — de nos mantermos abertos ao que há de melhor.

 

B. Para a felicidade é fundamental o sentido da eternidade

 

3. Na primeira carta que escreveu aos cristãos de Corinto, São Paulo, decalcando um pequeno trecho de Isaías (cf. Is 64, 4), convoca-nos para as energias da esperança. E dá-nos uma preciosa garantia: «Nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou pela mente humana o que Deus tem preparado para aqueles que O amam» (1Cor 2, 9). O que Deus tem preparado é infinitamente melhor que o melhor que possamos conceber ou desejar.

Por isso, não desfaleçamos nem recuemos. Não nos deixemos degolar pela tirania do desespero. Sentir as nuvens que estão por debaixo do sol não nos inibe de saber que há muito sol por cima das nuvens.

 

  1. O nosso problema é que a nossa época quase baniu o sentido da eternidade. Falamos muito do futuro e quase não falamos da eternidade. Mesmo nós, cristãos (que professamos a fé na «vida eterna» e no «mundo que há-de vir»), parece que apostamos tudo no horizonte desta vida. Não percebemos que aquilo a que o nosso coração aspira, não pode ser dado por nada — nem por ninguém — neste mundo.

Somos seres finitos com ânsias de infinito. Só o infinito pode trazer o que este mundo não consegue oferecer. É por isso que, no tempo, somos todos peregrinos da eternidade. É o sentido da eternidade que permite vitaminar em nós a felicidade. Porque a eternidade é vida, a vida é eterna.

 

C. Muito conhecimento, muita sabedoria?

 

5. A eternidade não é só o que vem depois da morte. A eternidade é o sentido presente em toda a vida: antes da morte, depois da morte e para lá da morte. É esta a sabedoria que falta, é esta a sabedoria que urge. Acostumamo-nos a ligar a sabedoria à previsão e ao domínio das situações. É importante que nos habituemos a religar a sabedoria à surpresa e à esperança que Deus coloca nos nossos corações.

Na actualidade, há muita informação, mas será que existe muito conhecimento? O conhecimento inclui a informação, mas não se reduz a ela. E quanto ao conhecimento, será que ele corresponde sempre a muita sabedoria? A sabedoria não subestima o conhecimento, mas todos sentimos que vai mais longe que ele.

 

  1. Por vezes, somos confrontados com uma espécie de paralelismo assimptótico entre conhecimento e sabedoria. Há quem tenha muitos conhecimentos, mas não revele muita sabedoria e há quem revele muita sabedoria, mesmo sem possuir muitos conhecimentos.

O melhor é que tudo ande harmoniosamente interligado entre informação, conhecimento e sabedoria. Nem sempre tal harmonia se consegue. Nunca desistamos, porém, de a procurar. Nunca é demais, por isso, meditar na interrogação que, há já muitos anos, Thomas Stearns Eliot nos deixou: «Onde está a sabedoria que nós perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que nós perdemos na informação?»

 

D. Antes da investigação está a contemplação

 

7. É óbvio que nem sempre perdemos sabedoria no conhecimento nem conhecimento na informação. Mas manda a verdade que reconheçamos que, às vezes, não ganhamos muita sabedoria no conhecimento nem muito conhecimento na informação. Há quem, não sabendo ler, leia melhor que muitos letrados. Não se trata de fazer a apologia da ignorância, mas de apontar para a verdadeira nascente da sabedoria.

São Paulo tem o cuidado de apontar para a «sabedoria de Deus» (1Cor 2, 7). Esta sabedoria não exclui nenhuma outra já que está na origem de toda a sabedoria. É uma sabedoria que se bebe de joelhos. É uma sabedoria que vem pela via da contemplação antes de sobrevir pela via da investigação.

 

  1. A primeira leitura, que tem o cuidado de advertir para a grandeza da sabedoria de Deus (cf. Eclo 15, 18), realça que «os Seus olhos estão postos naqueles que O temem» (Eclo 15, 19). Só com os olhos de Deus conseguiremos ver. É por isso que Deus é a raiz da Sofia e a mãe da autêntica Sabedoria.

Peçamos-Lhe, pois (como fazíamos no Salmo Responsorial), que abra os nossos olhos (cf. Sal 119, 18), que nos mostre o Seu caminho (cf. Sal 119, 33), que nos ajude a obedecer à Sua Lei e a guardá-la de todo o coração (cf. Sal 119, 34).

 

E. A comunicação de Deus é sempre verbal, embora nem sempre seja vocal

 

9. A sabedoria divina não fornece apenas a ciência; também oferece caminhos para transformar a existência. Não abandonemos a sabedoria dos livros, mas apeguemo-nos, cada vez mais, ao verdadeiro Livro da Sabedoria, que é a Palavra de Deus. Tantas são as vezes em que dizemos que Deus não fala para nós; mas será que nos estamos atentos à Sua voz? Deus está sempre a falar; nós é que raramente nos dispomos a escutar.

Deus fala na Bíblia, Deus fala na natureza, Deus fala na Igreja, Deus fala nos acontecimentos, Deus fala nas pessoas. Deus fala sempre pelo Seu Verbo, pelo Seu Verbo que Se fez carne em Jesus (cf. Jo 1, 14). Daí que a comunicação divina seja sempre verbal, embora nem sempre seja vocal. Mas é uma comunicação fortemente existencial. É uma comunicação que está na vida. Por conseguinte, aquilo que nós consideramos silêncio de Deus acaba por ser a Sua comunicação mais forte. Afinal, Deus não está mudo, nós é que parecemos surdos.

 

  1. Acolhamos Deus em cada momento, no Novo e (também) no Antigo Testamento. Jesus veio aperfeiçoar, mas não revogar (cf. Mt 5, 17). O Antigo também tem valor e, por isso, deve ser acolhido com amor. Mas o Novo é a plenitude e, nessa medida, é a maior fonte de virtude. Jesus mostra um grande discernimento, valorizando o que está bem e aperfeiçoando o que pode ser melhor. São várias as antíteses que nos aparecem neste texto, mostrando que Jesus não Se revê em todo o passado; há muito para ser modificado.

Na avaliação do antigo e na proposta do novo, Jesus é sempre o critério. É Jesus que temos de levar a sério. Jesus não quer menos que o máximo: o máximo da justiça, o máximo do amor, o máximo da perfeição. Eis a diferença que faz toda a diferença: a Sabedoria que vem de Deus não é só para mais saber; é, acima de tudo, para melhor viver!

Do blogue A Paz na Verdade

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publicado às 23:49

NOTAS DO PORTO NOVO - 1

por Zulmiro Sarmento, em 06.02.17

A comunicação é importante.

Mas a comunicação vocal é insuficiente.

Só a comunicação vivencial é que se revela decisiva.

Já o Padre António Vieira notara: «Para falar ao vento bastam palavras; para falar ao coração são necessárias obras».

Falemos sempre. Mas falemos sobretudo com a vida.

A eloquência da vida é a única que convence!

*

As pessoas revelam-se mais na relação com os que estão baixo do que com os que estão em cima.

Com os que estão em cima tendem a mostrar o que convém.

É com os que estão em baixo que mostram o que são.

Daí que Thomas Carlyle tenha chegado a uma conclusão óbvia, mas nem sempre tida na devida conta: «O grande homem mostra a sua grandeza pela maneira como trata os pequenos».

É verdade.

Há quem, julgando-se grande, se mostre mais pequeno que os pequenos.

Aliás, a verdadeira grandeza numa empequenece.

A verdadeira grandeza não olha para ninguém como pequeno.

Jesus identificou-Se com os mais pequenos (cf. Mt 25, 40) porque notou que mais ninguém reparava na grandeza que neles se encontra!

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publicado às 12:44

PRIORITÁRIO É SER «CRUCIFERÁRIO» (Quinto Domingo do Tempo Comum)

por Zulmiro Sarmento, em 06.02.17
 

A. Ser cristão é transportar a Cruz

  1. Não é só nas procissões que existe o cruciferário. Ser cristão é, essencialmente, ser cruciferário. Ser cristão é transportar a Cruz. Ser cristão é nunca abandonar quem transporta a Cruz. São Paulo tem o cuidado de dizer aos cristãos de Corinto — e, neles, a todos os cristãos — que não sabe mais nada a não ser Jesus Cristo «e Jesus Cristo crucificado» (1Cor 2, 2).

Por opção, prescinde dos argumentos da sabedoria humana (cf. 1Cor 2, 4). Quer ficar apenas com a «força de Deus» (1Cor 2, 5). O nosso problema — e, consequentemente, o problema da evangelização que fazemos — é que confiamos mais na nossa sabedoria e na nossa força do que na sabedoria e na força de Deus.

 

  1. A evangelização não deve ser feita, obviamente, com uma linguagem vulgar. Mas é possível que, muitas vezes, nos esqueçamos de que a linguagem mais vulgar é a das palavras que se presumem sábias. No fundo, o que Paulo pretende vincar é que Deus não deve ser anunciado a partir de nós, mas a partir do próprio Deus.

É claro que não é, de todo, ilegítimo chegar a Deus com as nossas forças ou com a nossa sabedoria. Mas ninguém contestará que o caminho mais transitável para Deus é o caminho que nos vem do próprio Deus.

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 B. Afinal, a fragilidade também é sinal de vitalidade

 

3. É por isso que, como Paulo, importa que, na missão, nos apresentemos «desarmados», sem defesas e também, já agora, também sem «ataques». Não tenhamos receio da nossa fraqueza nem do nosso temor. Também Paulo não hesitou em apresentar-se «cheio de fraqueza e de temor e até a tremer» (2Cor 2, 3). Ele estava vazio de si e preenchido por Cristo. Ele sentia-se desabitado de si e já habitado por Cristo.

É a força desta fraqueza que acaba por denunciar a fraqueza de muitas forças. Tenhamos presente que, como anotou Tony Blair, «ser humano é ser frágil». E, por vezes, é quando alegamos a força que não temos que mais mostramos a fraqueza que tentamos disfarçar. A bem dizer, há mais força na fraqueza do que em muitas forças.

 

  1. Não percamos de vista a lição que, na antiguidade, nos é dada por Lao Tsé. Notava ele, como devíamos notar todos nós, que, quando nascemos, somos frágeis. É a morte que nos torna duros. Afinal e por estranho que pareça, a dureza é sinal de morte e a fragilidade é que é sinal de vida.

Tudo isto está sinalizado na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo que, muitas vezes, trazemos como ornamento, mas a que não dispensamos a devida atenção. A Cruz não é para ornamentar, mas para (nos) transformar. É na Cruz que encontramos a última — e definitiva — lição do Mestre Jesus.

 

C. É na morte que Cristo destrói a morte

 

5. Por conseguinte, não basta a Cruz trazer; é imperioso que com a Cruz nunca deixemos de aprender. É bom trazer a Cruz ao peito, mas é cada vez mais urgente alojá-la na alma e transportá-la na vida. Ao contrário do que muitos insinuam, a Cruz não é sinal de morte; a Cruz é sinal da vida que passa pela morte e vence a própria morte.

Foi na Cruz que, assumindo a morte, Jesus Cristo «destruiu a morte» (2Tim 1, 10). É que só se vence o que se assume. E o que nos falta, quase sempre, é disponibilidade para assumir. Muitas vezes, queremos atingir a meta sem passar pelo caminho. A maior lição da Cruz é que só alcança o triunfo quem enfrenta o risco do fracasso.

 

  1. Na cultura do conforto em que nos encontramos, temos uma dificuldade muito grande em olhar de frente para o supremo desconforto da Cruz. Nela está o símbolo do máximo despojamento. A Cruz é o símbolo do amor desmedido, que é o amor que nada guarda e tudo entrega.

O senso comum comina o que está representado na Cruz como estando atravessado por «loucura». É assim no nosso tempo e já era assim nos primeiros tempos. São Paulo tinha consciência de que «a linguagem da Cruz» era tida por «loucura» (cf. 1 Cor 1, 18). Mas é nessa («louca») linguagem da Cruz que ele apresenta o Evangelho.

 

D. A sábia loucura do amor vencerá a louca sabedoria do poder

 

7. Talvez nos falte um pouco desta sábia loucura para enfrentar a louca sabedoria dos donos do mundo. A louca sabedoria dos donos do mundo tem-nos conduzido à violência, à miséria e à destruição. Não será altura de dar lugar à sábia loucura do amor revelado na Cruz? A sábia loucura desse amor acabará por vencer a louca sabedoria do poder. É certo que o mundo dificilmente suportará a Cruz. Se no tempo de São Paulo, ela era vista como «loucura» («moría»), mais tarde, no tempo de São Justino, ela era encarada como sinal de «demência» («manía»).

Achava-se que um Deus poderoso não podia passar pela humilhação da Cruz. Não se tinha em conta que, com tanto afã em ressalvar o poder de Deus, acabava-se por pretender limitá-lo. Esquecia-se que o poder de Deus é tão grande que até pode assumir o que mais o contraria. Deus não abraça a Cruz por carência de ser, mas por superabundância de ser. Deus pode tanto que até pode, por amor, enviar o Seu Filho para sofrer e morrer na Cruz.

 

  1. O mais intrigante é que, numa época em que nos habituámos a tantos escândalos, parece que só nos escandalizamos com o escândalo da Cruz. É verdade que não é fácil aceitar que um instrumento de condenação possa aparecer como um sinal de salvação. Haja em vista que, na antiguidade, era frequente haver condenações à morte na Cruz entre os indianos, os assírios, os celtas, os germanos, os bretões, os numídios, os cartagineses, os gregos e os romanos.

Curiosamente, os romanos não colocavam na Cruz os seus cidadãos; só faziam isso aos estrangeiros. Por tal motivo, São Paulo, que também era cidadão romano, foi decapitado e não crucificado. A Cruz era, pois, o pior suplício que se podia fazer a alguém. Era considerada mais aviltante que o apedrejamento, a decapitação ou a condenação a ser devorado por animais.

 

E. Não deixemos a Cruz de lado e levemo-la a quem está abandonado

 

9. Além de ser uma forma de condenar à morte, a Cruz era olhada como uma condenação a um estado de desassossego depois da morte. Com efeito, eram muitos os que acreditavam que os condenados à morte na Cruz nem após a morte encontravam repouso. Levavam uma vida errante sob a forma de fantasmas. Era a humilhação mais cruel que se poderia fazer a alguém.

Não espanta, por isso, que Clóvis, rei dos francos, tenha levado muito tempo a converter-se. Quando a sua esposa, Clotilde, lhe contava a história de Cristo, ele invariavelmente retorquia que achava impossível que alguém de condição divina sofresse o que Jesus sofreu. No fundo, acontecia-lhe o que acontece a tantos de nós: olhava para Deus a partir de si e não a partir do próprio Deus revelado em Cristo.

 

  1. Olhemos, pois, para a Cruz. É da Cruz que nos vem a luz. É a Cruz que faz brilhar a mais surpreendente luz. Porque é uma luz que rebenta com todas as trevas. No Sermão da Montanha, Jesus convida-nos a sermos luz para o mundo (cf. Mt 5, 14). Só que nós não temos luz própria. Só temos luz se deixarmos Deus acender a Sua luz em nós. Nós sentimos que, hoje em dia, há muita luz que não brilha, há muita luz que se funde e que acaba por cegar.

A luz que nos chega da Cruz é a luz da doação, é a luz do coração. Pelo coração de Jesus passa todo o sofrimento do mundo para chegar a Deus. Pelo mesmo coração de Jesus passa todo o amor compassivo de Deus para chegar ao sofrimento do mundo. Não esqueçamos, portanto, que prioritário é ser cruciferário. Não deixemos a Cruz de lado. Levemo-la a quem está só e abandonado. Afinal, a Cruz continua presente na vida de tanta gente. Mas como aconteceu com Jesus, também para nós a Cruz não é o fim. A Cruz abre-nos sempre as portas para lá do fim. Para a vida sem fim!

Do blogue Paz na Verdade

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publicado às 09:59

A PROPOSTA DE FELICIDADE DE JESUS (Quarto Domingo do Tempo Comum)

por Zulmiro Sarmento, em 29.01.17
 

A. Tornámo-nos obcecados com a felicidade

  1. Nunca falamos tanto de felicidade. E, paradoxalmente, nunca teremos ouvido tantas confissões de infelicidade. Mais que uma aspiração, a felicidade tornou-se quase uma obsessão. Tanto a queremos obter que até nos esquecemos de percorrer o caminho para a alcançar. Por incrível que pareça, somos infelizes quando começamos por querer ser felizes.

Dá a impressão de que aquilo que nos torna infelizes é, desde logo, o (obsessivo) desejo de ser feliz. Quando um desejo é forte, a frustração costuma ser grande. Não percebemos que a felicidade não vem, magicamente, quando a queremos. Ela só vem quando a procuramos, quando a descobrimos. É isso o que (nos) falta: procurar a felicidade, descobrir a felicidade.

 

  1. Por conseguinte, não vivamos obcecados com a felicidade. Nenhuma obsessão traz qualquer satisfação. Por muito provocatório que possa parecer, há uma recomendação que deveríamos seguir. Se quisermos ser felizes, não comecemos por querer ser felizes. Não é por muito querer a felicidade que somos felizes. Só seremos felizes quando procurarmos a felicidade onde ela se encontra.
  2. B. Os verdadeiros geradores de felicidade
  3. 3. Para Jesus, os geradores de felicidade são a pobreza, a compaixão, o empenhamento na justiça, a mansidão, a misericórdia, a paz e a lisura do coração. Ou seja, tudo ao contrário daquilo a que estamos habituados. Mas porque não experimentar?

Que cada um comece, então, por querer ser «pobre de espírito» (Mt 5, 3), por chorar com quem chora (cf. Mt 5, 4), por ter «fome e sede de justiça» (Mt 5, 6). Que cada um queira ser manso, misericordioso, construtor da paz e «limpo de coração» (Mt 5, 7-9).

 

4.O Mestre tornou bem claro que «há mais felicidade em dar do que em receber» (Act 20, 35). Em suma, é preciso sair de nós para ver a felicidade entrar em nós! O Evangelho deste Domingo a Magna Carta da Felicidade, segundo o enunciado das Bem-Aventuranças.

Refira-se que as Bem-Aventuranças são fórmulas relativamente frequentes na tradição bíblica e judaica. Aparecem, quer nos anúncios proféticos de alegria futura (cf. Is 30,18; 32,20), quer nas acções de graças pela alegria presente (cf. Sal 32,1-2), quer nas exortações a uma vida sábia, reflectida e prudente (cf. Prov 3,13; 8). Contudo, elas definem sempre uma alegria oferecida por Deus.

 

C. Uma felicidade surpreendente

 

5. As Bem-Aventuranças do Evangelho devem ser entendidas no contexto da pregação sobre o Reino. Jesus, que sempre esteve com os fracos e os pobres, proclama bem-aventurados aqueles que estão numa situação de debilidade e de pobreza. É que Deus instaura o Reino e a situação dos pobres vai mudar radicalmente. Além disso, são bem-aventurados porque, na sua fragilidade e pobreza, estão de espírito aberto e coração disponível para acolher a proposta de salvação e libertação que Deus lhes oferece em Jesus.

As quatro primeiras Bem-Aventuranças referidas por Mateus (cf. Mt 5, 3-6) estão relacionadas entre si. Dirigem-se aos pobres. As segunda, terceira e quarta Bem-Aventuranças são desenvolvimentos da primeira, que proclama bem-aventurados os pobres em espírito.

 

  1. Saúdam a felicidade daqueles que se entregam confiadamente nas mãos de Deus e procuram fazer sempre a Sua vontade; daqueles que deixam de colocar a sua confiança e a sua esperança nos bens, no poder, no êxito, nos homens, para esperar e confiar em Deus; daqueles que aceitam renunciar ao egoísmo, que aceitam despojar-se de si próprios e estar disponíveis para Deus e para os outros.

Os «pobres em espírito» são aqueles que aceitam renunciar, livremente, aos bens, ao próprio orgulho e auto-suficiência, para se colocarem, incondicionalmente, nas mãos de Deus, para servirem os irmãos e partilharem tudo com eles.

 

D. Ao contrário do que estamos habituados

 

Os mansos não são os fracos, os que suportam passivamente as injustiças, os que se conformam com as violências orquestradas pelos poderosos; mas são aqueles que recusam a violência, que são tolerantes e pacíficos, embora sejam, muitas vezes, vítimas dos abusos e prepotências dos injustos. A sua atitude pacífica e tolerante torná-los-á membros de pleno direito do Reino. Os que choram são aqueles que vivem na aflição, na dor, no sofrimento provocados pela injustiça, pela miséria, pelo egoísmo; a chegada do Reino vai fazer com que a sua triste situação se mude em consolação e alegria.

A quarta bem-aventurança proclama felizes os que têm fome e sede de justiça. Provavelmente, a justiça deve entender-se, aqui, em sentido bíblico, isto é, no sentido da fidelidade total aos compromissos assumidos para com Deus e para com os irmãos. Jesus dá-lhes a esperança de verem essa sede de fidelidade saciada, no Reino que vai chegar.

 

  1. O segundo grupo de Bem-Aventuranças (cf. Mt5, 7-11) está mais orientado para definir o comportamento cristão. Enquanto que, no primeiro grupo, se constatam situações, neste segundo grupo propõem-se atitudes que os discípulos devem assumir. Os misericordiosos são aqueles que têm um coração capaz de se compadecer, de amar sem limites, que se deixam tocar pelos sofrimentos e alegrias dos outros homens e mulheres, que são capazes de ir ao encontro dos irmãos e estender-lhes a mão, mesmo quando eles falharam.

Os puros de coração são aqueles que têm um coração honesto e leal, que não pactua com a duplicidade e o engano. Os que constroem a paz são aqueles que se recusam a aceitar que a violência e a lei do mais forte rejam as relações humanas; e são aqueles que procuram ser, às vezes com o risco da própria vida, instrumentos de reconciliação entre os homens.

 

E. Esperança e alento

 

9. Os que são perseguidos por causa da justiça são aqueles que lutam pela instauração do Reino e são desautorizados, humilhados, agredidos, marginalizados por parte daqueles que praticam a injustiça, que fomentam a opressão, que constroem a morte. Jesus garante-lhes que o mal não os poderá vencer. Na última bem-aventurança (cf. Mt 5, 11), o evangelista dirige-se, em jeito de exortação, aos que têm a experiência de ser perseguidos por causa de Jesus e convida-os a resistir ao sofrimento e à adversidade. Esta última exortação é, na prática, uma aplicação concreta da oitava bem-aventurança.

No seu conjunto, as Bem-Aventuranças deixam uma mensagem de esperança e de alento para os pobres e débeis. Anunciam que Deus os ama e que está do lado deles; confirmam que a libertação está a chegar e que a sua situação vai mudar; asseguram que eles vivem já na dinâmica desse Reino onde vão encontrar a felicidade e a vida plena.

 

  1. No seu conjunto, as leituras deste Domingo propõem-nos uma reflexão sobre o Reino. Mostram que o projecto de Deus funciona em sentido contrário à lógica do mundo. Nos critérios de Deus, são os pobres, os humildes, os que aceitaram despojar-se do egoísmo, do orgulho e dos próprios interesses que são verdadeiramente felizes. O Reino é para eles.

Na primeira leitura, o profeta Sofonias denuncia o orgulho e a auto-suficiência dos ricos e dos poderosos e convida o Povo de Deus a converter-se à pobreza. Os pobres são aqueles que se entregam nas mãos de Deus com humildade e confiança, que acolhem com amor as suas propostas e que são justos e solidários com os irmãos. Na segunda leitura, São Paulo denuncia a atitude daqueles que colocam a sua esperança e a sua segurança em pessoas ou em esquemas humanos e que assumem atitudes de orgulho e de auto-suficiência; e convida os crentes a encontrar em Cristo crucificado a verdadeira sabedoria que conduz à salvação e à vida plena.

Do blogue Na Paz A Verdade

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publicado às 13:23

O DIVINO «INVASOR» ESTÁ (sempre) A INUNDAR-NOS COM O SEU AMOR (Terceiro Domingo do Tempo Comum)

por Zulmiro Sarmento, em 22.01.17
 

A. Deus está sempre a chamar

  1. Qual terá sido a primeira coisa que nos aconteceu no mundo? Quais terão sido as primeiras palavras que nos foram ditas nesta vida? É claro que ninguém se lembra, mas creio que poucos terão dúvidas. A primeira coisa que nos aconteceu foi a nossa mãe chamar por nós. As primeiras palavras que nos dirigiram foram, com quase toda a certeza, as palavras do nosso nome, pronunciadas pela nossa mãe.

Assim é Deus connosco, assim faz Deus com cada um de nós. Deus chama por nós. Deus nunca Se cansa de chamar por nós. Como refere o Apocalipse, Ele está sempre à porta a chamar (cf. Ap 3, 20). Só que Deus nem sequer espera pelo nosso nascimento. No livro do profeta Jeremias, podemos encontrar este dado lapidar. Antes de cada um de nós nascer, Deus já está a chamar. Ele já nos conhecia antes de ser formados no ventre materno. Foi já aí que nos consagrou (cf. Jer 1, 5).

 

  1. Que resposta damos à Sua proposta? Que fazemos nós perante a Sua voz? Não será que, tantas vezes, Lhe fechamos o nosso coração? (cf. Sal 95, 8). Não é só para ver que precisamos do coração. Do coração precisamos também para ouvir. Parafraseando a conhecida máxima de Saint-Exupéry, diria que também só se ouve bem com o coração. Mas é preciso que o coração não esteja fechado; é preciso que o coração esteja aberto e sempre desperto.

Não são apenas as portas de casa que estão fechadas. Fechadas estão também muitas portas do nosso coração, muitas portas da nossa alma, muitas portas da nossa vida. Não fechemos, pois, o que Deus abriu. Deus está sempre a abrir todas as portas. Como dizia São João Paulo II, abramos nós também — escancaremos nós também — as portas ao Redentor.

 

B. Os principais chamamentos de Deus

 

3. A missão é uma invasão, uma saudável invasão. Deus está sempre a vir para a nossa vida invadir. Deus está sempre a chegar para o nosso mundo transformar. Deus chama como a nossa mãe, Deus chama como mãe. Sendo nosso Pai, Deus ama-nos com amor de mãe.

Daí que Deus esteja sempre a chamar para nos convocar. São sobretudo três os chamamentos que Deus faz. São especialmente três as convocações que Deus nos dirige.

 

  1. Deus chama-nos à vida. Deus chama-nos à fé. Deus chama-nos à missão. A iniciativa é sempre d’Ele. Neste sentido, por exemplo, a crise vocacional não é uma crise de chamamento, é uma crise de resposta. A crise da vocação só pode ser uma crise de atenção. Que tempo — e que oportunidade — damos a Deus? Que tempo — e que oportunidade — damos à escuta da voz de Deus?

Deus não pára de chamar. Será que nós nos desabituamos de responder? Como acabámos de ver, Deus nem sequer espera que nos desocupemos. Deus vem ter connosco mesmo quando estamos ocupados. Como saudável — e persistente — Invasor, Deus nunca deixa de nos acenar com o Seu amor.

 

C. Lancemos as redes e trabalhemos em rede

 

5. Encontramos Jesus a invadir a vida destes dois pares de irmãos. Primeiro foi ter com Pedro e seu irmão André, que estavam a lançar as redes (cf. Mt 4, 18). Depois, foi ter com Tiago e seu irmão João, que se encontravam a consertar as redes (cf. Mt 4, 21). No fundo, propôs-lhes que continuassem a mesma actividade. Propôs-lhes que continuassem a pescar. Só que, em vez de continuarem a pescar peixes, propôs-lhes que passassem a pescar homens (cf. Mt 4, 19).

Jesus quer que continuemos a lançar redes e que trabalhemos sempre em rede. É necessário lançar redes e é urgente trabalhar sempre em rede. O que, muitas vezes, nos falta é a prontidão e a disponibilidade destes quatro (primeiros) discípulos.

 

  1. Pedro e André deixaram logo as redes para seguir Jesus (cf. Mt 4, 20). Deixaram aquelas redes, mas continuaram a lançar redes: as redes do chamamento, as redes da fé, as redes da missão. Tiago e André foram ainda mais longe: deixaram o barco e o próprio pai (cf. Mt 4, 22). Tudo isto no mesmo instante em que ouviram o chamamento.

A presença de Jesus, em cada instante, é sempre instante. Ou seja, é uma presença que insta connosco, que surge em tons de urgência, que não admite adversativas, ressalvas ou alegações. Jesus é do género «tudo ou nada».

 

D. A missão só é total com uma entrega incondicional

 

7. Muitas vezes, a nossa resposta, quando acontece, parece cheia de adversativas, cheia de «mas», «porém», ´«contudo», «no entanto» (cf. Lc 9, 58-62). Afinal, ainda não estamos dispostos a ser invadidos por Deus. Ainda estamos muito ciosos da nossa independência, do nosso reduto, das nossas possessões.

Pensamos que aquilo que é nosso nos pertence, que vem de nós. Esquecemos que tudo é de Deus, que tudo vem de Deus, que tudo é dom de Deus. E esquecemos também que só com esta divina invasão é que ocorre a nossa libertação.

 

  1. Baixemos, então, as nossas defesas. Não entremos em disputa e cresçamos na escuta. Ouçamos a voz que nos chama, a voz de quem nos ama. É Deus quem nos chama à vida: vivamos segundo Deus. É Deus quem nos chama à fé: acreditemos sempre em Deus. É Deus quem nos chama à missão: entreguemo-nos a Deus de alma e coração.

Do que se trata na questão vocacional é de uma escuta atenta e de uma entrega total. A missão só é total com uma entrega incondicional. Mas, para termos a disponibilidade de Marta, é indispensável crescer na capacidade de escuta de Maria (cf. Lc 10, 38-42). Deus não quer mobilizar apenas o nosso agir. Ele pretende invadir todo o nosso ser.

 

E. Comecemos a anunciar Jesus pelas periferias sem luz

 

9. A oração é, por conseguinte, a eterna parteira da missão. Só quem escuta Jesus tem condições para seguir Jesus. Ele está sempre a nossa beira para invadir a nossa vida inteira. O Reino de Deus já não está próximo (cf. Mt 4, 17). O Reino de Deus já está no meio de nós. O apelo à conversão há-de ser, pois, cada vez mais acolhido no nosso coração.

A missão começa sempre pela conversão. Jesus não se esquece de tal apelo fazer. Estaremos nós com vontade de o acolher? Eis o que dos Seus lábios nos vem: «Arrependei-vos» (Mt 4, 17), hoje e amanhã também. Há quem faça gala de nunca se arrepender. Nesse caso, como pode a mudança acontecer?

 

  1. Em Cristo, Deus desce até à nossa obscuridade para nos oferecer luz da maior intensidade. Sem Cristo, seremos sempre um povo em trevas. Só na Sua luz, encontramos luz (cf. Sal 36, 9). Ele quer oferecer-nos a Sua luz, até porque Ele mesmo é a luz (cf. Jo 8, 12). Daí que Ele tenha começado a missão pelas periferias sem luz. De facto, é espantoso notar que Jesus não começa a missão pelo centro, Jerusalém, mas por Cafarnaum, no território de Zabulão e Neftali (cf. Mt 4, 13).

A terra de Zabulão ainda hoje faz divisão com o sul do Líbano e com a Síria. A terra de Neftali fica do outro lado do Jordão, já dentro do Líbano e da Síria actuais. Eram, portanto, territórios paganizados pela idolatria reinante. Já Isaías entreviu que uma grande luz aqui iria brilhar (cf. Is 9, 1-2). A grande luz, que é Jesus, nunca deixa de brilhar. Por ela deixemo-nos iluminar. Abramos, pois, o nosso coração à divina invasão. Quem por Deus se deixar invadir, paz e felicidade há-de sempre sentir!

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publicado às 13:19

NOTAS DO PORTO NOVO - 0

por Zulmiro Sarmento, em 20.01.17

 

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 Pe. Zulmiro Sarmento

 

Muito estranho é este mundo. Muito estranhos somos nós neste mundo.
Fazemos tudo para estar conectados com quem está longe. E parece que não fazemos nada para ligar a quem está perto.
E é assim que nos vamos distanciando de quem está próximo. Não sei se nos aproximaremos alguma vez de quem está distante.
As ruas das nossas terras estão cheias de gente que não olha para a frente nem para os lados. Apenas olha para baixo: para o telemóvel.
Esta gente procura alguém no outro lado. Mas nem se apercebe de quem vai passando (mesmo) ao seu lado!

*

Achava Umberto Eco, de saudosa memória, que «nem todas as verdades são para todos os ouvidos».
Mas toda a verdade tem de ser para toda a vida. Não metade da verdade para metade da vida, mas toda a verdade para sempre.
Nem sempre se pode dizer tudo. Mas nunca se deve dizer o contrário de nada.
A verdade pode ferir durante algum tempo, mas a mentira acaba por magoar para sempre!

 

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publicado às 21:10

NÃO ADIEMOS PARA AMANHÃ O EVANGELHO QUE URGE ANUNCIAR HOJE! (Segundo Domingo do Tempo Comum)

por Zulmiro Sarmento, em 15.01.17
 

A. No Tempo Comum, o Mistério continua a ser Incomum

  1. O Tempo Comum não é um tempo menor. Cronologicamente, até é o tempo maior. É, de facto, o período de tempo mais longo, estendendo-se por 33 ou 34 semanas. O Tempo Comum está longe de ser um tempo pouco importante. Como não há-de ser um tempo importante se, no Tempo Comum, celebramos um Mistério sempre Incomum?

A nossa participação é que não pode ser menos numerosa ou menos activa. O Tempo Comum é também um tempo comunitário, o tempo para a comunidade.

 

  1. Além das festas anuais, como o Natal, a Páscoa e os Santos, nós, cristãos, temos uma Festa Semanal: a Páscoa. Com efeito, nunca é demais recordar que, antes da celebração anual, a Páscoa começou a ser celebrada todas as semanas, ao Domingo.

Espanta, porém, que, sendo este um dado tão antigo e tão constante, seja também algo tão esquecido por muitos cristãos. Como é possível que muitos de nós não celebrem o acontecimento central da nossa fé e da nossa vida?

 

B. Em cada semana, uma festa

 

3. Não basta a celebração anual nem chega uma celebração ocasional. Já quando os cristãos eram perseguidos, faziam todos os possíveis — às vezes, no limiar do próprio impossível — para não prescindirem do Domingo. «Não podemos viver sem o Domingo», disseram muitos mártires antes de serem mortos.

É bom não esquecer que também houve muitos mártires do Domingo. Ainda hoje há quem, sobretudo na África e nas Américas, faça dezenas — e até centenas — de quilómetros para celebrar o Domingo. E nós, que ainda temos a possibilidade de celebrar o Domingo à porta de casa, que esforço fazemos?

 

  1. O Domingo é celebrado à mesa da Palavra e à mesa do Pão. Ou seja, o Domingo é celebrado através da Eucaristia. É esta Eucaristia sacramental que nos transporta para a Eucaristia existencial, que somos chamados a levar para a nossa vida. Aliás, a própria terminologia nos ajuda a perceber que Domingo é Dia do Senhor, é dia para o Senhor. E esta vivência do Domingo como Dia do Senhor está, obviamente, centrada na Eucaristia.

Eis, por isso, uma missão que desponta à nossa frente: ajudar os nossos irmãos a virem a esta grande festa semanal. O terceiro Mandamento da Lei de Deus e o primeiro Mandamento da Santa Igreja impelem-nos para isso. O terceiro Mandamento da Lei de Deus lembra-nos a obrigação de santificar o Domingo (que é o novo Sábado) e Festas de Guarda. Por sua vez, o primeiro Mandamento da Santa Igreja concretiza em que consiste essa santificação: participar na Missa inteira no Domingo e Festas de Guarda.

 

C. O Precursor abre caminho para o Salvador

 

5. O Tempo Comum é, portanto, um tempo belo e sempre luminoso, centrado na luz da Ressurreição e na força vitamínica do Pão da Vida. Essa beleza e essa luminosidade do Tempo Comum estão sinalizadas pela cor do paramento litúrgico. O verde, que é a cor dominante na Primavera, simboliza a o ressurgimento da natureza após o desterro provocado pela invernia. Tem, por isso, afinidades com o que celebramos na Páscoa: o ressurgimento da vida após a morte. Trata-se do ressurgimento não para a vida anterior, para uma vida totalmente nova.

O verde é, por conseguinte, a cor que está associada à novidade e, nessa medida, à esperança. Ao celebrarmos a Páscoa em cada Domingo, vamos fortalecendo a esperança na última vinda do Senhor Jesus. De resto, é o que ouvimos no «embolismo», isto é, na oração que dá continuidade ao Pai-Nosso. Depois de pedir a Deus a libertação do mal e a paz para os nossos dias, o presidente da celebração, em nome da comunidade, testemunha a nossa esperança «na vinda gloriosa de Jesus Cristo, nosso Salvador».

 

  1. Neste segundo Domingo do Tempo Comum — o primeiro após o ciclo do Advento e do Natal —, encontramos João Baptista a apresentar Jesus. De certa forma, este texto funciona como uma transição entre a Festa do Baptismo do Senhor (que, este ano, celebrámos no dia 09 de Janeiro) e o Tempo Comum. Esta transição funciona como uma espécie de «passagem de testemunho» de João para Jesus. No fundo, estamos perante a decisiva travessia do Antigo para o Novo Testamento.

O Precursor abre, assim, caminho para o Salvador. O baptismo de João era um baptismo de penitência. O baptismo de Jesus é o baptismo no Espírito Santo. O que fez João é o que nós somos convidados a fazer: a dar testemunho de Jesus.

 

D. O Superior que aparece como Servidor

 

7. Descrito como «o Cordeiro de Deus» (Jo 1, 29), Jesus aparece no mundo como Servo. Aliás, a Sua Mãe também Se apresenta como Serva (cf. Lc 1, 38). Ou seja, o Servo nasce da Serva. Não obstante a Sua condição divina, Jesus é o Superior que aparece como Servidor. Nunca é demais insistir que Jesus veio ao mundo para servir, não para Se servir. Ele está no meio de nós como quem serve (cf. Lc 22, 27).

Uma vez que somos Seus discípulos, então como Ele fez, façamos nós também (cf. Jo 13, 15). Procuremos estar na vida não como superiores, mas como servidores: como servidores de Deus e como servidores dos outros homens. E tanto melhor serviremos os outros homens quanto mais os aproximarmos de Deus. Nos tempos que correm, Deus é a grande carência, Deus é a maior urgência.

 

  1. Ser servo, como Jesus é delineado na Primeira Leitura, é abdicar de ter vontade própria. Como todos nós sabemos, o sacrifício que mais custa fazer é, sem dúvida, o sacrifício da vontade. Fazer a nossa vontade é um direito natural. Impor a nossa vontade é uma tentação muito grande. Daí que sacrificar a nossa vontade seja o supremo acto de despojamento. Mas é também o passo decisivo para a felicidade.

É importante, por isso, que o nosso coração não esqueça o que os nossos lábios, há pouco, entoaram: «Eu venho, Senhor, para fazer a Vossa vontade» (cf. Sal 40, 8). Aliás, é o que estamos sempre a repetir quando recitamos a oração que Jesus nos ensinou: «Seja feita a Vossa vontade» (Mt 6, 10). O próprio Jesus, uma vez mais, dá-nos o exemplo. No momento decisivo, pede a Deus que O afaste da Cruz. No entanto, ressalva de imediato: «Faça-se a Tua vontade e não a Minha» (Mt 22, 42).

 

E. Palavra para ouvir e Pão para repartir

 

9. A divina vontade é a nossa felicidade. A divina vontade há-de ser, pois, a nossa prioridade. Aprendamos, por isso, a procurar e a cumprir a vontade de Deus. Não confundamos — o que é uma tentação frequente — a vontade de Deus com os nossos desejos.

Nunca deixemos vazio o nosso lugar na Festa semanal da Páscoa. É Cristo quem nos convida. Vamos deixar que a Sua proposta fique esquecida?

 

  1. Estejamos sempre em estado de missão. A bem dizer, a Missa nunca há-de terminar. Quando a Missa estiver a terminar, a Missão tem de estar a começar. O campo de missão é cada momento e é cada pessoa que vamos encontrando em cada instante. Precisamos de sair de uma certa letargia em que a nossa fé parece estar adormecida.

Vamos prometer que com o Evangelho nos queremos comprometer. O Evangelho é Palavra para ouvir e Pão para repartir. É nele que está a mudança e a razão para a nossa esperança. Este mundo ainda pode mudar se o Evangelho quisermos testemunhar. Não adiemos para amanhã o Evangelho que urge anunciar hoje!

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publicado às 16:53

NO NATAL E NA EPIFANIA, A MESMA TEOFANIA (Solenidade da Epifania do Senhor)

por Zulmiro Sarmento, em 11.01.17
A. Ser Deus é ser fiel
  1. Deus cumpre. Em Deus, tudo se cumpre. Podemos, pois, confiar sempre em Deus. De facto, ser Deus é ser fiel. E ser humano, à imagem de Deus, também devia equivaler a ser fiel. Mas mesmo que o homem não seja fiel, Deus permanece fiel «porque não pode negar-Se a Si mesmo»(2Tim 2, 13). O mistério da Encarnação é, por excelência, um mistério de fidelidade.

Ao longo deste tempo de Natal, ouvimos anunciar que «uma virgem conceberá»(Is 7, 14) e, de facto, a Virgem concebeu (cf. Lc 1, 31-38). Também ouvimos vaticinar que seria de Belém, terra de Judá, que iria sair o Pastor de Israel (cf, Miq 5, 1). E, na verdade, foi em Belém que Jesus nasceu (cf. Mt 5, 1). Acabamos de ouvir falar dos que haviam de vir de longe para cantar as glórias do Senhor (cf. Is 60, 1-6). E eis que o Evangelho nos reporta a vinda de pessoas que, efectivamente, vêm de muito longe procurar o Senhor (cf. Mt 2, 1).

 

  1. Afinal, o Deus que nos procura também Se deixa procurar, o Deus que nos visita também Se deixa visitar, o Deus que vem ao nosso encontro também Se deixa encontrar. Ele vem ao encontro de todos e todos são convidados a ir ao encontro d’Ele: os de perto, como os pastores (cf. Lc 2, 16) e os de longe, como os magos (cf. Mt 2, 1).

Como bem notou S. Paulo, todos, em Cristo Jesus, «pertencem ao mesmo Corpo e beneficiam da mesma Promessa»(Ef 3, 6). Caem pois os muros, só ficam as pontes. Todos estamos ligados a todos através do Pontífice, isto é, d’Aquele que faz as pontes: o próprio Jesus.

 

B. Número, nome e condição dos mago

 

3. O Evangelho, com extrema parcimónia, apresenta-nos «uns magos»(Mt 2, 1). Não refere nem o seu número nem o seu nome. Nem sequer diz que seriam reis, assim chamados talvez pela alusão que o Salmo 72 faz aos reis que viriam pagar tributo e oferecer presentes (cf. Sal 72, 10). A designação de magos não se reporta seguramente a artes mágicas, mas ao estudo dos astros.

Cedo, porém, a tradição entrou em campo. Quanto ao número, foi fácil chegar a três por causa dos presentes que levaram: ouro, incenso e mirra (cf. Mt 2, 11). Ouro porque aquele Menino era Rei, incenso porque aquele Menino era Deus e mirra porque aquele Menino iria ser Mártir. Remontará a esta oferta o costume de dar presentes nesta época natalícia. No que respeita à identidade dos magos, há um evangelho apócrifo arménio, datado do século VI, que refere o nome, a condição e a proveniência. Assim, Baltasar seria rei da Arábia, Gaspar seria rei da Índia e Melchior seria rei da Pérsia. Tal escrito também diz que seriam irmãos e que a viagem que fizeram teria demorado nove meses, chegando a Belém na altura do nascimento de Jesus.

 

  1. É claro que estes dados são fantasiosos, mas o certo é que se tornaram muito populares. Até um homem culto como S. Beda Venerável dá voz, no século VIII, a pormenores que já estariam muito difundidos. Segundo um dos seus escritos, «Melchior era velho de 70 anos, de cabelos e barbas brancas. Gaspar era jovem, de 20 anos, robusto. E Baltasar era mouro, de barba cerrada e com 40 anos».

De acordo com uma tradição medieval, os magos ter-se-iam reencontrado quase 50 anos depois de terem estado com Jesus, em Sewa, na Turquia, onde viriam a falecer. Mais tarde, os seus corpos teriam sido levados para Milão, onde teriam permanecido até ao século XII, quando o imperador alemão Frederico terá trasladado os seus restos mortais para Colónia.

 

C. Um mistério de mostração

 

5. Acerca da estrela que viram, também tem havido não poucos palpites. Muitos têm identificado aquela estrela com o cometa Halley, que foi visto por volta dos anos 12-11 a.C. Também poderia ser uma luz resultante da tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a.C. Há ainda quem fale de uma «nova» ou «supernova», visível por volta dos anos 5-4 a.C.

Esta estrela pode ser vista como um símbolo messiânico insinuado já no livro dos Números, quando o Balaão diz que «um astro procedente de Jacob se torna chefe»(Núm 24,17). Também Isaías garante que «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz raiou para os que habitavam uma terra sombria»(Is 9, 1).

 

  1. A verdadeira luz é o próprio Jesus. Ele mesmo Se apresentará como a luz do mundo (cf. Jo 8, 12). O Concílio Vaticano II proclama que «a luz dos povos é Cristo». Jesus é uma luz que nunca deixa de brilhar. Mas essa luz só é acessível a olhares lisos e limpos. Só quem for puro e transparente conseguirá ver esta luz. Herodes não viu esta luz porque não queria deixar-se iluminar: estava corroído pela inveja e dominado pelo poder (cf. Mat 2, 7-17).

A Epifania é, toda ela, uma festa de luz, de uma luz que ilumina toda a terra. Esta festa autentica a universalidade da missão de Jesus. Jesus manifesta-Se a todos, dá-Se a conhecer a todos. E a manifestação é essencialmente uma automanifestação. Em Jesus, Deus manifesta-Se a Si mesmo, dá-Se a conhecer a Si mesmo. A Epifania não é, portanto, um mistério de demonstração, mas de mostração. E Deus mostra-Se de uma forma disponível, despojada e encantadoramente humilde.

 

D. Uma festa que chegou a englobar o Natal

 

7. Aliás, é o que depreende do magnífico conto de Sophia de Mello Breyner. Baltasar, em nome dos outros magos, foi consultar os homens da ciência e da política para que lhes dissessem onde estava o «Rei dos Judeus» (cf. Mt 2, 2). Decepcionado com a resposta, virou-se para os homens da religião. É que encontrara um altar dedicado ao «deus dos poderosos», outro ao «deus da terra fértil» e outro ao «deus da sabedoria». Insatisfeito de novo, perguntou aos sacerdotes pelo «deus dos humilhados e dos oprimidos». Resposta dos sacerdotes: «Desse deus nada sabemos». Então Baltasar subiu ao terraço e «viu a carne do sofrimento, o rosto da humilhação». Deus estava ali, o Deus que os sacerdotes desconheciam.

Deus está, desde os começos, nos humilhados e oprimidos (cf. Mt 25, 40). E foram muitos os que, também desde os começos, O encontraram na humildade e entre as vítimas da opressão.

 

  1. Não espantará, assim, que esta seja uma festa muito antiga, mais antiga que o próprio Natal. Aliás, houve uma altura em que a Epifania englobava também a celebração do nascimento de Jesus. De facto, não há notícia de qualquer festa específica do Natal nos três primeiros séculos. A primeira vez que o Natal é mencionado no dia 25 de Dezembro é no ano 354.

Como sabemos, não é conhecido o dia exacto do nascimento de Jesus. S. Clemente de Alexandria indica que uns celebravam o Natal a 28 de Março, outros a 19 ou 20 de Abril, outros a 20 de Maio ou, então, na festa da Epifania. A opção por 25 de Dezembro deveu-se ao facto de, nessa altura, se celebrar em Roma a festa do «Sol invicto». Uma vez que o verdadeiro sol é Cristo, os cristãos optaram por cristianizar esta festa pagã, celebrando nela o nascimento do Salvador.

 

E. Um misto de aceitação, rejeição e indiferença

 

9. No Oriente, criou-se a 6 de Janeiro a festa da Epifania, cujo conteúdo era inicialmente variável conforme as regiões: nascimento de Jesus, bodas de Caná, Baptismo de Jesus. Muito depressa, ainda no século IV, o Ocidente acolheu a festa da Epifania, mas deu-lhe, sobretudo em Roma e no Norte de África, um conteúdo inteiramente novo: a adoração dos magos.

Foi esta evolução que ditou a actual estrutura do Tempo do Natal: Natal a 25 de Dezembro, Epifania a 6 de Janeiro e Baptismo do Senhor no Domingo depois da Epifania. No fundo, entre o Natal e a Epifania há um intercâmbio de significado. Celebra-se o mesmo em ambos os casos: a manifestação de Deus aos homens. No Natal e na Epifania, celebramos portanto a mesma Teofania.

 

  1. Mistério de luz e humildade, a Epifania envolve igualmente um misto de aceitação, indiferença e rejeição. Jesus começa, desde o início, a ser adorado e a ser rejeitado. Diante de Jesus, diferentes personalidades assumem diferentes atitudes, que vão desde a adoração (os magos), até à rejeição total (Herodes), passando pela indiferença. Esta última é a atitude dos sacerdotes e dos escribas, que não se preocupam em ir ao encontro desse Messias que eles bem conheciam dos textos sagrados.

Não basta, com efeito, conhecer Jesus, é fundamental ir ao encontro d’Ele para O anunciar. Uma vez que Ele Se dá totalmente, é de esperar que também nos demos inteiramente. Ele vem para mudar os nossos passos. Por isso é que os magos regressaram à sua terra por outro caminho (cf. Mt 2, 12). Quando nos encontramos com Jesus, que é o caminho (cf. Jo 14, 6), os nossos caminhos são outros. Transformemos, então, a nossa vida. Convertamo-nos Àquele que Se converteu a nós, Àquele que Se fez um de nós. Se Deus veio ao nosso encontro, não deixemos, também nós, de ir ao encontro de Deus. E, em Deus, procuremos ir ao encontro de todos!

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publicado às 00:56

SÓ COM VIDA NOVA HAVERÁ ANO NOVO (Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus e Dia Mundial da Paz)

por Zulmiro Sarmento, em 04.01.17
 A. Não comecemos a desistir e nunca desistamos de começar
  1. Nestas alturas, é praticamente impossível ser original. Como notava Terêncio, «não se diz nada que já não tenha sido dito». As palavras parecem sempre velhas, mesmo quando falam do que é novo. Que esperar, então, do ano novo?

Após os desejos habituais, eis que nos preparamos para as amargas desilusões de sempre. À primeira vista, já nenhum ano parece ser novo. A própria palavra «novo» é bem antiga. Há quantos séculos não anda a humanidade a desenhar promessas de novidade?

 

  1. Por vezes, a vontade de desistir é grande. Mas é precisamente por isso que a determinação de persistir tem de ser ainda maior. Afinal e como dizia Sto. Agostinho, «é quando parece que tudo acaba que tudo verdadeiramente começa». Na vida, são muitas as situações em que tudo parece que vai acabar. Na vida, são muitos os momentos em que temos de ganhar forças para recomeçar.

O início de um ano sinaliza que a vida é um recomeço constante. Há 12 meses, também estávamos a começar um ano. Há 24 e há 36 meses, estávamos igualmente a começar outros anos. O que jamais podemos é desistir: não comecemos a desistir e nunca desistamos de começar.

 

B. Um dia para Jesus, um dia com Maria

 

  1. Desde logo, não desistamos de viver sempre em Natal. O Natal tem passado, mas não é passado. Hoje mesmo é a Oitava do Natal. Aliás e como acabamos de escutar, foi oito dias depois do Seu nascimento que o Menino recebeu o nome de Jesus (cf. Lc 2, 21). Daí que, durante muitos anos, este fosse também o dia da festa do Santíssimo Nome de Jesus.Entretanto, o Tempo Litúrgico do Natal não acaba nesta Oitava. Ele só termina com a festa do Baptismo do Senhor, que este ano ocorrerá a 09 de Janeiro. Mas, no fundo, é sempre tempo de Natal. O Natal está no tempo para que possa estar na vida, para que possa estar na nossa vida no tempo.

 

  1. É, então, a Jesus que entregamos este nosso novo percurso no tempo, que queremos percorrer também na companhia de Maria, que tudo — e a todos — guarda em Seu coração (cf. Lc 2, 19). Com D. António Couto, saudámo-La, hoje, como «Senhora e Mãe de Janeiro, do Dia Primeiro e do Ano inteiro». Diante d’Ela nos sentimos «tão cheios de coisas e tão vazios de nós mesmos e de humanidade e divindade» Apesar de nos faltar muita coisa, ainda temos bastante. Falta-nos, porém, o essencial: «a simplicidade e a alegria» de Maria. Mas Maria está connosco, está connosco como Mãe.

Hoje ocorre a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Sendo Mãe de Cristo e sendo Cristo o Filho de Deus, os cristãos cedo perceberam que Maria era Mãe de Deus. Não era só Mãe do homem Jesus, mas Mãe do Filho de Deus que encarnou em Jesus. O Concílio de Éfeso oficializou esta doutrina em 431. S. Cirilo de Alexandria já tinha tornado tudo muito claro: «Se Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus e se a Virgem Santa O deu à luz, então Ela tornou-Se a Mãe de Deus».

 

C. A paz tem um nome: Jesus

 

5. Foi por Maria que Jesus veio até nós. Será sempre com Maria que nós iremos até Jesus. Aquela que nos dá Jesus é sempre a melhor condutora para irmos ao encontro de Jesus. Façamos, portanto, como os pastores. Como os pastores, corramos (cf. Lc 2, 16). Procuremos ir depressa, sem demora, ao encontro de Jesus. O encontro com Jesus terá de ser sempre a prioridade da nossa vida e o centro da missão na vida.

Em Jesus, oferecido por Maria, encontramos o que mais procuramos para nós e o que mais desejamos para o mundo: a paz. Jesus não é apenas o portador da paz. Ele próprio é a paz hipostasiada. Aliás, é assim que o Messias é descrito por Miqueias: «Ele será a paz»(Miq 5, 5). Isaías apresenta o Menino «que nos nasceu» como o «príncipe da paz»(Is 9, 6). Por sua vez, os salmos apontam os tempos messiânicos como sendo marcados por uma grande paz (cf. Sal 72, 7).

 

  1. Não espanta, por isso, que, no século V, S. Leão Magno tenha dito que «o nascimento de Cristo é o nascimento da paz». De facto e como reconhece S. Paulo, Cristo «é a nossa paz»(Ef 2, 14). É aquele que derruba todos os muros de separação e que de todos os povos faz um só povo (cf. Ef 2, 14). Trata-se de uma paz única, sem paralelo. O próprio Jesus viria a dizer que a Sua paz era diferente: «Deixo-vos a paz, dou-vos a Minha paz; não vo-la dou como o mundo a dá»(Jo 14, 27).

É neste sentido que o Concílio Vaticano II recorda que a paz é muito mais do que a mera ausência de guerra. De resto, a ausência de guerra é, muitas vezes, ocupada com a preparação para a guerra. A paz é mais do que «pax», que, segundo os antigos romanos, resultava da negociação entre as partes desavindas. As partes continuavam desavindas, apenas não entravam em conflito. Semelhante é o conceito veiculado pelo grego «eirene». A paz, para os gregos da antiguidade, é uma tentativa de harmonia entre forças contrárias. As forças permanecem contrárias, unicamente não avançam para o combate.

 

D. Para estar no mundo, a paz tem de estar em cada pessoa

 

7. O hebraico «shalom» contém muito mais. A paz, aqui, é anterior a qualquer esforço humano. É um dom de Deus que faz o homem sentir-se completo, integral. É por isso que a paz só estará no mundo se estiver em cada pessoa que há no mundo. Antes da negociação, é fundamental pugnar pela conversão à paz. Jesus, no Sermão da Montanha, considera felizes os construtores da paz. Só eles serão «chamados filhos de Deus»(Mt 5, 9).

Importa perceber que o primeiro sinal de Deus é a paz. Quando Deus vem à terra em forma de criança, os enviados celestes entoam um cântico que diz tudo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra» (Lc 2, 14). A paz desponta, assim, como o grande indicador de que Deus já está entre nós.

 

  1. Desde 1968, o dia de ano novo tornou-se também o Dia Mundial da Paz. Pretendia Paulo VI colher inspiração na invocação que, neste dia, se faz de Jesus e de Maria: «Estas santas e suaves comemorações devem projectar a sua luz de bondade, de sabedoria e de esperança sobre o modo de pedirmos, de meditarmos e de promovermos o grande e desejado dom da paz, de que o mundo tem tanta necessidade». Com aquele grande Papa, pedimos para que «seja a paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar o processamento da história no futuro».

Para 2017, assinalando o 50º Dia Mundial da Paz, o Papa Francisco propõe um tema de suma pertinência: «A não-violência como um estilo de política para a paz». É que, excelsando a paz, continuamos a lidar com focos de violência a cada instante. O Santo Padre mostra-se mesmo preocupado ante a possibilidade de estarmos a viver «uma terceira guerra mundial aos bocados». Em relação a uma tal terceira guerra mundial, ninguém a assume, mas todos a vamos sentindo. Sem paz, não há qualquer progresso. Só a paz abre as portas para «o verdadeiro progresso».

 

E. Antes de mais, importa atingir o zero

 

9. Afinal, ainda há aspectos onde nem sequer atingimos o «grau zero» de humanidade. Ainda há aspectos onde nos encontramos abaixo de zero. E abaixo de zero, tudo é negativo, tudo é negação. Como pode haver paz no mundo se no mundo não há justiça nem respeito pela dignidade humana? Temos, pois, um longo caminho a percorrer. Temos muito que fazer ou, como diria Sebastião da Gama, «temos muito que amar».

Diante dos que vaticinam o iminente fim da história, é importante começar com urgência uma história de re-humanização do mundo. Sim, porque a humanidade ainda consegue ser muito não-humana, muito desumana. Para re-humanizar o mundo, diria que duas são as coisas que têm de acabar já: a guerra e a fome. Consequentemente, duas têm de ser as coisas que importa assegurar desde já: paz para todos e pão para cada um. Para re-humanizar cada pessoa que há no mundo, duas são também as coisas a que urge pôr fim: egoísmo e violência. E duas serão igualmente as coisas que é imperioso introduzir: solidariedade e educação.

 

  1. Neste início de ano, acolhamos o olhar com que Deus nos presenteia e a paz que Ele benevolamente nos concede (cf. Núm 6, 26). Não esqueçamos que o lugar onde a paz mais se decide é o nosso interior. Se o nosso interior não for indiferente, o nosso exterior começará a ser diferente. E a verdadeira novidade descerá à terra.

O novo ano pode nem ser melhor, mas nós podemos ser melhores no ano novo. Não é o ano novo que faz a vida nova. Só uma vida nova fará o ano novo. Só uma vida nova trará o tempo novo, o mundo novo!

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publicado às 10:24

NASCEU JESUS, NASÇAMOS NÓS PARA JESUS (Solenidade do Natal do Senhor)

por Zulmiro Sarmento, em 25.12.16
 A. Quando a Palavra veio ao mundo, o Silêncio também desceu à terra
  1. No princípio, era a Palavra. No princípio, era o Silêncio. Antes de o tempo começar a ser tempo, a Palavra em silêncio e o Silêncio estava na Palavra. Na «plenitude dos tempos»(Gál 4, 4), quando a Palavra veio ao mundo, o Silêncio também desceu à terra. Motivo? Só em silêncio é possível contemplar a Palavra. Só em silêncio é possível acolher a Palavra da vida, a palavra de tantas vidas. Só em silêncio é possível mergulhar na vida da Palavra, na vida de tantas palavras.

Foi o eterno silêncio de Deus que fecundou o eloquente silêncio de Maria. É este silêncio que, hoje, respiramos. É neste silêncio que, em cada dia, devíamos morar. Tudo mudou quando o Silêncio falou. As trevas sobressaltaram-se. A noite acordou. Toda a natureza — e não apenas o galo — cantou. A manhã despontou. E o Salvador chegou.

 

2. Eis, como dizia Sto. Agostinho, «o dia feliz, em que o grande e eterno Dia, procedente do grande e eterno Dia, veio inserir-se neste nosso dia temporal e tão breve». Neste feliz dia, nasceu Jesus e nascemos nós com Jesus. O Natal é a festa do nascimento de Jesus e do nosso próprio nascimento. Nós nascemos quando Ele nasceu. O nascimento de Jesus é o nascimento de todo o corpo de Jesus, do qual nós fazemos parte (cf. 1Cor 12). Assim sendo e como notou S. Leão Magno, «o aniversário da cabeça é o aniversário do corpo». O Natal também é nosso. Enfim, o Natal é a festa universal porque é o acontecimento total.

  1. O Evangelho evoca a geração do Filho de Deus desde toda a eternidade. E, como refere o Prefácio II da Missa de Natal, «o que foi gerado desde toda a eternidade começou a existir no tempo». O que foi gerado no seio do Pai veio até nós pelo seio de Maria. E foi assim que, como já notavam os escritores cristãos mais antigos, «Um da Trindade Se fez Um de nós». O amor de Deus, o amor que é Deus, não cabe em Deus e explode na criação. O «big bang» terá sido realidade e é seguramente sinal: sinal de um amor que explode permanentemente no mundo.

 

B. Deus, que está no alto, visita-nos cá em baixo

 

3. É por tudo isto que este é o dia tão esperado. Este é o dia por nós tão esperado porque, nele, celebramos a vinda ao mundo do Inesperado. Deus não só vem ao encontro do homem, como Ele próprio Se faz homem. E não somente Se faz homem como Se faz homem pobre, homem simples, homem frágil. O sinal de Deus não é a opulência nem a ostentação. O sinal de Deus — dizem os enviados do Céu — é um Menino, «envolto em panos e deitado numa manjedoura»(Lc 2, 12).

Guilherme de Saint-Thierry dá uma explicação muito luminosa para tal opção: «Deus viu que a Sua grandeza suscitava no homem resistência. Então, Deus escolheu um caminho novo. Tornou-Se um Menino. Tornou-Se dependente e frágil, necessitado do nosso amor. Agora — diz-nos aquele Deus que Se fez Menino — já não podeis ter medo de Mim, agora podeis apenas amar-Me».

 

  1. Deus, que habita no alto, visita-nos cá em baixo. Aparece não como rei poderoso, mas como criança indefesa. Deste modo, se quisermos encontrar Deus, é para baixo que devemos olhar. Deus está no alto (cf. Lc 2, 13), mas quer ser encontrado em baixo. É a partir de baixo que Deus nos olha. Deus não olha para nós, sobranceiramente, de cima para baixo. Deus olha para nós — divinamente — de baixo para cima. E é lá em baixo que continua à nossa espera: lá, nas profundidades da existência, onde a pobreza abunda, onde a injustiça avança, onde a solidão e o abandono não param de crescer.

Por isso, é urgente fazer o bem, também hoje. Por isso, é fundamental ser bom, sobretudo hoje. De resto e como apelava António Gedeão, «hoje é dia de ser bom». Acontece que este hoje é um dia sem ocaso, pelo que fazer o bem e ser bom hão-de constituir uma prioridade para sempre.

 

C. Uma explosão de divindade, uma lição de humanidade

 

5. Este é o dia que não tem fim. É o dia que jamais anoitece e em que até o frio nos aquece. É o dia em que os céus se abriram, em que os anjos saíram e melodias se ouviram. Não é o simples dia que sucede à noite. É o dia que rebenta com as correntes que a escuridão armou durante a noite. Este é o dia que começou ainda de noite. Compreende-se, pois, que este seja o dia que começamos a celebrar ainda de noite. Este é o dia que sentimos despontar quando ainda era noite. Este é o dia destinado a iluminar todas as nossas noites. Este é — numa palavra — o dia.

Eis a lição do presépio. O silêncio de Deus, que falou em Belém, continua a clamar nos pobres deste mundo, nos injustiçados desta vida. Quem não os ouve a eles, como pode dizer que O escuta a Ele? Aquele Menino é tão divino que até quis ser humano. Aquele Menino é tão humano que só pode ser divino. O Deus que está naquele Menino humaniza-Se e diviniza-nos. Ele não nos retira humanidade. Pelo contrário, a Sua divindade acrescenta-nos humanidade.

 

  1. É por isso que o Natal é uma explosão de divindade e, ao mesmo tempo, uma persistente lição de humanidade. É com Deus Menino que o mundo aprenderá a ser mundo e a humanidade reaprenderá a ser humana, fraterna. É com Deus Menino que o mundo se transformará numa luminosa Filadélfia, isto é, um povo de amigos, um povo de irmãos.

A tragédia do nosso tempo é a desumanidade entre os homens. E para esse pecado concorrem não somente os não crentes. Os crentes também não lhe são imunes. Muitas são as vezes em que não têm sido capazes de encontrar Deus no homem. Deus é muito mais humano que os homens.

 

D. Em Belém e na nossa vida também

 

7. Não nos cansemos de fixar o olhar no presépio. Aquele Menino é tão santo que só consegue provocar encanto. É tão cheio de mansidão que os nossos joelhos caem logo em adoração. O Seu rosto destila tanta pureza que até os antípodas aspiram o perfume da Sua beleza. Enfim, a Sua imagem desperta tal ternura que nem há palavras para descrever tamanha formosura.

O Menino está ali. Mas eu sinto-O sobretudo aqui. Vejo Jesus agora e não deixo de O rever lá fora. Ele está na rua, na minha história e também na sua. Está no sofredor, naquele que estende a mão e mendiga amor. Está no pobre, no que não tem pão. Está em quantos vão penando na solidão. O Seu tempo nunca é distante pois a Sua presença é constante. O Seu lugar não é só em Belém, é na nossa vida também. Ouçamos sempre a Sua voz. E nunca deixemos de O acolher em cada um de nós.

 

  1. Este é o autêntico «dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio e, livres, habitamos a substância do tempo». Neste dia, o tempo surpreende a eternidade dentro de si. Sophia tem mesmo razão: «A casa de Deus está assente no chão». É reconfortante beijar a imagem do Menino nestes dias, mas não é menos encantador abrigar o mesmo Menino, que nos visita em cada dia. Ele está em todos. Ele veio para todos. Rejeitar alguém é rejeitar o próprio Deus, presente nesse alguém. É que os outros também são Seus, também são d’Ele, também Lhe pertencem. E, no entanto, até nestes dias de Natal há tanto Jesus rejeitado, há tanto Jesus esquecido.

Razão tem João Coelho dos Santos ao colocar nos lábios de Jesus este lamento: «Senta-se a família/ À volta da mesa./ Não há sinal da cruz,/ Nem oração ou reza./ Tilintam copos e talheres./ Crianças, homens e mulheres/ Em eufórico ambiente./ “Lá fora tão frio, Cá dentro tão quente!”/ Algures esquecido,/ Ouve-se Jesus dorido:/ Então e Eu,/ Toda a gente Me esqueceu?”».

 

E. Hoje em dia, o grande Natal é a Eucaristia

 

9. De facto, às vezes — muitas vezes —, parece que esquecemos Jesus até na época em que assinalamos o nascimento de Jesus. Esquecemos Jesus quando esquecemos aqueles para quem Jesus nasceu. Esquecemos Jesus quando nos fechamos aos outros. Esquecemos Jesus quando nos encerramos nas torres (pretensamente) fortificadas do egoísmo e da indiferença. É triste ver que há muitos Natais longe do Natal. É penoso sentir que há muitos Natais aquecidos à lareira, mas arrefecidos no coração.

São muitos, sem dúvida, os encantos do Natal. Há presépios lindos. Há presépios deslumbrantes. Há presépios originais. Há presépios surpreendentes. E até há presépios ao vivo. Faltam, contudo, presépios vivos, que, a bem dizer, são os únicos presépios necessários. São esses que são construídos não nas ruas ou nas casas, mas no coração humano: no meu, no seu, no nosso, enfim, no coração de todos os homens.

 

  1. O Natal é saboroso quando temos a casa cheia e a mesa farta. O Natal é belo quando é sonhado. O Natal é lindo quando é cantado. O Natal é encantador quando é tingido de frio e regado de neve. Mas o Natal é melhor quando é vivido, partilhado, abraçado, chorado, humanizado, fraternizado, assumido e projectado no mundo inteiro. Em cada dia, há sempre motivos para respirar o perfume do Natal. Afinal, no Natal, o futuro nasceu e até justiça choveu. Só o impossível desapareceu no preciso instante em que aconteceu. Deus veio ao mundo. Acampou na terra para eliminar o ódio e acabar com a guerra. Trouxe, como única veste, a paz e é imensa a alegria que a todos nos traz. Veio em forma de criança. Haverá quem fique indiferente a tanta esperança? Naquele dia, colocaram-No numa manjedoura, perto do chão. Mas, desde então, a Sua morada passou a ser o nosso coração!

Não desliguemos a luz que Deus acende em nós neste dia. Deixemos brilhar a luz do Natal em cada dia. E nunca esqueçamos que, hoje em dia, o grande Natal é a Eucaristia. Um feliz Natal hoje. Um feliz Natal sempre. Para todos, um santo, luminoso e muito abençoado Natal!

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