É hoje frequente depararmos, em jornais e revistas, e até em grupos ou encontros mais alargados, com reflexões sobre o presente e o futuro da Igreja, normalmente a partir de pessoas que conhecem a sua missão e se interrogam sobre a sua forma de estar e de agir numa sociedade que parece ter perdido o norte.
De algum modo, não se trata tanto de reflectir sobre a natureza da Igreja, bem explicitada no Vaticano II, mas antes do diálogo indispensável que ela deve ter com o mundo actual, espaço do Reino, e dada a missão humanizadora da mensagem cristã.
A Igreja está consciente da secularização da sociedade, para ela um desafio e uma oportunidade, dado que se trata de uma aquisição legítima, a da conquista da autonomia das realidades profanas, em relação à premência histórica do poder religioso.
É verdade que ainda há gente no seio da comunidade cristã, que continua a olhar o mundo de soslaio, saudosa dos anátemas de tempos idos, sobretudo quando se vê perante o negativismo de certas medidas sociais e o alastrar de um laicismo corrosivo e destruidor. Porém, o caminho não será mais o das condenações, mas sim o diálogo construtivo, que pode passar, se for caso, por formas de denúncias fundamentadas.
A Igreja não é nem pode ser estranha a medidas políticas e económicas que não respeitam a pessoa humana e a sua dignidade natural e passam ao lado das exigências éticas e morais. Aqui se põe à Igreja o problema de como andar, ao mesmo tempo, o caminho do anúncio e da proposta, do diálogo e da denúncia, da defesa e da interpelação, do respeito e da frontalidade. Certamente que não é o de se intimidar ou de se refugiar no templo. Mas, também não é, por certo o da arrogância histórica ou da pretensão de usufruir só ela a posse total da razão e do saber.
O Povo de Deus não é a hierarquia. Mas sem a hierarquia, poder sagrado traduzido em serviço humilde e disponível a todos os membros do Povo de Deus, também não haverá Igreja que se possa reclamar de mãe e mestra, de serva e pobre, de fermento social, vivo e activo. A Igreja tem assim de se esforçar por não ser, dentro de si mesma e com os de fora, que hoje são muitos, um espaço de concorrência, de lutas e incompatibilidades, quaisquer que sejam as razões. Antes, se deve assumir-se aquilo que é, ou seja, um “oásis de liberdade”, aquela liberdade com a qual todo o homem foi liberto por Cristo.
Radica aqui a exigência do respeito mútuo, do reconhecimento e promoção dos dons de cada um, da libertação de preconceitos, da abertura às iniciativas que não partiram dela, mas são a favor da verdade e da justiça, da capacidade de colaborar com os que outrora foram vistos com indiferença, ou mesmo tidos por inimigos.
Um coração lavado como o de João XXIII, um humanismo evangélico sadio como de Paulo VI, um sorriso rápido, mas significativo e marcante, como o de João Paulo I, um zelo corajoso e sem fronteiras como o de João Paulo II, uma clarividência espantosa ante a história e o mundo da cultura como a de Bento XVI, são caminho aberto à Igreja, com presente e com futuro.
A renovação da Igreja, como instituição religiosa e a dos seus membros, não tem sido global e harmónica. Há sempre um peso que a liga ao passado e uma diversidade de oportunidades que não favorecem uma renovação imediata, nem uma conversão fácil da mentalidade, individual e colectiva. Torna-se necessário saber o que se é e se quer e orientar a caminhada, ainda que a passo e passo, sempre e em tudo nesse sentido.
As críticas à Igreja, por parte da sociedade, denunciam o valor que se lhe reconhece e o que dela se espera. A Igreja tem de saber conviver, positivamente, com as preocupações e com os gestos de esperança. Fazem parte da sua vida e da sua missão no mundo, o espaço necessário para que ela exprime a sua vida e deixe o rasto de Cristo na história.
António Marcelino, bispo emérito de Aveiro,
A propósito da polémica sobre a presença de símbolos religiosos nos espaços públicos, despoletada por um caso surgido em Itália e que mereceu um pronunciamento do tribunal europeu dos direitos do homem, em boa hora o programa "As Tardes da Júlia", da TVI organizou um pequeno debate sobre este tema, no dia 10 de Novembro, para o qual fui convidado a participar.
O que é que havia eu de dizer, e perante uma opinião pública, convencida da verdade universal constitucionalmente consagrada do princípio da laicidade do Estado? Pois foi precisamente questionar a constitucionalidade deste princípio. Que o princípio da laicidade do Estado seja defendido por alguns, trata-se de um direito do cidadão ou dos cidadãos que se associem, como eu tenho o direito de ter uma visão cristã do mundo e da sociedade, dentro da comunidade católica a que pertenço. Mas já não é legítimo exigir que o Estado e a sociedade sejam laicos, como se não houvesse lugar para os outros, para outras expressões, para outras visões do mundo!... É por conseguinte questionável, a partir de um princípio particular, - neste caso o da alegada laicidade do Estado - exercer pressão sobre o Estado e exigir, como é este o caso, a retirada dos símbolos religiosos, cristãos ou outros, das escolas, num processo que, a não ser contrariado, pode levar a exigir a retirada de todos os símbolos religiosos de todos os espaços públicos (pois espaços públicos não são apenas as escolas e os hospitais ou a prisões), o que representaria por absurdo exigir a total destruição do mundo… Um autêntico fim de mundo, um tsunami humano, cultural e civilizacional!...
Eu podia ir para a televisão fazer um choradinho!..., lamentar-me dos tempos modernos, que já não são como aqueles nos quais me criei, onde os espaços públicos (e os tempos) eram marcados pelo ritmo da liturgia cristã…, o toque dos sinos, às Trindades!... Não, decididamente não. O que fiz foi levantar a dúvida sobre a constitucionalidade do princípio da laicidade do Estado e dos espaços públicos. E como na altura não tinha tido tempo para investigar melhor a situação, baseei-me, para fundamentar a minha intuição, no que tenho ouvido de Mário Soares e de Jaime Gama, que falam não de um estado laico, mas sim de um Estado de direito democrático. Também pensava que, se, na última revisão constitucional, de 2005, foi retirada a afirmação da orientação para o socialismo, com certeza que não iria consagrar outro princípio – o da laicidade do Estado -, que condicionaria o sentido da lei fundamental. E por isso defendi que, a estar certa a minha intuição, é inconstitucional o que se faça ou defenda em nome do princípio da laicidade, que é certamente muito respeitável para alguns, mas não seguramente obrigatório para todos.
E a minha intuição era verdadeira. Fui ler a Constituição da República Portuguesa que diz, no seu art. 2: "A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa". E mais adiante, no art. 41 § 4 consagra o princípio da liberdade religiosa e da separação entre o Estado e as Igrejas: "As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto".
Em todo o texto da Constituição não se encontra nenhuma referência nem a "laico" nem a "laicidade". Fui consultar outras Constituições. A mesma referência ao "Estado de Direito democrático" encontra-se na Constituição do Brasil e também na Constituição Espanhola. A Espanha, que não é uma República, mas uma monarquia constitucional, rege-se pelo mesmo princípio de um Estado de direito democrático. E o mesmo com certeza se encontrará nas outras constituições europeias e no Tratado de Lisboa: vivemos na Europa civilizada de Estados de direito democrático.
Portanto, o princípio da laicidade do Estado não está consagrado na Constituição, e por isso não se pode na sua base defender que os espaços públicos em Portugal são laicos; os espaços públicos em Portugal são espaços de convivência democrática de um Estado de direito, abertos e pertença de todos.
Por isso, toda a polémica em torno dos crucifixos nas escolas ou nos hospitais ou em todos os espaços públicos, a partir do princípio da laicidade do Estado não tem suporte constitucional. A Concordata do Estado Português com a Santa Sé, que regula as relações do Estado com a Igreja Católica, e a lei da liberdade religiosa, que regula as relações do Estado Português com as religiões e as confissões cristãs não católicas são expressão de um Estado de direito democrático, e não, como alguns pretendem, a expressão da laicidade do Estado.
Quanto às escolas e aos hospitais, eu defendo que não só os crucifixos não devem ser retirados como devem ser repostos, de onde foram retirados, e agora acompanhados de outros símbolos religiosos (e mesmo laicos), e que possam coexistir em sã convivência no mesmo espaço público que é de todos.
O Natal aproxima-se: ele é essencialmente cristão. Que seja um tempo em que os nossos espaços públicos se iluminem, mas que este ano a luz que brilhou uma noite em Belém resplandeça sobre as nossas cidades e os nossos campos, e possa ouvir-se, nas cidades e nas serras, nas cidades e nas aldeias a voz dos anjos que a todos os homens de boa vontade anunciaram, nos campos de Belém, aos pastores que tinha nascido num presépio um Menino, que a todos trazia a paz: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade, aos homens que Ele ama!...
José Jacinto Ferreira de Farias, scj
ECCLESIA
in www.henricartoon.blogs.sapo.pt
A manhã estava mesmo fria este Domingo que passou. Antecipadamente, desejava-se celebrar o dia de Santa Cecília, padroeira dos músicos e dos fabricantes de instrumentos musicais. O seu dia próprio no Calendário litúrgico é a 22 de Novembro e para não coincidir com a Solenidade de Cristo Rei e Senhor do Universo servia bem o XXXIII Domingo do Tempo Comum.
As três Filarmónicas e muitos Grupos Folclóricos, vestidos a rigor, desfilaram pelas principais ruas da Vila da Madalena rumo à Igreja Matriz.
Ao chegar deparei com a Igreja à cunha. Vestida de festa. Arranjos florais de muito bom gosto e alusivos ao momento, fruto de dádivas de muitos paroquianos que facilitaram a vida às Zeladoras da Igreja. Todos os grupos (Filarmónicas, Grupos Folclóricos, Tuna da Candelária, Grupo Coral alargado, o Coro Misto da Madalena) nos seus lugares previamente destinados. O Grupo Coral formado por mais de setenta elementos vindos das paróquias da Zona Pastoral da Madalena: Bandeiras, Madalena, Criação Velha, Monte, Candelária, Campo Raso, São Mateus, São Caetano e Terra do Pão. Todos felizes. Atentos. Intervindo sem mais delongas. Com arte e com alma. O conceito de Beleza litúrgica estava ali aplicado com toda a naturalidade. Um mimo, um primor.
A preparação do grande coral começou cedo, tal era o entusiasmo do organista Fábio Silveira do Curato do Monte e do director do coro da paróquia da Madalena. As suas paróquias apostaram neles e investiram financeiramente na sua ida ao Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica realizado em Fátima em fins de Julho último, juntamente com mais uma dezena de padres e leigos. Não ficou tudo na mesma, como o «velho tonto» das Lajes do Pico, mostrou fazer crer ingloriamente. Não foi tempo, nem energias, nem dinheiro perdido, como bem referiu o Presidente da Celebração na homilia. Os resultados estão à vista. Que beleza de cânticos em latim e em vernáculo dentro da mais correcta definição de música litúrgica!...
A intenção da Eucaristia foi clara: o rápido restabelecimento do Pároco da Madalena e Ouvidor, Padre Marco Martinho, do «calvário» a que foi sujeito em melindrosa intervenção cirúrgica à coluna vertebral. Forças anímicas elevadas, são mais de meio caminho andado para a recuperação total...
Mas quando em período pós-comunhão intervém a Tuna da Candelária para nos brindar com o "Coro dos Escravos Hebreus" de Giuseppe Verdi foi a apoteose de emoções sentidas no íntimo de todos...
A Câmara Municipal da Madalena, atenta a estas manifestações de cultura religiosa, brindou as centenas de participantes com um almoço típico, confeccionado pela Filarmónica das Sete Cidades, como vem sendo hábito nos últimos anos.
Para o ano Santa Cecília será novamente venerada. A preceito. Sempre com redobrado entusiasmo e fervor. Uma Eucaristia de hora e meia. Os mais novos nem se aperceberam, assim me disseram.
Estes acontecimentos eclesiais marcam pelos frutos que se colhem. Há ritmos e diferentes energias. O contágio de emoções levará os grupos mais humildes a voos mais altos.
A Ouvidoria do Pico e a do Faial têm em comum esboços para futuros trabalhos. Sinal dos tempos: Pico e Faial juntos na animação litúrgica. Racionalizar meios humanos para melhores resultados. Muito se tem trabalhado nos bastidores. Tudo virá a seu tempo. Para os mais histéricos com a pressa e a falta de respostas a posicionamentos estúpidos e, esses sim, mafiosos, o tempo é de desespero.
Falta a tal «limpeza» para não vivermos mais na asfixia de meios pastorais e financeiros que, até agora, só tem enchido de gorjetas alguns privilegiados e amigos de conveniência duvidosa e de resultados que só enchem de vento alguns peitos de soberba, orgulho, vaidade e culto da personalidade. « Vocês sabem muito bem do que é que estou a falar!»
Nunca se viu tanta desfaçatez e atropelos às normas canónicas na colocação do novo Pároco de São Mateus do Pico. Passa fora. Até o Jornal Ilha Maior com a famosa entrevista, andou no Santuário de Fátima em plena Reunião dos Bispos Portugueses... É o "torresmo da agonia" a dar os últimos safanões de desespero... Mas quem não nasceu no Pico mas tem sangue total picaroto não se deixa levar em tentativas desesperadas de remedeio. Porque antes quebrar que torcer.
Que desespero vai por aí! E mentiras mal alinhavadas sobre os restantes padres do Pico, por parte do tal desgastado senhor, armado sempre e sempre, em vítima.
Agora, meu rico senhor, isto ou vai ou racha! E de nada valem chantagens que não comovem sequer as palhinhas do Menino Jesus, sobre espólios duvidosos e etc..
Passa fora. E os mafiosos somos nós. Ainda bem que o Bispo MANDA. Já tinha saudades.
Por ocasião da tomada de posse dos membros do recente governo alemão, os ministros ‘ousaram’ dizer: ‘assim Deus me ajude’, rematando, deste modo o juramento constitucional e as implicações futuras das suas funções de serviço ao povo.
Entretanto, por estes dias, surgiu uma sentença do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, segundo a qual, a presença dos crucifixos nas escolas públicas – em Itália – foi considerada uma violação da liberdade religiosa dos alunos. Esta decisão ‘europeia’ teve por base uma queixa de uma cidadã italiana de origem finlandesa, que, em 2002, havia pedido a uma escola estatal na região de Pádua, na qual estudavam seus dois filhos, que tirasse os crucifixos das salas. A direcção da escola negou-se a isso, por considerar que o crucifixo fazia parte do património cultural italiano e, posteriormente, os tribunais italianos deram razão a este argumento.
Por seu turno, o porta-voz do Vaticano lamentou esta decisão do tribunal europeu, na medida em que “um tribunal europeu intervenha com tanto peso numa matéria tão profundamente ligada à identidade histórica, cultural e espiritual do povo italiano... Parece que não se quer reconhecer o papel do cristianismo na formação da identidade europeia, que, no entanto, foi e continua sendo essencial”.
* Nesta Europa, que se pretende inclusiva na dimensão económica, vão-se dando passos de rejeição ostensiva do cristianismo – pelo menos segundo algumas mentalidades, não se sabe se minoritárias ou mais expressivas! – nalguns países e atingindo sinais essenciais da identidade cristã, como é o crucifixo.
Teremos de enfrentar, em breve, alguma cruzada anti-cristã? Se fossem atingidos os muçulmanos teriam ficado tão quietos e ordeiros? Até onde irá a cumplicidade agnóstica e ateia no combate ao cristianismo, na sociedade ocidental e na Europa em particular?
* Nesta Europa, que foi (e é) espaço de cultura pela e na tolerância, temos estado a sentir que cresce um abespinhar cada vez mais audível contra tudo o que cheire a cristianismo, actual, passado ou futuro.
Até onde irá a força de resistência dos nossos cristãos contra campanhas tão bem orquestradas e tenazmente desenvolvidas? Teremos capacidade de unir esforços contra tantos ataques e insinuações ou deixaremos infiltrarem-se certos oportunistas disfarçados de cordeiros? Estaremos certos dos nossos valores essenciais ou iremos claudicar diante de benesses intencionais?
* Nesta Europa, que já foi luzeiro de heróis e de santos, vemos serem promovidas figuras da mais abjecta condição moral e intelectual, na medida em que sejam membros de organizações subterrâneas transnacionais (v.g. maçonaria, grupos gay ou mesmo de interesses económicos satânicos) e bem colocados nas estruturas de governo ou até de autarquias.
Por que é que atacam os cristãos e os seus valores: será porque incomodam ou porque têm real valor? Por que é que se faz apanágio dos ataques e raramente se difunde a qualidade... dos cristãos? Até onde irá a nossa consciência de defesa – mesmo do ‘Opus Dei’ e de outras organizações afins de âmbito internacional católico – em vez de não estarmos a desconfiar de quem sempre e sistematicamente os vai denegrindo?
Tal como no início do cristianismo poderemos dizer: ‘sangue de mártires é semente de cristãos’!
A. Sílvio Couto
ECCLESIA
Retirado do Sapo
" Há vinte e cinco anos que afirmo que as catedrais do séxulo XXI serão mediáticas. Hoje estas catedrais estão a abrir-se na internet".
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